 A LTIMA COLINA
Rgine Deforges
A BICICLETA AZUL - 6

A Pierre

A maior parte dos assuntos tratados no texto do romance por Vincent
Auriol, Claude Barres, general de Lattre, Jean Leroy, Pierre Mends
France, Jean Sainteny, Albert Sarraut, Pham Van Dong, general Salan,
H Chin Minh procedem de trabalhos, correspondncias ou entrevistas
consagradas por eles  Indochina.

Captulo 1

O dia ia nascer em Hani.
Trs semanas antes La e Franois tinham se reencontrado, e estavam tremendo de febre, cada um em seu
quarto. A ferida de Franois estava infeccionada. Um mdico militar enviado pelo alto- comissrio havia
receitado penicilina. O remdio comeava a fazer efeito; uma tarde, a febre diminuiu e o ferido, pela primeira vez
desde muito tempo, sentiu a mente aclarar. Ele conseguiu colocar em ordem as imagens confusas enviadas
pelo crebro dolorido.
- La! - gritou ele levantando-se.
Uma dor sbita lanou-o novamente na cama. Uma silhueta
feminina se inclinou enquanto uma mo suave pousava na testa.
- Acalme-se, ela est a, est tudo certo.
- Lien?...  voc?... Eu estou em Hani?... E Hai?... Voc sabe o que aconteceu a Phuong?
- Sim, eu sei!... Fique calado.
- Quem lhe contou?
- Um enviado do presidente H Chin Minh. Tio H, que no esqueceu a amizade que dedicava  minha famlia.
E, alm disso, sou irm de Hai.
- Voc tem notcias dele?
- Ele jurou matar voc.
- Mas no fui eu!...
- Talvez, mas  por sua culpa que Trac e Nhi esto rfos.
- Eu no desejava essa morte. Vou procurar Hai... Eu lhe explicarei...
- No adianta. Sua cabea foi posta a prmio pelos vietcongues.
- Para mim tanto faz... Vou v-lo. Diga-me onde ele est.  
- Ele  que o procurar.  
Exausto, ele perdeu a conscincia novamente.  
- Lien - murmurou ele reabrindo os olhos.  
- Fique calado, voc ainda no est nada bem.  
- Ele sabe que estou em sua casa?  
- Contei a ele. Tambm avisei que aqui voc est sob minha proteo e que, se alguma coisa de mal 
lhe acontecer enquanto estiver aqui, eu me matarei. Recupere-se, no lhe acontecer nada.  
Franois pegou a mo de Lien e a levou aos lbios.  
- Onde est La?  
- No quarto ao lado, esteve muito doente. Delirou, falou de Gestapo, de massacres, de Sarah. Ela 
chamou seu filho, sua me e voc. Oh, como chamou por voc!  
- Est melhor?  
- Muito melhor. Kien tomou conta dela.  
- Kien?... O que ele faz aqui?  
- Foi ele que os encontrou na ponte Paul-Doumer e os trouxe para c.  
- Eu quero v-la - disse ele, levantando-se.  
Mas sua fraqueza era tal, que caiu novamente.  
- Espere, no se aflija, vou lhe ajudar. Apie-se em mim.  
Com o dorso nu molhado de suor e coberto por um grande curativo, ele avanou, sustentado pela 
jovem mulher, to frgil na tnica clara.  
O quarto no qual La repousava estava na penumbra; um grande ventilador mantinha o ambiente 
relativamente fresco. Pouco a pouco os olhos se habituaram  meia-luz. Sentado perto 
da cama, numa poltrona, Kien cochilava. Franois foi tocado por sua juventude e beleza. Por seu 
lado, adormecida, La lhe parecia ainda mais bela que em sua lembrana. Vista atravs da renda de 
fil do mosquiteiro, largada no grande leito branco, parecia uma criana. Com os braos jogados de 
um lado e de outro do rosto e cabelos esparsos no travesseiro, como parecia vulnervel!... As vezes, 
o franzir de uma sobrancelha, um tremor nos lbios, a crispao de uma das mos traam suas 
angstias. Perturbado, inclinou-se sobre essa mulher, que ele amava, que havia jurado tratar com 
carinho, proteger, e que sara pelas estradas procurando-o, abandonando o filho deles. Ele foi 
invadido por um sentimento de vergonha, de clera e de tristeza.  
- La! - chamou.  
O engatilhar de uma arma o fez virar a cabea. Kien acordara e segurava uma pistola apontada 
para ele. Tavernier deu um sorriso amarelo.  
- Larga isso, garoto, voc pode machucar algum.  
Diante desse tom srio, Kien empalideceu.  
- No toque nela!  
Apesar da fraqueza, Franois deu um salto e obrigou Kien a se levantar.  
-  minha mulher, voc se esqueceu?  
Lien se interps entre ambos:  
- Kien abaixe essa arma, e voc, Franois, sente-se! No discutam diante dela.  
Alguns instantes atrs, La abrira os olhos. Parecia-lhe ouvir uma voz distante. Como estava longe 
essa voz! Ela deu um suspiro de criana magoada e cerrou novamente as plpebras. A voz se 
aproximara, estava l...  
- Franois!  
A intensidade do grito que brotou desse corpo frgil e sofredor fez os trs saltarem ao mesmo 
tempo. Empurrando os lenis, La levantou-se, nua. Os cabelos estavam embaraados, e gotas de 
suor escorriam entre os seios. Assim, erguida, ela estava esplndida e terrvel.  
- Franois! - gemeu ela. 
Enfim os braos se fecharam sobre ela, os lbios se uniram aos dela, as mos lhe seguraram os quadris. Hlitos 
confundidos, caram na cama. Kien avanou sobre o casal enlaado. Lien o segurou:  
- Deixe-os.  
Ela conseguiu empurr-lo para fora do quarto. L, perdendo as foras, escorregou nos ladrilhos diante do altar 
dos ancestrais. Kien a levantou e levou-a para o quarto. Ele a estendeu e se estirou junto dela, invadido por 
uma aflio que no sentira desde a morte do av, e chorou como uma criana, com grandes soluos. As 
lgrimas na face de Lien, a reanimaram.  
- Meu pobre menino - disse ela, tomando-o nos braos.  
A noite j cara havia muito tempo quando La e Franois voltaram do coma de felicidade no qual os haviam 
lanado os embates amorosos. Famintos um do outro, deram-se com uma violncia e um impudor totais. Seus 
gritos e estertores haviam ressoado at onde ficavam os empregados. Os amantes no se cansavam de 
contemplar os corpos machucados, de toc-los, de apalp-los, de mord-los e de lamb-los. Depois de cada 
orgasmo, apesar da exausto de ambos, os sexos se procuravam novamente, uniam- se num rudo de suco, e 
eles submergiam sob novas ondas de gozo. As feridas de Franois estavam novamente abertas, e, ao 
amanhecer, os amantes estavam cobertos de esperma e sangue. Erguida no leito manchado, com as pernas 
afastadas, La contemplava seu homem com uma ferocidade de me-tigre.  
- Jamais nos separaremos novamente, juro!  
Ela se enrolou num dos lenis manchados e saiu do quarto. Gulosamente, aspirou o ar fresco da noite. Em 
cada recanto do corpo ela sentia uma fadiga maravilhosa; os rins cansados lhe causavam uma dor deliciosa; 
ela se espreguiou, bela e obscena. Agora que se haviam reencontrado, nada poderia lhes acontecer, no se 
separariam nunca mais.  
Ela estava sentada no pequeno banco, em frente ao tanque, onde Lien gostava de ficar para dar comida aos 
peixes vermelhos. 
Houve um rudo de galhos. La voltou-se. Perto do pequeno bosque, a brasa de um cigarro.  
- Quem est a? - Ningum respondeu. - Quem est a?  
- perguntou ela novamente, levantando-se. Uma silhueta sombria surgiu.  
-  voc, Kien? Voc me assustou. Tem um cigarro?  
Ele estendeu o mao. A luz da chama do isqueiro, ela notou o rosto perturbado. Ela baixou os olhos diante 
desse sofrimento cuja causa conhecia. Mas o reencontro com seu amor, a felicidade dos sentidos a tornavam 
indulgente. Aproximou-se de Kien e o beijou com ternura.  
- Eu lhe devo tanto, Kien. Voc no sabe quanto lhe sou agradecida e quanto o amo.  
O jovem estremeceu.  
- O que voc disse?  
- Que o amo...  
Ele a puxou para si.  
- Diga isso novamente!  
- Deixe-me, voc estraga tudo. Sim, eu o amo... como a um irmo, um amigo.  
- No  dessa maneira que quero ser amado por voc, mas como voc o amou esta noite: como uma louca, 
como uma mulher paga para isso... Quero ouvi-la gemer debaixo de mim, e me dizer: "Mais... mais..."  
- Cale-se!  
- No, no me calarei! Eu a amo, um dia voc ser minha, e voc tambm me amar...  
- Nunca!  
- No diga isso. Eu sei... e voc tambm!  
- No! - gritou La, e todavia, faltou pouco, no junco, para que se tornasse sua amante...  
Em seu passo submisso e silencioso, Kien foi para casa. La, entristecida, tornou a sentar-se no banco. Do 
outro lado do tanque, uma forma se mexeu.  
- Giau? - perguntou ela. O mendigo deslizou ao longo da beira do tanque. - O que voc faz aqui? 
- Estou de guarda.  
- Mas no h nenhum perigo para mim.  
- No acredite nisso. Voc nunca correu tanto perigo.  preciso que voc e seu marido saiam de 
Hani o mais rpido possvel. O vietcongue mandou prender vocs.  
- Por que diz isso? Como sabe disso?  
- J lhe expliquei que ningum liga para pessoas como eu, falam na minha frente como se eu no 
existisse. Ouvi isso na casa do comandante vietcongue de Hani.  
- Voc conta muitas histrias! Os vietcongues no esto em Hani.  
- Voc est enganada, eles esto por toda a parte. Esperam sua hora com pacincia, pois sabem que 
ela chegar.  
- Assim que Franois se encontrar com o alto-comissrio, partiremos.  
- Seria melhor vocs partirem antes, pois, se por acaso ele escapar dos vietcongues, no escapar de 
Kien uma segunda vez.  
- O que  que quer dizer com isso?  
- Quero dizer que desta vez Kien no errar o golpe. Foi ele quem apunhalou seu marido na barca de 
Ninh.  
- No acredito em voc! - gritou La.  
Ao longe, um cachorro latia.  
- Por que gritou, se voc no acredita em mim?  
La deixou-se cair no banco com a cabea entre as mos.  
- Mas por que, por qu?  
- Voc sabe muito bem: porque a ama e a deseja. Ele lhe disse ainda agora, e no foi a primeira vez.  
Abatida, La olhava para a frente; todas as dores do corpo voltaram. Giau, como um co deitado a 
seus ps, olhava-a de esguelha com um ar desamparado. Ela se ergueu e falou com voz 
involuntariamente dura:  
- Conte-me tudo que ouvir.  
- No se aflija, Giau est vigiando, mas siga meu conselho:  
parta.  
- Tenho de refletir. Tem cigarros? 
Com a mo estropiada, ele procurou nos farrapos e tirou um mao de Lucky Strike, e depois uma 
caixa de fsforos.  
- Tome, fique.  
- Obrigado, Giau. Agora, deixe-me.  
O mendigo desapareceu sem fazer barulho.  
No era o frescor da noite que fazia La ter arrepios, mas um medo que lhe dava nuseas. Acendeu 
um cigarro tentando pensar de forma coerente. Devia acreditar no que Giau dissera sobre Kien?... 
"Sim", respondia uma voz fraca dentro dela. "No, no  possvel! Franois e ele se conhecem h 
muito tempo; so amigos, ainda que por vezes discordassem. Giau est enganado..." "No, ele no 
est enganado!", voltava a voz fraca... "Mas, se  verdade, h o risco de Kien faz-lo 
novamente!..."  
La se levantou, andou de um lado para o outro e acendeu um novo cigarro. Sentindo vertigens, 
sentou-se novamente no banco. Giau tinha razo: era preciso deixar o mais rpido possvel esse pas 
de dios e de sofrimentos.  
Quanto tempo ela ficou acabrunhada, largada no banco?... O dia estava nascendo quando voltou 
para o interior da casa e se dirigiu ao quarto. No cmodo sempre mergulhado na penumbra, ouvia- 
se a respirao dele, que dormia. Pairava no ar um odor acre que a perturbava. Ela se aconchegou 
a Franois, cujo corao ela via bater sob um torso descarnado. Na vspera, na felicidade do 
reencontro, ela no reparara na magreza nem no tamanho dos ferimentos. Seus lbios percorreram 
o pobre corpo, que tremeu com as carcias. O sexo se balanou, erguido contra seu ventre. La 
ergueu-se sobre ele, e deixou-se penetrar gemendo. Lentamente, fez amor com ele.  
Ele abriu os olhos; ela foi trespassada por seu olhar de felicidade. Ele pegou os seios, mas logo os 
deixou; acreditara ter visto novamente aqueles, martirizados, de Hong. A expresso de dor e de nojo 
que invadiu seu rosto no escapou a La.  
- O que voc tem, meu amor?  
- Nada, nada, eu lhe explicarei - disse ele, apertando-a contra si. 
Eles s despertaram  noite, quando um empregado veio avisar que um oficial francs queria ver o senhor 
Tavernier.  
- Pea-lhe que tenha pacincia. Procure minhas roupas limpas...  
- Ei-las - disse Lien, entrando com os olhos abaixados, trazendo um traje de algodo branco cuidadosamente 
passado.  
- Preparei-lhe um banho.  
- Obrigado, irmzinha.  
Ele se levantou sem esconder a nudez e deslizou para a gua morna, que rapidamente se tingiu de vermelho. 
Ajoelhada, com a ajuda de uma esponja grossa, Lien o lavou, atenta para no tocar nas feridas.  
Sado do banho, ele envolveu o alto corpo magro num roupo espesso.  
- Voc quer que lhe faa a barba? - perguntou Lien.  
- No, vou fazer eu mesmo. Obrigado por tudo, irmzinha.  
- No sou sua irm! - respondeu ela com raiva. - Nunca mais me chame assim.  
- Perdoe-me - disse ele, virando-se.  
Uma vez de barba feita, Franois contemplou-se longamente no espelho. A brancura das faces e do queixo 
contrastava com o restante do rosto, escurecido pelo sol e pelas intempries. Como havia mudado! Como 
estava envelhecido!  
Lien acabara de prender o curativo que lhe cingia o tronco quando La entrou, nua e suja de dar medo. As 
duas mulheres se encararam com desagrado. Perto de Lien, La parecia uma selvagem prestes a saltar sobre a 
presa.  
- Um oficial francs me espera - disse Franois. - Tome um banho e se vista. Eu a encontro logo.  
Uma empregada apressou-se em limpar a banheira. La no queria isso; era nessa gua que queria se banhar 
para se embeber do sangue e dos fluidos do marido. Contudo, ela experimentou um bem-estar real ao se 
estender no banho perfumado. Logo que fechou os olhos, o rosto de Kien lhe apareceu: ela pensou estar a 
bordo do junco. Reabriu os olhos com um grito de raiva e, por um breve segundo, pareceu-lhe ver o rosto do 
jovem mestio no espelho. 
- Estou ficando louca - disse ela esfregando a cabea com fora.  
A empregada deixara um vestido numa cadeira, esquecendo a roupa de baixo. A fazenda fresca deslizou pela 
pele mida. Penteou os cabelos molhados e os torceu num coque. Com os ps nus, saiu. A noite estava 
agradvel. Tudo parecia calmo. Logo, Franois e ela partiriam para a Frana, para rever o pequeno Adrien. Um 
ano! Havia um ano que o filho deles nascera... Ecos de vozes chegaram at ela, trazendo-a de volta  realidade.  
Quando ela entrou na biblioteca, Franois, plido e agitado, andava de um lado para o outro.  
-  uma ordem, senhor Tavernier, o senhor tem de esperar o retorno do alto-comissrio.  
- No tenho nada para dizer a ele!  
- Isso no  uma opinio sua nem minha, se o senhor permite.  
- Quero que a sua opinio se dane!  
- Senhor...  
- Franois, o que est acontecendo?  
- Nada, querida,  que desejam nos reter em Hani.  
- Oh, no!  
- Veja, no sou o nico a querer sair deste pas de merda.  
- Senhor Tavernier... o senhor no me apresenta?  
- Perdoe-me, perdi o hbito dessas mundanidades. Querida, apresento-lhe o capito Lamarck. Capito, 
apresento-lhe a senhora Tavernier, minha mulher.  
- Boa noite, senhora... A senhora  encantadora, muito encantadora.  
- Boa noite, capito. O senhor  muito amvel. Ento, quer que permaneamos em Hani? -  
- Eu mesmo no quero nada, senhora.  o alto-comissrio e o general Alessandri, comandante das foras 
francesas do Norte da Indochina, que tm algumas pequenas perguntas a lhes fazer.  
- A mim tambm?  
- A senhora tambm, madame. A senhora circulou pelo 
pas, deve ter visto uma poro de coisas, e talvez pudesse nos dar informaes sobre a agresso que vitimou 
seu marido.  
La cambaleou e ficou muito plida.  
- O que a senhora tem? No se sente bem?  
- Deixe-a, o senhor est vendo que ela no agenta mais. Lien! - chamou Franois. Ajovem apareceu quase 
imediatamente. - Leve La, por favor.  
J no quarto, La deixou-se cair na cama com a cabea entre as mos.  
- No  hora para chorar, voc esteve a ponto de nos trair.  
La levantou a cabea com ar aborrecido.  
- Tra-los? O que quer dizer?  
- Voc sabe muito bem. No acha que j houve mortes suficientes nesta famlia? Quer que, ainda por cima, 
Kien seja preso?  
- Por que seria preso?  
- Voc no ignora a razo.  
- No, isso no  verdade!  
- Sim. Ele a ama!... Para t-la, ele  capaz de tudo.  
- Como voc, sem dvida, para ter o homem que ama.  
- Se houvesse a menor chance de ele me amar, sim!  
Como era bela dizendo isso! Sim, ela mataria sem hesitar se Franois... Mas Franois amava La, e esse amor a 
protegia.  
- No direi nada sobre Kien. Mas voc pode me jurar...?  
- Sim - interrompeu Lien. - Ele sabe que eu me mataria se... Franois tambm no pode saber...  
La concordou, com um ar cansado.  
- Tenho tanto medo, Lien, tenho tanto medo!  
Emocionada mesmo sem querer, a jovem mulher aproximou-se de La e acariciou-lhe a cabea inclinada. Esse 
gesto!... Sua me tambm lhe fazia freqentemente. La se levantou e jogou-se chorando nos braos de Lien. 
Quando Franois entrou, ambas soluavam, abraadas. Ele fechou a porta devagar e retrocedeu.  
- Ento? - perguntou-lhe o capito.  
- Esto chorando. 
- Reconheo que o momento foi mal escolhido. No sei se o senhor  como eu, mas no suporto as lgrimas de 
uma mulher. Duas, ento,  demais! Vou deixar um de meus homens aqui, elas falaro com ele quando tiverem 
terminado. Venha!  
- No podemos esperar a volta do alto-comissrio?  
- No, isso nos far ganhar algum tempo.  
Foi no dia seguinte que Franois encontrou o alto-comissrio, Lon Pignon.  
- Deixe-nos ss - disse ele ao ordenana. - Sente-se, senhor Tavernier.  
Durante alguns minutos, o alto-comissrio leu o dossi feito pelo servio do capito Lamarck, tomando 
algumas notas. Depois largou o lpis, passou a mo na testa larga e calva, e disse com ar pensativo:  
- Certamente, tudo o que se encontra nesse relatrio  rigorosamente verdadeiro?  
- Sim, senhor alto-comissrio.  
- O senhor est zombando de mim?  
- No, senhor alto-comissrio.  
- Quer me fazer acreditar que conversou longamente com H Chi Mii e Pham Van Dong, que circulou 
livremente no pas deles, que os vietcongues o libertaram, assim, pelos seus belos olhos? O senhor me toma 
por algum idiota?  
- No, senhor alto-comissrio.  
- O senhor sustenta que o presidente o encarregou de encontrar H Chin Minh?  
- Sim, senhor alto-comissrio.  
- E que realmente o encontrou?  
- Sim, senhor alto-comissrio.  
- Ento, deve poder me dizer onde?  
- No, senhor alto-comissrio.  
- Eu no acredito no senhor. Diz conhecer a regio...  
- Sem dvida, senhor alto-comissrio, mas eu estava de olhos vendados at chegar ao local do encontro, e, de 
qualquer maneira, eles o abandonaram depois da minha partida. 
- Como sabe disso?  
- Eles me contaram, senhor alto-comissrio, e isso era o que mandava a prudncia.  
- Sim, sem dvida... E estavam muito armados?  
- No, senhor alto-comissrio. Como lhe declarei, s dispunham de alguns fuzis ruins e de algumas 
metralhadoras. Mas no acho que isso v durar muito tempo.  
- O que quer dizer?  
- Que a China vai lhes fornecer armas. A vitria dos comunistas chineses vai obrigar o alto-comando a tomar 
novas medidas. Fortemente armados, os vietcongues sero temveis. Ainda mais que combatem em seu 
territrio e pela sua independncia.  
- Independncia, independncia.., O senhor s fala nisso, como Leclerc e Sainteny!  
- Foi a pedido deles que vim aqui na primeira vez, senhor alto-comissrio, e sua anlise da situao era a certa. 
O exrcito est tendo todo dia essa triste experincia.  
- No gosto dessas afirmaes derrotistas, senhor Tavernier.  
- Eu preferia fazer outras, senhor alto-comissrio.  
Lon Pignon consultou mais uma vez o dossi aberto. Ele parecia inquieto, indeciso.  
- O que vou fazer com o senhor? - murmurou, como falando para si mesmo.  
- Mande-me de volta para a Frana, senhor alto-comissrio.  
- Se fosse s por mim, eu o colocaria no primeiro avio, mas o alto-comando deseja ouvi-lo.  
- E, ento, o que estamos esperando? Vamos.  
- Sim, vamos.  
O encontro entre o general Blaizot, comandante do exrcito na Indochina, e Franois Tavernier foi 
tempestuoso. Blaizot no gostava dos civis, principalmente dos que se diziam credenciados secretamente pelo 
presidente da Repblica com a bno do general Leclerc... 
-  fcil fazer os mortos falarem! - resmungou ele.  
Franois cerrou os punhos, com vontade de socar o rosto daquele comandante de exrcito confortavelmente 
plantado atrs de sua mesa.  
- Senhor Tavernier,  s isso por hoje. No saia de Hani sem minha autorizao.  
- Certo, general.  
Um jipe deixou Franois diante da porta da casa dos Rivire. Sentadas  entrada, Lien e La o esperavam. Elas 
se dirigiram para ele ao mesmo tempo e o bombardearam de perguntas, sem esperar as respostas.  
 - Voc acha que nos deixaro partir? Querem falar comigo?  
- Achamos que eles no o libertariam mais.  
- Perguntaram sobre Hai e Kien?  
- Est com fome?...  
-  a nica pergunta sensata que me fizeram desde que voltei! Estou morto de fome - conseguiu dizer.  
- Ns lhe preparamos uma boa refeio leve.  
-  isso que vocs chamam de refeio leve? - exclamou Franois diante da mesa farta. - Tem at champanhe... 
Depois da dieta vietcongue, vou ter uma indigesto! - acrescentou, abrindo a garrafa. - A sade das duas 
mulheres mais bonitas de Hani!  
-  sua sade! - responderam elas a uma s voz.  
Ajudados pelo cansao, logo os trs estavam bbados e dormiram na grande cama do salo.  
Na manh seguinte, os empregados os encontraram enroscados uns nos outros, com um sorriso de felicidade
nos lbios.

Captulo 2

La e Lien andavam pela rua de la Soie  procura de um bom tecido para fazer uma roupa
adequada para Franois. No era coisa fcil: esse gnero de mercadoria desaparecera das lojas, 
mas o velho Chang, que anteriormente vestia Martial Rivire, contara  filha que acabara de receber 
de Hong Kong uma pea de excelente tela de algodo. A loja do alfaiate ficava no fundo de um 
estreito corredor obstrudo por pacotes e corpos adormecidos, que as duas mulheres foram 
obrigadas a saltar para alcan-la. Sentado, de pernas cruzadas, na mesa de trabalho, Chang ergueu 
a cabea e fez um sinal para que elas se sentassem.  
- Como est tudo calmo... - observou La.  
Mas lhe parecia que o chins no estava  vontade; suas mos tremiam, gotas de suor brilhavam na 
testa plida.  
- Vamos embora, Lien - disse ela, levantando-se.  
- Mas por qu?... Hai!...  
Depois de um instante de surpresa, ela se precipitou nos braos do irmo, que acabava de surgir. 
Rugas amargas riscavam- lhe os cantos da boca, sulcos profundos marcavam a testa, o olhar estava 
cheio de tristeza.  
- Como vo as minhas meninas? 
- - Bem, mas voc nos faz muita falta. Por que veio at aqui?  perigoso.  
- Vim ver Franois.  
- Ele est muito vigiado pelos franceses; todo dia o alto-comando o interroga; ns mesmas somos 
constantemente seguidas.  
Ele lanou um olhar em torno.  
- Fique tranqilo, ns nos livramos deles - disse Lien.  
- Por que interrogam Franois?  
- Esperam que ele indique os lugares onde esteve, mais precisamente o local do campo no qual vocs 
se encontraram, aquele no qual ele disse ter feito contato com H Chin Minh. O general Blaizot se 
recusa a acreditar nesse encontro - explicou La.  
- Aconteceu mesmo? - perguntou Lien.  
- Sim, tive a confirmao dele pelo comandante logo aps a morte de Phuong, minha pobre mulher.  
- De qualquer maneira, voc no acredita que ele seja responsvel pela morte dela? - disse Lien.  
-  responsvel, mesmo que no a tenha matado com as prprias mos!  
- Coi chisng, c lnh ty dn
- Ateno, soldados franceses.  
 - cochichou o alfaiate.  
- Ni vi Franois ti se doi anh ta trong ba ngy o b sng Hng. Anh ta se 
hiu.*  
- Diga a Franois que o esperarei durante trs dias na margem do rio Rouge. Ele compreender. 
Hai afastou uma cortina e desapareceu no exato momento em que os soldados entraram. O alfaiate 
chins inclinou-se diante deles, com as mos postas.  
- O que posso fazer para os senhores?  
Com um gesto brusco o oficial o afastou.  
- Ento, senhoras, se livraram de ns outra vez? No  muito delicado, pois s estamos cumprindo 
ordens. Este bairro  muito perigoso, principalmente para a senhora, madame.  
- O senhor v perigo por toda a parte, tenente. Deixe-nos tranqilas, j somos bem grandinhas para 
nos defender! - disse  
La. Depois, dando as costas aos militares, ela dirigiu-se ao alfaiate: - Mostre-me essa fazenda.  
O velho homem se apressou e desenrolou a pea.  
- Quando o senhor pode passar para tomar as medidas de meu marido?  
- A noite, se a senhora quiser.  
- Est timo, ns o esperaremos. At logo, senhor Chang. At logo, senhores.  
O estreito corredor estava agora deserto. Um soldado armado de metralhadora montava guarda. Elas voltaram a 
p, caminhando em torno do Pequeno Lago.  
Lien transmitiu a Franois o recado de Hai.  
- Eu irei - disse ele.  
- Como voc vai fazer? A casa est vigiada.  
- Aproveitarei a visita do alfaiate.  
- Vou com voc! - exclamou La.  
- Nem pense nisso. Voc deve ficar aqui para engan-los.  
- Eu lhe peo, no v!  
Franois no lhe respondeu e se dirigiu a Lien:  
- Compreendeu? Impea-a de sair, confio-a a voc. Entenda-se com o alfaiate: prenda-o o maior tempo possvel, 
d-lhe uma de minhas roupas para que ele corte uma de meu tamanho. - Depois ele tomou La em seus braos. 
- No se aflija, no demorarei.  
Aborrecida, ela se desprendeu dele.  
Depois da partida, as duas mulheres ficaram silenciosas durante algum tempo.  
- Voc tem certeza de que seu irmo no lhe far nenhum mal?  
- Sim, conheo Hai,  um homem bom e justo. Vo conversar. So amigos desde a infncia, existem laos muito 
fortes entre eles; acredito que sero suficientes para acalmar Hai. Descanse, vou receber o senhor Chang.  
Ao ficar sozinha, La andou de um lado para o outro no quarto, incapaz de ficar sentada em qualquer lugar. Um 
leve arranhar na janela interrompeu seu caminhar. Imvel, prestou ateno: o arranhar, que parara, recomeou. Atrs do vidro estava Giau. La abriu a janela.  
- O que faz aqui?  
- Venha, seu marido est em perigo.  
La pulou a janela e seguiu o aleijado.  
Giau evitou a entrada principal e se dirigiu para uma sebe, da qual ele separou uns galhos, abrindo uma 
passagem baixa pela qual ele se introduziu. Foi penoso para La segui-lo, pois ela se arranhou na passagem 
nos braos e nas pernas. Um cyclopousse esperava diante da abertura. Giau iou seu corpo para dentro, 
La se instalou ao lado dele.  
- Di ra b sng
- Siga para o rio. 
 - ordenou ele ao condutor.  
- Agora vai me contar o que est acontecendo? - perguntou La.  
- Os vietcongues prepararam uma armadilha para o seu marido.  
- Hai sabe disso?  
- No, o doutor no sabe de nada, mas eles se utilizam dele.  
- Acha que chegaremos a tempo?  
- Espero.  preciso que voc encontre o doutor antes do seu marido.  
- Mas Franois est na nossa frente.  
- No, o cyclo que ele tomou recebeu ordem de seguir um caminho mais longo.  
- Voc pensa mesmo em tudo!  
Seguiram em silncio atravs das ruas desertas. De vez em quando,  beira de uma calada quebrada, a 
luminosidade do fogareiro de uma cozinha ambulante rompia a escurido e percebiam-se algumas sombras 
acocoradas, com uma tigela de sopa nas mos. O cheiro do esgoto se tornava cada vez mais forte; o rio Rouge 
estava perto. Ao longo das margens escarpadas, as cabanas de madeira, de chapa ou de papelo abrigavam 
famlias inteiras. O choro de um beb, o latido de um co, o gemido de um  
doente, o ronco de algum que dormia eram ouvidos intercaladamente na noite. Pouco a pouco, os 
casebres se espaaram. Logo, eles chegaram ao fim do cais Clemenceau, entre o rio e o lago de 
Truc Bach, perto da antiga fbrica de tabaco, cujas grades enferrujadas tinham sido arrancadas em 
alguns lugares.  
- Dng lai. Dn doi chng ti sau nh my nuc. Hay n npo dw3ng Bournn. Hay bo 
nhung ngiW kia bit nu chng ti khng 1v lai tnng haigi nua. Doi tio gc dw)ng v dai 
l Grand-Bouddha '1'  
Pare. V nos esperar depois da fbrica das guas. Esconda-se na rua Bourrin. Previna aos outros se ns no 
voltarmos dentro de duas horas. Espere-me na esquina da rua com a avenida do Grand-Bouddha.  
O cyclo se afastou.  
- Siga-me... Abaixe-se...  
Curvada, ela o seguiu. O solo juncado de detritos, com trilhos profundos, revelou-se cheio de ciladas. 
La caiu duas vezes. Num dado momento ela no pde conter um grito: um bando de ratos impedia 
a passagem. Giau voltou atrs.  
- Voc faz mais barulho que um regimento de atiradores senegaleses! Quer que atirem em ns?  
- Desculpe-me,  que no estou habituada a me arrastar na imundcie - respondeu ela num tom 
azedo.  
- Certamente, nem eu.  
La arrependeu-se de sua reflexo, depois encolheu os ombros.  
- O que est esperando, vamos continuar?  
- Estamos quase chegando.  
Uma alta porta metlica fechava a entrada de um depsito. Sob a porta passava um fio de luz. De 
repente, ela se abriu. Giau e La s tiveram o tempo de se esconderem na escurido. Cinco homens 
de bicicleta saram e desapareceram. Outro ficou na soleira, fumando. La reconheceu Hai. Sem 
pensar, ela avanou para a claridade.  
- Ai d? Ti bn Dy**.  
- Quem vem l? Eu atiro! 
- Hai, sou eu, La...  
- La! O que faz aqui? Est louca!  
- Preciso falar com voc.  
- Onde est Franois?  
- Est chegando, mas seus camaradas lhe prepararam uma 
emboscada. 
- O que disse?  
-  verdade, doutor - confirmou Giau. 
- Quem  voc?  
- Ningum, um amigo de La - respondeu o infeliz.  
Hai voltou-se de novo para La:  
- So esquisitos os seus amigos! V embora, no tenho nada a lhe dizer.  
- Por favor,  preciso fazer alguma coisa. Vo matar Franois!  
- Ainda bem; assim, no terei de faz-lo...  
- Mas me deixe ao menos falar com voc!  
- Por onde ele deve chegar? - perguntou ele a Giau.  
- Pelo Grand Lac.  
- Onde, segundo voc, vai ser a emboscada?  
- Na margem do lago de Truc Bach.  
- Bem pensado: l s h pntanos. No tenho nenhuma chance de chegar l antes deles.  
- A no ser que eu consiga distra-los.  
- Como vai fazer? - perguntou La.  
- No se aflija, estou habituado,  meu papel bancar o palhao. Sigam-me bem de longe.  
- Somos loucos de confiar nesse mendigo - resmungou Hai.  
- Tenho total confiana nele - disse La andando atrs dele.  
Depois de deixarem a fbrica, seguiram durante algum tempo entre casas desmoronadas.  
- Que lugar sinistro - murmurou La.  
- Estamos quase chegando - cochichou Giau. - Esperem- me aqui.  
Eles o viram desaparecer arrastando-se; logo o ouviram assobiar.  
- Ele est louco! - resmungou Hai.  
*..._ Alto!  
- No atirem, camaradas, sou apenas um pobre mendigo. 
O facho luminoso de uma lanterna varreu o solo.  
- Dng lai!
- O que faz por aqui, verme?  
 - disse uma voz  
- Estou indo para l.  
- Ding bn, cc dng ch, ti chi l mt ke an xin nghe kh .  
- My lm g o dy, thng su bo?  
- Ti di dn kia.  
- Chuyn g th, Thu?  
- Khng c g, mt tn an xin di v nh hn.  
- Dua hn dn dy... Tao bit my ri... My di khoi hang  cua my o ph hng Bum kh 
xa dy!  
- Nhung tn an xin khc dui ti di. Ti di qu...  
- My chon nhn khch ri, bon tao khng c dn mt nm com ngui.  
- Anh c th cho xin diu thuc?*  
- O que est acontecendo, Thu?  
- Nada, um mendigo que volta para casa.  
- Pare, conheo voc... Est bem longe de seu buraco na rua das Voiles!  
- Os outros mendigos me expulsaram. Estou com fome...  
- Voc escolheu mal seus fregueses, no temos nem uma tigela de arroz frio.  
- Teria um cigarro?  
O outro lhe jogou um embrulho vazio pela metade.  
- By gi, ct di.  
- Cm on, tri se tra on anh.**  
Agora v embora.  
- Obrigado, o cu o recompensar.  
Sem ser notado, ele voltou e passou do local onde La e Hai estavam escondidos. Eles o seguiram a alguma 
distncia. Ao fim de alguns minutos, Giau parou e comeou a assobiar. Mais ao longe, um assobio respondeu. 
Giau correu para o meio da estrada, agitando o cigarro. O cyclo quase o atropelou.  
- Di me!***
Filho da puta! 
 - exclamou o condutor.  
Franois saltou do veculo, empunhando uma pistola. Apesar da noite escura, reconheceu a mulher e o amigo, 
que foram at ele. Ele baixou o brao.  
- La... Hai...  
- Mais adiante, haviam armado uma emboscada para voc  
- explicou La, abraando-se com ele.  
- Ah, sim, e como voc soube disso? 
- Ela fala a verdade - disse Hai. - Eu estou aqui por acaso. Ela e seu amigo  que me preveniram. Mas, se tudo 
isso no tem mais importncia, de agora em diante  muito imprudente ficar mofando por aqui.  
- O doutor tem razo - confirmou Giau, assobiando duas vezes.  
Ento a rua se encheu de criaturas que se poderia dizer sadas da imaginao de um autor de romances de 
terror.  
- Eis minha turma! - mostrou Giau com orgulho. - Eles ficaro de guarda enquanto o doutor e seu amigo 
conversam. Agora que voc est tranqila, eu a levo para casa - acrescentou para La.  
Ele fez um sinal, um cyclo se aproximou.  
- Obedea, minha querida. Eu lhe agradeo - disse Franois, estendendo a mo ao monstro.  
Erguido nos cotos, Giau apertou a mo estendida.  
- Espero que vocs continuem amigos - disse La aos dois homens quando subiu no pequeno veculo.  
Pensativos, observaram-na afastar-se.  
- Venha, h um pequeno templo que os monges abandonaram, ali. Ningum vai l, pois dizemos que o ma q u 
* circula por aqui.  
Seguidos  distncia pelos mendigos, aos quais Hai fez um sinal para esperar, eles pararam diante de uma porta 
baixa. Os arbustos e o mato haviam invadido o ptio do templo. O tanque desaparecia sob um manto de 
nenfares. Os galhos de uma rvore deixavam arrastar pelo cho os cachos de flores. O ar recendia a jasmim. 
Franois sentou-se num banco meio escondido sob o musgo.  
- Podamos jurar estar no Jardim do Eden. Lembra-se de nossos sonhos de jardins encantados? - perguntou ele.  
- Lembro, mas j faz muito tempo. Nessa poca ramos inocentes e... amigos.  
- No tive nenhuma culpa na morte de Phuong. Teria dado minha vida por ela. Thvenet acreditou que ela ia 
nos denunciar.  
- Ela o teria feito, odiava os franceses. Estava profundamente engajada na luta contra o colonizador e at 
acreditava no futuro do comunismo. Sem eu saber, seu pai a tinha encarregado de misses importantes. Ela, to 
delicada, tinha se tornado de uma dureza... eu no a reconhecia mais.  
Com a cabea entre as mos, Hai se deixou cair, soluando, junto do amigo. Depois de uma breve 
hesitao, Franois passou o brao em torno de seus ombros. Durante muito tempo os dois homens 
permaneceram abraados.  
- Perdoe-me, no  digno de um combatente - disse Hai se afastando.  
- No h vergonha em chorar a morte de um ente querido. Voc me perdoa, Hai?  
- Com o tempo, espero esquecer que voc causou a morte dela. Agora, v. Vou procurar saber 
quem deu a ordem para lhe armar uma emboscada. La e voc devem deixar a Indochina. Este pas 
no precisa mais de vocs e ambos esto em perigo aqui. Saiam rpido. Adeus!  
- Adeus - disse Franois, afastando-se.  
Depois parou, virou-se e voltou correndo para Hai, a quem abraou fortemente:  
- At logo, irmo.  
Apesar da hora tardia, La e Lien no estavam deitadas. Lien reagira com raiva  sada da jovem.  
- Voc  louca! Que arrisque a prpria vida, isso  com voc, mas a de Franois, a de Hai... voc 
no tinha esse direito!  
- - Tudo correu bem. Se eu no seguisse Giau, talvez Franois estivesse morto neste momento.  
- Talvez esteja agora - replicou Lien com uma voz pungente.  
- Oh, cale-se, vai lhe dar azar!  
Fora, houve rudo de vozes. Lien abriu a porta. Trs soldados franceses e o capito Lamarck 
cercavam Franois.  
- Estes senhores no querem acreditar que eu estava bebendo com uns amigos - disse ele com voz 
pastosa.  
- Isso so horas de voltar para casa! - gritou La, fingindo raiva. - Obrigado, senhores, vou deit-lo... 
- Mas, senhora...  
- Boa noite, capito.  tarde. Ns nos veremos amanh de manh, se o senhor quiser.  
Com a porta fechada, Franois estourou de rir.  
- Bravo! Viu a cara do pobre Lamarck?  
- No sei o que isso tem de engraado! Lien e eu estvamos muito inquietas.  
- Agora acabou... Vamos dormir.  
Alguns dias se passaram em interrogatrios para Franois e para La, para que pudessem 
retornar  Frana. Uma manh chegou uma carta de Franoise:  
Minha querida irmzinha,
Seu pequeno Adrien vai completar um ano. H alguns dias est andando, tem quatro dentes e
um temperamento alegre;  uma criana adorvel; todos, em Montillac, estamos loucos por 
ele. Todos os dias falo com ele de voc e do pai. Quase todas as manhs, ele diz ao acordar: 
"Mame, viajou?" Volte rpido, voc faz muita falta a ele e a todos aqui. Principalmente a 
Charles, que cresceu muito. No vai reconhec-lo de to mudado; ele s sonha em 
ircombaterna Indochina para trazer voc de volta para casa.  
Reencontrou Franois? Sobre o que se passa a s temos as informaes da TS.E e dos 
jornais, que contam muito pouco. Soubemos pelo padre Henri que Jean Lefevre havia 
encontrado seu marido e a vira rapidamente em Hani. Ele ps suas terras  venda; voc 
sabia?  
Aqui, tudo vai bem; as colheitas da uva de 49 sero excepcionais, segundo se espera, est 
previsto um ano muito bom. Recebemos a visita dos primos de Bordeaux. No perderam nada 
da arrogncia nem aprenderam nada com a guerra.  
Todos se juntam a mim para enviar sua afeio e esperam com impacincia sua volta e a de 
seu marido.
 Be/QS. Sua irm,  
Franoise 
La chorou pensando em Adrien. Com orgulho, mostrou a Lien as fotos do menino anexadas por 
Franoise  carta.  
- Que criana bonita! - disse ela. - Como se parece com Franois.  
Foi no dia seguinte que Lien soube do assassinato da mulher e da filha do irmo Bernard pelos 
vietcongues.  
- Pensei que estivessem na Frana! - exclamou Franois.  
- Bernard quis passar por Saigon para acertar alguns negcios com o Banco da Indochina. Foram 
presos na estrada do aeroporto. Depois, suas pistas foram perdidas... Bernard tinha sido conduzido a 
Pham Tiet. As autoridades francesas encontraram os corpos mutilados de Genevive e de Mathilde 
jogados  beira de uma estrada...  
A horrvel notcia perturbou La. Ficava com a impresso de que os matadores estavam 
emboscados por toda a parte; revivia os horrores da ocupao alem. Os pesadelos voltaram. Todas 
as noites, ela acordava gritando.  
- Quero ir embora! - soluava.  
O prprio Jean Laurent, diretor-geral do Banco da Indochina, veio apresentar psames a Lien e 
assegurar que tudo seria feito para reencontrar a pista de Bernard. Ele aproveitou a visita para 
conversar longamente com Franois. Durante essa conversa lhe contou que tudo estava acertado 
com o alto-comando e que ele receberia logo a autorizao para deixar a Indochina. Laurent 
acrescentou que ficaria feliz de rev-lo em Paris, onde poderiam falar livremente sobre o futuro.  
No mesmo dia, os avs maternos de Hac e Nhi vieram buscar os netos. Lien os viu partir com 
grande dor. Parecia-lhe que a famlia se desagregava pouco a pouco. Franois insistiu em que ela 
viesse com eles para a Frana. La se juntou a ele - sem sucesso.  
- Meus irmos podem precisar de mim, tenho de ficar aqui, na casa de meus antepassados.  
Na vspera da partida, Giau trouxe para La uma carta de NhuMai, a jovem violinista: 
Querida La  
Eu queria uma vez mais lhe agradecer a ajuda. Graas a voc, posso servir meu pas. A 
vida na floresta  muito dura e os exerccios cansativos, mas descanso tocando para os 
camaradas. A msica nos ajuda a esquecer as duras horas passadas.  
Eu soube o que aconteceu com a mulher e a filha do doutor Hai. Aqui, ficamos todos 
revoltados com esse drama, e posso lhe assegurar que nenhum de ns teria cometido ao 
to monstruosa. Transmita a Lien minhas sinceras e respeitosas condolncias.  
No sei se nos reencontraremos um dia. Mas, quando a paz voltar seria o meu maior 
desejo.  
Fiquei muito feliz em conhec-la, e tenho por voc afeio como a uma irm.  
Um bejo de quem gosta muito de voc,  
Sua amiga,  
Nhu-Mai  
Giau ofereceu a La um pequeno buda de jade.  
- Ele lhe trar felicidade - disse ao entreg-lo.  
La se abaixou e examinou longamente a pequena estatueta.  
- Prometo-lhe guard-la para sempre.  
Ela se inclinou outra vez e deu um beijo na face suja do mendigo, que deu um salto para trs, como 
se o houvessem ferido. De cabea levantada, encarou-a com os olhos vermelhos, lacrimejantes; 
com a mo deformada apalpava a face.  
- Voc me beijou... - disse ele com voz incrdula. Afastou- se, arrastando-se para trs, mas depois 
parou: - Lembre-se que minha vida lhe pertence.  
- Eu me lembrarei. Cuide-se. Voc poder vir aqui procurar comida, Lien est de acordo.  
Contemplando a cena, Franois disse a La com ironia:  
- Eu me pergunto se no preferia o jovem argentino a seu novo admirador vietnamita! Como se 
chamava o rapaz?  
- Ernesto! 
Encarregado de cuidar, segundo ele, da segurana dos dois, o  
capito Lamarck desejara acompanhar o senhor e a senhora  
Tavernier ao aeroporto. Apesar de toda a coragem, Lien desmaiara  
nos braos de Franois. Ele a confiara aos cuidados dos empregados  
domsticos e desaparecera antes que ela recobrasse a conscincia.  
Com toda a alegria pela partida, La, que entrava num  
avio pela primeira vez, no se deteve em adeuses melanclicos.  
- Eu os invejo - o capito apertando a mo de Tavernier.  
- Diga bom dia a Paris por mim!
Com o nariz colado ao postigo, a mo apertada na do marido,
La via sem pena afastar-se o solo indochins. Quanto a Franois,
tinha mais uma vez a impresso de deixar seu pas e se condenava
por abandonar os amigos. Via afastarem-se o rio, os arrozais,
as florestas e as montanhas com uma tristeza que o fez fechar os
olhos. "Eu voltarei", jurou a si prprio.

Captulo 3

O pequeno Adrien soltava gritos quando Franois o levantava para
beij-lo. Ressabiado, este o recolocava delicadamente no cho, e  
o menino corria a se refugiar nas saias de Franoise.  
-  normal - dizia ela-, no o conhece. Daqui a dois dias ser mais fcil.  
La tambm no tinha melhor sorte. Era preciso que Charles lhe dissesse e repetisse: " sua me", 
para que o menino se aproximasse e se atrevesse a toc-la. Perturbada, La o deixava fazer, atenta 
para no assust-lo. Encolhido em seus braos, Charles havia escondido o rosto no pescoo delicado 
e perfumado, impregnando-se do perfume como se faz com uma flor. Adrien, desejando imitar o 
amigo, inclinava-se por sua vez para o pescoo de La, dizendo:  
- Mame... bom...  
Feliz, La apertava a si o corpo do filho. Franois a contemplava, radiosa e bela, com as duas 
crianas apertadas ao pescoo. J nessa noite, Adrien, encarapitado nos ombros do pai, no queria 
mais se separar dele.  
Durante a noite, La acordou presa dos habituais pesadelos.  
Procurando consolo, voltou-se para Franois, mas metade da cama  
estava vazia. Ela se levantou. A lua clareava o cmodo; fora, o vento 
vergava os altos ciprestes que limitavam a propriedade. La empurrou a porta do quarto do filho. Franois 
estava l, inclinado sobre o pequeno leito, observando o filho dormir. Ela se aproximou devagar e lhe ps a 
mo no ombro. Ele se voltou; o rosto estava radiante de alegria e de orgulho. Havia muito tempo ela no o via 
assim to alegre. Ele a apertou nos braos.  
- Obrigado, querida. Que filho lindo voc me deu! Perdoe- me por t-la privado tanto tempo dele!  
La estremeceu.  
- Venha, voc vai ficar com frio.  
Fizeram amor com uma ternura diferente. Adormeceram ao amanhecer.  
No dia seguinte, um telegrama de Paris solicitava ao senhor Tavernier que se apresentasse sem demora no 
Matignon a pedido do presidente do Conselho, Georges Bidault.  
- O que esse chato quer comigo? - resmungou Franois.  
- Voc  obrigado a ir? - perguntou La.  
- Infelizmente, sim!  
Entretanto, ele demorou e s se apresentou uma semana depois na rua de Varennes. Aps vinte minutos foi 
recebido pelo chefe do governo.  
- Sente-se, senhor Tavernier. O senhor fuma?  
Franois pegou um cigarro na pequena caixa estendida por Georges Bidault.  
- Obrigado, senhor presidente.  
- Ento, senhor Tavernier, recebeu uma misso oficiosa do presidente da Repblica...  
- Sim, senhor presidente.  
- Coroada de sucesso, pois se encontrou longamente, parece, com nosso adversrio, o senhor H Chin Minh.  
- Encontrei-o efetivamente, senhor presidente, e falei com ele a respeito dos desejos do senhor Vincent Auriol; 
mas sem sucesso.  
- No lhe pareceu desejoso de negociar?  
- No, senhor presidente; est mais decidido do que nunca a continuar a guerra. 
- Tem os meios para isso?  
- Sim, senhor presidente, ainda mais que a China e a Rssia reconheceram seu governo. Vai ter o poderio 
chins e o armamento sovitico como aliados.  
- A situao lhe parece crtica sob esse aspecto?  
- Est desesperadora, senhor presidente. Se tivesse estado l, teria a mesma opinio que eu.  
- Mas essa no  a do alto-comando.  
- Sem dvida ele est mal informado.  
- O que recomenda?  
- Em primeiro lugar, permitir ao povo vietnamita definir- se pelo voto, como est previsto nos acordos de 6 de 
maro de 1946 assinados pelo general Leclerc...  
- Mas essas eleies colocaro os comunistas no poder, apesar das concesses feitas ao imperador Bao Dai...  
- Sem dvida. De qualquer maneira, eles tomaro o poder. Ao menos se evitariam centenas de milhares de 
mortos.  
- No podemos aceitar o aumento da influncia comunista nessa parte do mundo.  
- Pelo menos, senhor presidente, seja realista: depois da vitria de Mao Ts Tung, os comunistas dominam a 
poltica do Sudeste da sia.  
- Devemos impedir que se estenda essa lepra vermelha!  
-  um pouco tarde, senhor presidente. Sem a Unio Sovitica, teramos ganhado a guerra? Idealizado por uma 
propaganda hbil, o comunismo sabe se tornar atraente aos olhos dos povos miserveis ou colonizados. 
Observe, em nossos pases, ditos civilizados, a atrao que ele tambm exerce, notadamente entre os jovens 
intelectuais. Depois da Ocupao, o retorno ao poder de homens que participaram ou estiveram 
comprometidos com o colaboracionismo afasta uma juventude que tem necessidade de um ideal diferente do 
dos pais. O comunismo prope amanhs radiosos, igualdade para todos, ajuda  humanidade. Isso  excitante, 
quando se tem vinte anos! - exclamou em tom de zombaria.  
Georges Bidault no perdoou a ironia. 
- Isso tudo so utopias! Se o senhor tivesse vinte anos, faria essa escolha?  
- Talvez sim, senhor presidente.  
- O senhor  comunista?  
- No, e no tenho mais vinte anos!  
- Quais so seus projetos, senhor Tavernier?  
- No momento, ocupar-me de minha mulher e de meu filho, ver como esto meus negcios, e recomear a 
trabalhar.  
- Eis um programa que no se adequa ao homem de ao que o senhor .  
- H mais de dez anos, participei de combates e arrisquei numerosas vezes minha vida. Agora, que sou pai, 
tenho outras responsabilidades.  
- Ento, senhor Tavernier, deixo-o com suas novas responsabilidades. Mas no tenho dvida: daqui a alguns 
meses, o senhor estar de novo impaciente pelo desejo de aventuras.  
- Vamos ver, senhor presidente.  
Georges Bidault lhe estendeu a mo e o acompanhou at a porta do gabinete.  
Franois Tavernier saiu mais calmo do gabinete do presidente do Conselho do que sara do do ministro do 
Exterior, alguns meses antes. Quando estava andando pelo bulevar des Invalides, um homem esguio e elegante 
o chamou.  
- Tavernier!  
Franois voltou-se.  
- Sainteny! Que prazer em rev-lo! Decididamente, toda vez que deixo Bidault eu o encontro. S falta Mends 
France...  
Os dois homens apertaram as mos com muita satisfao.  
- Ento, e a temporada na Indochina?  
- Difcil, muito difcil.  
- Voc encontrou meu velho amigo H Chin Minh?  
- Sim. Foi graas  amizade que ele tem por voc e  estima que tem pelo general Leclerc que me recebeu, 
embora doente.  
- Que impresso lhe causou?  
-  um patriota, um comunista convicto, decidido a nos combater at o fim. A seu lado encontrei um homem que me impressionou muito: o senhor Phan Van Dong.  um 
adversrio duro.  
- Eu o encontrei quando da vinda do presidente H Chin Minh em 1946, ele era o chefe da delegao vietnamita 
nos acordos de Fontainebleau.  um grande inimigo da Frana, mas um homem correto. Voc esteve com 
Pignon? - perguntou Sainteny.  
- Pareceu ser to mole quanto seu corpo enorme.  
-  engano seu,  um bom funcionrio da Repblica.  
- Eu queria acreditar em voc, mas ele est deslocado l. Era preciso algum com outra tmpera, que sonhe com 
as conquistas e capaz de ter grande autoridade sobre o exrcito.  
- A descrio que voc faz  de Leclerc...  
- Sim... Sem dvida... Voc o reencontrou?  
- Com muita freqncia. Sua perda  irreparvel para a Frana.  
- Eu pensei muito nele no momento da morte de Lon Blum. Eles no se pareciam, mas tinham em comum o 
sentido da grandeza da Frana.  
Os dois homens andaram alguns instantes em silncio.  
- Eu soube com profundo alvio que a senhora Tavernier conseguiu encontr-lo. Que mulher obstinada! Nada 
pde convenc-la a ficar. Apresente-lhe minhas homenagens...  
- No me esquecerei disso. Ela atualmente est em Montillac, junto do nosso filho. Espero que enfim ela possa 
ter um pouco de descanso. E voc, o que anda fazendo?  
- Entrei para os negcios, seguros...  
- E a poltica?  
- No quero mais nem ouvir falar. E voc, o que est pensando em fazer?  
- Ocupar-me de La e do meu filho. Mais tarde, verei se mantenho ou liquido a empresa da famlia em Lyon. Se 
passar por Bordelais, venha nos visitar. Terei sempre prazer em conversar com voc mais longamente sobre a 
Indochina, que ns amamos.  
- No quero mais ouvir falar da Indochina - respondeu Jean Sainteny com voz amarga.  
Depois de algumas banalidades, despediram-se. 
Franois voltou a Montillac, para o aniversrio de Adrien, a quem ele deu uma caixa gigante de Meccano. 
Franoise caoou delicadamente dele.  
- E um presente para um menino de dez anos.  
- Eu no sabia... - disse ele em tom contrariado.  
Diante de seu ar penalizado, Franoise e La riram muito. Charles veio em sua ajuda.  
- D para mim, tio Franois, eu brincarei at que Adrien cresa!  
- Dou para voc; comprarei outro para ele quando tiver idade para brincar. Enquanto esperamos, brincaremos 
ns dois.
- Oh, sim! - gritou Charles abrindo a caixa.
Logo, o tapete da sala estava coberto de peas azuis e vermelhas, que eles olhavam perplexos. Alain os tirou 
do embarao:  
- Eu jogava isso muito bem...  
Durante a tarde, os trs se divertiram colocando as peas no lugar. A chamada para o jantar tirou-os da 
brincadeira, com dificuldade.  
Pelo aniversrio do nascimento do filho, Franois deu a La um belo anel, de rubis e diamantes.  
- Obrigada - disse ela. - Tambm tenho um presente para 
voc. 
Ela cochichou-lhe na orelha.  
- No - exclamou ele. 
- Sim! 
- La, La, minha querida... - disse ele, tomando-a nos 
braos.  
Ele correu apertando-a nos braos at a varanda. A noite cara, podiam-se ver as luzes de Langon; num plano 
mais abaixo, a massa sombria dos troncos enegrecidos. O cu estava claro; algumas estrelas j brilhavam.  
- Que belo presente, meu amor! Estou feliz como nunca. Obrigado, querida... Mas voc est tremendo?  
- Estou com um pouco de frio.  
-  verdade, est sem agasalho, que idiota que sou! 
Tirou o palet e o ps nos ombros de La, que ele conduziu para a casa iluminada. Ela o forou a parar:  
- Veja - disse ela -, observe minha casa, ela s ficar em paz quando voltarmos. Ela me faz pensar em mame, que 
nos esperava nas noites de inverno, diante da soleira. Mame no gostava do inverno, ela s ficava tranqila 
com a porta fechada e as filhas e a famlia dentro de casa. Sendo filha dos trpicos, estava sempre gelada, a 
casa ficava superaquecida. Papai resmungava, dizia: "Sufoca-se! Esse calor nos torna anmicos!" Vivamos 
entre o calor e o frio, papai abrindo as janelas, mame as fechando. Felizmente ela no viu a parte mais difcil da 
guerra, morreria de frio. Pobre mame, ela me faz tanta falta... Veja, eu no ficaria espantada de v-la surgir, 
trazendo um xale e me dizendo: "La, voc  louca de sair sem agasalho, est se arriscando muito!"  
- Venha rpido! Ela estava com a razo: voc vai ficar doente, meu filho e voc.  
No jantar, La anunciou a todos que esperava um filho.  
- Ser uma menina - disse Ruth, categoricamente.  
- Ento seu nome ser Camille - falou La suavemente.  
Uma profunda emoo se apossou dos convivas. A figura delicada de Camille pairou na sala de jantar. Charles, 
sentado perto de La, tomou-lhe a mo:  
- Ela ser minha mulher, mais tarde. Todos riram, menos Charles e La.  
Camille nasceu em 15 de agosto de 1950, no momento em que os sinos batiam o fim da missa nos carrilhes de 
Verdelais, de SaintMacaire e de Langon.  
-  uma menina!  uma menina! - gritou Franoise correndo para Franois, que fumava andando pela varanda.  
- Como est La? Sofreu muito, no ?  
- Sim, mas agora acabou. Venha v-los.  
Ao p da cama da mulher, Franois quedou-se, emocionado e confuso. Como estava plida! E com olheiras!  
- Franois - murmurou ela.  
Ele se aproximou, acariciou seus cabelos midos, despenteados. 
- No fale, meu amor, descanse.  
- O que voc achou dela?  
- No sei...  
- Como  que no sabe? - disse La erguendo-se e retomando as foras.  
Ento ele notou, perto dela, um pequeno fardo se mexendo. Inclinou-se, removeu um pano fino e 
descobriu a mais encantadora das criaturas. Boquiaberto, encantado, ele no conseguia tirar os olhos 
do rosto minsculo.  
- Como se parece com voc!  
- o retrato da me - confirmou Ruth, tomando o beb, que colocou nos braos do pai.  
- Meu Deus, como  pequena... Posso deix-la cair!  
- No, voc no  homem de se deixar impressionar por trs pequenos quilos de carne...  
- Por favor, Ruth, pegue-a.  
Ruth ficou com pena dele e lhe tomou o pequeno fardo.  
-  o retrato da me... Espero que no tenha o mesmo gnio!  
- Espero que tenha - disse Franois sentando-se na beira da cama. - Estou satisfeito. O que voc 
deseja?  
- Em troca?... Jias, muitas jias... Vestidos, muitos vestidos... No, no quero nada disso: quero que 
no nos separemos nunca os quatro. Nunca mais!  
- Esto lhe chamando ao telefone... - disse Alain, entrando.  
- Al, Tavernier?...  
Era a voz de Sainteny.  
- Bom dia! Encantado de ouvi-lo, principalmente num dia como hoje... Minha filha acaba de nascer  
- Parabns. Apresente meus respeitos  senhora Tavernier.  
- Eu lhe agradeo. A que devo a honra de ouvi-lo?  
- Tem notcias da Indochina?  
- No mais que voc, sem dvida. Meu amigo, o doutor Rivire foi ferido no ataque a Dong Kh. 
Passou alguns dias em convalescena em Hani, na casa da irm Lien. Ele me escreveu de l e me 
contou que o irmo Bernard entrou novamente para o exrcito francs, no qual se mostrou de 
grande crueldade com os 
vietcongues que lhe caram nas mos. Soube o que aconteceu com a mulher e a filha dele?  
- Sim, estou a par... Fala-se muito, nos corredores da Assemblia, da provvel nomeao de Lattre 
para o posto de alto- comissrio...  
- Fala-se tambm em nome-lo para o comando do exrcito.  
- Sim,  um homem dessa envergadura que  necessrio l. O que voc acha sobre os 
acontecimentos na Coria?  
- Nunca o mundo esteve to perto de uma terceira guerra mundial. Os alemes esperando uma 
ofensiva sovitica. A Frana com um novo governo. As lojas de alimentao devastadas, os 
particulares estocando gasolina at na banheira, e, durante esse tempo, os alpinistas franceses 
chegaram ao alto do Anapurna, no Himalaia.  bonito a bandeira tricolor flutuando no teto do 
mundo, a mais de 8 mil metros de altitude. Isso custou alguns dedos e orelhas congeladas...  
- No tenho certeza de se Maurice Herzog compartilha sua opinio quanto ao assunto da perda dos 
dedos do p! A mistura dos temas est confusa...  
- Assim gira o mundo. Por que me faz todas essas perguntas sobre a Indochina? Eu acreditava que 
isso no o interessasse mais. E voc ainda no me disse a que devo o prazer de seu telefonema.  
- O general de Lattre me chamou. Falei de voc, do seu conhecimento dos problemas daquele pas.  
- Ah, no! Voc  generoso demais; no vejo em que poderia ajudar de Lattre se por acaso ele fosse 
nomeado para a Indochina.  
- Vamos ver. Meus respeitos  sua mulher. At logo, Tavernier...  
Charles e Adrien disputavam o privilgio de empurrar o carrinho de Camilie.  
-  minha irm! - gritava um.  
-  minha noiva! - berrava o outro.  
Franois e La tinham dificuldade para que eles se entendessem. 
Camille era um beb calmo e gluto, que La cedo teve de renunciar a alimentar, por falta de leite. A 
maternidade a embelezara. Nunca estivera to bonita, desabrochara tanto!  
Uma noite em que passeavam pela colina de Verdelais, mais de um ms aps o nascimento de Camille, Franois 
tomou La com delicadeza na relva, sob um carvalho. Um prazer ao mesmo tempo doce e violento envolveu a 
jovem mulher. Seus gritos foram logo abafados pelos beijos do marido. A lua clareava o corpo semidesnudo de 
La, na posio impudica em que a havia deixado o prazer.  
Acima dos amantes, as trs cruzes do calvrio pareciam proteg-los. Eles adormeceram. Um vento leve os 
despertou. Ao longe, para os lados de Landes, alguns relmpagos riscavam o cu.  
- Vai haver uma bela tempestade aqui - constatou La.  
- Regressemos.  
- No, quero ficar. Adoro a tempestade. Quando ouo o trovo, tenho toda a sorte de desejos.  
- Pequena pag!  
Os relmpagos se tornaram mais numerosos, o ronco do trovo cada vez mais perto. Um golpe violento 
estremeceu o solo.  
- Esse raio no caiu longe.  
Logo, grossas gotas de chuva morna comearam a cair. Os relmpagos se sucediam, brancos, violeta, verdes, 
amarelos... A cada um deles o campo surgia, bao. La se levantara e corria sob a chuva, braos e rosto 
erguidos. Franois seguia a silhueta danante. "Como  bonita!"  
- Tenho cinco anos!... Tenho dez anos!... Tenho quinze anos!... - gritava ela, girando.  
Ela deslizou sobre a terra molhada. Franois arremessou-se a ela.  
- Voc se machucou?  
O riso de La, um riso alegre, o tranqilizou.  
- Quando era pequena, nos dias de tempestade, ficava insuportvel. Papai dizia que era preciso me amarrar. 
Apesar de sua vigilncia e da de mame, eu conseguia sempre escapar para o jardim e correr para as vinhas. L, 
danava sob a chuva, gritando 
canes ou cnticos. Algumas vezes, Mathias vinha se juntar a mim, mas eu lhe dava medo. Como um bom 
campons, ele temia a tempestade. Dizia que eu era uma feiticeira e que na Idade Mdia teriam me queimado. 
Gostava muito da idia de ser uma feiticeira. Eu me esgueirava entre as parreiras. Muito tempo depois me 
encontravam dormindo, coberta de lama, numa valeta, com a boca cheia de terra... Sempre adorei o gosto da 
terra. Voc no?  
Juntando o gesto  palavra, ela levou um punhado de barro aos lbios. Franois a observava, to bonita 
apesar dos cabelos escorridos pela chuva, do rosto sujo de lama, inquietante e desejvel. La percebeu o 
efeito que causava nele. Desabotoou lenta- mente o corpete do vestido e, pegando os seios pesados com as 
palmas das mos, esfregou-os no solo antes de os entregar a ele.  
Os lbios de Franois se apoderaram de um mamilo, que ele mordeu. Sua boca se encheu de um sabor acre de 
terra, de leite e de sangue misturados. Ela gritou:  
- Com mais fora... Com mais fora!  
Ele se deixou cair sobre ela, torcendo os seios trgidos. Com brutalidade, abriu as pernas de La e enfiou um 
punhado de lama no sexo aberto.  
- Voc gosta da terra, hem, sua putinha? E a, tambm gosta?  
Eles ficaram imveis durante muito tempo sob a chuva morna, que lavou seus corpos manchados.  
Os dias que se seguiram foram os de dois animais no cio. Faziam amor toda vez que eram tomados pelo desejo. 
Mais de uma vez, foram surpreendidos por Alain, Franoise ou Ruth, que se retiravam, embaraados. Tinha-se 
a impresso de que queriam recuperar o tempo perdido. Quando no estavam fazendo amor, ocupavam-se dos 
filhos e no deixavam de os contemplar. Franois, louco pela filha, no suportava o menor choro da menina. 
Logo que ela chorava, tomava-a nos braos, apesar das censuras de Ruth, que dizia:  
- Se continua assim, senhor Franois, ela vai se tornar to geniosa quanto a me.  
- Est dizendo bobagens, querida Ruth; essa criana precisa de carinho. Se chora,  porque est com medo, e no quero que tenha medo! Sofro bastante 
quando La tem pesadelos; no quero isso para minha filha.  
Quanto a La, precisava conviver com a suscetibilidade de Charles, que estava com um pouco de 
cimes de Adrien. Mas soube faz-lo compreender que ele era para ela como um filho. Assim, o 
menino fazia com seriedade o papel de mais velho e no parava de dar conselhos ao caula, que s 
fazia o que lhe dava na veneta.  
Era a felicidade reencontrada que uma chamada telefnica veio de repente perturbar.
- Al, Tavernier?
- Sim, quem fala?
- De Lattre.
- O general?
- Sim, grandessssimo idiota.
- Perdo, general.
- Voc est bem a na sua Gironda?  
- Sim, general.  
- E sua mulher?  
- Vai bem, general, agradeo-lhe.  
- E seus filhos?  
- Minha filha acaba de nascer, general.  
- Parabns, Tavernier. Esteja amanh em meu escritrio, 4 bis, bulevar des Invalides. Preciso de 
homens como voc.  
- Mas...  
- At amanh, Tavernier.  
Franois contemplava o telefone com ar aturdido. Era uma brincadeira! E de mau gosto... Ele 
desligou com violncia... Uma brincadeira?... Como todos, ouvira dizer que o general de Lattre seria 
nomeado comandante das Foras Armadas na Indochina. Mas ainda no o era...  
O telefone tocou novamente. Ele atendeu.  
- Al, o senhor Tavernier, por favor?  
- Sou eu! - respondeu falando alto.  
- Eu lhe passo o presidente Bidault. 
A voz do idoso chefe do governo chegou at ele:  
- Tavernier?  
- Sim, senhor presidente.  
- Falou com de Lattre?  
- Ah, ento foi o senhor...  
- Eu lhe disse que o senhor no ficaria muito tempo se ocupando de seus negcios...  
- No h possibilidade de eu retornar para l!  
-  seu dever, senhor Tavernier. A Frana precisa de homens como o senhor.  
- Pare, por favor, poupe-me essa lisonja! A Frana no precisa de homens como eu. Precisa de 
paz!...  
- O senhor pode contribuir para que se d essa paz...  
-  muito tarde.  
-  preciso ao menos tentar...  
- Em 45-46  que se deveria ter tentado tudo, senhor presidente. Mas nessa poca o senhor 
pensava de outra maneira.  
- Senhor Tavernier!  
- O senhor Pleven, o atual presidente do Conselho,  da mesma opinio?  
- Sim, e todos, como os senhores Letourneau, Queuille, Mitterand...  
- No o conheo!  
-  o atual ministro do Ultramar.  
- Eu lhe desejo bastante coragem.  
- O que o senhor respondeu ao general?  
- Ele no me deu tempo de responder.  
- Isso no me espanta. Quando lhe falei do senhor, ficou entusiasmado.  
- Agradeo-lhe o elogio.  
- Quando o espera?  
- Amanh.  
- Ele tem pressa em sua tarefa. Acho que o governo proceder bem dando-lhe plenos poderes na 
Indochina. At logo, senhor Tavernier! Meus cumprimentos  senhora Tavernier.

Captulo 4

Franois Tavernier foi recebido pelo novo presidente do Conselho no ms de outubro de 1950. Ren Pleven
era quase to alto quanto Franois. De fleuma britnica, esse robusto breto trajando um sbrio terno preto era 
dos que pensavam que o assunto indochins estava decididamente mal encaminhado e valia mais a pena sair 
com o menor desgaste possvel.  
- O presidente da Repblica me deu a conhecer a misso que lhe confiou. Penso que  seu dever voltar para l. 
- O que disse?  
- Que a senhora Tavernier e seus filhos poderiam acompanh-lo, se o senhor quisesse.  
-  uma loucura.  
- Por que, senhor Tavernier?  
- Aquele pas est em guerra, uma guerra total contra os franceses. Todo dia cidados franceses so 
assassinados pelos vietcongues diante da indiferena geral. Eu mesmo, sou procurado por eles...
- Com o general de Lattre, no ter nenhum problema. Quando dever encontr-lo?
- Daqui a pouco.  
- Tenho certeza de que ele saber convenc-lo. Antes de tudo, trata-se de saber o que so realmente os 
vietcongues.  um movimento composto de patriotas convictos que lutam pela independncia, ou constitui um 
movimento interposto entre o nosso e outros pases, os quais, para a realizao de um grande projeto, tm 
necessidade de fixar na Indochina o mximo de foras? A resposta s pode ser dada pelos prprios 
vietcongues.  
- Se me permite, senhor presidente, posso lhe dar uma parte da resposta: o vietcongue  constitudo de 
patriotas convictos e de membros do Partido Comunista, tambm convictos, O problema no Sudeste da sia  
mais poltico que militar. Se bem que real, mas no determinante, a ajuda da China impede uma vitria rpida de 
H Chin Minh. Tal vitria permitiria efetivamente aos vietcongues libertar-se da tutela chinesa. A China s 
colocar os vietcongues em situao de ganhar quando o tiver colonizado inteiramente, e I-I Chin Minh 
sabe disso. Por seu lado, os Estados Unidos se comportam com a Frana da mesma maneira. Sua ajuda militar  
Indochina  dada num ritmo que mantm a Frana em situao de pedinte. O problema indochins tira do 
governo francs toda a liberdade de deciso...  
- Senhor Tavernier!  
- ...assim como a China, os Estados Unidos e alguns meios franceses se dedicam a prolongar a guerra do Vietn 
na esperana de assegurar a vitria... e o poder... para seus protegidos. Ento, 
- Senhor presidente, no tenho nenhuma inteno de partir novamente para a Indochina. Tenho de me ocupar 
de meus prprios negcios.  
- Compreendo muito bem, senhor Tavernier, mas existem interesses superiores.  
- O senhor v dizer isso  minha mulher.  
Ren Pleven reprimiu um sorriso.  
- Tenho certeza de que a senhora Tavernier lhe dar coragem. Durante a guerra sua mulher mostrou uma 
coragem rara...  
- Justamente, ela fez o que bem poucos franceses fizeram naquela poca. Merece agora viver em paz.  
- Compreendo. Mas ela poderia acompanh-lo. 
de fato, o Ocidente, a China e os pases do Sudeste asitico necessitam, para sua segurana, de um Vietn 
independente. Essa independncia s a paz pode hoje em dia assegurar. O prolongamento da guerra far 
inevitavelmente de H Chin Minh um vassalo de Mao, e de Bao Dai um fantoche americano. A Frana ento 
ter perdido tudo. A Frana reconheceu solenemente a independncia do Vietn. Deve, de agora em diante, 
adaptar seus atos s palavras, deixando o povo vietnamita escolher livremente seu destino...  
- Escolher o comunismo!  
- Eu lhe direi, senhor presidente, o que disse ao senhor Bidault: E da?... Apesar do problema se ter tornado 
internacional, seus dados fundamentais permanecem antes de tudo vietnamitas. Alguns se admiram de que 
depois de cinco anos de lutas no se tenha obtido nenhum resultado decisivo contra essa "rebelio". Do 
prova, portanto, de que no entenderam nada da exata natureza do movimento vietcongue. Foi dito que se 
tratava de um movimento comunista cuja fora se baseava no terror. Isso no explica por que cinco mil 
militantes do partido, em 1945, tenham podido sublevar uma nao de vinte e trs milhes de almas, formar um 
governo que administra regies inteiras e um exrcito do qual todos os testemunhos nos dizem que luta 
fanaticamente. Isso no d maiores explicaes por que dezenas e dezenas de milhares de vietnamitas, sem 
nenhuma ligao com o comunismo, pegaram em armas contra ns e entraram nessa luta.  preciso reconhecer 
a verdade, mesmo que seja desagradvel para alguns: se os homens do Partido Comunista puderam conservar 
a direo do movimento de independncia nacional vietnamita, o qual eles esto longe de haver criado,  
porque se revelaram os mais eficazes e os mais clarividentes.  
- Senhor Tavernier, poder-se-ia pensar que o senhor  um deles!  
- Eu sei, muitos pensam isso. Mas posso lhe assegurar, senhor presidente, que no  nada disso. Conheo os 
crimes de Stalin e a opresso que o partido faz pesar sobre seus membros. Todavia, a luta do povo vietnamita 
pela independncia se parece com a de todos os povos que combatem por um destino livre.  preciso 
compreender 
que em torno do ncleo de militantes do partido comunista indochins, do qual uma frgil minoria foi formada 
na Rssia ou na China, se aglutina a quase-totalidade dos que tiveram contas a ajustar com a Segurana Geral 
do Governo, por terem ousado sonhar com a independncia sob a Terceira Repblica. No se imagina muito, 
na Frana, o prestgio que valeu aos nacionalistas vietnamitas as prises polticas ou os trabalhos forados. E 
os que, em 1945-1946, acreditavam humilhar o adversrio tratando-o como "fugido de Poulo Condor" no 
duvidavam de que esse nome soava, aos ouvidos dos vietnamitas, como Dachau ou Ravensbrck aos 
nossos...  
- Senhor Tavernier!  
- Sim, senhor presidente. L onde os colonos viam os trabalhos forados, os vietnamitas viam os patriotas, os 
homens que sofreram pela libertao de sua ptria, que haviam provado o que diziam, enquanto outros ficavam 
apenas em conversas. Todas as propagandas do mundo no puderam ainda fazer com que o povo vietnamita 
colocasse em dvida a sinceridade do patriotismo daqueles que assumiram o risco dos trabalhos forados ou 
da clandestinidade perseguida. Sem dvida os vietcongues so culpados de terrveis excessos, violncias ou 
crueldades, mas, desde 1946, sempre souberam dar como motivo disso as razes de defesa nacional. De resto, 
reconheceram os erros "esquerdistas" e acabaram por admitir que a moderao era em geral muito gratificante. 
Entretanto, h um ponto extraordinrio nessa histria:  
como a Frana pde consentir, durante cinco anos, em tais sacrifcios? Como pde comprometer suas finanas 
a esse ponto, hipotecar a poltica externa, enfraquecer o exrcito por tal motivo?  
- Basta, senhor Tavernier!  
- A opinio pblica francesa jamais teve conhecimento de todos os dados reais do problema. Cada partido 
apresentou seus argumentos antes de procurar os fatos. Nesse assunto, em que tudo dependia dos homens, 
preferiu-se invocar os princpios, as ideologias, as palavras de efeito, com desprezo aos fatos; adotou- se em 
segredo, ao abrigo dos olhares indiscretos da opinio pblica, uma poltica que surpreende pela falta de 
abertura e de inteligncia. A opinio pblica,  certo, estava mal preparada para 
admitir a transformao progressiva da Unio francesa. Mas a Inglaterra estava mais preparada, em 1947, para 
concordar com a independncia da ndia, a "Jia do Imprio"?*  
Franois se calou, com a testa coberta de suor.  
- O senhor terminou, senhor Tavernier?  
- Sim, senhor presidente.  
- Para um homem que diz no estar interessado nos assuntos indochineses, mas nos seus, o senhor est 
singularmente bem informado do que se passa por l. Se eu no soubesse da estima que o general Leclerc tem 
pelo senhor, pensaria, como j lhe disse, que o senhor est com nossos inimigos. O senhor tem uma maneira
de tomar a defesa dos vietcongues que poderia parecer suspeita a mais de uma pessoa. Acho que o general de
Lattre, se for nomeado, ter no senhor um recruta precioso, mas nada fcil de controlar. Adeus, senhor
Tavernier. Estou feliz por conhec-lo e lhe agradeo esse curso magistral de poltica asitica.  
- Adeus, senhor presidente...  
Deixando a rua de Varennes, Franois sentia-se eufrico. Que necessidade tivera de falar em linguagem to 
enftica diante de Pleven? A quem procurara convencer, ao presidente do Conselho ou a si prprio?  
Para se acalmar, subiu o bulevar Saint-Germain e se instalou na varanda do Caf de Flore. O outono estava 
suave, as mulheres bonitas; Paris revivia. Duas jovens asiticas, estudantes sem dvida, acabavam de se 
sentar  mesa vizinha  sua. Sem querer, ele escutava sua conversa, em vietnamita.  
- Tem notcias de Van Co?  
- No, ele teve de voltar para Saigon.  
- Teve muita sorte naquele assunto.  
- Aquilo custou trs milhes de francos.  
-  verdade, mas reconhea que a informao valeu a pena e que o exrcito francs perdeu a considerao 
devido a esse acontecimento.  
- Sim, felizmente no colocaram em ao as propostas do general Revers.  
- No foi por falta de tentar. Revers encontrou-se com o presidente do Conselho e com vrios ministros; 
nenhum teve coragem de aplicar suas propostas. Ele compreendera que era preciso realizar operaes 
antiguerrilha para pr em xeque nossas tropas. Felizmente, no foi entendido. Mas homens como o general 
Valluy sabiam que ele tinha razo.  
- Voc acha que de Lattre vai se inspirar no relatrio Revers?  
- Espero que no. Enquanto esperamos, ganhamos cada dia mais terreno, e as ofensivas que se preparam vo 
expuls-los do Tonquin.  
- Quando voc volta?  
- Estou esperando as ordens e o debate sobre a Indochina na Assemblia Nacional... Veja, a Guarda 
Republicana...  
As duas jovens se levantaram, como a maior parte dos outros clientes. A guarda em uniforme solene passou 
em passo acelerado, precedendo uma suntuosa limusine.  
-  o sulto do Marrocos - disse algum perto de Franois.  
As pessoas que passavam pararam para ver desfilar o cortejo.  
-  lamentvel - resmungou um velho senhor condecorado - exibir assim um turco desses com as honras 
devidas a um chefe de Estado!  
- Pobre idiota! - deixou escapar Franois.  
O senhor condecorado ficou plido, depois vermelho; teve de se sentar e abrir o colarinho da camisa para 
poder respirar.  
As duas vietnamitas observaram Franois se afastar.  
Enervado, ele entrou no bar do Montana, na rua Saint-Benit. L, uma jovem mulher morena saltou-lhe no 
pescoo.  
- Franois, no me reconhece?  
- Viviane!  
- Pensei que tinha morrido!... Quanto tempo faz? No, no diga nada, no ligamos para o tempo que passa... 
Voc est ainda mais sedutor que antes... Esteve preso?... No, se bem o conheo, teria fugido... Voc se uniu 
novamente a de Gaulie?... 
Est em Paris h muito tempo?... Mora neste bairro?... Est casado?... Tem filhos?... Que tal?... Como estou?... 
No envelheci muito?...  que durante dois anos as coisas foram difceis... Voc me oferece uma bebida?...  
Essa valente Viviane no mudara: ele no teve tempo de dizer nada! Isso lhe permitia pensar em outras coisas. 
Habitualmente, teria fugido, mas hoje a presena de uma mulher bonita era necessria para que esquecesse a 
entrevista com Pleven: aproveitaria o bate-papo.  
- Com prazer. O que quer beber?  
- Um usque.  
- Dois, por favor.  
Sentado no bar, Franois observava a companheira. Havia qualquer coisa que a marcara irremediavelmente. 
No eram somente os anos mais, no. Alguma coisa de mais profundo, de doloroso. Ele se condoeu com os 
fios brancos na cabeleira escura. Ela esvaziara o copo num trago.  
- Michel, outro, por favor.  
- Senhorita Viviane, no deveria beber assim.  
- Me deixe em paz. Isso no  da sua conta.  
O barman encolheu os ombros e colocou diante dela a bebida pedida.  
- Est livre para jantar? - perguntou Franois.  
- Para voc, sempre, meu querido.  
- Aonde quer ir? No conheo mais os bons lugares.  
- Vamos ao Lipp,  dia de rosbife.  
A clebre cervejaria no mudara nada depois da guerra. Os afrescos de faiana do pai de Lon-Paul Fargue 
estavam sempre novos, os garons, em grandes aventais brancos, sempre muito geis, e o senhor Cazes, fiel 
em seu posto.  
- Bom dia, senhorita Viviane. Sua mesa est livre.  
- Obrigado, senhor Cazes.  
Um maftre os conduziu a uma mesa da qual se via a entrada e sada dos fregueses.  
- Gosto muito de vir aqui,  como se participssemos do espetculo. Toda a comdia humana se apresenta 
aqui. Fao parte 
da pea, mesmo sendo apenas espectadora. Tomamos uma garrafa do bom Bordeaux?  
Durante a refeio, ele pediu uma segunda.  
- Antes voc no bebia tanto.  
- Antes - disse ela rindo.  
Ela se inclinou para trs. Seu riso soava falso. Com as duas mos levantou os cabelos; as mangas do leve 
tailleur escorregaram pelos braos, revelando pulsos marcados por cicatrizes e nmeros tatuados. O corao 
de Franois ficou apertado. Viviane soube que ele havia compreendido. Abaixou as mangas.  
- Sim, antes!... Antes que me colocassem num bordel...  
- Eu sei o que voc enfrentou, no fale nisso.  
- Voc  como os outros, tem medo de ouvir a verdade. Fizeram de mim uma prostituta. A neta do senhor 
Duque  uma prostituta! Meu antepassado, o cardeal, deve estar dando voltas no tmulo, e minha boa av, a 
santa carmelita...  
Franois tomou-lhe o brao e o apertou com violncia.  
- Pare, est doendo!  
- Ento, cale-se. Histrias como a sua j ouvi muitas. Repeti-las no serve para nada. Olhe para as coisas  
frente: voc est viva, e isso no tem preo.  jovem,  bela, e, se me lembro bem,  rica. Ento, viva, meu Deus, 
viva!  a sua maneira de se vingar. Mostre, sendo feliz, que eles no a destruram...  
- Estou destruda...  
- No diga isso. Enquanto viver, no haver destruio.  
- Voc no sabe do que fala!  
- Bem que gostaria - disse ele, de repente muito cansado. - Garom!  
- Pois no, senhor.  
- Champanhe, por favor. Celebremos nosso retorno  vida!  
- Agora sim. Hei! Juliette! Anne Marie! Venham beber conosco. Eu lhes apresento um antigo namorado: 
Franois Tavernier. Franois, eis aqui as musas da rua Saint-Benoit, as rainhas de Saint-Germain-des-Prs: 
Juliette Grco e Anne-Marie Cazalis...  
Depois de esvaziarem duas garrafas de champanhe, Viviane propusera que terminassem a noite numa boate do 
bairro. 
No subsolo enfumaado, um jovem alto tocava pistom de olhos fechados, enquanto um negro com belo rosto 
encovado o acompanhava em outro pistom, com surdina.  
- Bons Vian e Miles Davis - disse Viviane com admirao. Depois de tocarem, os dois msicos vieram para a 
mesa deles. Todos bebiam, riam, fumavam. A guerra estava longe...  
Viviane morava num grande apartamento, na rua Bonaparte.  
- Venha tomar uma ltima bebida.  
Bbado e feliz de estar assim, Franois aceitou.  
- Instale-se confortavelmente,jvolto. Ponha um disco. Meus pais me deram um novo aparelho.  s apertar o 
primeiro boto.  
Franois obedeceu. A voz rouca de uma cantora negra americana invadiu o ambiente. Ele se deixou cair num 
imenso sof. Viviane voltou com uma garrafa de champanhe e dois copos. Trocara o traje de freqentadora de 
Saint-Germain-des-Prs por um penhoar que no deixava ignorar nada do corpo.  
- Abra a garrafa - ordenou, estendendo-a para ele.  
Ele derramou o champanhe nos dois copos.  
- A nossos amores! - exclamou ela levantando o seu.  
Quando acordou, Franois teve a sensao de que tinham lhe dado socos na cabea; a garganta seca lhe fazia 
mal. Abriu penosamente as plpebras. A luz muito forte o fez fech-las novamente. "Merda! Que horas so?", 
pensou. Reabriu os olhos com precauo. Nos travesseiros em desordem repousava uma cabeleira escura. Ele 
se ergueu pesadamente e olhou em volta de si.  
- Que idiota! - murmurou.  
Levantou-se com a impresso de que a cabea ia estourar. No banheiro, foi para o boxe e abriu todo o registro 
de gua fria. Ele deu um rugido. Pouco a pouco se sentiu reviver. Bebeu um pouco d'gua; depois se secou e 
olhou no espelho. Que cara horrvel!  
- Ah, que porre!  
Descobriu no espelho o rosto amarrotado de Viviane.  
- Tome uma ducha tambm, isso lhe far bem.  
- Sim, voc tem razo. 
Ela se agachou no boxe como um pequeno animal enregelado. Franois abriu a torneira completamente. Ela 
gritou.  
- Seu sdico!... Est gelado!... Feche isso!... Por favor!...  
Comeou a chorar. Ele teve pena dela e fechou a torneira. Envolveu-a num penhoar e a friccionou com energia.  
- Tenho horror de gua fria - balbuciou ela, batendo os dentes.  
De cabelos molhados e olheiras, ela parecia um gatinho molhado.  
- No me olhe assim, estou horrvel.  
Bateram  porta.  
- Entre. Eu no sabia o que voc ia tomar. Pedi ch e caf. Est certo?  
Uma jovem empregada entrou, trazendo uma pesada bandeja de prata.  
- Obrigado Josette, pode colocar na cama.  
- Sim, senhorita.  
- H correspondncia?  
- Sim, senhorita. Est na bandeja. Seu pai telefonou duas vezes. Eu lhe disse que a senhorita estava dormindo. 
Ele pede que ligue de volta.  
- Quero que esse velho colaboracionista se dane!  
- Senhorita!  
- Cale-se! Voc tinha acabado de nascer, no pode saber. Que se dane!  
- Dizem que o tempo perdoa tudo.  
- Perdoar a deportao de crianas judias e a minha, depois de me haver mandado prender para me dar uma 
lio? Como quer que eu perdoe isso?  
A jovem saiu enxugando os olhos.  
- Que idiota! Ela imagina que meus pais so pessoas boas, porque a recolheram quando os seus morreram. Ch 
ou caf?  
- Caf.  
Ela o serviu, e durante um longo momento comeram em silncio.  
- O que seu pai fazia durante a guerra?  
- Ocupava-se do setor de compras, entende o que eu quero dizer? 
- Muito bem.  
- Era ligado a Jean Jardin, Ren Bousquet, Robert Brasillach. Com alguns colegas de Janson-de-Sailly, fazamos 
um pouco de mercado negro e levvamos mensagens para a Resistncia. Meu pai soube disso. Teve medo de 
que eu fosse presa. Ento disse a um de seus amigos da Gestapo que a filha estava se envolvendo com 
terroristas e que era preciso dar a impresso de que eu seria presa para me dar uma lio. Depois me obrigaria a 
voltar para o caminho certo. Mas a coisa no se passou como ele pensava. A Gestapo veio me prender. No 
comeo me fizeram perguntas com delicadeza, depois me bateram, queimaram os seios e me jogaram numa 
banheira de gua gelada... Meu pai veio me ver. Ficou louco quando viu o estado em que os amigos me haviam 
deixado. Ele gritou, tentou intimid-los, ameaou com intervenes de pessoas influentes. Os outros o ouviam 
rindo. Quando foi embora, havia envelhecido dez anos. No dia seguinte me colocaram num trem para 
Compigne. Fiquei ali dois meses. Durante esses dois meses, meu pai moveu cus e terras, sem sucesso. A 
ltima vez que o vi, minha me estava com ele. Ah, eles tinham perdido a arrogncia, esses aristocratas do 
bairro de Saint-Germain! Trs dias depois parti para a Alemanha... Que belo pas!... To acolhedor!... Flores, 
msica na chegada ao campo, um lugar de sonho... Fiquei ali at o fim da guerra, depois de ver morrer uma a 
uma minhas companheiras... Havia uma de quem eu gostava muito, Rachel, era judia, tinha quinze anos. Ns 
dividamos tudo. No bordel, eu a consolava quando os alemes tinham sido muito repugnantes. Um dia vieram 
buscla. Quando voltou, estava abobalhada; havia uma grande ferida no ventre, que no parava de sangrar. Eu 
a beijei, falei com carinho... Ela gemia como uma criana doente... Disseram que haviam feito experincias com 
ela. Eu no queria acreditar, ela era to jovem, to bonita... Morreu nos meus braos, chamando pela me... 
Isso, a morte de Rachel, eu no posso aceitar. E por essa morte que meu pai tem de pagar. Apenas pela morte 
de Rachel...  
Depois que contou tudo, Viviane chorou. Franois a escutara sem interromper; pensava em Sarah. As mesmas 
palavras para descrever o horror... As mesmas palavras...

Captulo 5

O general de Lattre andava de um lado para o outro no escritrio do
4 bis, bulevar des Invalides. Parou bruscamente na frente de Franois  
Tavernier, sentado a uma pequena mesa diante de uma janela.  
- Se o entendi bem, Tavernier, estamos perdendo tempo l, e o melhor que podemos fazer  arrumar armas e 
bagagens e vir embora?  
- Minha proposta pode ser assim resumida.  
- Eu no esperava isso da parte de um homem como o que me descreveram nossos servios secretos na 
Argentina.  
- Receio o pior, general.  
- L, voc no hesitou em tomar a defesa de seus amigos judeus, contra a opinio do embaixador da Frana, e 
em participar de aes de resgate.  
- Sem dvida, exageraram muito minha ajuda aos caadores de criminosos de guerra nazistas, general.  
- Eu acreditaria antes que minimizaram seu papel para no embaraar as relaes entre os dois pases: apesar da 
acolhida corts e com deferncia das autoridades militares na minha chegada a Buenos Aires, em outubro de 
1948, constatei imediatamente 
que as relaes entre o governo e nossa embaixada eram de grande frieza. Lembrana da influncia alem e 
hostilidade dos meios franceses ao governo de Pern eram seguramente as causas...  
- General, o senhor no vai igualmente me culpar por essa frieza?  
- No, mas suas proezas tinham irritado muito o general Pern e sua encantadora esposa...  
- General, se acredito nos meus amigos argentinos presentes  recepo que o senhor ofereceu na embaixada 
ao general e  bela Evita, no se pode dizer que procurou acalmar a irritao deles fazendo-lhes ouvir O canto 
dos guerrilheiros por sua criadora na BBC, Anna Marly...  
- Ah, voc ouviu falar?... Se visse a cara deles quando toda a platia se levantou de novo, como se fosse para a 
Marselhesa, para ouvir a msica da Resistncia! Um grande momento...  
Os dois homens se olharam sorrindo, com ar de conivncia.  
- Tavernier, preciso de homens como voc. Se eu aceitar essas altas responsabilidades, preciso contar com 
voc. Voc far parte de meu staff Encontrar Gauthier e Aurillac, so antigos colaboradores do almirante 
Decoux, bem conhecidos por l...  
- Mas, general...  
- At logo, Tavernier.  
Franois se reencontrou no bulevar des Invalides, furioso consigo. Em que apuros se metera?  
A cpula des Invalides brilhava ao sol de outono. As folhas amareladas das rvores caam girando; o ar havia 
conservado uma doura de fim de vero. Escolares passavam se empurrando aos gritos e risos. Perdido em 
seus pensamentos, Franois percorria o bulevar Montparnasse. Diante da estao, soldados subiam a bordo 
de caminhes militares.  
- Pobres garotos - disse uma mulher perto dele - esto partindo para a Indochina.  
Ele parou para olh-los. Como eram jovens, atrapalhados em seus uniformes muito novos! Os suboficiais que 
os comandavam no eram to mais velhos. Esse encontro acabou por deprimi-lo. 
Ele entrou no La Coupole e pediu um conhaque. Encostado ao bar, observava sem ver os clebres afrescos 
dos Anos Loucos, aqueles do tempo em que Picasso, Modigliani, Aragon e os outros se reuniam ali para 
reformar o mundo. No segundo conhaque se deu conta de que estava com fome e se dirigiu para o restaurante. 
Pediu duas dzias de ostras e uma garrafa de Chablis. Notou que muitas mulheres elegantes almoavam 
sozinhas. Pensou em La. Como ela receberia o pedido do general de Lattre? Esse pensamento lhe tirou o
apetite. Empurrou o prato.  
- As ostras no esto boas, senhor? - perguntou o garom.  
- Esto excelentes, agradeo, mas perdi a fome. Traga-me um caf e a conta.  
- Sim, senhor.  
Ele seguiu direto, indiferente aos olhares das jovens mulheres, que se voltavam para ver aquele homem esguio, 
de rosto bronzeado, traos firmes, andar gil, ligeiramente irregular. Atravessou o bulevar em frente  Closerie 
des Lilas. Muitas vezes, quando estudante, vinha a em companhia de Hai. A lembrana do amigo acabou por 
deprimi-lo. Entrou no estabelecimento, e pediu um conhaque e um charuto. Como dizer a La? Pior ainda, ela 
quereria acompanh-lo...  
- Voc est com ar bem pensativo, Tavernier.  
- Sainteny! Voc me colocou em apuros falando de mim com de Lattre!  
- Voc o encontrou?  
- Esta manh.  
- E ento?  
- Quer que eu faa parte de sua equipe.  
- Excelente! Voc  um homem muito requisitado. Meu exsogro, o,presidente Albert Sarraut, tambm deseja 
encontr-lo.  
-  muita honra!  
- O que est fazendo agora?  
- No tenho nada previsto.  
- Vou lev-lo  Assemblia. Mends vai fazer um discurso a respeito da Indochina.  
- Vamos para a Assemblia Nacional. 
Eles se instalaram no momento em que o presidente, do alto de seu "poleiro", dizia: "A palavra 
est com o senhor Mends France."  
- Minhas senhoras, meus senhores - comeou o deputado da Eure -, num debate como este  
mais fcil no dizer nada. Mas h muito tempo eu concordo com isso, acreditei que o 
silncio era no apenas a atitude mais cmoda mas tambm a mais racional, a que melhor 
poderia servir ao interesse nacional... Hoje, falando em meu nome quero afirmar que, na 
minha opinio, se tornou mais perigoso esconder a verdade do pas, continuar a engan-lo e 
deix-lo julgar com os nervos ou as paixes o que deve ser julgado  luz de uma situao 
geral, interna e externa, cada vez mais preocupante. Confessemos francamente, olhos nos 
olhos: existem razes prementes e angustiantes tanto para nos recomendar a permanncia na 
Indochina...  
- No vejo quais! - murmurou Franois.  
- Silncio - ordenou Sainteny.  
- ...quanto para nos incitar a nos livrarmos dessa terrvel carga poltica, militar, econmica e 
financeira. Nenhum homem de boa-f, quando daqui a pouco depositar na urna um voto a 
favor ou um voto contra, desconhecer em s conscincia que existem tambm motivos 
respeitveis que militam contra sua opinio.  
A favor da continuao da luta na Indochina, existem argumentos dos quais ningum pode 
contestar o valor e o peso. Lembremos os sacrifcios feitos pela Frana, h cinco anos, num 
perodo no qual, entretanto, tanto necessitava de recursos para sua reconstruo, para seu 
reequipamento, para o nvel de vida de um povo que sofreu tanto durante a guerra. 
Lembremos nossos interesses materiais investidos na Indochina, interesses que desejamos 
salvaguardar. Lembremos... e isso nos emociona profundamente... a obrigao implcita, mas 
real, que assumimos a respeito dos vietnamitas que nos manifestaram fidelidade nesses anos 
de provaes. Enfim, ressaltemos que a guerra do Vietn no  seno um aspecto do conflito, 
de outra forma muito mais vasto, inserido em escala mundial. 
'.. fato que nossas foras, mesmo apoiadas por elementos locais, no podem obter um 
estatuto militar principalmente desde que a situao evoluiu na China; e  uma verdade que 
nossa poltica de concesses insuficientes, constantemente retomadas ou revogadas, no 
realizou e poder, infelizmente, realizar cada vez menos, agora, a unio da totalidade do 
povo vietnamita. Em conseqncia, esse  um ponto sobre o qual todos deveramos estar de 
acordo: isso no pode continuar dessa maneira!  preciso acabar com os mtodos que no 
resgatam nem a potncia, nem o hbito, nem a fora, nem a poltica, com ao 
constantemente imperfeita, equvoca, hesitante, e cuja falncia era muito conhecida antes at 
das dificuldades militares dos ltimos dias...  
- Enfim propostas realistas e corajosas! - disse Tavernier.  
- Da parte de Mends, no  de admirar! - cochichou Sainteny.  
"...No dissimulemos a verdade. No digamos, como j ouvi dizer ou li em alguns jornais, 
que podemos arrancar uma vitria militar na Indochina apenas com nossos efetivos atuais, 
com nossos meios atuais, graas a algumas reformas, a algumas mudanas de mtodos ou de 
homens. Isso no  verdade.  
"Sem nenhuma dvida, houve na Indochina.., sem dvida ainda h... desperdcios, crditos 
mal empregados, trficos custosos que deveriam ser reprimidos.  preciso dar um fim a isso; 
 preciso limpar as cavalarias de Augias! Mas saibamos que no ser apenas com esses 
meios que encontraremos a soluo para o problema atual...  
"No manteremos a Indochina, seus vinte e cinco milhes de habitantes, seus oitocentos 
quilmetros de fronteiras... sem falar das do norte.., apenas com tropas, apenas com os 
recursos de que dispomos atualmente l, mesmo que faamos as reformas administrativas, 
militares ou financeiras mais desejveis por outros meios...  
". . A outra soluo consiste em procurar acordo poltico, um acordo, evidentemente, com os 
que nos combatem. Sem dvida, isso no ser fcil, pois no conseguimos nem mesmo, se 
posso julgar pelas peripcias da conferncia de Pau, fazer um acordo 
com os que no nos combatem! (Sainteny e Tavernier trocaram um Sorriso.) Um acordo significa grandes 
concesses, sem dvida alguma mais importantes que as que teriam sido suficientes anteriormente. E a 
distncia que separar as perdas agora inevitveis das que teriam bastado h trs ou quatro anos dar a 
medida da paz que teremos, por causa de nossos erros imperdoveis... (Aplausos partiram das bancadas 
da esquerda.) Da mesma maneira que nossa moeda poderia ter sido salvaguardada, logo aps a 
Libertao, mediante austeridades relativamente leves... (Novos aplausos da esquerda.) Relativamente 
aos sofrimentos que o pas suportou desde ento, o saldo entre esses sofrimentos suportados e sacrifcios 
que nos sero ainda impostos, de um lado, e as medidas que infelizmente no implementamos na Libertao, 
por outro lado, representa o preo que pagaremos pela persistente fraqueza de nossa poltica econmica e 
financeira.  
Uma voz gritou no semicrculo:  
-  um acerto de contas!  
- Eu lhe agradeo, senhor Legendre, por elevar o debate! Minhas senhoras, meus senhores, pode-se recusar 
a soluo por mim evocada. Ela  de aplicao difcil, concordo. Consagrar renncias penosas e amargas 
decepes, depois de tanto sangue derramado em vo.  
"Pode-se recusar essa soluo...  
"Mas, ento, deve-se dizer a verdade ao pas;  preciso informar o preo que dever ser pago para se 
chegar  outra soluo. Triplicar as tropas!  a avaliao de militares bem informados. Voluntrios sero 
encontrados? De antemo, no se pode assegurar o revezamento. Sero recrutadas unidades no mesmo 
lugar? J foi tentado; mas nenhum elemento que nele se encaixe ser encontrado naquele lugar. Da por 
diante... j pensaram nisso?... s restar o contingente, os jovens do contingente. Eis a que uma soluo 
militar conduz inevitavelmente, se desejam que o esforo seja enfim eficaz, se desejam arrancar uma soluo 
pela fora.  
"No nos admiremos, senhoras e senhores, com essas perspectivas aflitivas. So as perspectivas comuns da 
guerra; pois as 
operaes que se desenrolam na Indochina so uma guerra. No se trata de uma dessas 
pequenas expedies coloniais que tivemos no sculo XIX.  a guerra.  
"Nunca, no curso da histria dos povos colonizadores, assistimos a uma expedio, dessa 
importncia.  
"...No tenhamos iluses... tantas tivemos nesses ltimos anos, as quais provocaram tantos 
dissabores... no podemosfazer tudo ao mesmo tempo: assegurar o rearmamento na Europa e 
guerrear no Oriente. Mais uma vez,  preciso escolher.  
"Ouo dizer que no mundo inteiro s existe hoje uma guerra, que no front da Indochina o 
Ocidente ainda defende sua segurana contra o perigo comunista. Aos que dizem isso 
pergunto se  do interesse europeu, se  do interesse francs, que nossas foras sejam 
fragmentadas, dispersas; se no , ao contrrio, necessrio que sejam reunidas em nosso 
solo, para sua defesa. Eu lhes pergunto, em todo o caso, se   Frana que deve competir 
essa tarefa longnqua e exaustiva, quando ela j est to frgil, depois de tantas 
experincias em seu prprio territrio metropolitano...  
'..Se amanh, que o diabo seja surdo, o pior acontecer se a guerra nos ameaar de novo, 
teremos sido responsveis perante o pas pelo afastamento de metade de nossas foras! 
Ressoariam, ento, nos ouvidos dos governantes anteriores a interpelao acusadora: 
"Varus, que fizeste de minhas legies? Varus, traz-me minhas legies!" (Alguns aplausos foram 
ouvidos.) Terminando, repito; uma coisa, em todo o caso,  certa: seria um crime imperdovel 
prosseguir na Indochina uma poltica cuja incerteza, equvoco e mediocridade vm nos 
custando to caro. E, fora dessa poltica, dois caminhos so possveis, e s dois. Os senhores 
devem escolher: no tm o direito de no escolher!  
"Eu me perguntei... dolorosamente... se meu dever hoje, nesta tribuna,  dizer, enfim, ou 
calar, outra vez, a verdade, toda a verdade.  
verdade, num momento em que tantos outros cuidados nos oprimem,  que no dispomos de 
meios materiais para impor na Indochina a soluo militar que l tentamos durante tanto 
tempo, quando era mais fcil de alcanar que agora. Ainda assim, no 
64 Rgine Deforges  
temos o direito de esconder por mais tempo do pas uma alternativa dramtica, porque 
interessa ao mesmo tempo  sua segurana, a seu equilbrio social e talvez mesmo  paz do 
mundo...  
Desta vez, os aplausos brotaram do centro, da esquerda e at da extrema esquerda. Mends France desceu da 
tribuna e voltou ao seu lugar, plido, abatido.  
- A palavra est com o senhor Girardot - retomou o presidente.  
Tavernier e Sainteny se levantaram.  
- O que achou desse discurso?  
- Muito longo. Principalmente, nenhuma proposta positiva  
- respondeu Franois. -  
- No concordo com voc - protestou Sainteny. -  preciso ter coragem para dizer o que ele disse.  
- Quando no se tem coragem, no se faz poltica.  
- Acho voc muito duro...  
- Duro!... Ento o que so os homens responsveis pela situao em que se encontram hoje a Frana e o 
Vietn? So uns fracos, uns incompetentes.  
- O que prope?  
- Nada, e quero que se danem. Voc e Leclerc  que deveriam ser ouvidos, em lugar do "Monge" e de Bidault.  
-  verdade que o almirante Argenlieu teve grande responsabilidade no desenrolar dos acontecimentos. A 
Histria julgar... Recebi esta manh um telegrama de meu sogro, Albert Sarraut, que preside a conferncia* de 
Pau. Ele estar em Toulouse na prxima semana e ficaria muito feliz se voc fosse v-lo.  
-  uma grande honra, mas por qu?  
- Falei de voc com ele. Ele conhece sua aventura indochinesa e no ignora que de Lattre deseja que o 
acompanhe. Acho que quer falar da Indochina e recomendar voc aos amigos franceses e vietnamitas que 
conservou por l.  
- Decididamente, todo mundo quer me fazer voltar para o fogo!  
- Qualquer que seja sua deciso, deve aceitar o convite do presidente Sarraut.  um homem excepcional, de 
grande inteligncia e grande probidade. Voc s tem a ganhar com esse encontro.  
- Sem dvida. Vou ver... Em primeiro lugar tenho de voltar para casa.  
Ao sair da Assemblia, Franois Tavernier props a Jean Sainteny jantar com ele, mas este no estava livre. 
Para matar o tempo, foi ao cinema ver Os visitantes da noite, que passava nos grandes bulevares, no 
Royal-Haussmann. Ao sair, cantarolava As folhas mortas. Comprou muitos jornais de um vendedor 
ambulante, que gritava: "Evacuao de Lang Son!..."  
Ele entrou no PamPan um bar simptico da praa da pra, freqentado por uma clientela muito jovem. Pediu 
um usque. Mas teve logo de abandonar a leitura dos jornais, deprimido pela descrio dos acontecimentos 
tonquineses.  
- O senhor permite? - perguntou um jovem sentado perto dele mostrando Lurore.  
- Por favor - disse ele, estendendo o jornal e pedindo um segundo usque.  
- Obrigado, eu quero saber como est o processo Henri Martin e Heinberger. Para mim Henri Martin  um heri 
- acrescentou o vizinho com uma ponta de provocao.  
- Pode-se v-lo dessa maneira.  
Perdido em pensamentos melanclicos, Franois bebericava lentamente.  
-  uma vergonha, oua o que escreve esse Jean BernardDerosne: "Um presidente que deixa dizer no importa 
o que a no importa quem. Que se compraz com os discursos que causam estupefao de conselheiros da 
Unio francesa vindos a Toulon em busca do pblico que no tm em Versalhes. No se ofendem com que se 
misture ao nome de Henri Martin, o segundo mestre sabotador, o de Estienne D'Orves. Que os mortos falem. At o general Leclerc, o mais inatacvel de todos. Que deputados, 
neste dia de debates na Cmara sobre 
a Indochina, tenham ido a Toulon apoiar os suboficiais de marinha que despejam p de esmeril no leo de 
lubrificao dos motores dos navios e concordam moralmente com a entrega da Indochina aos comunistas. 
Esse presidente que deixa um antigo almirante fazer a apologia do imperativo de conscincia e da 
desobedincia dos soldados, e nos anuncia a prxima chegada ao poder do governo do povo. E tambm esse 
vice-presidente do Senado que, com outros, afirma, ou quase, que o ato de Martin deve ser creditado a favor 
da Frana. E  um hipcrita o presidente, quando vem nos dizer gravemente, como se fosse um inefvel 
professor:         "Esse marinheiro  um elemento de aproximao com o povo vietnamita." Por que no um excelente 
alto-comissrio na Indochina? Sim, por que no? Eu no seria mais incapaz que os outros! Ele  inocente na 
sabotagem de que  acusado, mas teve a coragem de denunciar o que se passa por l!"  
- O senhor no tem a impresso de que ele pregou no deserto? - disse Franois.  
Seu interlocutor o olhou com ar de surpresa.  
- Perdoe-me, mas tenho a impresso de conhec-lo... Sim!... O senhor  o amigo de La Delmas. Sou Franck, o 
amigo de Laura... Franck Lagarde.  
- Bom dia. Eu pensava que o senhor estivesse na Indochina...  
- Estou de licena, fui ferido.  
- Por que o senhor se alistou?  
- Depois da morte de Luri, perdi o gosto por tudo, no suportava nem a famlia nem os amigos, tudo me 
parecia podre, sem sada. Precisava "mudar de ares". Foi por isso que na rua Saint-Dominique me alistei por 
trs anos nos pra-quedistas.  
- Por que nos pra-quedistas?  
- Por acaso. Eram os que partiriam mais depressa...  
- Isso lhe agradou?  
- No sei, mas muda o modo de ver as coisas.  
- Em que regio o senhor esteve? 
- No Tonquin.  
- Foi difcil para voc?  
- Sim, bastante. Tem visto La? Como vai ela?  
- Muito bem,  minha esposa. Temos dois filhos.  
- Parabns. Me daria grande prazer rev-la.  
- Ela est em Montillac. Venha nos visitar quando quiser. Tenho certeza de que ela ficar tambm muito feliz de 
rev-lo.  
- Obrigado, mas isso ficar para outra vez. Embarco amanh para Marselha.  
- D notcias suas. Bebe algo?  
- No, obrigado, j estou atrasado e ainda preciso visitar meus pais antes de partir. At logo, talvez. E lembre-
se:  preciso libertar Henri Martin!  
Franois pagou a conta e saiu. A multido de trabalhadores precipitava-se para o metr; a praa da pra 
estava obstruda pelos veculos, que buzinavam. Ele atravessou e desceu a avenida. Diante da rua Daunou, 
lembrou-se de um bar onde se reuniam os amantes do rgbi. Empurrou a porta do estabelecimento. O barulho e 
a fumaa o incomodaram.  
Ele entrou e foi at o balco. Uma espcie de gigante ruivo de colete escocs se aproximou:  
- O que o senhor deseja?  
- Um usque.  
- Escocs ou irlands?  
- Irlands.  
- Conhece a Irlanda? - perguntou o barman colocando o copo diante de Franois.  
- No.  
- Devia ir l.  
Franois balanou a cabea enquanto bebia, depois olhou em volta. Ficou surpreso de no ver nenhuma 
mulher. Quando o barman voltou, ele lhe perguntou:  
- O que aconteceu, que aqui no h nenhuma mulher?  
- O balco  reservado aos homens. As mulheres que vm sozinhas aqui em geral so prostitutas. A direo da 
casa s as aceita na sala dos fundos. 
Franois se levantou e foi dar uma olhada no local. De fato, em trs ou quatro mesas estavam 
sentadas mulheres jovens muito maquiadas e de pernas cruzadas.  
Alguns homens as olhavam de esguelha. Franois voltou ao seu lugar.  
- O senhor viu?  
- So encantadoras.  
- Se quiser... Na maior parte so boas moas.  
- Hoje no.  
Ao sair do Harris Bar, ele se sentiu um pouco "alto". Uma chuva fina comeou a cair. Um txi 
parou, e os passageiros desceram.  
- Est livre?  
- Para onde ?  
- Para o Lutecia.  
- Est bem, suba.  
Na recepo do hotel, ele encontrou um recado de La. Logo que chegou ao quarto, ligou para ela.  
- Al!  
-  voc!... Estou lhe procurando desde a manh. O que est fazendo?... Voc me faz falta... 
Quando volta?  
- Amanh... E as crianas?  
- No vai mais reconhec-las. Camilie j est uma verdadeira mocinha... Encontrou o general de 
Lattre?... Seu estado- maior no pra de telefonar... Espero que ele no esteja pensando em fazer 
voc voltar para l... Al! Est me ouvindo?...  
- Sim, sim, estou ouvindo.  
- Entendeu sobre de Lattre?... Al?... Responda!... Franois... Diga que isso no  verdade!... 
Pediram a voc que volte?... Responda!...  isso, no ?... No aceitou, no ?... Fale comigo!... 
Voc no ousa me dizer!... Voc no passa de um covarde!... Por que... por que?...  
- La, acalme-se... Al... Eu lhe peo, no chore... Nada est acertado, estarei a amanh... Eu lhe 
explicarei... Al... Al...  
Ela desligara. Ele ficou olhando para o aparelho com ar abobalhado. A campainha do telefone quase 
o fez saltar. 
- Al... Se voc for, eu tambm vou!  
- Mas...  
- Cale-se!  isso ou o abandono.  
- La...  
- Ouviu muito bem: se voc for, as crianas e eu vamos tambm.  
Ela desligou. Ele recolocou o fone com um sorriso, depois se estirou na cama, mos na nuca, sempre 
sorrindo. Que mulher! Ela faria o que acabara de dizer. Mas as crianas...  
Adormeceu.  
No dia seguinte voltou ao bulevar des Invalides. De Lattre estava ausente, e ele foi recebido pelo 
ajudante-de-ordens, ao qual deu a conhecer sua deciso.  
- Minha mulher e meus filhos me acompanharo se o general for nomeado para a Indochina.  
- Isso me parece uma completa loucura, mas o senhor  quem sabe. 

Captulo 6

- La!... La!...  tio Franois! - gritou Charles, irrompendo na cozinha. - Ele est com um carro lindo.
- Um carro? - exclamou Pierre, o filho de Franoise.  
Os dois meninos correram para o ptio, seguidos pelo pequeno Adrien. La, que dava mamadeira a Camilie, 
correu, por sua vez, ao encontro do marido. Diante da casa brilhava um esplndido automvel, reluzindo de 
novo, que fazia a admirao de homens, jovens e velhos de Montillac. Alain deu a volta com respeito.  
- Um Delahaye 135! Nunca vi um de perto - disse, admirado.  
- Deve custar uma fortuna - disse Franoise, abanando a cabea.  
- Por que no comprou um cup? - perguntou Charles.  
- Porque agora tenho uma famlia numerosa!  
- Ento, era melhor ter comprado um 175, que mede cinco metros. O motor tem vinte e seis cavalos, como o 135, 
mas ele desenvolve cento e vinte e cinco com um s carburador. Tem um bom desempenho na estrada, e, com 
os freios hidrulicos, pode- se andar com toda segurana.  
Franois olhou para Charles com admirao. 
- Como sabe de tudo isso?  
- Isso me interessa - respondeu ele, laconicamente.  
La se aproximou, trazendo a filha. Ela o olhou com tal intensidade, que lhe fez mal. Franois a tomou nos 
braos, deu um beijo na testa frgil do beb e beijou os lbios, que se estendiam para ele. O corpo de La 
tremeu contra o seu. Um desejo furioso o prendia a ela. Eles no conseguiam se separar um do outro. Franoise 
veio em socorro deles.  
- Me d a Camille, eu cuido dela...  
- Papai! - chamou Adrien, agarrado  perna do pai.  
Franois o levantou.  
- Bom dia, garoto.  
O menino agitou as pernas.  
- Quero andar no carro!  
- Mais tarde, querido. Eu levarei todos para darem uma volta. Voc vem, La?  
Na escada que conduzia ao quarto, eles paravam em cada degrau para se beijarem e se acariciarem. Apenas 
fecharam a porta, La escorregou para o tapete enquanto ele tirava a camisa e desabotoava a cala.  
- Vem - gemeu ela.  
Ele se deixou cair sobre ela, levantou a saia e afastou a calcinha de seda. Entrou de um s golpe no sexo mido 
como um um animal.  
- Senti sua falta, minha puta!  
- Voc  meu, ouviu?... No o deixarei partir nunca mais, preciso demais de voc... Quando no est aqui, sinto 
um vazio dentro de mim... Tenho fome de voc...  
Ela lhe martelava o peito com os punhos, enterrava-o em si cada vez mais profundamente. Ele a tomou pelos 
ombros, e os troncos cobertos de suor se colaram um ao outro. Saiu de cima dela, virou-a, forou-a a ficar de 
joelhos e, afastando-lhe as ndegas, penetrou-a; ela gritou.  
- Todas as partes do seu corpo me pertencem...  
Solidamente possuda, com os rins em fogo, La, com o rosto coberto de lgrimas, gozou de dor e prazer 
misturados. Quando ele saiu, tinha sangue no sexo. 
- Limpe-me.  
Ela se arrastou e, com pequenos golpes de lngua, lavou-lhe o membro sujo, que se ergueu 
novamente sob o efeito da carcia. Franois levantou-se e levou-a para a cama. Tirou-lhe a roupa, 
despiu-se, acariciou-lhe o belo rosto, os seios opulentos, depois a tomou com delicadeza. Fizeram 
amor durante muito tempo e adormeceram um dentro do outro. Quando acordaram, j era quase 
noite.  
Rindo, tomaram banho de chuveiro, depois desceram para o salo. Uma labareda crepitava na 
lareira, diante da qual as crianas brincavam, enquanto Franoise tricotava e Alain lia um jornal. 
Reinando sobre uma mesinha, a TSF estava ligada. Parados na soleira da porta, diante do espetculo 
pacfico e sereno, La e Franois trocaram um sorriso de conivncia: nunca tinham podido 
aproveitar tal calma, ainda que, muito longe, no fundo de si prprios, guardassem a nostalgia do 
tempo em que, ainda crianas, participavam da tranqila felicidade de uma famlia unida.  
- Ah, eis os namorados - disse Alain, dobrando o jornal. Foi como um sinal: Charles, Pierre, Isabelle e 
Adrien comearam a falar todos ao mesmo tempo.  
- Papai, quero ir no carro...  
- La, vou lhe mostrar meu quadro...  
- Tia La, quero passear...  
- Papai!... Venha!...  
- Tio Franois, quero ir...  
- Eu tambm...  
- Eu tambm!  
- Ns vamos jantar logo - advertiu Franoise.  
- Vou lev-los para dar um passeio s at Saint-Macaire.  
- Tome cuidado.  
- Posso ir com voc? - perguntou Alain.  
- Vamos!  
Franoise e La os viram partir.  
- Quando se trata de automvel, Alain vira uma criana - disse Franoise, tomando o brao da irm. - 
Venha, est agradvel, vamos at a varanda. 
De braos dados, elas desceram o gramado ladeado por uma fileira de btulas plantadas pelo pai.  
- Voc se lembra de quando papai cantava para ns: "Vamos para debaixo da pequena btula..."? - 
perguntou La.  
Ao longe, percebiam-se as luzes de Langon; uma nvoa subia do rio Garonne. Como todas as noites 
 mesma hora, um trem passava sobre a ponte, deixando atrs um rastro de fumaa. Um co latia, 
vacas mugiam, os carrilhes da vizinhana chamavam para o ngelus; o ar exibia sua transparncia 
do anoitecer.  
- Como estamos bem aqui - suspirou La.  
Uma tristeza a invadiu, como se pressentisse que esse bem- estar enganador, essa aparncia de paz, 
esse doce viver no fossem para ela. No corao, no pensamento, at no prprio corpo, 
experimentava uma ruptura, contra a qual nada podia, como se fosse forada a se afastar cada vez 
mais do que fazia parte dela mesma, de sua prpria carne. Essa terra, essa casa, que tanta falta lhe 
fazia quando estava separada dela, parecia-lhe que alguma coisa em algum lugar a forava a se 
afastar. Nesse lugar, que lhe parecia ter sido sempre seu lugar, uma espcie de recuo, de frieza se 
substitua  felicidade dos reencontros. A cada um de seus retornos, desde o fim da guerra, 
inclinada sobre a balaustrada diante dessa paisagem familiar e querida, esses pensamentos 
melanclicos vinham assalt-la, deixando-a triste e desamparada.  
- "...paisagem mais bela do mundo, palpitante a meus olhos, fraternal, nica a saber o que sei, nica a 
se lembrar dos rostos destrudos de que no falo com ningum, e de que o vento ao crepsculo, 
depois de um dia trrido,  o sopro vivo, quente, de uma criatura de Deus (como se minha me me 
beijasse). O terra que respira!" - recitou La.  
-  bonito o que voc disse.  
-  de Franois Mauriac falando de Malagar. Toda vez que leio algo sobre Malagar, penso estar 
lendo sobre Montillac. Pode- se dizer que essas duas casas so irms.  
-  normal,  a mesma regio. Onde leu isso?  
- No Journal, que comprei na semana passada em Bordeaux. 
- Voc me empresta?  
- Sim. Voltemos, acho que j retornaram.  
Nesse instante, a campainha anunciou a hora do jantar.  
- Apressemo-nos, seno Ruth e Germaine vo nos repreender!  
- A primeira a chegar, ganhou! - gritou La correndo.  
La se levantou e juntou a pilha de jornais que Franois deixara cair no cascalho do ptio onde tomavam o 
caf, nesta tarde quente do comeo de novembro, para ir atender a um telefonema de Paris, O aroma do caf se 
misturava s emanaes provenientes das adegas e aos odores particulares do ar no outono. Em seu carrinho, 
o mesmo que servira a La e s irms, a pequena Camille dormia, protegida de eventuais insetos por um vu de 
fil. Adrien e os primos faziam a sesta, Charles e Pierre estavam na escola, em Verdelais, Alain nas vinhas, 
Ruth, Franoise e tia Lisa se ocupavam da casa. Tudo estava to pacfico, to calmo...  
Com os jornais apertados a si, La fechou os olhos, invadida por um sentimento de bem-estar, e com a 
conscincia aguda do prprio corpo acalmada. O corao comeara a bater mais rpido, parecia-lhe. A 
sensao de existir era to forte, que um arrepio de prazer a percorreu da cabea aos ps. O tempo ficara 
imvel...  
O encanto foi rompido pelo som de vozes vindas do antigo escritrio do pai. La sorriu: Franois ainda devia 
estar discutindo com algum general ou ministro. Ela se sentou numa cadeira do jardim com a pintura 
descascada e colocou os jornais na mesa, empurrando a bandeja do caf. Uma grande manchete na primeira 
pgina do Paris Match, "Os que lutam pela Frana na Indochina", chamou-lhe a ateno. A fotografia da 
capa representava um suboficial que chefiava o comando de pra-quedistas e lhe lembrava Jean Lefvre. O 
tempo retomara seu curso, dissolvendo essa espcie de felicidade surpreendente que ela havia experimentado. 
Leu atentamente o artigo de Charles Favrel: "Para os que morrem numa guerra ignorada", que terminava com 
essas palavras: "...Por que me abandonaram?" Com um gesto cansado ela recolocou o semanrio na mesa: Jean Lefvre, Nhu-Mai, Lien, Franck, que Franois encontrara 
em 
Paris, Kien, Giau estavam l, nessa vertigem para a qual o governo francs queria mand-los de volta... No 
carrinho, o beb comeou a chorar. Ela estendeu a mo e balanou delicadamente o veculo; o choro cessou. 
Franoise saiu de casa cantarolando, com uma tesoura de podar na mo.  
- Voc est com um ar bem alegre - notou La.  
- E voc, no?... Veja como o tempo est bonito. Vou cortar as ltimas rosas, vem comigo?  
- No, prefiro ficar aqui lendo.  
- Voc vai ver, no Paris Match h uma pgina sobre nossos vizinhos.  
- Os Mauriac?  
- Sim. Em Lyon foi encenada uma pea de Franois Mauriac: O fogo sobre a terra, acho. At j!  
La ficou vendo afastar-se a silhueta delgada da irm. Apesar das maternidades, reencontrara o andar de 
jovem. Nada nela lembrava a mulher tosada e humilhada de 1944. O amor apagara as vicissitudes dos anos 
negros. Sem dvida por constrangimento de ressuscitar fantasmas, se no esquecidos ao menos enterrados 
nas dobras da memria, nunca as duas irms tinham falado novamente daquela poca. Relembrar aqueles 
tempos, os sofrimentos suportados por ela e os seus, teria parecido a La o cmulo da indecncia. Mas no 
havia quase dia nenhum em que no voltassem, presentes no esprito doente, as cenas de horror desenroladas 
na propriedade. Ela sentia o que havia de mau nesse hbito, mas lhe era impossvel resistir a ele. As vezes, 
enroscada nos braos de Franois, ela se deixava levar pelas lembranas, pelas confidncias, mas depressa se 
recompunha.  
La sobressaltou-se: a porta que dava para o ptio foi fechada com tal violncia, que os vidros retiniram. Em 
grandes passadas, Franois chegou at ela e se sentou, com ar furioso.  
- Preciso ir a Toulouse para o jantar.  
- A Toulouse? Mas para qu?  
- O presidente Sarraut quer me encontrar. 
- Isso no podia esperar at amanh?  
- Parece que no. Pleven disse que h muita urgncia.  
- Sempre ele! At parece que sem voc no podem fazer nada na Indochina. Pois  certo, deve ser 
assunto da Indochina...  
- Como voc pode ler - disse ele pegando os exemplares do Le Monde dos ltimos dias: - "O general 
Alessandri chegou a Lang Son quando dois mil civis tinham abandonado"... "Na Cham evacuada por 
nossas tropas"... "Histria dramtica dos comboios da R.C.4"... - Jogou longe o jornal, cujas folhas 
se espalharam, pegou outro e continuou: - "Uma manobra de envolvimento dos vietcongues torna 
precria a situao da guarnio de Lang Son"... "A defesa do delta de Tonquin se organiza com a 
evacuao dos vales"... - A medida que os lia, os jornais voavam pelo ptio. - ... "O abandono de Lang 
Son e de Moncay permitir reagrupar as tropas para uma mudana de ttica"... Eles no ligam para 
ns; instrui-se o processo do general Revers, o nico a compreender claramente a situao!  
- Ele talvez tenha compreendido a situao - interrompeu La -, mas como explicar que seu relatrio 
ultra-secreto, com apenas cinqenta exemplares, todos numerados, tenha sido encontrado pela 
polcia, que, numa s manh, recolheu setenta e dois exemplares nos meios vietnamitas de Paris, 
tanto entre os partidrios de H Chin Minh quanto entre os de Bao Dai?  
O assombro estampado no rosto de Franois era to cmico, que La comeou a rir.  
- Voc no  o nico a se interessar pela Indochina! O que se passa l  horrvel, e compreendo o 
que voc sente.  
- E porque  horrvel que os rgos de imprensa vo para l como abutres, enquanto, durante anos 
esta guerra s teve direito a algumas linhas.  
- Voc tomou sua deciso? - perguntou La olhando-o nos olhos.  
Ele evitou habilmente a pergunta.  
- Saberei mais sobre o assunto quando tiver falado com o presidente Sarraut. Perdoe-me, amor, mas, 
se eu quiser chegar na hora para o jantar, tenho de partir imediatamente. 
Ele a apertou a si e a beijou longamente.  
- Tome conta de nossos filhos.  
Franois Tavernier aproveitou o trajeto para rememorar o que ele soubera da conferncia Inter-
Etats que se realizava em Pau desde o ms de junho. Presidida por Albert Sarraut, chefe da 
delegao francesa, ela reuniu o governador do Vietn do Sul, chefe da delegao vietnamita, Sum 
Hieng, antigo vice-presidente do conselho cambojiano, e Phouy Sananikone, presidente do conselho 
em exerccio no Laos. Os vietcongues no estavam representados. De comum acordo, decidiu-se 
examinar os problemas menos rduos de resolver: as transmisses, a imigrao, o plano de 
abastecimento, o comrcio exterior, as alfndegas, os problemas financeiros e, apesar das 
reticncias da delegao vietnamita, o estatuto do porto de Saigon e da navegao no Mekong, 
essencial para os pases envolvidos.  
Mas os encontros no se desenrolaram to harmoniosamente quanto previra o presidente Sarraut. O 
reagrupamento no seio da Unio Francesa dos Estados "independentes" do Laos, do Camboja e do 
Vietn, idia cara aos velhos polticos, no era to evidente aos olhos dos ditos Estados, e, em 14 de 
outubro, o antigo governador da Indochina teve de fixar bem os pontos sobre o sentido da Unio 
Francesa, cujo artigo 60 estipulava: "A Unio Francesa  formada, de um lado, pela Repblica 
Francesa, que compreende a Frana metropolitana, os departamentos e territrios de ultramar, e, de 
outro, pelos territrios dos Estados associados." O artigo 62 dizia: "Os membros da Unio Francesa 
usaro em comum a totalidade de seus meios para garantir a defesa da Unio. O governo da 
Repblica assume a coordenao desses meios e a direo poltica necessria para preparar e a 
assegurar essa defesa." Franois tinha dificuldade em ver nesses artigos algo alm da manuteno 
sob tutela dos estados associados, e o discurso de Albert Sarraut lhe pareceu querer esconder dos 
protagonistas a realidade de sua nova condio, apesar da segurana da criao de um Alto-Conselho, "onde cada um dos estados associados (poderia) ter sua representao 
livremente 
escolhida, a qual (teria) por funo... assessorar o governo da Repblica na conduo geral da 
Unio..."  
Nas aldeias atravessadas, homens e algumas mulheres, sentados no degrau de suas portas, 
aproveitavam a suavidade deste fim de dia outonal. Alguns jogavam bocha sob as rvores ou 
tomavam um copo de vinho no caf da esquina. Tudo estava calmo, a ltima guerra parecia longe. E 
a da Indochina, mais longe ainda...  verdade que alguns jovens estavam comprometidos com essa 
expedio longnqua, mas eram freqentemente os mais cabeas-duras, aqueles que os da 
resistncia no tinham sabido orientar, ou ento pobres rapazes que foram levados a se envolver 
com o ocupante. Indivduos com os quais no se poderia identificar nenhum daqueles honrados 
jogadores de bocha, no mais que suas esposas ou seus garotos, que, de qualquer maneira, nada 
tinham a dizer. No era esse tipo de gente das cidades que tinha perdido o respeito aos mais velhos. 
Velhos e menos velhos viam a coisa a seu modo e tinham preocupaes suficientes todos os dias 
para se preocupar com esses caras de limo que reclamavam independncia. Mesmo os comunistas, 
seus amigos, estavam mais calados.  
O novo carro era agradvel de dirigir; a paisagem, bela e familiar. Mas o humor do motorista 
continuava melanclico. Ele tinha a impresso de que essa entrevista com o lder radical no lhe 
acrescentaria nada. Suas tomadas de posio, em Pau, estavam muito de acordo com as do 
governo. Franois no acreditava que a Frana formaria com os povos de ultramar "uma unio 
fundada na igualdade de direitos e deveres, sem distino de raa nem de religio". Tambm no 
acreditava no "uso comum dos recursos e dos esforos para desenvolver a civilizao de cada uma 
das naes, para aumentar o bem-estar e garantir a segurana". Vira funcionar de perto o esprito 
civilizador francs, a dureza dos meios empregados para consolidar essa civilizao, o racismo 
notrio ou dissimulado dos colonos, a suficincia dos brancos, sua incompreenso das culturas, que 
eles consideravam freqentemente inferiores. Como teria gostado de acreditar nestas belas palavras 
de Albert Sarraut, falando do sentido da Unio Francesa: "Antes de tudo, a 
vontade, sada do espetculo dos horrores da guerra, de 
preservar a humanidade da 
volta desses horrores e de garantir o futuro do ser humano contra os massacres, as escravides, as 
degradaes, os aviltamentos e as misrias, cuja fora e poder para o mal poderiam ainda tentar amea-los, 
como fizera a abominvel violncia nazista... Todas as naes cuja alma no est corrompida por um criminoso 
pensamento de hegemonia, de dominao opressora dos outros povos, sentiram a imperiosa necessidade de 
se reaproximarem, de se agruparem, de concordarem com a salvaguarda do patrimnio humano, e de ampliar a 
vontade das naes at a concepo de uma cooperao internacional, que, ao tornar-se progressivamente 
mundial, deveria determinar, num estgio preliminar, a criao de agrupamentos iniciais sugeridos pelas 
afinidades histricas, polticas e culturais."  
Esses belos sentimentos haviam feito nascer as Naes Uni- das e a Unio Francesa...  
Com uma brusca virada do volante, Franois evitou um cachorro. Um jovem pastor brandiu o basto para ele. 
As primeiras casas dos subrbios de Toulouse apareceram.  
Albert Sarraut recebeu Franois Tavernier no escritrio do irmo, Maurice, assassinado pelos nazistas em 2 de 
dezembro de 1943.  
- Bom dia, senhor Tavernier, sente-se. Eu lhe agradeo ter aceito o convite. Insisti em receb-lo aqui, no La 
Dpche, neste escritrio, que ocupei pouco tempo antes de ser deportado, em 1944, em companhia do meu 
amigo Jean Baylet, que era o diretor do jornal. Meu irmo e eu ficamos muito prximos um do outro; ele morreu 
nos meus braos sem recobrar a conscincia.  
- Esse crime odioso provocou na Frana uma profunda indignao.  
- Esse homem livre soubera resistir s presses do governo de Vichy, que o censurava, entre outras coisas, por 
conservar o ttulo Journal de la Dmocratie e manter nos artigos o ideal republicano. Por duas vezes ele 
recusara as propostas de venda do La Dpche por uma soma de cem milhes e mais o que lhe propunham 
os esbirros de Vichy. Diante das diversas ameaas que 
lhe eram feitas, os amigos e os pais o aconselharam a fechar o jornal ou desaparecer. "No o abandonarei", 
disse ele, "pois esse  um posto que cuida ao mesmo tempo das almas e do dever republicano. No porei na 
rua os operrios, os empregados, os corretores, os redatores que o jornal ajuda a viver, entre os quais a polcia 
de Vichy procuraria os militantes de extrema esquerda, que no escondem sua opinio. Mas tenho tambm 
outro dever, o de manter aqui o smbolo da f democrtica. Minha partida seria uma desero. Jamais farei 
isso!"  
Albert Sarraut parou, arquejante, com os olhos midos da lembrana do sacrifcio do irmo.  
- Quis encontr-lo porque conheci seu pai na Indochina. Era um homem ntegro e generoso. Era muito ligado a 
um de meus colaboradores, Touzet. Segundo informaes, o senhor  um homem honrado e seu passado 
recente fala a seu favor. Se o general de Lattre for nomeado, como acredito, ter necessidade de homens como 
o senhor para corrigir a situao na Indochina, e...  
- Senhor presidente - interrompeu-o Tavernier -, j no estamos no tempo em que o senhor era governador da 
Indochina nem naquele em que escreveu Grandeza e dependncia coloniais...  
- Leu esse livro?  
- Sim, com muito interesse. Eu era adolescente, navegava pelo mar da China com meu amigo Hai, e tnhamos 
aprendido de cor a passagem em que o senhor evoca o mar. Ns o declamvamos de p na proa do barco: "O 
mar! O mar, senhor do mundo, cujos continentes ele liga; o mar, estrada imensa jamais interrompida, jamais 
destruda, por onde pode chegar  entrada do pas que ele banha o invasor, que o tornar cativo, ou as 
riquezas, que o faro opulento. Temido ou cobiado, qual povo pde escapar  sua influncia? Qual..."  
- Bravo! Mas basta! No sei se devo ficar lisonjeado, como autor, pelo fato de o senhor tenha guardado essa 
passagem lrica, ou, como homem poltico, humilhado pelo fato de s se ter lembrado dessa ode ao mar num 
trabalho que desejava ser o balano da obra colonial da Frana!  
- Meu amigo Hai e eu no compartilhvamos inteiramente 
seu ponto de vista sobre a grandeza da colonizao e sobre os deveres do homem branco.  
Albert Sarraut se levantou, com ar subitamente cansado.  
- Venha jantar, prosseguiremos essa conversa  mesa.  
Numa pequena sala contgua, a mesa estava posta para dois.  
Um velho mordomo os servia. Comeram o foje gras em silncio.  
O antigo presidente do Conselho esvaziou de um gole o copo de  
Sauternes.  
- Durante muito tempo acreditei que a idia de independncia assustava o povo indochins, apesar da sua 
cultura e da existncia milenar de quadros sociais, e que o enunciado da independncia parecia  elite local um 
completo absurdo ou, melhor ainda, um contra-senso. Parece que eu estava enganado. E no fui inteiramente 
coerente comigo mesmo quando disse a meus colegas vietnamitas, em Pau, que eu sentira crescer seu desejo 
de independncia, que isso no tinha me surpreendido, pois conhecia esse sentimento nacional de longa data; 
que, se fosse exacerbado sob o efeito das comoes que agitaram durante a ltima guerra o mundo asitico, ele 
no teria nascido l; que era bem anterior, vinha do esforo secular desenvolvido pelo povo anamita por 
retomar e defender a liberdade contra a enorme China... O general de Lattre perguntou minha opinio. 
Aconselhei-o energicamente a apoiar Sua Majestade Bao Dai, a ajudlo em sua tarefa de governo e sobretudo 
na formao de um exrcito vietnamita, que, pouco a pouco, deveria ser capaz de nos substituir na luta contra 
os vietcongues.  
Franois escutava com curiosidade e uma ponta de emoo
 o velho radical franco-maom. Deputado pelo 
Aude aos trinta anos, depois da estria no La Dpche du Midi junto om o irmo Maurice, mais velho que 
ele trs anos, bateu-se em duelo com um deputado bonapartista que insultara Clemenceau e depois pedira 
demisso. Em 1909, Briand o convidara para ser subsecretrio de Guerra. Foi nomeado governador-geral da 
Indochina em 1911. Nessa poca conhecera o pai de Tavernier, Le Dang Doanh e Martial Rivire. O mandato 
marcara a apoteose da colonizao francesa; a Indochina conhecera nesse momento gran 
de prosperidade, a despeito da guerra que assolava a Frana... Sucessivamente ministro das Colnias, do 
Interior, da Marinha, duas vezes presidente do Conselho, senador at 1940, personalidade reconhecida e 
contestada, esse homem corpulento, grande admirador das mulheres e de objetos de arte, suscitando tanto 
dios quanto amizades, era, aos setenta e oito anos, um homem poderoso e temido.  
- A conferncia de Pau no serviu para nada; os comunistas franceses continuam a colocar obstculos  
realizao de qualquer coisa, e o que dizer dos representantes dos Estados associados? No consegui faz-los 
compreender o interesse que havia aqui, para eles, em fazer parte da Unio Francesa. Tentei tirar suas dvidas, 
mostrar-lhes a sinceridade da Frana quanto ao respeito  independncia de cada um dos Estados-membros, 
empenhei minha palavra, falei com eles olhos nos olhos, mo na mo, garanti-lhes que acreditava em sua 
lealdade  Repblica Francesa; declarei-lhes que no acreditava ser imaginvel que um deles, vietnamita, 
cambojiano ou laociano, pudesse dizer: "Combata por ns, por nossa independncia; continuem a gastar, 
como fazem, mais de duzentos milhes por ano e milhares de vidas francesas para afastar de nossas naes a 
ameaa do imperialismo estrangeiro e da escravizao de nossos pases; fiquem exaustos para salvar nossa 
liberdade e assegurar nossa tranqilidade; depois disso, retomem seus navios dizendo-nos adeus, ao qual 
responderemos com um rpido abanar de chapu!" - Esvaziou o copo de Bordeaux e continuou: - O 
imperialismo moscovita, criador da servido mundial,  o perigo supremo, eu lhes disse. Para vocs, em 
primeiro lugar, mas para os outros em redor de vocs, tambm. A Indochina, sua Indochina, tornou-se o 
elemento essencial de grande problema, cuja soluo estratgica deixa suspensa a independncia ou a 
escravizao de todo o Sudeste da sia, desde a regio do Tonquin at o oceano ndico. Se a barragem 
indochinesa ceder, se a fechadura que cerra as portas do Vietn do Norte se quebrar, a irrupo comunista 
pode arrastar todos os territrios da fronteira da China  antiga fronteira das Indias. Repito, o ponto essencial 
da resistncia de todos esses 
pases  opresso que os ameaa est no Vietn; o Vietn  a fronteira da liberdade.  por isso que a Frana 
no poderia abandonlos, abandon-los sem se desonrar.  preciso que, aps o juramento de morrer juntos, se 
assegure a vontade de viver juntos!  
O velho homem esquecera a presena do hspede; falava como se estivesse na tribuna, diante de um auditrio 
que ele se obstinava em convencer. Qual a parcela de sinceridade e qual a de habilidade poltica em suas 
propostas? Seu anticomunismo parecia visceral.  
- O senhor nunca acreditou na lealdade de H Chin Minh?  
- No,  um autmato que recebe ordens de Moscou. Creia- me, auxiliar o imperador  o melhor meio de ajudar 
esse pas que ambos amamos.  
- Jean Sainteny no  dessa opinio.  
- Meu genro tinha grandes qualidades, mas era ingnuo.  
- No  a impresso que me deu.  
- O senhor mesmo encontrou H Chin Minh. Qual a impresso que lhe causou?  
- A de um homem cansado, dotado de grande energia, patriota convicto, comunista sincero e adversrio 
honrado.  
- Como os outros, o senhor sucumbiu ao charme desse velho astuto. At minha filha, Lydia, o achou sedutor... 
Passemos s coisas srias. Quis v-lo, antes de sua partida, para lhe entregar algumas cartas de recomendao 
que podero lhe ser teis em sua misso. Leve-as com muito cuidado: algumas so confidenciais...  
Albert Sarraut tirou do bolso do palet trs envelopes lacrados. Franois os recebeu. Os nomes que neles 
apareciam no lhe diziam nada. O antigo governador notou isso.  
- O senhor esperava nomes mais eminentes. No se engane sobre isso: os destinatrios podero lhe salvar a 
vida, ou pelo menos ajud-lo a sair de alguma dificuldade. Sei que conhece bem as mentalidades anamitas, bem 
como certas partes do pas. As pessoas s quais o envio as conhecem melhor ainda. Tudo isso lhe permitir 
cumprir com mais segurana sua misso ao lado do general de Lattre. 
- O senhor tem bastante certeza da minha partida...  
- No tenho nenhuma dvida. Conheo os homens de sua tmpera, so feitos para o risco e para a 
aventura e, algumas vezes, para a glria.  
Franois Tavernier deu um sorriso amargo.  
- A glria!... Sei bastante bem o que ela : lama e sangue, sofrimento, desgosto de si prprio, o tdio 
da espera, o medo na barriga e o dio no corao. Fui testemunha de muitos combates, de mortes e 
de atrocidades para alcan-la!  
Albert Sarraut sorriu por sua vez, um sorriso sem alegria.  
- O senhor sabe tudo isso, e mesmo assim vai partir... Os homens so animais engraados, senhor 
Tavernier. Raymond, traga-nos o velho Armagnac.  
- O do senhor Omer? - exclamou o empregado com ar de reprovao.  
- Evidentemente, conhece algum outro?  
- No, senhor Albert - disse o velho homem, dirigindo-se o mais rpido que podia para uma biblioteca 
com grades nas janelas.  
-  o Armagnac de meu pai, o senhor me dir o que achou dele.  
Raymond despejou o precioso lquido com todo o respeito  sua elevada idade. Com o mesmo gesto, 
os dois homens levaram os copos ao nariz e, de olhos semicerrados, absorveram-lhe o perfume. 
Depois de se saudarem com a cabea e com os olhares, beberam um gole. O rosto redondo de 
Albert Sarraut se alegrou, e, atrs dos culos, o olhar brilhou.  
- O que acha desta maravilha?  
- Fiquei extasiado, senhor presidente.  
Quando se despediram, o calor do Armagnac havia momentaneamente afastado os fantasmas da 
Indochina.

Captulo 7

O general de Lattre foi nomeado alto-comissrio e comandante das tropas na Indochina em 6 de
dezembro de 1950.
O Constellation deixara Calcut e voava em direo a Saigon. Mais algumas horas de viagem, e a
famlia Tavernier pisaria o solo indochins. Com a cabea apoiada no postigo, La estava sono- 
lenta, segurando junto a si o beb, que dormia de mos fechadas. Apesar da distncia da viagem, 
das escalas fatigantes no Cairo, em Karachi e em Calcut, La tinha uma fisionomia tranqila e 
descansada. Franois observava, enternecido, a beleza do par que formavam a me e a criana. Do 
outro lado do corredor central, Charles e Adrien jogavam cartas, mal contendo os gritos de alegria 
ou de decepo diante dos acasos do jogo. Sentindo sobre si o olhar de seu pai, Adrien perguntou:  
- Vamos chegar logo?  
Uma aeromoa que passava ouviu a pergunta e compreendeu a impacincia do menino.  
- Bem depressa. Mas, se quiser, e seu pai permitir, pode vir com o amigo at a cabine de pilotagem. 
O comandante est de acordo. 
- Tio Franois, diga que sim! - suplicou Charles.  
- No se aflija, senhor, tomarei conta deles.  
No era isso o que alarmava Franois, mas o que os esperava na chegada. Que loucura ter trazido as crianas, 
ter cedido  chantagem de La!  
"Se voc partir sem ns, nunca mais nos ver..." Ela seria capaz de cumprir essa ameaa. Apesar do que ela 
vira e soubera da situao na Indochina, dos riscos a que se expunha com os filhos, no quis ouvir nada. 
Quanto a Charles, seu desespero foi tal quando a partida foi anunciada, que Franoise, que o conhecia bem, 
receara o pior. Todos em Montillac, sem ousar dizer-se uns aos outros, pensavam o mesmo. O menino tinha 
agora dez anos; era corajoso e determinado.  
"Cuidarei de Adrien e Camille", dissera ele. E o fizera desde que tinham deixado Paris. Franois no quisera 
levar ningum para cuidar das crianas: "As mulheres chinesas so as melhores babs do mundo." 
Encarregara Lien de alugar uma vila num bairro agradvel de Saigon, de contratar pessoal e de se mostrar 
particularmente atenta na escolha das mulheres que cuidariam das crianas.  
Ele suspirou, impaciente com essas lembranas domsticas, e tentou retomar a leitura do Hussard bleu, de 
um jovem escritor de que se falava muito, Roger Nimier. Ainda um romance que lembrava a guerra: no 
estavam fartos esses romancistas de escrever e escrever sobre esse sinistro perodo?  
Uma frase o fez parar: "Tudo o que  humano me  estranho..." Pensativo, deixou cair o livro, fechou os olhos, 
e o fino rosto macilento do lder comunista vietnamita lhe apareceu, e no podia ser mais real. Lembrou-se do 
falso anncio de sua morte, no dia 11 de novembro precedente, aparecido em todos os dirios da capital. A 
angstia experimentada nesse dia lhe reapareceu, sada desta pergunta: Se isso tivesse sido verdade, os 
vietcongues, tendo perdido o chefe, a alma, teriam condies de prosseguir essa guerra ou teriam de buscar 
um processo de entendimento com o governo de Bao Dai, evitando assim a guerra civil? Para isso no haveria 
jamais uma resposta. O despacho da agncia 
Reuters revelou-se inexato; o ataque lanado pelos caas King Cobra e os bombardeiros Junker contra uma 
aldeia da fronteira chinesa, onde, acreditava-se, H Chin Minh conferenciava com conselheiros militares 
chineses e russos, matara apenas infelizes nh que*. "Pobre pas!", pensava ele, reabrindo os olhos.  
Nos joelhos da me, o beb se agitou, franziu o pequeno rosto, esticou-se e bocejou com volpia. La abriu os 
olhos e olhou a filha com encantamento.  
- Como voc  bonita! - disse ela, levantando-a e beijando-a no pescoo.  
A menina resmungou.  
- Parece que no gosta de beijos, no  como a me - disse Franois, pousando os lbios no vo do ombro da 
mulher.  
La deu aquela gargalhada que tanto o perturbava.  
- Tome, segure-a, eu vou esticar as pernas.  
Ela se levantou, colocou a criana nos braos dele, e ficou de p a contempl-los. No se cansava de v-lo em 
companhia dos filhos. Isso lhe parecia maravilhoso, irreal. Franois Tavernier era desses homens que no 
imaginamos pais de famlia; ele prprio nunca pensara verdadeiramente em desempenhar esse papel. Isso no 
o desagradava, mas o desconcertava. As aeromoas estranhavam ver esse homem com jeito de aventureiro dar 
a mamadeira. As passageiras jovens lhe lanavam olhares amorosos, irritando La. Franois lhe dizia que, de 
sua parte, ela no deixava de virar a cabea do pessoal masculino da tripulao, sem falar na dos passageiros.  
- Senhoras e senhores, queiram apertar os cintos, estamos iniciando a descida em Saigon...  
O avio pousou com relativa suavidade no aeroporto de Tan Son Nhut, a alguns quilmetros do centro de 
Saigon; eram duas da tarde. Desde que as portas foram abertas, um calor pesado invadiu o aparelho. A luz 
ofuscante de um sol refletido queimava os olhos. Ao descer a escada, La teve a impresso de estar se 
derretendo. Com um leno de seda protegeu a cabea do beb.  
Quando entrou no prdio da alfndega, pareceu-lhe sair de uma estufa. A pequena Camilie comeou a chorar.  
Graas ao funcionrio enviado pelo alto-comissariado, as formalidades foram rapidamente cumpridas.  
- Senhora Tavernier, perdoe-me, mas tenho de levar seu marido imediatamente ao alto-comissrio. Um carro a 
espera para conduzi-la  sua nova residncia. Meus assessores se ocuparo de sua bagagem. No se aflija, seu 
marido estar a seu lado no fim da tarde.  
La observou Franois partir, com o corao apertado por vaga apreenso. Seguida por Charles e Adrien, ela 
se dirigiu para o carro. O interior do veculo era uma verdadeira fornalha. Adrien se ps a choramingar:  
- Est fazendo muito calor, mame, muito calor...  
- Cale-se - disse Charles. - Logo estaremos em casa.  
O garoto se calou, como todas as vezes que Charles mandava; Charles era o nico a ter autoridade sobre ele. 
Adrien lhe obedecia sem ficar de mau humor.  
O calor havia enclausurado os moradores em suas casas. Alguns vendedores ambulantes dormiam, estirados 
no cho,  sombra dos tamarineiros ou dos flamboyants; outros fumavam, encostados aos muros das casas. 
Na varanda de um caf, soldados franceses em uniformes desabotoados, alagados de suor, bebiam cerveja. 
Abrigados sob a capota dos cyclo-pousse, os condutores, adormecidos, aguardavam o ar fresco da noite.  
O carro passou devagar diante do jardim botnico. As ruas eram ladeadas por casas graciosas; o motorista 
parou diante de uma delas.  
- J chegamos, madame.  
- Como se chama esta rua?  
- Rua Pellerin, senhora.  uma rua calma, num bairro agradvel. A senhora est a dois passos da rua Catinat.  
La ficara muito pouco tempo em Saigon para ter alguma idia do lugar onde se encontrava. Mas pouco 
importava: a casa era simptica, com um pequeno jardim na frente e uma varanda. A porta se abriu; Lien dirigiu-
se para os viajantes. "Ela  mesmo 
bonita", pensou La com irritao ao beij-la. Lien recuou e a saudou  maneira vietnamita. Charles, com 
Adrien pela mo, encarava-a com insistncia. A jovem se aproximou sorrindo:  
- Voc  Charles, no ?  
O menino concordou.  
- Seja bem-vindo a meu pas. E voc  Adrien?  
O menino colou-se ao amigo, mas depois, animando-se, perguntou:  
- Por que est vestida assim?  
Lien sorriu.  
-  o traje das mulheres daqui.  
-  bonito - comentou o garoto.  
- Venham para dentro de casa, est melhor que aqui.  
Um grande piso de lajes azuis e brancas, no qual se destacavam alguns tapetes chineses muito bonitos, dava a 
impresso de frescor e bem-estar. As portas abertas para o fundo deixavam perceber um jardim frondoso, de 
umverde denso. Sempre levando Camille, La atravessou o vasto salo e contemplou esse osis no corao de 
Saigon. Virou-se com um sorriso radioso:  
- Que lugar agradvel! Esse jardim  magnfico...  
- Foi minha me quem mandou plant-lo, mas nunca o usufruiu. Meu pai preferia Hani. Esta casa esteve 
alugada a ricos administradores ou comerciantes. J estava desocupada havia um ano. No tive tempo de 
arrumar muita coisa, mas a parte interna est limpa e confortvel.  
- Obrigado, Lien, ficaremos muito bem aqui. Veja, no lhe apresentei a irm de Adrien - disse La, estendendo-
lhe a filha.  
- Posso? - perguntou a outra, segurando-a com ar de encantamento.  
Por razes diferentes, as duas jovens mulheres estavam muito comovidas uma com a outra. A fim de esconder 
o embarao, Lien encostou o rosto ao do beb. A menina se agarrou a seus cabelos, desfazendo o coque de 
espessas espirais, que se desenrolaram de uma s vez at os tornozelos. A massa escura e brilhante arrancou 
um grito de admirao de La e Charles. A suntuosidade da cabeleira dava a Lien o ar de uma princesa brbara, 
e sua beleza parecia maior ainda. Agora, ela ria ao entregar o beb  
a uma mulher de idade respeitvel que acabara de entrar, seguida de cinco ou seis pessoas.  
- Eis seus empregados.  
- Mas no precisamos de tanta gente!  
-  o necessrio para uma casa desse tamanho. Eis ThuyChu, que cuidar de controlar o trabalho de cada um. 
Conheo-a h muito tempo,  uma mulher respeitvel e honesta. Para as crianas ela recrutou Lixia* e 
Jiancir**; so chinesas. O cozinheiro se chama Luyn. Khoa e Trn cuidaro da casa e das compras. Quanto 
ao motorista, penso que Franois vai querer tratar disso ele prprio...  
- Um motorista? Podemos dirigir ns mesmos!  
- Eu no aconselho. No seria seguro nem conveniente. Vou lhes mostrar os quartos...  
Franois s voltou no fim da tarde, cansado e de mau humor. Reencontrou o sorriso diante do lindo quadro 
formado por La e Lien, brincando no jardim com as crianas. Sua amiga de infncia veio at ele, ruborizada. Ele 
a beijou com evidente felicidade.  
- Como est bonita, irmzinha!  
O corpo delgado enrijeceu.  
- Esta no era a casa de sua me?  
-  minha agora. Estou feliz por sua famlia e voc poderem usufru-la. Desejo que sejam felizes aqui.  
- Tio Franois, venha ver o jardim, pode-se chamar de floresta! - disse Charles, tentando levar Franois.  
- Eu j conheo, vinha aqui quando tinha a sua idade. Digamos que  uma floresta na escala das crianas. Acha 
que ficar bem aqui, querida? - perguntou ele tomando La nos braos.  
- Sim, muito. Quase no h diferena, aqui h como um ar de Montillac. De qualquer maneira, com voc eu 
estaria feliz em qualquer lugar. Como foi o encontro com o alto-comissrio?  
- Com certo alvio... A chegada de De Lattre lhe tira um grande espinho do p. O comeo das hostilidades na 
Coria acelerou a liberao de material vindo dos Estados Unidos. Pignon conta muito com os quarenta caas 
chegados no ms passado, com os oito Dakota, os barcos de "landingcraft"*, o equipamento e o 
armamento de doze batalhes vietnamitas, tudo fornecido com a cobertura da participao de conselheiros 
militares americanos.  muito menos do que esperavam as autoridades francesas e o governo de Bao Dai, mas 
 preciso ainda acrescentar dezesseis bombardeiros, que devem chegar de um dia para o outro.  
- Mas por que caas bombardeiros? As populaes civis sero as primeiras a ser atingidas... - exclamou Lien.  
- O alto-comando assegura que s sero bombardeados os pontos estratgicos.  
-  o que dizem todos os militares do mundo - disse La, servindo-lhe um conhaque-soda, que ele engoliu de 
uma s vez,  
- Obrigado, estava precisando muito. Vou tomar um banho de chuveiro. Voc me acompanha?  
O banho de chuveiro foi o pretexto para um divertimento que terminou no cho escorregadio do banheiro. 
Acabavam de se vestir novamente quando o gongo anunciou a hora do jantar. Com os cabelos midos, 
entraram na sala de jantar abraados pela cintura. A mesa fora posta  vietnamita, isto , com uma profuso de 
pratos. Charles tinha muita dificuldade com os pauzinhos, apesar dos conselhos de Lien. Quando conseguiu 
agarrar um pedao, exclamou:  
- Est muito bom!  
- Esta refeio est suntuosa - elogiou Franois, retomando os croquetes de camaro. - Voc tinha me falado da 
pobreza, em suas cartas. Ento as coisas melhoraram, pode-se dizer!  
- Apenas no sul. Em Hani, h escassez. Desde as derrotas da R.C.4, a maior parte dos comerciantes chineses 
fechou as lojas. Tudo est  venda: cinemas, restaurantes, hotis, vilas. D at para pensar que voltamos a 
1946. A ponte Paul-Doumer est  
guardada por africanos armados de fuzis-metralhadoras; no rio Rouge biam trs barreiras de minas. Todos os 
blindados esto ao norte da cidade; em cada cruzamento h postos de polcia protegidos por sacos de areia. O 
bairro da Citadelle est cercado de tanques. Informaes falsas circulam, afligindo os civis. Quanto aos 
comandantes do exrcito, seu pessimismo  grande. Depois do desastre da R.C.4,o senhor Pignon foi a Hani. 
Com o general Boyer de la Tour, circulou numa cidade em estado de stio. Para tranqilizar o que resta de 
franceses, convidou-os, com jornalistas da metrpole e do estrangeiro, ao Palcio do Governo, para lhes dizer 
que Hani no seria entregue aos fanticos vietcongues: "Sabemos o preo da defesa: sangue e lgrimas. 
Combateremos. Defenderemos a cidade bairro por bairro, rua por rua, casa por casa..."  
- Pignon por Pignon - acrescentou Franois, s gargalhadas.  
- Voc j sabia? - disse Lien em tom frustrado.  
- Sim, apressaram-se a me contar esse episdio ridculo, e as duras propostas feitas pelo procurador Bona, com 
as quais estou de acordo. No alto-comissariado, querem dar a impresso de que a chegada de De Lattre vai 
acertar tudo. O que acha?  
- Sou mestia, no se esquea. Dos dois lados desconfiam de mim. Segundo Bernard, o que se passou em Lang 
Son, em Cao Bang ou em Hoa Binh no deveria ter acontecido. A burrice e a incompetncia dos estados-
maiores foram a causa dessa derrota.  
- Bernard luta ao lado deles?  
- Sim,  subtenente, talvez at tenente agora. Jurou matar o maior nmero possvel de vietecongues para vingar 
a morte da mulher e da filha e impedir os comunistas de tomar o poder. Ele , parece, implacvel, cruel, 
desumano. Quanto a Hai, graas  proteo do presidente H Chin Minh, se bem que mestio, ascendeu a um 
posto importante. Aderiu ao partido e jurou caar o invasor francs.  
- E voc - sussurrou-lhe afetuosamente Franois -' de que lado est?  
- No sei de nada - respondeu Lien. - Desejo ao mesmo tempo o fim desta horrvel guerra e a independncia do 
meu pas...  
- Voc  igualmente francesa... - observou La. 
- Francesa de nome. Rivire, no pode ser mais francs, no ? Francesa de nacionalidade, sim, mas vietnamita 
de corao. Olhem bem para mim: vem que eu sou vietnamita!  
Ajovem mulher, que quase nunca bebia lcool, estendeu o copo.  
- D-me um pouco de vinho - ordenou ela a Franois, que obedeceu. - Depois da demisso de Nguyen Phan 
Long - recomeou ela - acreditei por um momento que o imperador Bao Dai poderia reunir em torno de si o povo 
vietnamita no-comunista. Foi a um homem da Cochinchina, cidado francs, TraVan Huu, que ele confiou a 
tarefa de formar um novo governo. Graas ao novo chefe da segurana, Doe Phu Tam, conseguiu restabelecer 
a tranqilidade nas aldeias do sul e em Saigon-Cholon. Mas, na minha opinio, isso s pode ser provisrio, e a 
ajuda americana s far prolongar a guerra contra os vietcongues, reforados sem cessar pela China.  
- Voc acredita que a presena francesa est definitivamente condenada?  
- Sim. Ainda que o povo vietnamita no seja comunista, ele se reunir para caar todos os que, de perto ou de 
longe, lhe relembrem o colonialismo.  
- Mas o armamento ocidental no  superior ao chins e ao sovitico? - perguntou La.  
- E da? Neste momento... E o que podem armas e bombas contra a vontade de todo um povo?  
- Podem mat-lo.  
- Podem matar milhares, milhes de pessoas, mas no podero chegar ao fundo da vontade de independncia 
do povo vietnamita. Isso talvez dure anos, mas, no fim de tudo, venceremos.  
- Podia-se pensar estar ouvindo uma deles, como diziam a mim na Frana! - disse Franois.  
- E o sou de corao, porque a luta  justa.  
- Lembre-se, quando ramos adolescentes, voc pensava a mesma coisa que Hai e eu...  
- Continuo compartilhando seu sentimento em tudo o que  relativo  independncia. No forosamente os 
meios de alcanla. No acredito no sucesso do governo Bao Dai; est muito separado do povo, em particular dos tonquineses. No  a ajuda americana que poder mant-lo 
no 
posto. Ele  apenas um engodo diante da ascenso do comunismo. Faltam-me muitos elementos 
para apreciar a situao, mas j no acredito na pacificao preconizada pelo general Carpentier, 
apesar de seus cento e cinqenta mil homens. O desastre de Cao Bang e o abandono em pnico de 
Lang Son desmoralizaram as tropas. O exrcito j no tem confiana nos que o comandam...  
- O general De Lattre est a para mudar tudo isso - chamou a ateno La.  
- Numa primeira etapa, certamente. Mas, com o passar do tempo, no acredito.  
- Ento por que aceitou voltar para c? - perguntou La com raiva.  
- No  fcil de explicar. Ainda que ache nossa causa perdida, quero tentar ainda uma vez ajudar 
este pas e o meu.  
- Mas est em contradio com tudo o que voc sempre me disse sobre a independncia, o 
presidente H Chin Minh, a histria do Vietn! Desde pequena eu achava normal o imprio colonial 
francs; como todas as crianas da minha idade, acreditava que a Frana levava a civilizao para o 
resto do mundo. Desde a guerra sei que no  verdade, que todos os que usam um uniforme s 
querem uma coisa: combater os que no usam o mesmo uniforme e submeter os que no usam 
nenhum! Aqui se passa o mesmo que na Frana! - exclamou La.  
- Voc no vai fazer novamente essas comparaes entre a resistncia francesa e a resistncia 
vietnamita... So completamente distorcidas!  
- No para mim! Os homens que combatem pela liberdade tm os mesmos direitos em toda a parte.  
Lien pousou a mo na da jovem mulher.  
- Se as duas esto contra mim, desisto! - disse Franois, notando o gesto.  
Os trs ficaram um momento em silncio.  
- O que aconteceu com Kien? - perguntou La.  
O rosto delicado de Lien ruborizou-se. 
- Tornou-se um dos chefes de Cholon e dita a lei no Grand Monde, em companhia de Bay Vien.  
- Compreendo - disse La. - Ento  um bandido.  verdade que tinha tendncias...  
Lien baixou a cabea, confusa. Franois veio em seu socorro.  
- Aqui no se pode dizer as coisas assim. Voc est na sia, as noes de bem e mal no so as 
mesmas. Um bandido pode ser uma honra para os seus...  
- Eu lhe agradeo, Franois, mas no  uma honra para mim ser irm de Kien, se bem que o ame 
ternamente e lhe seja dedicada. Tenho vergonha de pensar em nosso pai e em nossa me e, 
principalmente, no meu av. Tenho de agradecer aos deuses que estejam mortos e no possam ver 
um descendente de nossos antepassados traficar drogas, piastras e mulheres.  
- Agora ele  proxeneta? S lhe faltava essa! - exclamou La.  
Franois esboou um gesto conciliador.  
- Vou v-lo. Tenho certeza de que no  to trgico quanto Lien quis dizer.  
- Oh, sim, v v-lo! - exclamou a jovem, esquecendo que Kien tinha tentado matar Franois. - A voc 
ele escutar. Eu, sua irm, no sou a seus olhos mais que uma mulher...  
- Ele sabe que estamos aqui?  
- Sabe.  
- Ento, iremos v-lo juntos. Voc vem?  
- Nem pensar! Uma mulher decente no vai ao Grand Monde! - exclamou Lien, baixando a cabea.  
Franois estourou de rir.  
- Ento, La no  uma mulher decente?  
- No quis dizer isso - balbuciou Lien.  
- Eu sei, estava brincando! Vou fumar um charuto no jardim... Depois irei me deitar, estou 
estourado.  
Elas viram afastar-se o homem que amavam. Uma baforada do aroma do tabaco chegou at elas, 
misturado com o odor das plantas regadas. La acendeu um cigarro e passou a fumar, pensativa, 
com os olhos postos no vazio. 

Captulo 8

No hangar do aeroporto de Tan Son Nhut, transformado em salo de recepo, todas as
pessoas importantes, civis e militares, em Saigon esperavam, no fim da tarde do dia 17 de 
dezembro de 1950, a chegada do general De Lattre. O sol batia forte no teto do hangar; os 
homens vestidos de branco ou de bege enxugavam o rosto; os vestidos claros das mulheres 
colavam-se  pele, o suor escorria como prolas por cima dos lbios. Essa quantidade de 
pessoas habitualmente muito falante estava bastante silenciosa; parecia  espera de uma m 
notcia, no de um salvador. Entre essas pessoas, La se sentia uma estrangeira, mas Franois 
exigira que ela assistisse, bem como Lien,  chegada daquele a quem chamavam "rei Jean". As 
escondidas ou abertamente cada um examinava esse novo rosto e o da jovem mestia que a 
acompanhava, fresca e elegante numa tnica vietnamita. Uma estava de vermelho, a outra de 
amarelo. O vestido vermelho de La deixava  mostra as costas e os braos; o chapu de palha 
preta com bordas largas, enfeitado com uma rosa escarlate, acentuava a insolncia do traje justo. 
Sandlias de couro negro e de salto alto e uma pequena bolsa adequada completavam o 
audacioso traje. 
- Senhora Tavernier.  
La observou vir at ela um jovem vietnamita com um terno imaculado. Ela teve a impresso de j 
ter visto essa cena.  
- Senhor Mller!  
- A senhora se lembra de mim!  uma grande alegria e uma honra para mim.  
- No esqueci que o senhor foi a primeira pessoa que me acolheu em Saigon. Lien, apresento-lhe 
Philippe Mller, de quem j lhe falei. Senhor Mller, eis a amiga de infncia de meu marido, 
senhorita Lien Rivire.  
Os dois jovens apertaram as mos.  
- E a mim ningum diz bom dia?  
Depois de um momento de hesitao, La reconheceu Lucien Bodard, o jornalista de terno 
amarrotado e camisa encharcada de suor.  
- Vo nos matar aqui embaixo! - soprou ele, enxugando a testa. - Ei-la de volta, senhora, a nossa bela 
colnia. Eu soube com alegria que a senhora reencontrou seu marido. Gostaria muito de encontr-lo. 
Onde est?  
La mostrou com a mo um grupo que cercava o alto-comissrio, Lon Pignon, e o comandante, o 
general Carpentier.  
- Ele est com os importantes! O que veio fazer neste lugar?  
- Franois est aqui a chamado do general de Lattre.  
- Como eu... Ele perguntou a seus oficiais qual era o jornal francs mais importante. "Le Monde", 
disse um; "Le Figaro", disse outro. "Vocs esto enganados", cortou o general, " oFrance 
Soir!" E acrescentou: "De agora em diante quero que o correspondente do France Soir esteja ao 
meu lado em todo lugar que eu for." Como sou eu o correspondente, eis-me aqui!  
Um de seus colegas o puxou pela manga.  
- Lucien, esto procurando-o por toda a parte, o avio j foi anunciado!  
- Estou indo! Adeus, senhora Tavernier, at logo...  
O aparelho desceu no fim da pista e se imobilizou diante do hangar. 
A escada foi rolada at a porta do quadrimotor. A porta se abriu, todos pararam de respirar. 
Marselhesa comeou. Um homem gordo, de terno branco sobre o qual sobressaa a condecorao 
da Legio de Honra, chapu na mo, descia com passos cuidadosos. Era o ministro dos Estados 
Associados, Jean Letourneau. Estava quase chegando ao fim da escada, quando apareceu, no alto, o 
heri to esperado e to temido. O general de Lattre ficou um momento imvel no uniforme de gala 
branco, que realava uma gravata preta e uma fila dupla de condecoraes. Na manga esquerda, a 
insgnia do Rhin-etDanube, as duas divisas amarelas dos Comandos da Frana e o galo verde de 
primeira classe da Legio. Depois desceu lentamente, as mos com luvas de camura branca, 
apoiado na bengala. Olhava para a frente com ar altivo. Quando tocou o solo vietnamita, imobilizou-
se em posio de sentido at o fim da Marselhesa. Depois passou em revista as tropas e saudou as 
bandeiras. Lon Pignon e o general Carpentier o seguiam, pouco  vontade.  verdade que a 
saudao do "rei Jean" fora das mais glaciais. Depois dele, desceram em uniformes impecveis, 
muito bem talhados, os homens de seu staff, todos oficiais de prestgio. Entre eles, Raoul Salan, 
apelidado "o Chins" ou "o Mandarim" por seu conhecimento da sia e da lngua vietnamita.  
Diante das tropas, o general declarou:  
- Eu tenho orgulho de estar  frente de um exrcito francs que luta. Trago e ofereo a esta terra 
meu mais total devotamento. Venho como soldado, com toda a lealdade, trazer a palavra da Frana, 
que pretende concluir a obra que comeou neste pas.  
A voz seca, a elegncia severa da silhueta, a firmeza, o nariz arqueado de narinas contradas, tudo 
nele fascinava os civis e militares ali reunidos.  que o general de Lattre de Tassigny chegava 
precedido de reputao de megalmano que no suportava contradio. Brutal, s vezes injusto, 
desdenhoso, cuidadoso com a prpria imagem, ele era exigente frente a seus subordinados, duro 
com os oficiais, mas tambm capaz de magnanimidade e 
fiel s amizades. Para alguns era um strapa; para outros, um paladino. Era amado ou odiado na 
mesma medida, temido sempre. Tinha mandado carregar a bordo do avio milhares de pacotes de 
Natal destinados aos soldados...  
Quando o saudou, Franois Tavernier no pde deixar de pensar: "Que cabotino!" O general se 
instalou no carro, ovacionado pela multido. Franois tomou lugar entre a escolta, que passou a cem 
por hora pelas ruas de Saigon. O sol poente fazia brilhar as grades douradas do palcio Norodom, 
residncia do alto-comissrio; entre o verde dos gramados e a areia vermelha das alias do jardim, 
os sentinelas de capacete chins com ponta de cobre apresentavam armas. Philippe Mller 
acompanhou La e Lien  rua Peilerin. La convidou-o a tomar um refresco. Os empregados se 
apressaram, enquanto as assam traziam as crianas. Alguns momentos depois, o jardim estava 
cheio de gritos e risos.  
- Como estava o general? - perguntou Charles.  
- Como um general - respondeu La, abanando-se com seu leno.  
Essa resposta lacnica pareceu suficiente ao menino que voltou a mergulhar na leitura de Spirou.  
Enquanto Lien fazia os pedidos para o jantar, La dava a Philippe notcias da Frana: de seu tio e de 
sua tia, Joseph e Myriam Bonder, que ela, agradecida, fora cumprimentar quando de seu retorno a 
Paris; dos filmes Stromboli e La Charge hroque, que vira antes da partida; da ltima pea de 
Franois Mauriac, Le Feu sur la terre, do prmio Femina, que ainda no lera; da morte da 
jornalista Andre Viollis, que entristecera Franois...  
- Eu no sabia que ela havia morrido. Meus pais a conheceram bem quando esteve em Saigon, em 
1931, acompanhando o senhor Paul Reynaud, ento ministro das Colnias. Ela continuou algum 
tempo depois da partida do ministro. Foi graas a  
meu pai que pode encontrar o papa dos caodastas*, o senhor Le Van Trung.  
- Meu marido me fez ler seu livro Indochine S.O.S. Ele me permitiu compreender melhor o que se passava 
aqui antes da guerra. E agora, no est tudo parecido? - perguntou La.  
- No se ousa tratar os nativos da mesma maneira, mas o trfico de todos os gneros vai muito bem. Houve 
alguns atentados, que assustaram os brancos. A senhora se lembra daquela noite em Cholon, quando de sua 
chegada?  
- Muito bem!  
- Bay Vien, que a recebeu, tornou-se ainda mais poderoso. Ele comanda um verdadeiro exrcito, e nunca se 
sabe se est com os franceses ou com os vietcongues. Quanto ao irmo da senhorita Rivire,  um jovem 
respeitado e... temido! Como se comportou com a senhora? No gostei de t-la deixado partir com ele.  
- O senhor no tinha muita escolha. Ele foi muito correto, se  o que quer saber, mas no quero rev-lo...  
- Isso ser difcil, ele tem seus contatos no alto-comissariado, e a senhora mora na casa da irm dele.  
Uma campainha tocou. Pouco depois, Thuy-chu correu a dizer a La:  
- O senhor Kien Rivire veio visit-la, senhora.  
La levantou-se de um salto e respondeu com raiva:  
- No quero v-lo!  
Tarde demais: ele chegava em companhia de Lien. Philippe Mller se levantou por sua vez:  
- Permita-me despedir-me. Espero que nos vejamos novamente; eis meu carto. Foi um prazer...  
- Fiz o senhor fugir, senhor Mller? - disse a voz de Kien.  
- No, senhor Rivire. Tenho um encontro.  
- Importante, sem dvida?  
- Muito importante. Meus respeitos, senhorita. At logo, senhora... 
- Adeus, senhor Mller... Eu o levo at a porta, senhor Mller  
- balbuciou Lien.  
Enquanto se afastavam, Kien sentou-se.  
- Est ainda mais bonita que da ltima vez - disse ele, segurando o copo que o empregado lhe estendia.  
"Ele tambm est ainda mais bonito...", pensou La, ruborizando-se. Furiosa consigo, ela se virou. A mistura 
de raas atingia nele, como na irm, a perfeio. Do lado asitico, ele recebera os cabelos pretos, a tez mbar, 
os olhos ligeiramente amendoados; do lado europeu, uma alta estatura e esse porte que inspira grande 
confiana. As mulheres, na rua, voltavam-se para ele; os homens mostravam-se ciumentos. Todos o temiam. A 
alta sociedade europia o recebia a contragosto; at do muito seleto Club Sportif era scio. Alm de tudo, no 
era francs, sado de uma boa famlia lionesa? Dele emanava uma fora brutal e animal  qual La se sabia 
sensvel, apesar do dio e do desprezo que lhe devotava. Mas o que a tirava de si  que ele tinha conscincia 
disso. Os dois se encaravam como animais ferozes, um esperando que o outro desse o primeiro sinal de 
fraqueza. O jovem tinha jurado a si prprio que ela seria dele. Esperava a sua hora. No lhe faltavam mulheres 
de colonos ou de oficiais desocupadas nem esplndidas chinesas de corpos dceis que lhe permitiam esperar 
com pacincia.  
Rindo e acotovelando-se, as crianas fizeram brincadeiras ao chegar.  
- Eis Adrien, meu filho, e Charles, meu filho adotivo.  
O olhar reconhecido que Charles lanou a La no escapou a Kien, que resolveu seduzir o menino.  
- Voc tem mesmo muita sorte de ter uma me to bonita! Gosta de animais?  
- Oh, sim.  
- Se sua me permitir, eu o levarei ao jardim botnico, onde h um zoolgico, e o apresentarei ao Ong Cop.  
- O que  um onco?  
Kien abriu um riso alegre. "Como  jovem...", pensou La.  
- Cop  um tigre, mas aqui, no Vietn, diz-se Ong Cop, que quer dizer "senhor Tigre". Voc gostar de 
conhec-lo. 
Charles voltou-se para La com tal desejo no olhar, que a jovem mulher s pde responder:  
- Iremos juntos.  
O sorriso de Charles valeu todos os agradecimentos. Quanto a Kien, virou os olhos para esconder seu jbilo.  
- Quando vamos? - perguntou o menino.  
- Amanh, se voc quiser... - disse Kien.  
- Amanh no  possvel. Ainda tenho coisas para arrumar  
- disse La.  
- Ento passarei para lev-los depois de amanh. Certo?  
La concordou, impaciente por se livrar da presena do visitante.  
- Cumprimente Franois por mim...  
- Isso no ser necessrio, eu estou aqui - disse este ltimo, que acabava de entrar.  
Os dois homens apertaram as mos.  
- Eu no pensaria jamais que voc voltaria para se jogar na boca do lobo! - exclamou Kien acendendo um 
cigarro. Lien e La se entreolharam.  
- Com de Lattre, o lobo vai ter muito trabalho. O homem no  acomodado e est decidido a retomar o exrcito 
em suas mos. Na verdade, com quemvoc est: franceses ouvietcongues?  
- Do meu - disse Kien, com um sorriso equvoco. - No estou com muita pressa de ver o fim desta guerra, 
ganha-se muito dinheiro.  
- Sempre espertalho, pelo que eu vejo! - deixou escapar Franois com ar indiferente.  
Kien cerrou os punhos; teria preferido clera, talvez o desprezo, a essa desenvoltura. Sentiu-se rejeitado, como 
era, ainda criana, das brincadeiras dos mais velhos. No querendo perder o prestgio, principalmente diante de 
La, ele sujeitou-se a mostrar a maior fleuma possvel.  
- Espertalho no sentido ocidental do termo, se quiser... Mas aqui, em Saigon-Cholon, sou um chefe.  
- Para mim no  surpresa!  
Lien se aproximou e colocou a mo no brao do irmo. 
- Pode vir aqui um instante? Queria lhe mostrar uma coisa... Enquanto o irmo e a irm se afastavam, Franois 
puxou a  
mulher para si.  
- Eu gostaria de que ele no viesse aqui com muita freqncia. Tornou-se um canalha perigoso e muito 
comprometedor. Se ele continuar assim, vai provocar represlias de um e de outro lado.  
- Por qu?  
- Vende armas ao vietcongues e pio ao exrcito, sem contar o cmbio negro de piastras, que ele pratica em 
grande escala.  
- Como impedi-lo de vir aqui ver a irm?  
- Falarei com Lien. Se for preciso, ns nos mudaremos.  
- O qu? J? Mal acabamos de chegar... Ele props a Charles lev-lo para ver os animais do jardim botnico.  
- Desde quando ele se interessa pelas feras? Quando era pequeno, s tinha indiferena pelos animais, como 
freqentemente os asiticos. Mas chega de falar dele! Vamos para o quarto.  
- Eu achava que ns deveramos ir ao alto-comissariado,  
recepo... 
- Eles esperaro! 
Na manh de 19 de dezembro de 1950, Franois partiu para Hani a bordo do Dakota, do general de Lattre, que 
insistira em "tomar posse" da capital do Tonquin no dia do aniversrio do ataque vietcongue, em 19 de 
dezembro de 1946. Esse ataque, que quase havia custado a vida de Jean Sainteny, servira de pretexto  
ampliao do conflito depois do bombardeio pela esquadra francesa do porto de Haiphong, em 20 de 
novembro, o qual fizera milhares de vtimas entre a populao civil.  
A chegada a Hani foi, contudo, retardada, tendo o general enviado um telegrama a Sua Majestade Bao Dai 
para encontrlo; o imperador respondeu com um convite para almoar nesse mesmo dia. Devido a isso, o avio 
pousou no pequeno aeroporto de Dalat ao meio-dia. As limusines vieram buscar de Lattre e sua comitiva na 
descida do aparelho.  
- Vai haver problemas com Sua Majestade! - ressaltou Lucien Bodard, que se sentara perto de Franois. O 
Velho est 
furioso por ele no ter vindo receb-lo na chegada a Saigon. Diante de mim, chamou-o de "rufio", 
"alcoviteiro", de "cara de farsas e trapaas", de "majestade de merda" e outras coisas mais... Mas est 
enganado. Sob esse ar de playboy debochado, Bao Dai no  nenhum idiota. Tenho certeza de que no 
aceitar ir a Hani, como quer de Lattre. Seria desmoralizar-se diante do povo.  
O almoo foi excelente e durou muito tempo. O imperador e o general fizeram trocas de delicadezas. Com os 
olhos escondidos atrs dos culos escuros, Bao Dai, vestido com um terno jaqueto impecavelmente talhado, 
sorria e abanava a cabea com ar de simplicidade. Mas, como previsto por Bodard, "o soberano das boates 
noturnas", como o chamava o hspede, recusou de pronto acompanhar o comandante-em-chefe das foras 
francesas a assumir o comando das tropas em Hani. Perturbado, este se despediu seguido do ministro 
Letourneau e de seu staff. No avio, deixou a clera explodir:  
- Ns combatemos pelo rei da Prssia, um rei da Prssia que  malandro e no tem nem mesmo uma palavra de 
reconhecimento queles cujos sacrifcios cobrem suas diverses!  
Durante toda a viagem, de Lattre no parou de conversar com o general Salan. "Alm disso, o Chins fala 
vietnamita, o que nos ser muito til", dissera o governador Georges Gauthier, especialmente recomendado 
pelo ministro da Frana de Alm-Mar, Franois Mitterand. Gauthier, como Jean Aurillac, nomeado conselheiro 
junto a de Lattre, fizera parte do gabinete do almirante Decoux durante a ocupao japonesa.  
Sentado ao lado de Franois, o coronel Beaufre parecia perdido em seus pensamentos. Detrs dele pedaos de 
frases lhe chegavam, apesar do barulho dos motores:  
-  preciso "vietnamizar" o exrcito... o "amarelamento" do exrcito se impe...  preciso que os prprios 
vietnamitas se alistem em massa contra os vietcongues... de fato, muito poucos so comunistas... com de 
Lattre as coisas vo mudar... O "Mocho"* ainda no deu a ltima palavra...  
Mocho - Cognome dado ao general de Lattre na clandestinidade, durante a ocupao alem. 
O tempo estava encoberto; fazia frio no aparelho.  
O Dakota aterrissou s 17 horas em Hani. Estava escuro, uma chuva mida e persistente molhava tudo. As 
pessoas importantes que tinham vindo esperar o general estavam geladas; batiam os ps desde o incio da 
tarde. Sob os faris dos veculos que clareavam a pista, a comitiva do novo comandante avanava para as 
autoridades tiritantes. Ele cumprimentou com cortesia o representante do imperador Bao Dai, o governador de 
Tonquin, Nguyen Huu Try, cujo rosto impassvel dissimulava o descontentamento. Impaciente para chegar  
cidade, de Lattre encurtou os cumprimentos. Pretendia superar o desafio lanado, dizia-se, por H Chin Minh, 
que prometera desfilar  frente do exrcito vitorioso nas ruas de Hani em 19 de novembro. Alm do mais, no 
tinha a rdio vietcongue anunciado a tomada da capital do Norte antes da festa do Tt*?  
A comitiva tomou a estrada. Ao longe, ouvia-se troar o canho inimigo. Rodavam em alta velocidade. As 
palhoas e as casas que no haviam sido destrudas pareciam abandonadas pelos habitantes. Na entrada da 
ponte Paul-Doumer, as tropas apresentaram armas.  
- Mais depressa! - ordenou o general.  
As ruas que conduziam ao Petit Lac estavam desertas. O prprio bairro chins parecia morto. O general, muito 
rgido no uniforme impecvel, subiu num palanque erguido s pressas em frente s guas mornas do lago, 
cumprimentou o bispo de Hani e as vrias personalidades presentes. A chuva mida continuava a cair, j era 
quase noite. Os oficiais se agruparam ao p do pequeno palanque. No incio dos degraus, o suboficial Ren 
Legur, escolhido porque era o mais condecorado da guarnio, estava em p e imvel, levando o galhardete 
do 10 batalho de praquedistas. Por ordem do general, as tropas, que ainda na vspera combatiam, tinham 
sido convocadas a Hani para ser apresentadas ao novo comandante, o que no hesitara em desguarnecer 
dessa maneira a frente de combate. Entre os oficiais, alguns  
murmuravam que era pura loucura, que os vietcongues tinham tudo para se aproveitar disso e iniciar 
a ofensiva.  
- Qualquer outro que no fosse de Lattre compareceria a conselho de guerra por irresponsabilidade! 
- exclamou um coronel.  
- Que categoria, a do velho! - murmurou uma voz rouca perto de Franois.  
Ele reconheceu o correspondente do France-Soir, Lucien Bodard.  
- Voc poder "divertir-se" muito no pasquim!  
- Vou ter bastante matria! Que figura!  
"Que meus batalhes desfilem!", dir mais tarde o canto de guerra da Indochina. A banda tocou as 
rias marciais para o momento, e os oito batalhes requisitados se puseram em marcha, iluminados 
pelos faris dos caminhes militares. Em primeiro lugar os rabes do grupamento mvel norte-
africano, magros como lobos, conduzidos pelo coronel Edon, um colosso tranqilo; depois os 
vietnamitas, em uniforme francs. Entre eles, Franois reconheceu Bernard Rivire, uma cabea 
mais alta que os companheiros. Apesar dos trajes miserveis, manchados, cerzidos rusticamente, a 
esses soldados, cabea ereta e busto altivo, no faltava a elegncia do porte.  
- Vejam como so belos! - exclamou de Lattre.  
Quando, com seu passo lento, passaram os homens da Legio de uniformes dourados, enlameados e 
rasgados, cobertos por capacetes camuflados, manchados de suor, o general, como que fascinado, 
desceu do palanque e se aproximou dos combatentes, que desfilavam sem virar o olhar, quase o 
tocando. O odor forte que se desprendia das filas o envolveu, pareceu subir-lhe  cabea, 
transfigur-lo, humaniz-lo, enfim. Com a mo enluvada, ele saudou longamente esses guerreiros, 
dos quais bem poucos eram franceses, mas que combatiam pela Frana nessa Legio que os havia 
acolhido sem lhes fazer perguntas.  
- Como so belos! - repetiu ele, observando-os afastar-se na noite j alta. 
Em volta do lago, pequenas luzes foram acesas. Podia-se adivinhar uma multido. Vietnamitas e 
franceses, os habitantes de Hani, haviam sado de seus covis. A classe do "rei Jean" tranqilizava 
as duas comunidades, tanto que os vendedores de sopa haviam reaparecido. A cidade retomava sua 
vida; ouviam-se risos e gritos de crianas.  
O general Boyer de Latour, comandante das tropas do Tonquin, veio cumprimentar o general.  
- Quero ver imediatamente o mximo de oficiais e de suboficiais na Maison de France, como 
estiverem - disse ele secamente quele que ordenara a evacuao de mulheres e crianas.  
De Lattre, visivelmente, s tinha desprezo por ele.  
A msica e os soldados aquartelados em Hani partiram para a Citadelle, enquanto os outros subiam 
nos caminhes que os haviam trazido, atravessando s vezes as linhas inimigas. Alguns temiam a 
volta de noite, pois cada um sabia que ela pertencia aos vietcongues; mas todos pensavam que com 
tal chefe isso no aconteceria por muito tempo...  
Na Maison de France, de Lattre prosseguia a retomada do comando do exrcito, mostrando-se, 
pouco a pouco, firme e sedutor:  
- Aceitei a misso sem garantias objetivas e para encontrar aqueles que aguardavam energia e 
algum para comand-los. Suceda o que suceder, estarei com vocs. Vim ajudar os tenentes e os 
capites. Os jovens oficiais suportam todo o peso desta guerra,  por meio deles que o contato entre 
o povo vietnamita e a Frana  mantido, so eles que preenchem o fosso que foi cavado por mal-
entendidos entre o Vietn e a Frana. Acabaram-se as retiradas. Tonquin ser mantido. Ns o 
manteremos. De agora em diante vocs sero comandados!  
O olhar dos jovens oficiais brilhava, todos recomeavam a ter esperana. Enfim um lder!  
Como qualquer deles, Franois Tavernier estava encantado. "Que audcia!... Que ator!", pensava. 

Captulo 9

Um telegrama vindo de Haiphong anunciou a La que Franois no passaria com ela as festas de fim de ano.
La tivera, contudo, uma alegria infantil com a idia de passar esse Natal em famlia. Graas a Lien, ela 
descobrira na loja de um comerciante chins de Cholon bonecos rusticamente esculpidos em madeira, bolas e 
guirlandas em cores. Lien conseguira mesmo derrubar uma rvore que parecia, se no fosse olhada de muito 
perto, um pinheiro. Charles se encarregara de decor-la, ajudado por Adrien.  
- Est bonito - dissera o menino, batendo palmas.  
"Est horrvel", pensara La.  
De fato, a rvore de Natal tinha um ar tristonho, com as guirlandas pobres e sem brilho e as bolas de tintas 
desbotadas. A decepo de La era to evidente, que Charles a notou. Imediatamente, os olhos se encheram 
de lgrimas.  
- Perdo - murmurou ele.  
- Perdo por que, querido? Voc fez o que pde; est muito bonita sua rvore.  
- Diz isso para me agradar. Sei muito bem que no  verdade... Oh, Kien, voc tem de me ajudar! 
O que ele ainda estava fazendo l? Cada dia encontrava um pretexto para ir  rua Peilerin. Nada a lhe censurar: 
ele era encantador, cobria as crianas de presentes, enviava frutas e flores. Fora um bom guia quando da visita 
ao jardim botnico e ao zoo'lgico. O lugar estava melanclico; sentia-se que restava pouca coisa do 
esplendor passado. Os jardineiros se contentavam com um mnimo de manuteno.  
Os viveiros estavam metade vazios, trs belas lontras brincavam num tanque esverdeado, um enorme urso 
dormia na jaula. Quanto a Ong Cop, tinha o ar familiar de um grande gato. Criado em 1864 pelo agrnomo 
Pierre, o parque era um dos mais bonitos do Extremo-Oriente. Antigo lugar de passeios, os saigoneses da 
colnia gostavam muito de se reunir em volta do quiosque para escutar o orfeo municipal ou as bandas 
militares. No momento era apenas um jardim sem encantos, que assinalava melhor que tudo o fim de uma 
poca.  
Nesse dia, Kien estava acompanhado pelos guarda-costas, dois velhos conhecidos de La: o francs Fred e 
seu comparsa Vinh. Os trs homens usavam roupas de tela branca; se o de Kien estava muito bem talhado, o 
dos amigos tinha sido feito por um modesto alfaiate de Cholon. Estavam com os braos repletos de embrulhos.  
- Voc agora quer brincar de Papai Noel? - perguntou La, em tom pouco delicado.  
- Fica bem em mim, no ? S me falta a roupa vermelha e a barba branca!  
- Pare de bancar o palhao. O que h em todos esses pacotes?  
- Voc vai ver:  para colocar embaixo da rvore. Ela no est muito bonita. Felizmente o "titio" Kien pensa em 
tudo. Charles, tome esta bolsa, nela est tudo de que precisa para decorar a rvore.  
O menino obedeceu e dava gritos a cada enfeite brilhante, sininho ou bola multicolorida. Kien e Charles 
decoraram o "pinheiro" que acabou por parecer um desses mastros que os chineses gostam de agitar nas 
procisses. A alegria das crianas era tal, que La consentiu em sorrir: 
- Voc os mima demais.  
- Uma criana nunca  mimada demais. Para ns as crianas so reis. Voc vai  missa do Galo amanh, como a 
maioria dos europeus de Saigon?  
- No sou de Saigon e no vou  missa do Galo h muito tempo. A ltima vez foi antes da guerra, na baslica de 
Verdelais, com meu pai, minha me e minhas irms...  
Essa lembrana entristeceu-lhe o olhar. Ela baixou a cabea. Assim, parecia uma garota triste. Charles percebeu 
e tomou-lhe a mo, que levou aos lbios. Ela se inclinou e deu um beijo nos cabelos do menino.  
- Se no vai  igreja, talvez aceite ir festejar comigo em companhia de alguns amigos, j que Franois no vai 
estar aqui.  
- Como  que sabe disso?  
- As notcias correm rpido na sia.  
- No, obrigado. Prefiro ficar aqui com Lien e as crianas.  
- V, La, no se aflija por ns: h Lixia e Jiancir para tomar conta de ns.  
- Voc  gentil, Charles; mas prefiro ficar aqui.  
- Mas...  
- Chega. V para o quarto e leve Adrien.  
La acendeu o cigarro. Kien se aproximou dela.  
- Voc o castigou. Essa criana a adora. Pensou que faria bem a voc distrair-se.  
- Kien, no me amole! Estou aqui h menos de uma semana, tive muito que fazer para ter tido tempo de me 
entediar. No  com voc que eu tenho vontade de ir festejar, mas com meu marido.  
- Um marido que no est aqui quando voc deseja.  
- Isso no  da sua conta!  
- O que est acontecendo, La? Kien a aborrece? - perguntou Lien entrando no salo.  
- De maneira alguma, irm. Eu desejava apenas convidla para amanh, j que Franois no est. Alm disso, 
queria convidar voc tambm.  
- Mas  uma idia muito boa, com a condio de que nos leve a um lugar conveniente. 
- Conheo o respeito que se deve s senhoras, e  minha irm em particular - disse ele fazendo uma mesura.  
- Voc devia aceitar - disse Lien a La. - Tenho certeza de que Franois ficaria triste se voc passasse essa festa 
sozinha, trancada dentro de casa.  
A insistncia afetuosa da jovem mestia lembrava fugazmente a La a da me de Charles, Camilie, cujo primeiro 
nome dera  prpria filha. Essa lembrana a decidiu.  
- No quero ser desmancha-prazeres. Est certo. Mas quero que Philippe Mller esteja conosco.  
- Como quiser. Passarei para peg-las em torno das 23 horas. Quero que vocs sejam as mais belas e que 
Saigon inteira me inveje! No esqueam os presentes; seus nomes esto nos embrulhos. At amanh!  
Na entrada do salo de baile do hotel Continental, o novo proprietrio, senhor Franchini, recebia de smoking 
a alta sociedade de Saigon, que vinha festejar este 24 de dezembro de 1950. Uma multido elegante se 
comprimia, conversando de p, com uma taa de champanhe na mo, sob as ps dos grandes ventiladores, que 
agitavam o ar mido, enquanto ao fundo, num estrado, uma orquestra tocava em surdina. Maltres conduziam 
os clientes at as mesas depois de um sinal de aprovao do senhor Franchini. Para a ocasio, a direo pusera 
as mais belas toalhas de mesa, a mais rica prataria, a porcelana mais fina. Os copos de cristal cintilavam nas 
toalhas brancas com os vincos marcados. No centro, rosas da Frana davam um colorido que fazia 
concorrncia com as pequenas lmpadas dos abajures de seda salmo. As mulheres em vestidos de noite, 
exageradamente enfeitados de fitas ou rendas, faziam pose. Todas estavam muito maquiadas. A colnia 
francesa esperara a presena do general de Lattre, mas este preferira ficar perto das tropas, em Hani, e assistir 
 missa do Galo com os fiis na antiga igreja dos Martyrs, prximo da Citadelle. Por isso raros uniformes eram 
vistos na reunio. Logo, todos e todas haviam ocupado seus lugares. Na beira da pista, no longe da 
orquestra, uma mesa permanecia vazia. Os comentrios corriam soltos. Todos os importantes de Saigon j stavam l: para quem ela estava reservada? Os criados 
circulavam entre os participantes, quando um grupo de quatro pessoas apresentou-se na entrada. As cabeas 
se viraram; pouco a pouco, as conversas cessaram. A orquestra continuava a tocar. O senhor Franchini foi at 
os que acabavam de chegar:  
- Os senhores esto atrasados, mas s belas mulheres perdoa-se tudo - disse ele, beijando a mo que La lhe 
estendeu.  
- Senhora Tavernier,  uma honra para mim receb-la em meu estabelecimento em companhia da senhorita 
Rivire e de meus amigos, senhores Mller e Rivire, para festejar seu primeiro Natal indochins. Que pena que 
o senhor Tavernier no possa estar entre ns! Ele est com o general, estou certo?... Venha, vou conduzi-la eu 
mesmo.  
Um murmrio percorreu a sala: quem eram essas pessoas  
- entre as quais trs mestios - com que Franchini se mostrava to solcito? As mulheres, as duas jovens 
causaram inveja sem nenhuma indulgncia. Quanto aos homens, teriam naturalmente abandonado a companhia 
para tomar os lugares dos dois estranhos. Muitos no contiveram assobios de admirao; poucos expressaram 
murmrios de desaprovao. Ao se sentarem, La e Lien sentiram pesar sobre si a tenso odiosa da "alta" 
sociedade.  
- No deveramos ter vindo - suspirou Lien, maravilhosa num longo de crepe branca cujo drapeado bem-feito 
valorizava o corpo magnfico.  
-  claro que sim! - cortou La, belssima num vestido justo negro que desnudava os ombros e os seios, 
fazendo-os parecer mais claros ainda.  
Quanto aos dois jovens, em summer imaculado, a elegncia ressaltava ainda mais a beleza das 
acompanhantes.  
Depois de instal-los e de ter bebido uma taa de champanhe com eles, Franchini retomou seu lugar 
acompanhado, na passagem, por perguntas dos convidados. Visivelmente, suas respostas s faziam atiar 
averses e desprezos. La estava conhecendo o racismo colonial. 
- So sempre assim os franceses de Saigon?  
- Para ns, mestios, com raras excees, quase sempre sim  
- respondeu Philippe Mller. - Salvo quando precisam de ns ou somos muito ricos...  
- ...ou muito poderosos - continuou Kien.  
- Contudo voc  em parte francs...  
- Estou admirada da sua afirmao. Parece at que  a primeira vez que vem  nossa terra! - observou Lien com 
uma ponta de aborrecimento.  
- Perdoe-me, sou uma tola - escusou-se La. - Mas, no aprovando esses sentimentos, fico sempre surpresa 
com sua manifestao.  
-  uma prova da grandeza de seu carter e da bondade do seu corao...  
- Meu caro Philippe, no se engane: todos os que me conhecem bem lhe diro que ajo mais por instinto que por 
reflexo.  
- O que nos torna parecidos! - disse Kien.  
- Eis um ponto de vista com que no concordo: no quero ter nada em comum com voc.  
Kien se contentou em sorrir inclinando-se, com os punhos crispados sob a mesa. Para descontrair o ambiente, 
Philippe fez um brinde ao fim da guerra.  
- Ao fim da guerra! - repetiram em coro os companheiros.  
Com gestos educados, o maltre lhes apresentou uma grande taa de caviar colocada sobre gelo.  
- Caviar! - exclamou La. - Eu adoro.  
- Estou vendo - disse Kien rindo.  
- Oh, desculpe.  
A jovem corou por ter sido to abundantemente servida.  
- No se constranja. Se comermos tudo, ainda haver mais.  
Embaraada, La olhou em volta de si. Nas outras mesas, a quantidade era bem menor.  
- Questes de prestgio - cochichou-lhe Kien ao ouvido.  
"Que malandro!", pensou ela, engolindo uma colherada cheia dos pequenos ovos negros. 
- No acham assombroso que estejamos a mais de quinze mil quilmetros da Frana, em plena guerra, e 
degustemos iguarias raras e caras como se nada estivesse acontecendo? - perguntou Philippe Mller.  
- No foi sempre assim? - arriscou Lien com a voz doce.  
La descansou a colher. A lembrana dos restaurantes do mercado negro, sob a ocupao, voltou-lhe  
memria com preciso angustiante. Sim, era sempre assim, e por outro lado no era normal. Um acesso de raiva 
muda a invadiu. Porque deveria passar a vida culpando-se? No tinha ela conquistado o direito de se fartar de 
caviar e de se embebedar de champanhe se isso lhe desse prazer? A guerra, sempre a guerra! Ela s tinha 
conhecido isso, desde a adolescncia.  
- Voc gosta da guerra - dissera-lhe Sarah um dia, pouco antes de morrer. La se lembrava de sua surpresa, 
depois de sua clera.  
- Muita gente  assim, mas poucos o reconhecem. Franois e voc so iguais.  
- Mas Franois sempre lutou contra isso! - exclamara ela.  
- Como voc acaba de assinalar, ele sempre lutou...  
- O que voc est dizendo  uma bobagem! E voc, o que voc faz aqui, na Argentina, perseguindo criminosos 
nazistas?  
- No so meus criminosos, mas assassinos do gnero humano. No fao guerra a eles, executo-os...  
Ela acreditava ouvir novamente a voz fria e implacvel de Sarah. Um profundo desalento a dominou e um breve 
soluo a sacudiu. "Franois, por que voc nunca est comigo quando preciso de voc?", pensou ela.  
Todos notaram-lhe a fisionomia alterada.  
- O que voc tem? - perguntaram em coro.  
- No  nada, meus amigos. Lembranas tristes. Philippe, sirva-me bebida, s quero viver este instante!  
O jovem fez sinal ao maltre, que encheu novamente os copos.  
- Mais uma - apressou-se a pedir Kien.  
Quando chegou a sobremesa tradicional, uma grande alegria reinava na mesa. Lien tinha os olhos brilhantes; 
os do irmo pareciam dois rasgos assustadores. "Os olhos do senhor Cop", pensou La, que um comeo de 
embriaguez embelezara ainda mais. Quanto a Philippe, um sorriso tranqilo tomava-lhe os lbios.  
- Estou com vontade de danar - disse ela.  
Os dois homens se levantaram ao mesmo tempo. Kien, mais rpido, pegou a mo de La. Eles se encaminharam 
para a pista, onde j danavam alguns pares de idade respeitvel, que eles humilharam com sua juventude e 
encanto. Quando Kien a enlaou, a msica parou; depois recomeou, diferente.  
- Adoro rumba - disse La estendendo os braos para o par.  
Ela esquecera que o irmo de Lien danava muito bem e com um modo brutal e esperto de apertar a si a 
acompanhante e fazla como que ondular. La se abandonou, e logo os corpos se ajustaram um ao outro.  
Lien e Philippe logo os seguiram. Nada de parecido na maneira de mover-se. Danavam como asiticos, 
distantes um do outro. Ambos tinham o ar embaraado pela sensualidade das evolues dos amigos. Todos 
no salo s tinham olhos para eles. "Chocante, obsceno", reclamavam as mulheres. "O safado, eu gostaria de 
quebrar-lhe a cara", resmungavam os homens. Em todos, uma hostilidade crescente se manifestava. 
Indiferentes, ligados um ao outro, La e Kien prosseguiam uma dana depois da outra, e se poderia dizer que 
tinham danado juntos toda a vida, pelo modo como seus passos se harmonizavam. A orquestra parou; eles 
voltaram para a mesa rindo.  
- H muito tempo no danava assim - disse La, estendendo o copo vazio.  
Franchini se aproximou deles.  
- A senhora  a rainha da festa, madame. Causa muitos cimes, e o senhor, senhor Rivire, muita inveja.  um 
prazer vlos danar. Permitam-me oferecer-lhes meu melhor champanhe.  
Mais uma vez, Franchini bebeu na companhia deles antes de voltar a seu lugar. La danou um slow com 
Philippe Mller, que se excusou por ser apenas um danarino medocre. No era verdade, mas, de fato, isso nada tinha que ver com o que ela experimentara nos braos 
de Kien.  
Logo de manh cedo, Charles e Adrien irromperam, empurrando-se, no quarto de La.  
- Mame, mame, levante! Papai Noel esteve aqui!  
- La, venha rpido, ganhamos muitos presentes.  
Um resmungo foi a resposta. Adrien se debruou sobre a cama, puxou o mosquiteiro e, com as 
pequenas mos, sacudiu a me.  
- Levante, mame, levante.  
La entreabriu um olho. Por que lhe batiam na cabea? Numa espcie de nvoa, ela descobriu a 
fisionomia do filho, debruado sobre ela. Atrs dele, entreviu a de Charles. O que faziam to cedo 
no quarto? Uma palavra atingiu-lhe o crebro: "Natal... Natal..." Era Natal!... Rpido, era preciso 
levantar-se antes de Franoise e Laura, ser a primeira a encontrar os presentes... Ela e as irms j 
no acreditavam verdadeiramente em Papai Noel, mas, de comum acordo, faziam parecer que sim, 
pois, segundo uma de suas amigas mais velhas, desde que as crianas deixaram de acreditar, os 
sapatos estavam vazios. Uma noite, as meninas Delmas tinham ouvido rudos e cochichos no 
corredor dos quartos. La levantara-se s escondidas e entreabrira a porta. O corredor no estava 
bem iluminado. Ela percebera duas figuras brancas  luz da pequena lmpada da escada. 
"Fantasmas", pensara, fechando novamente a porta, com o corao batendo. Mas a curiosidade 
fora mais forte que o medo. Fantasmas, La sonhava v-los; era agora ou nunca! Ela abrira 
novamente a porta e acreditara reconhecer a voz do pai, o riso da me. Devagar, descera os 
degraus. O rangido do quinto a imobilizara. No mesmo instante, as sombras monstruosas dos 
fantasmas tinham gesticulado na parede. Aterrorizada, ela se agarrara ao corrimo. Do lado de fora, 
o vento comeara a assobiar em rajadas, e o velho cachorro Mathias a latir. A pequena menina 
subira gritando, procurando refgio na cama, sob o edredom de acetinado vermelho. Pouco depois, 
os pais entravam no quarto e acendiam a pequena lmpada. Tinham zombado da histria de fantasmas. Ah, eram pessoas grandes que no acreditavam 
em nada! Depois, sob as carcias da me, ela voltara a dormir.  
- Mame, levante,  Natal!  
Por que ela pensara novamente nos queridos fantasmas? Como eles lhe faziam falta! E agora, por 
sua vez, ela era "me", e era preciso sempre parecer acreditar em Papai Noel. "E se ele existisse 
verdadeiramente?", dizia-se ao levantar-se.  
- Voc est nua, mame!  
Ela no ligou. Estava com tanta dor de cabea! Sem se incomodar com a presena das crianas, 
dirigiu-se para o banheiro segurando a testa. Tateando, procurou o vidro de aspirinas. Depois entrou 
no chuveiro, girando totalmente a torneira de gua fria. Sob o jorro d'gua, as brumas do lcool se 
dissiparam pouco a pouco. Quando voltou ao quarto, envolta num amplo roupo felpudo e com 
cabea com uma toalha como turbante, estava fresca e encantadora. A enxaqueca se fora.  
Seguida por Charles e Adrien, chegou ao salo, onde a rvore fora erguida. Junto a esta estavam os 
sapatos de toda a famlia, cheios de presentes. Lien j estava l, vestida com uma tnica verde 
sobre a cala de seda branca. A noitada da vspera no lhe deixara nenhum trao no rosto.  
- Perdoe-me, no pude segurar as crianas.  
-  natural no dia de hoje. Minha belezinha,  o seu primeiro Natal - disse ela tomando a pequena 
Camilie dos braos da assam. - Feliz Natal, meu beb! Feliz Natal, meus queridos! Feliz Natal, Lien!  
- Por que papai no est aqui? - perguntou Adrien.  
La tornou-se tristonha e entregou a filha  assam. Charles veio em seu socorro.  
- Tio Franois est com o general de Lattre.  
- Quem  esse general que me toma papai no dia de Natal?  
O corao de La ficou apertado.  
-  um grande soldado que vai lutar para conservar a Indochina para a Frana.  
- Ah, est bem - disse o menino correndo para o sapato. 
La teve vontade de explicar a Charles que no era to simples assim, mas, por preguia ou 
cansao, deixou para mais tarde as explicaes sobre a histria das relaes franco-indochinesas...  
As crianas davam gritos de alegria ao abrir os embrulhos. Os empregados foram chamados por 
Lien para vir buscar os seus.  
- Voc no abre seus presentes?  
A jovem sorriu, sentou-se no tapete e desatou a fita de um grande embrulho. Uma onda de seda 
escapou e deslizou-lhe sobre os joelhos.  
- Que maravilha! - exclamou ela.  
- Gostou? Estou muito feliz.  
- Nunca vi uma fazenda to bonita. Os livros so apenas presentes modestos perto do seu.  
- Como pode dizer isso? Livros nunca so presentes modestos. Presentes indiscretos, quando muito.  
- Indiscretos, como assim?  
- Eles demonstram o gosto de quem os oferece e a idia que se faz daquele a quem so destinados.  
- Eu nem tinha pensado nisso. Pensei que poderiam lhe agradar, simplesmente.  
- Eu lhe direi quando os tiver lido. Obrigado, de todo o corao.  
Kien oferecera  irm e a La dois magnficos colares de coral e jade, muito diferentes um do outro.  
- Que idia engraada teve meu irmo de escolher para voc um colar to barroco. Parece uma jia 
selvagem.  
- Ao contrrio, acho muito bonito - disse La. -Acha que posso aceitar tal presente?  
- Se no aceitar, ele  bem capaz de jog-lo no mar, o que seria uma pena. Use-o, cai muito bem em 
voc.  
Continuaram a abrir os embrulhos: leques coloridos, caixas incrustadas de nacar, bordados...  
- Nunca meu irmozinho me deu tantos presentes... - sorriu Lien.  
Ainda que leve, a ironia no escapou a La. 
- Estou muito constrangida com a generosidade dele porque no tenho nada para lhe oferecer.  
- Isso no tem importncia. Voc devia ir se vestir. O senhor Mller e ele devem vir almoar.  
-  verdade, tinha esquecido completamente.  
A entrada de um dos criados a interrompeu:  
- Senhora, h um militar querendo v-la.  
As duas mulheres trocaram um olhar. Pensaram a mesma coisa: teria acontecido alguma coisa a 
Franois?  
- Faa-o entrar.  
Um soldado jovem apresentou-se com um largo sorriso. Incrdula, La o encarou.  
- Franck! - exclamou ela, jogando-se nos seus braos.  
- Quem  ele? - perguntou Adrien, agarrando-se ao roupo da me.  
-  um amigo, um velho amigo... Eu sabia que o senhor tinha partido para a Indochina, mas no 
esperava rev-lo to rpido...  
- Voc me chama de senhor agora?  
- Peo-lhe desculpas, estou to feliz! Como encontrou meu endereo?  
- Foi seu marido quem me deu.  
- Quando?  
- Ontem  noite, ele me encarregou de trazer uma carta para voc.  
- D-me, d-me rpido!  
Ela lhe arrancou o envelope das mos e o rasgou com impacincia. Lendo, dirigiu-se para o jardim.  
Meu amor  
Sei que ficou com raiva de mim por eu no estar com voc e as crianas. Foi impossvel 
escapar do general, que insistiu para que eu o acompanhasse em sua viagem de inspeo. 
Instrutiva, mas cansativa. Eu lhe desejo, contudo, um feliz Natal e prometo que o prximo 
passaremos juntos. Desde j a espero em Hani para o 31 de dezembro. O general insiste 
que as mulheres de 
"seus" homens estejam no Tonquin para manter o moral das tropas e a tranqilidade de 
esprito de alguns franceses ainda presentes aqui. Comecei lhe dizendo que no havia 
possibilidade 'disso, mas o desejo de rev-la foi mais forte. Espero que no esteja com raiva 
de mim. Encarreguei Franck, que partia para Saigon, de ser meu mensageiro. Venha rpido, 
o avio que o levou volta ao meio-dia; voc tem o tempo exato de jogar alguns vestidos numa 
mala e beijar as crianas. Expresse a Lien todo o meu carinho epea-lhe que me perdoe por 
traz-la, deixando com ela a guarda do que tenho de mais querido depois de voc. V, ande, 
eu estou com um desejo louco de fazer amor com voc. Seu velho marido, que a ama,  
Franois  
- Franois me pede para ficar com ele por alguns dias em Hani. Pergunta se voc poderia tomar 
conta das crianas.
- Certamente - respondeu Lien.
La a beijou com espontaneidade, depois se virou para Charles:
- Voc  o homem da casa, sei que posso contar com voc
- disse, tomando-o nos braos.
- Prometo... Mas no demore muito... Fico infeliz quando no est aqui - cochichou ele.

Captulo 10

O Morane em que La embarcara pousou no solo de Bach Mai em meio a uma chuva torrencial; fazia um pouco
de frio. Ao p da escada, sob um grande guarda-chuva, estava Franois. Na pressa de reencontr-lo, La 
escorregou nos degraus molhados e caiu sentada numa poa. Franois acorreu; mas ela j estava de p, 
contemplando com ar de pena seu vestido encharcado.  
- Tudo bem? Machucou-se?  
- No, quase nada... Com certeza vou ficar com as ndegas roxas!  
- Vamos ver isso! - disse ele, abraando-a.  
A alguns passos do avio, um jipe esperava. Com arrepios, La subiu no carro. O motorista foi buscar a 
bagagem. Quando voltou, virou a cabea, constrangido pela viso de uma coxa longa e nua colocada sobre as 
pernas do patro. No primeiro posto de controle, La abaixou a saia; no segundo, afastou-se do marido.  
- Ainda h muitos como esse?  
- Um ainda, O inimigo est por perto...  
- Devemos estar loucos por ter colocado os ps de novo neste maldito pas! Tenho medo, Franois... 
lo 
- Voc no vai ser menos corajosa que as mulheres dos generais!  
- Mas no sou mulher de general e voc no  general, que eu saiba! Onde vamos nos hospedar?  
- No hotel Mtropole. Tive muita dificuldade para conseguir um quarto. Tive mesmo de empregar argumentos 
irresistveis.  
- Acredito em voc - murmurou ela, encolhendo-se contra ele no momento em que entravam na ponte Paul-
Doumer.  
Ambos reviram a mesma cena: ele, aquela mulher de cabelos soltos e roupa vietnamita, que corria encostada ao 
balaustre, estendendo-lhe os braos; ela, aquele homem em farrapos, sujo, exausto, ensangentado, que 
cambaleava de um lado para o outro. E depois o momento maravilhoso, quando, enfim, suas mos se tocaram.  
Durante a travessia do rio Rouge, no disseram palavra; os dedos apertados falavam por eles. Ladearam o Petit 
Lac, onde estavam estacionados caminhes em volta dos quais soldados conversavam fumando, assediados 
por pequenos vendedores de cerveja e cigarros. A alguns passos, os inevitveis vendedores de sopa 
agachados diante dos fogareiros. Alm dessa ligeira animao, toda a vida parecia haver desaparecido das 
ruas de Hani. Algumas sombras, na rua Paul-Bert, dois ou trs veculos militares passando lentamente pelo 
bulevar Henri-Rivire: era tudo o que se mexia ainda na elegante capital do Tonquin, onde o general de Lattre 
instalou com grandes gastos a Maison de France no meio de um grupo de vilas do centro da cidade, 
pertencentes s Cervejarias e Sorveterias da Indochina.  
- Esses fazedores de limonada, esses mercadores do Tempo no tm nada que reclamar; aproveitam o corpo 
expedicionrio, pois vendem sua pssima cerveja a meus soldados, que no pagam somente com piastras, mas 
tambm com sangue. Perto de mim quero a verdadeira Frana!  
A "verdadeira Frana" se instalou; s se esperava "Monette", a esposa do "rei Jean". 
No Mtropole, Franois foi recebido como um hspede habitual. No saguo, no bar, no restaurante, muita 
gente; quase s homens, oficiais ou correspondentes de guerra. Lucien Bodard estava entre eles. Ele veio ao 
encontro do casal, copo na mo, cigarro nos lbios.  
- Senhora Tavernier, que agradvel surpresa! Quem a trouxe aqui? 
- Eu - respondeu, Franois segurando o cotovelo da mulher. 
O senhor  o marido?  
- Tenho esse prazer.  
- Parabns. Venha, eu lhe ofereo uma bebida para festejar seu reaparecimento.  
- Mais tarde, senhor Bodard. Estou cansada e queria trocar de roupa.  
- Eu a espero uma hora, apenas!  
Na escada que levava aos quartos, Franois perguntou a La:  
- Como voc conheceu esse energmeno?  
- J lhe contei: encontrei-o rapidamente, quando de minha primeira vinda  Indochina. Ele tentou me ajudar a 
encontrar voc.  
- O general est afeioado a ele como  maior parte dos jornalistas, fotgrafos, correspondentes de guerra e 
outros enviados especiais. Ontem, ele nos fez este discurso: "Senhores, cinqenta meros jornalistas so mais 
importantes para o fim da guerra que todos os coronis reunidos aqui..."  
- Voc no  coronel!  
- Fique atenta, eu poderei ser! - disse ele, abraando-a.  
- Eu continuo?  
La inclinou a cabea.  
- "...Minha vitria ou minha derrota depende tanto deles quanto de meus soldados. Sem eles, minha expedio 
 Indochina ficar apenas como uma pequena guerra colonial, um medocre empreendimento artesanal. S eles 
podem alar minha aventura  escala mundial. Preciso deles comigo. Se for educado com eles, apesar de seu 
'estilo' e sua conversa, sejam tambm. Tenho dito."  
- No gosto disso. Ele s pensa em si, em sua glria, em 
seu prestgio. Os que combatem, Franck, Jean, todas essas mulheres e crianas massacradas por "seus 
soldados", quando encontrar tempo para pensar neles?  
- Como voc fica linda quando est com raiva!  
O criado abriu a porta do quarto, lanando um olhar para La. Visivelmente ele no perdera uma palavra da 
conversa.  
Apenas a porta foi fechada, Franois empurrou a jovem para a cama.  
- No, espere!  
- No estou agentando de desejo de voc.  
Quando desceram para jantar, duas horas se haviam passado.  
- Senhor Tavernier, reservei-lhe uma mesa perto da janela  
- disse o gerente.  
Eles passaram diante do bar, onde Bodard gesticulava em companhia de um bando de beberres, cujas roupas 
variavam entre as de mateiro e as de mercenrio. O jornalista viu-os e, afastando os amigos, interpelou-os:  
- Vocs esto atrasados! Venham brindar ao nascimento do Menino Jesus e s futuras vitrias do "rei Jean"!  
Era difcil recusar tal convite. Bodard os apresentou  fina flor dos jornalistas: americanos, ingleses, 
holandeses, canadenses, italianos... Um homem chamou a ateno de La; no se parecia com os outros: alto, 
elegante, muito bonito apesar dos cabelos ralos, de traos regulares, olhar terno e melanclico protegido por 
longos clios, bela boca com um sorriso ligeiramente condescendente. Ele se inclinou para beijar-lhe a mo.  
- Apresento-lhe Jean-Pierre Danaud, chefe de ns todos: ele  diretor dos Servios Franceses de Informao na 
Indochina. Cuidado - disse, dirigindo-se a Franois -,  um conquistador!  
- Isso no me impressiona - disse La entregando-lhe a mo.  
Danaud sorriu, o que o tornou ainda mais sedutor.  
Sentada numa poltrona, La observava, divertida, esses homens que se exibiam diante dela.  
- Feliz Natal, senhora! - disseram eles em coro, elevando os copos. 
- Feliz Natal para todos!  
Eles beberam em silncio. Pensavam nos natais de suas infncias, nos pases longnquos, nos pais e amigos 
que haviam ficado l ou, simplesmente, no ltimo despacho que haviam enviado ou na prxima bebedeira que 
iriam tomar?  
As conversas recomearam:  
- O general vai suspender a evacuao dos civis do Tonquin.  
- Com ele, os vietcongues vo ter o que fazer.  
- Ele pediu a Vanuxem que viesse juntar-se a ele.  
- Essa missa de meia-noite na desagradvel igreja dos Martyrs, com o bravo Letourneau,* no deixou de ter 
classe.  
Desta vez, de Lattre preferiu a simplicidade. As paredes, de cimento armado, no tinham nada de gtico, as 
luzes eram plidas, o prespio brilhava pela ausncia, o rgo tinha um som spero que dominava as vozes 
agudas dos vietnamitas entoando cnticos. Salvo umas flores brancas no altar, tudo era austero!  
- E o pequeno padre com fisionomia de santo que no o esperou para comear o ofcio...  
- O que houve, que os senhores no esto com o general?  
- perguntou Franois Tavernier.  
- Ele no precisava de ns. Marcou encontro conosco amanh em Dong Triu. O senhor no est aqui 
tambm? - perguntou o correspondente do Le Monde.  
- Sim, partida s seis horas.  
- Oh, no, voc no vai partir novamente agora!  
- Ela tem razo:  um crime abandonar uma mulher to bonita.  
- Sou o primeiro a sofrer com isso; mas o senhor conhece o general...  
- Por que ento me fez vir?  
- Venha, querida, continuaremos essa conversa  mesa. At amanh, senhores.  
Forando La a levantar-se, Franois a conduziu para o salo  
de jantar segurando-a pelo cotovelo. De mau humor, ela tentou se livrar. Os dedos de Franois apertaram-na 
mais.  
- Eu lhe peo, nenhuma cena diante deles! So os maiores fofoqueiros.  
Mostrando desagrado, ela se sentou  mesa, onde havia uma garrafa de champanhe no gelo. O maitre se 
aproximou.  
- Bom dia, senhora Tavernier. Seja bem-vinda  nossa casa! Espero que aprecie nossa modesta cozinha. Temos 
grandes problemas de reabastecimento. A maior parte dos comerciantes se foi. Felizmente alguns particulares 
continuam a nos trazer colheitas e aves.  
- Tenho certeza de que tudo sair bem - disse gentilmente La.  
- Obrigado, senhora - disse o maltre, visivelmente aliviado.  
- Pelo contrrio - acrescentou ele abrindo a garrafa-, no me preocupo com o champanhe. O senhor Tavernier 
escolheu o melhor.  
Franois, que conhecia o gosto da mulher pela cozinha vietnamita, mandara o cozinheiro tonquins fazer 
algumas de suas mais famosas especialidades.  
- Eu bebo  sua formosura, meu amor.  
Por sua vez, La brindou.  
- E eu bebo ao fim desta guerra e  independncia do Vietn.  
- No queixo empinado, na voz um pouco alta, havia provocao. Alguns comensais europeus que estavam 
jantando levantaram a cabea e olharam, admirados, essa encantadora jovem que acabava de fazer um brinde  
independncia dos inimigos. Mas um deles, sem dvida um partidrio de Bao Dai, enganou-se ou quis dar uma 
lio de patriotismo  recm-chegada. Ele se levantou e, por sua vez, ergueu o copo:  
- A derrota dos vietcongues e  independncia ligada  Frana!  
La descansou o copo e, como se nada houvesse acontecido, comeou a comer, dando pequenos gemidos de 
prazer aps cada garfada.  
- Est timo - disse ela de boca cheia.  
Franois sorriu, feliz com o espetculo sensual da gula da 
mulher. Na mesa vizinha, o homem estava de novo sentado, mortificado, com o rosto vermelho, enquanto os 
companheiros cochichavam entre si lanando olhares sem simpatia.  
Por um momento jantaram em silncio. Ao comear o segundo prato, com tanto ardor quanto no anterior, La 
disse com um pequeno sorriso de felicidade:  
- Ele no tinha falado de restries?  
- Voc bem sabe que as restries no existem para todos.  
La descansou os pauzinhos.  
- J pensei no assunto, e isso me desagrada tanto quanto na poca do mercado negro.  
- Nem pense nisso. Pense apenas que estamos aqui os dois, vivos, e temos duas belas crianas...  
- . ..com as quais voc no foi capaz de passar as festas de fim de ano. Voc sabe, contudo, a que ponto eu 
achava importante este Natal...  
- No banque a criana. Eu tambm achava. Mas esquece que sou delegado-geral do governo da Repblica 
Francesa junto ao governo vietnamita...  
- Estou impressionada. Ento, dessa maneira, voc deve ser chamado de Senhor Delegado-Geral do Governo 
da Repblica Francesa junto ao Governo...  
- Pare, no tem graa! - disse ele secamente.  
La o olhou, confusa. Nunca ele lhe falara nesse tom. Ela sentiu as lgrimas chegarem aos olhos. Controlou-se 
e preferiu responder de modo irnico:  
- Perdo, meu caro, no sabia que era to sensvel a esse novo ttulo. Mas o governo vietnamita em questo  
o de Bao Dai, o Bao Dai que voc sempre considerou o menos vietnamita dos vietnamitas, que sempre preferiu 
seus prazeres ao bem-estar do povo... At bem pouco tempo, voc pensava que s H Chin Minh poderia ser 
o aglutinador desse povo...  
- O lugar foi mal escolhido para falar de poltica, ainda mais que voc no entende nada disso.  
Incrdula, La encarou esse homem que ela amava e que, alguns instantes antes, se mostrara, como 
habitualmente, loucamente apaixonado por ela. Depois virou a cabea. Com o olhar vago, levou alguns segundos para notar certa 
agitao atrs da porta da sacada do restaurante, que dava para o jardim; uma figura desagradvel apareceu 
no vidro, uma mo disforme agitou- se em sua direo.  
- Giau - murmurou ela.  
Ele respondeu com um sorriso que o tornou ainda mais assustador. A presena do monstro apaziguou-lhe a 
clera, e ela se sentiu de repente em paz. Nesse momento, um dos criados percebeu a presena do mendigo e 
correu a procur-lo. Giau desapareceu imediatamente.  
O criado falou agora com excitao ao maftre. Ambos saram para a varanda. Pouco depois, quando 
reapareceram, o matre tinha o ar mais preocupado que o que devia ter  simples viso de um mendigo. La 
notou-o e prometeu a si mesma saber por qu. Por alguma razo que ela prpria ignorava, no disse palavra a 
Franois sobre a presena de Giau e preferiu esquecer a discusso.  
- Dong Triu no fica longe dos Sete Pagodes nem do templo de Kip Bac... Foi l que encontrei o gnio da 
fonte miraculosa para reencontr-la...  
Franois a observou, enternecido, e lhe estendeu a mo sobre a mesa.  
- Efetivamente, voc estava presa com Kien nesse velho santurio...  
- ...onde os soldados franceses tinham atirado contra a multido de peregrinos.  
- Eu sei. Voc mesma me havia dito que os vietcongues se escondiam entre eles.  
- E da, o que h de anormal nisso?  
- Para os vietnamitas comunistas, talvez nada. Mas as populaes catlicas esto na maioria ao lado dos 
franceses, que combatem por elas. Todas: as minorias tnicas nung, dos planaltos do Tonquin do Norte, os 
muong do Annam do Norte, os tho ao norte do rio Rouge, sem contar os mos, ferozes inimigos dos 
vietcongues...  
- ...e as seitas do Sul da Indochina, nas quais, porm, como 
se sabe, no se pode confiar, como os hoa-hao, que tm em suas fileiras mulheres combatentes no menos 
ferozes que os homens, as caodastas, muito hostis  presena francesa, mas que se servem dela contra os 
vietcongues, os bandidos binh xuyen, que nosso amigo Kien conhece bem e que so alternadamente pr-
vietcongues e pr-franceses, conforme suas necessidades...  
La caiu na gargalhada diante do ar aturdido do marido.  
- Para algum que no sabia nada disso, estou vendo que o surpreendo!  
- Como voc sabe tudo isso?  
- No sou cega nem muda. Antes de reencontrar voc, conheci um pouco da histria recente do pas por Kien e 
Lien. Confesso no ter compreendido tudo,  muito complicada. Sem contar que a tudo isso se misturam o 
budismo, o confucionismo, e, dominando tudo, o culto aos ancestrais.  
- Voc deveria encontrar o general Salan. Ele  imbatvel em todos esses assuntos. E, alm disso, no foi ele 
que chefiou a operao "La"?  
-  ele que tem apelido de "Chins"?  
- E, ou "Mandarim".  
- Parece que  um grande fumante de pio, como a mulher...  
-  possvel. Todos os que passaram algum tempo na sia fumaram, mais ou menos. No , minha linda 
querida?  
A doura das noites passadas no Mar da China a bordo do junco de Kien, o lento cerimonial do pio voltaram-
lhe  memria. Na volta a Hani, ela passou um mau pedao.  
- Leve-me a uma casa onde se fuma...  
Franois a olhou com ar divertido.  
- Voc no teve tempo de ver como o ambiente mudou. A cidade est em estado de stio. Todos os que 
puderam fugir partiram. Se h casas de fumar abertas, s podem estar nos bairros mais miserveis e mais 
perigosos.  
- Antigamente, voc no achava ruim dar-se com a canalha, como teria dito meu pai!  
- Antigamente, eu no tinha mulher nem filhos. Isso nos impe uma nova maneira de ver a vida. 
Nervosamente, La estendeu o copo. O maltre tomou a garrafa das mos de Franois e a serviu.  
- Perdoe-me, senhor, acabou...  
- Traga-me outra.  
- Pois no, senhor.  
- Fogo, por favor.  
La aspirou a fumaa com volpia, de olhos semicerrados. Bruscamente os abriu, inclinou-se para o marido e 
disse com voz dura:  
- No coloque nunca em primeiro lugar as crianas e a mim. Quero que voc continue o homem que eu conheci: 
aventureiro, idealista, cnico, gozador, engraado, generoso... No quero que o casamento faa de voc um 
funcionrio mesquinho. Quero que seja meu amante antes de ser meu marido ou pai de meus filhos.  
- Mas  isso que pretendo continuar a ser, seu amante! Quanto s crianas, so um prolongamento de voc. 
Amo-os porque so seus filhos. Voc me magoa ao me colocar entre aqueles que, ao primeiro aborrecimento, 
protestam: "Eu tenho mulher e filhos, senhor..." Tem razo, nada  mais desprezvel. Pode-se pens-lo, mas no 
se pode diz-lo...  
- Voc me deu medo. Pensei que o general de Lattre lhe tivesse virado a cabea.  
Fizeram um brinde sem deixar de sorrir.  
Quando La acordou, na manh seguinte, j havia muito tempo Franois partira para Dong Triu. No 
travesseiro junto ao seu ele deixara um bilhete: "No esquea nunca que a amo e voc  a mulher da minha 
vida."  
- Eu tambm, eu o amo - murmurou ela apertando a folha de papel com a logomarca do hotel. Quando desceu, 
depois de se vestir e de um caf da manh frugal, o hall e o bar, ruidosos e animados na vspera, estavam 
vazios. Afora os barmen, que lavavam negligentemente os copos, e os criados, que se balanavam de um p 
para o outro, no havia ningum. La se dirigiu para a sada com a inteno de dar um passeio em volta do Petit 
Lac. Mal acabara de descer os degraus, um jovem soldado correu para ela com o fuzil  altura do peito.  
- Aonde vai, senhorita?  
Atrapalhada, ela recuou antes de responder:  
- Vou passear...  
Dessa vez foi o soldado quem ficou surpreso.  
- Mas  muito perigoso! Ningum passeia nas ruas agora!  
- Por que voc diz que ningum passeia nas ruas, soldado? Eu passeio muito - disse um militar de belo rosto 
orgulhoso.  
- O senhor talvez, tenente. Mas uma mulher...  
- A senhora gostaria de ir s lojas? Infelizmente esto fechadas... Onde comprar algumas bugigangas na rua de 
la Soie?  
- perguntou o recm-chegado, com um sorriso irnico.  
"Nada mal, esse pra-quedista", pensou La, "mas isso no  razo para deix-lo zombar de mim."  
Ela virou as costas, saiu do abrigo de sacos de areia que envolvia o edifcio e se aventurou pelo bulevar 
Henri-Rivire.  
- Tenente, no podemos deix-la ir sozinha.  
- Voc tem razo, vou acompanh-la.  
- Mas, tenente...  
Com alguns largos passos, ele a alcanou.  
- Perdoe-me, senhora, no pude deix-la ir assim sozinha. Seria uma pena que uma mulher to bonita como a 
senhora fosse levada pelos vietcongues ou fosse desrespeitada por nossas patrulhas. Permita-me apresentar-
me: tenente Claude Barrs, para servi-la.  
- Estou encantada, tenente, mas no tenho nenhuma necessidade de seus servios. Conheo Hani, no 
preciso de guia.  
- Oh, no estou aqui como guia, mas como guarda-costas... que, alis, a senhora tem muito bonitas, parece-me...  
Ao falar, ele a olhava da cabea aos ps.  
- No gosto da sua maneira de me olhar, tenente.  
- Nesse caso,  preciso no mostrar tanta beleza ao pobre celibatrio que sou.  
- Pare, o senhor me faz chorar.  
Discutindo assim, chegaram ao bulevar Francis-Garnier; 
cruzaram no caminho apenas com alguns garotos, que escapuliram  sua aproximao. Dois jipes da 
polcia do exrcito diminuram a marcha, mas um gesto do tenente Barrs os afastou.  
- Oh, no! - exclamou La.  
Parada na beira do Petit Lac, ela contemplava com raiva o minsculo templo de Ngoc Son, em parte 
desmoronado, na pequena ilha de jade.  
- Mesmo a ponte onde repousa o Sol Nascente est destruda!  
- Parece que isso lhe d pena...  
La se virou, deixou de contemplar o triste espetculo e lanou ao oficial um olhar de dio.  
- Evidentemente, no  a um pra-quedista grosseiro que se pode pedir que admire o belo.  
- A senhora acha? - disse ele com o mesmo sorriso que exibia desde que se tinham encontrado.  
- No  porque o senhor tem o nome de Maurice Barrs que pode se gabar de ter sua sensibilidade e 
talento.  
Ele comeou a rir.  
- Pelo talento, estou inteiramente de acordo com a senhora. Quanto  sensibilidade, nem tanto: ele 
era meu av.  
- Oh!... Mas, ento, o que faz aqui?  
- Alistei-me em 47.  
- Que idia esquisita! No tinha nada melhor para fazer?  
- No gosto da vida civil e no tinha nenhuma vontade de seguir os passos de meu pai  frente do 
Paris-Presse. Nunca apreciei esse universo de mentiras e de comprometimentos...  
Enquanto ele falava, uma idia germinava na cabea de La:  
encontrar novamente o lugar onde habitava Nhu-Mai, a jovem violinista que ela havia recentemente 
ajudado a juntar-se aos vietcongues.  
- O senhor me acompanharia  Citadelle?  
- O que quer fazer l? No  perto.  
- Eu sei. No poderia parar um desses jipes e pedir que nos levem at l? 
- Que cara-de-pau! - disse ele em tom admirado. - Concordo, se a senhora me disser por que quer ir 
l.  
- Queria ter notcias de uma de minhas amigas vietnamitas, uma violinista. Ela morava com os pais 
entre a rua Marchal Foch e o bulevar Henri-d'Orleans.  
- O bairro est praticamente desabitado, e  muito imprudente aventurar-se l sem escolta.  
-  por isso mesmo que lhe peo que me acompanhe.  
Eles haviam chegado  praa Ngrier. Arame farpado fechava a entrada do bairro chins. Militares 
montavam guarda. Um deles reconheceu Barrs.  
- Bom dia, tenente. Que posso fazer pelo senhor?  
- Bom dia, sargento. Pode me arranjar um veculo e trs ou quatro soldados, para dar uma volta na 
Citadeile com a senhora?  
- Tem uma ordem por escrito, tenente?  
- Aqui para ns, no h necessidade disso. Em troca, eu lhe darei o endereo de um pequeno cabar 
onde a cerveja  gelada e as garotas so bonitas. Est bem assim?  
- Est, mas o acompanho. Parent, traga o veculo! Mouillot e Roussel, mexam-se. Vamos passear.  
La sentou-se atrs do sargento, ladeada por Roussel e Mouillot, enquanto Parent lhes estava de 
costas, vigiando os arredores. Claude Barrs sentou-se ao lado do motorista.  
- Qual das duas ruas a senhora quer pegar para comear?  
- perguntou ele a La.  
Depois de hesitar, ela respondeu:  
- A rua Marchal Foch. A casa da minha amiga ficava, eu acho, no meio...  
- Acha ou tem certeza?  
- S vim aqui uma vez - confessou ela com ar penalizado.  
- Ento, com essa informao, l vamos ns! - resmungou o sargento.  
Foram parados no cruzamento do bulevar Flix-Faure com a rua Marchal Foch por uma barreira. 
O tenente Barrs desceu para parlamentar com os sentinelas, que acabaram aceitando afastar os obstculos. Por alguns instantes, rodaram devagar e em silncio.  
"Eu nunca reconheceria a casa", pensou La. "Sou completamente louca de ter trazido esses pobres jovens 
aqui comigo!"  
De repente ela exclamou:  
-  aqui!  
Surpreso, o sargento freou bruscamente. La saltou do veculo.  
- Esperem-me, no me demoro.  
Todos os homens a olharam com ar incrdulo.  
- O qu? Ela quer entrar sozinha l dentro? - exclamou o sargento. - Sua amiga est completamente maluca!  
- Cara senhora, receio que nosso amvel motorista tenha razo. Espere!... O que a senhora est fazendo? - 
perguntou Barrs.  
La havia empurrado a estreita porta e se encontrava num corredor escuro, que desembocava no ptio onde as 
mulheres lavavam roupa no dia em que ela viera com Nhu-Mai. Barrs a alcanou no momento em que ela 
atingia o ptio. Menos numerosas, as mulheres lavavam roupa. Elas fugiram gritando quando viram essa jovem 
branca acompanhada por soldados armados.  
- Vamos embora, tenente - disse o sargento. - Aqui  um covil de vietcongues. Eu os sinto.  
- Pare de dizer bobagens. Espalhe seus homens, e a senhora - disse ele, pegando no brao de La -, mostre-nos 
onde mora sua amiga.  
Parada no meio do ptio deserto, La observava, girando, os dois andares onde se abriam as loggias. Quatro 
escadas conduziam at l. Qual era a certa? Um gato sarnento se aproximou miando. A direita, outro miava mais 
forte. Ela foi em sua direo, embaixo de uma das escadas. Agachado sob os degraus, Giau lhe fez sinal para 
subir erguendo o indicador. Depois ergueu quatro dedos da outra mo.  
- Primeiro andar, porta quatro - disse ela, perguntando- se como o infeliz soubera que ela viria ali. - Por aqui, 
disse aos companheiros, que de armas em punho a seguiram. 
Diante da quarta porta, La parou e bateu.  
- Senhora Pham - chamou ela. - Sou a senhora Tavernier, uma amiga de sua filha. Ns nos conhecemos quando 
do recital de Nhu-Mai, na casa da senhorita Rivire...  
Ningum respondeu. Aps longo silncio, o sargento perdeu a pacincia:  
- Saia da frente, vamos arrombar a porta!  
- Eu os probo! - disse La, colocando-se de braos cruzados na frente da entrada. - Senhora Pham, responda, 
quero notcias de Nhu-Mai...  
A porta se abriu to bruscamente, que todos recuaram. Uma mulher de cabelos grisalhos, despenteada, vestida 
com uma tnica suja, rasgada em diversos lugares, apareceu como um diabo.  
- J no tenho filha! - disse ela em francs. - Senhora Tavernier, foi por sua causa que minha filha foi embora. 
Maldita seja! Meu marido morreu sem ter visto outra vez sua nica menina. Agora estou sozinha com minha 
me, que a dor enlouqueceu...  
- Eu estou muito triste, senhora Pham. Mas Nhu-Mai, como est ela?  
- No sei de nada, j no tenho filha. V embora, a senhora j causou bastante mal. Maldita! Maldita!  
A mulher caiu sobre si mesma, agitada por convulses. As portas que davam para a loggia se abriram uma a 
uma.  
- Tenente,  preciso partir. A situao est preta!  
Imveis e silenciosos diante de suas habitaes, os moradores olhavam os franceses com hostilidade, 
enquanto, no cho, a me de Nhu-Mai continuava sacudida por espasmos. La se inclinou e segurou-lhe a 
cabea; a baba escorria pelo queixo da infeliz.  
- No podemos deix-la assim. Ajudem-me a recoloc-la no quarto.  
Com os olhos levantados para cima, Claude Barrs encolheu os ombros e, designando Mouillot e Parent, fez-
lhes sinal para levantar a mulher. Pousando as armas, obedeceram a contragosto.  
- Andem rpido! 
La os guiou no cmodo mal-iluminado diante do qual Barrs e o sargento montavam guarda, com fuzil e 
pistola apontados para a pequena multido de velhos, mulheres e crianas. Os soldados estenderam a doente 
numa cama coberta de detritos. A av, de pijama negro, usando o vu das vivas, balanava-se diante do altar 
dos ancestrais, onde queimava o incenso e pequenos cotos de velas vermelhas, que lanavam um claro 
vacilante. A velha se virou e sorriu com os dentes negros. Indiferente, ela retomou seus lai*. Barrs entrou, 
empurrando na sua frente uma mulher de cabelos brancos.  
- Ela diz que sabe qual  a doena da senhora Pham. Agora, vamos embora; isto aqui ficou muito perigoso.  a 
sua amiga?  
- perguntou ele mostrando uma foto de Nhu-Mai empunhando  
o violino.  
-  - disse La, apoderando-se do quadro.  
- Leve-o, isso lhe dar uma lembrana de nossa escapada.  
- Acha que posso?  
- A me com certeza tem outras. Agora, rpido!  preciso sair daqui.  
Quando saram do quarto, um murmrio crescente elevou- se da multido.  
- Tenente, deixe-me atirar no bando. H muitos, vo nos linchar! - soprou o sargento.  
- O senhor atiraria em pessoas desarmadas? - gritou La.  
Ela o empurrou e desceu lentamente os degraus olhando para a frente. O murmrio ameaador aumentou. Por 
sua vez, os soldados desceram, prontos para atirar ao menor movimento suspeito. Diante da fonte estava Giau 
e uma dezena de mendigos mais ou menos estropiados.  
- Lugar encantador! - exclamou Claude Barrs. - Estamos em pleno Ptio dos Milagres!  
Giau gritou uma ordem na direo dos andares. Alguns moradores responderam em tom colrico, mostrando os 
punhos para os franceses, mas ningum se mexeu. La compreendeu que ele  
protegia sua retirada e sorriu. Eles puderam alcanar sem problema o veculo, guardado por Roussel.  
- Ah, at que enfim! No tendo ouvido nenhum tiro, pensei que todos tivessem sido degolados... Ia procurar 
reforos.  
At a praa Ngrier, rodaram em silncio.  
- Tenente, ser preciso que eu faa um relatrio.  
- Pode fazer, sargento.  seu dever.  
- Onde o senhor quer que o deixe?  
- No Mtropole. Est bom para a senhora?  
- Est perfeito, obrigado.  
Diante do hotel, La agradeceu ao sargento e aos trs soldados.  
- Foi um verdadeiro prazer, senhora. Mas, da prxima vez, no conte conosco: no se tem sorte todos os dias!  
No hall, cinco ou seis pessoas discutiam. La se despediu de Barrs.  
- Obrigado, tenente. Eu me dei conta de que fui muito imprudente e fiz o senhor correr grandes riscos - disse 
ela, estendendo-lhe a mo.  
O oficial a reteve.  
-  o meu trabalho. Mas s estaremos quites se a senhora aceitar jantar comigo.  
- Com prazer, tenente. Aonde o senhor quer ir?  
- Chega de aventuras por hoje! Vamos ficar aqui mesmo, se a senhora quiser.  
- Vou subir, fazer uma pequena toalete e deso em um quarto de hora.  
Ela o reencontrou no bar, apoiado nos cotovelos, diante de um conhaque-soda.  
- A mesma coisa?  
- No, obrigado. Estou com muita sede, prefiro uma limonada.  
- J no temos limes, senhora. Laranjas tambm no.  
- Tanto faz. D-me um conhaque-soda.  
Eles tocaram os copos, sorrindo.  
- Como  que nunca a encontrei em Hani? 
- Cheguei ontem.  
- No  daqui? Mas parece conhecer bem a cidade.  
- No sou daqui e no conheo bem a cidade. Passei uma temporada aqui h mais de um ano, depois voltei para 
a Frana.  
- Por que retornou? Saudades?  
- No, para acompanhar meu marido.  
- Seu marido  militar?  
-  um interrogatrio!  
- Perdoe-me, acho que a senhora no s  uma mulher muito encantadora mas igualmente uma pessoa muito 
estranha.  
La encolheu os ombros, sem responder.  
- No lhe falta coragem. S conheo outro espcime do belo sexo que tem tanta valentia quanto a senhora.  
-  bonita?  
- Belssima, alta, loura, com um corpo magnfico... Ns a chamamos de "Egua Vaidosa".  
- Que nome se esconde sob tal apelido?  
-  a mulher do meu comandante. Ela se chama Genevive, Genevive Vaudoyer, cognominada "a Mo" pelos 
pra-quedistas da Regio Alta. Que determinao!  
Havia algo de admirao e ternura na maneira como Claude Barrs falava da amiga.  
- Ns nos parecemos - acrescentou ele orgulhosamente.  
- Estou com fome - cortou La. - E se fssemos para a mesa?  
O mesmo maltre da vspera veio ao encontro deles.  
- Bom dia, senhora; bom dia, tenente. Escolham sua mesa. Como vem, h poucas pessoas. Senhora, conto 
com a sua indulgncia: a refeio de hoje no estar  altura da de ontem.  
- No tem importncia, sirva-nos o que houver - disse Barrs. - E traga-me uma garrafa de Bordeaux.  
- Bem, tenente, farei o melhor que puder.  
Por um momento, a conversa tratou de matrias culinrias. Depois, mudando bruscamente de assunto, Claude 
Barrs perguntou: 
- A senhora conhece o chefe dos mendigos da rua MarchalFoch?  
- O que  que o faz dizer isso? No tenho por hbito conviver com esses miserveis.  
- A senhora sorriu para lhe agradecer...  
- O qu, meu Deus?  
- O ter-nos permitido sair vivos daquela ratoeira. Por outro lado, o que quis dizer aquela mulher a respeito da 
filha? Para onde ela foi por sua culpa?  
- No sei de nada. O senhor constatou como eu, aquela mulher  uma doente... E, alm disso, o senhor me irrita 
com suas perguntas!  
- Perdoe-me, no pude deixar de achar esse episdio muito estranho. Entretanto, graas  senhora, passei uma 
agradvel manh, que se previa muito montona. Detesto o perodo de Natal. Felizmente, devo voltar amanh 
para a regio de Moncay e para meu comandante, o coronel de la Bollardire, que comanda todos os pra-
quedistas na Indochina. Eu o vi ontem, conversamos como amigos. Isso consola de muitas coisas.  
- De que coisas o senhor precisa ser consolado?  
- Da vida, do vazio, do qual fiz meu elemento, do aborrecimento que segrega o mundo de onde venho e do qual 
fugi, do ressentimento pelos lugares de luxos e de prazeres, "diante dessas carcaas de homens enriquecidos, 
acabados, mas que ainda destroem outros, o amargor da lembrana de meus amigos mortos, com a 
incompreenso de estar ainda l a acompanhar esses humanos pretensiosos acasalados com os prostitudos 
pela sociedade". No h futuro. "Nosso futuro so seis palmos de lama sobre o peito!"  
- O otimismo no o sufoca! Prove o vinho, para que possamos beb-lo; o maitre est esperando.  
- Perdoe-me - disse ele, obedecendo. - Est bom... Espero que lhe agrade.  
La levou o copo ao nariz.  
- Tem um ligeiro perfume de terra mida, que me lembra Montillac depois da chuva. 
Ela bebeu um gole e permaneceu pensativa, com o copo na mo. Havia pouco tempo deixara seu 
Bordelais natal e, todavia, o gosto e o aroma desse vinho tocaram-lhe o corao, causando o temor 
de no mais encontr-lo. Uma angstia irracional a invadiu. Ela se levantou bruscamente.  
- Desculpe-me, preciso telefonar. J volto.  
Um pouco surpreso, ele se levantou, corts, por sua vez.  
- Eu a espero.  
Esperou muito tempo, pois a telefonista no conseguia ligar com Saigon. Enfim, a comunicao foi 
estabelecida.  
- Al! Aqui  a senhora Tavernier, chame a senhorita Rivire.  
Precisou esperar dois ou trs minutos.  
- Al, La, voc est bem?  
- Bom dia, Lien. Como vo as crianas?  
- Vou lhe passar Charles, que est ao meu lado. Enquanto isso, irei procurar Adrien. Mas fique 
tranqila: os trs esto muito bem.  
- Obrigada - disse ela aliviada. - Charles, meu querido, como vai voc?... Estou ouvindo voc mal... 
Sim, vou voltar logo... Tome conta dos pequenos... Tambm amo voc, filho... Adrien? Meu 
beb...  verdade, perdoe-me, voc j no  um beb... Muitos beijos... Vou voltar logo... Com 
papai, sim... Um grande beijo, meu amor... Al!... Al!...  
- A ligao foi cortada, senhora.  
Ela voltou, sorridente, com ar mais tranqilo, sob o olhar abertamente admirado de Claude Barrs, 
que se ergueu  sua chegada.  
- Desculpe-me t-lo feito esperar. As comunicaes com Saigon so difceis. Pelo menos consegui 
falar com meus filhos. Eles esto bem.  
- Quantos a senhora tem? - perguntou ele com uma ponta de decepo na voz.  
- Trs.  
- Trs!...  
- Sim... No... Enfim, dois mais um que considero meu filho. 
-  uma loucura ter trazido as crianas para c!  
- Talvez, mas eu no queria passar sem eles nem sem o pai deles.  
- Eu temo que, como a maior parte dos civis, a senhora no perceba muito bem o que se passa aqui.  
- Vejo que o senhor vai me dizer, o senhor tambm, que no conheo nada da poltica daqui, que isso 
 um assunto de homens! Durante a Ocupao, na Frana, no nos perguntavam se a Resistncia 
era assunto de homens ou de mulheres. Ns corramos os mesmos riscos que os senhores!  
Sempre com esse sorriso que o tornava to sedutor para elas e to irritante aos olhos deles, Claude 
Barrs encarou a acompanhante com seus olhos azuis, subitamente atentos.  
- A senhora esteve na Resistncia?  
- E da? No vou passar a vida falando nisso. Muitos de meus amigos esto mortos, vi muitos 
assassinatos, muita tortura, pessoas boas que perderam a sanidade e safados que foram 
condecorados. No gosto de me lembrar desse perodo. E o senhor onde estava?  
- Eu me alistei nos pra-quedistas da Frana Livre, em 42.  
- Viu de Gaulie?  
- Sim, duas ou trs vezes.  
- Eu s o vi uma vez, num cartaz*.  
- Num cartaz?  
- Sim. Mas seria muito demorado explic-lo. Estou cansada, vou descansar. Obrigado pelo jantar... e 
por tudo. Adeus!  
- Num cartaz... Que vagabunda! - exclamou ele vendo-a afastar-se. 

Captulo 11

Nos dias 27, 28 e 29 de dezembro de 1950, o hotel Mtropole serviu de ponto de referncia para os 
correspondentes de guerra, fotgrafos e jornalistas de volta do priplo a que os havia levado de 
Lattre a bordo dos Morane. Franois Tavernier estava entre eles. No por muito tempo, pois o 
general exigira sua presena perto de si, em Saigon, para saudar o senhor Letourneau antes de sua 
partida para a Frana. Ele quase no teve tempo de tomar uma ducha e de fazer amor com uma 
La que lhe arranhava as costas com as unhas tanto de clera como de prazer.  
- Sujo!... Sujo!... - no cessava ela de repetir.  
- Voltarei em dois dias, prometo.  
- Por que no me leva com voc?  
Um jarro de porcelana de Hu por pouco no lhe quebra a cabea. Ele s se despediu ao fugir. 
Inclinada, nua na janela, ela o viu subir num half-track, que arrancou logo.  
- E as crianas!...  
Ela havia esquecido de falar com ele das crianas! Jogou-se na cama, chorando de raiva. Ah, ele 
comeava bem a temporada na Indochina! Exausta, ela adormeceu.  
No fim do dia 31 de dezembro, Franois voltou a Hani com 
o general de Lattre, que, depois de parar em Tien Yen pela manh e ter passado em revista as 
tropas comandadas pelo coronel Beaufre em Haiphong, dera ordem a seus colaboradores mais 
prximos de o reencontrar na Maison de France, onde o esperava o general Salan. Franois pensou 
ter compreendido que essa ordem no lhe dizia respeito e foi para o Mtropole, onde reinava um 
ambiente mais alegre, apesar das notcias alarmantes que circulavam na cidade: combates em torno 
de Vit Tri e de Bac Ninh e a captura pelos vietcongues de um batalho senegals que cara numa 
emboscada a uns sessenta quilmetros da capital. O bar fora tomado de assalto. Trs jovens 
AFAT*, muito bonitas, riam alto, cercadas de perto pelos homens com gestos e propostas 
inconvenientes. Havia, em todos, a necessidade frentica de sentir-se vivo e de enterrar o mais 
depressa possvel esse ano de 1950, que presenciara tantos desastres. Agora, que havia um 
verdadeiro comandante, tudo ia mudar, as vitrias fariam esquecer as humilhaes e as derrotas.  
Um riso alegre dominava o tumulto, O que fazia La no meio desse bando, exibindo-se numa 
poltrona confortvel, de pernas cruzadas, trajada com um tomara-que-caia preto que a desnudava 
audaciosamente, com os cabelos levantados sobre a nuca frgil, um copo na mo, cercada de 
homens presos  sua seduo?  
La viu quando ele vinha, mas fez que nada vira. A artimanha divertiu Franois e o irritou ao mesmo 
tempo. Ela no iria acabar nunca com esses trejeitos de coquete? O tempo passara, ela era uma 
mulher casada, me de famlia! "Velho imbecil!", pensou ele. Como ousava isolar essa criatura feita 
para seduzir, apaixonada pela liberdade, nas atividades domsticas e com as crianas? Ele pensava 
que ela era uma dessas mulheres de oficiais, secas e cultas, dedicadas s obras de caridade e aos 
chs com as esposas dos generais?  
Essa idia o fez sorrir, com esse sorriso - mistura de ironia, de indulgncia e de ternura - ao qual La 
no sabia resistir. Ela 
se levantou, apesar dos protestos dos apaixonados, e foi at ele. Meu' Deus, como estava bonita! Ele no era 
o nico a pensar isso. Pelo seu caminhar, ele adivinhou que ela estava um pouco "alta"; achava-a at mais 
desejvel por isso. O sexo endureceu. Puxou-a para si. La sentiu-lhe o desejo e ondulou levemente, 
levantando a cabea para seu rosto com um sentimento de potncia. "Como  grande!", pensou ela 
estendendo os lbios. Durante um breve instante, eles esqueceram o que no era seu abrao apertado. Em 
volta deles, as conversas quase pararam. Todos invejavam esse casal harmonioso, que adivinhavam 
loucamente enamorado.  
- Com licena, senhor... Por favor?... Perdoe-me...  
- O que h? - perguntou Franois com a voz de algum que  acordado.  
- O senhor  esperado na Maison de France.  
- O senhor est brincando!  
- No, senhor, o general pessoalmente me deu ordem de vir procur-lo.  
- Diga ao general que o senhor no o encontrou! - disse La.  
- Mas, senhora, eu o encontrei...  
Isso foi dito com tal tom de verdade, que eles comearam a rir, o que tirou um fardo das costas do jovem 
estafeta.  
- Perdoe-me, mas tenho de ir - disse Franois.  
- Comea a me desagradar esse seu general. Vocs no vo nem mesmo passar a noite juntos!  
- No tenho nenhum receio disso, no faz meu gnero... No beba demais at a minha volta.  
- Farei como quiser... As crianas? Como esto as crianas?  
- Muito bem! Pude dar um pulo at l para beij-las. Oh, ia esquecendo...  
Ele tirou do bolso um envelope um pouco amassado.  
- Elas me encarregaram de lhe dar isso.  
La o acompanhou at o saguo, depois subiu ao quarto para ler a carta.  
Voc nos faz falta, volte logo, escrevera Charles, que havia colocado ptalas no envelope. O desenho 
foi Adrien que fez; ele 
representa Ong Cop. Estou lhe contando para o caso de no ter reconhecido...  
De fato, sem o auxilio de Charles, ela no teria identificado nos rabiscos amarelos e pretos do menino o famoso 
tigre do jardim botnico de Saigon. Algum por fim imprimira a mozinha de Camille, cujo nome estava traado 
com letras imprecisas.  
- Meus queridos - murmurou ela, levando as folhas aos lbios.  
Estendida na cama, acendeu um cigarro e pegou um dos livros que havia trazido. Confortavelmente instalada, 
comeou a ler o romance de Paul Colin que acabara de ganhar o prmio Goncourt. O ttulo era promissor: Os 
jogos selvagens.  
Franois (Veja, isso comea bem) percebeu bruscamente que a noite caa, e com um gesto amplo 
afastou de sua frente tudo o que obstrua a mesa. Como de hbito, trabalhara at que a 
escurido viesse fazer desaparecer as letras impressas e apagar o brilho das pginas em 
branco; assim, nas folhas manuscritas, podia conferiro fim do trabalho de cada dia nas 
ltimas linhas que traara, as do crepsculo, ligeiramente inclinadas e freqentemente 
interrompidas numa palavra inacabada, com uma letra maior e mais segura. Isso bastaria 
por hoje. Amanh, recomearia na palavra interrompida sua traduo de O americano 
naturalista, do muito preciso "Estudo citolgico sobre a hibridao dosAnuros", do professor 
Chou-Su; amanh... pois agora j era noite,  qual  
O livro escorregou das mos de La; ela dormia.  
- Ah, at que enfim voc chegou! - exclamou de Lattre vendo Franois entrar em seu gabinete da Maison de 
France.  
- Onde estava, porra? Preciso de todos aqui. A situao est ruim. Tenho necessidade de tropas frescas, seno 
os vietcongues vo nos ferrar. Diga a eles, Salan, o que esses safados esto preparando! 
era necessrio ceder... 
O general Salan, que de Lattre nomeara, na vspera, comandante da zona operacional de Tonquin e comissrio da Repblica no Vietn do Norte, inclinou-se sobre um 
mapa aberto na mesa.  
- Os rebeldes preparam, de Vit Tri a Luc Nam, uma ofensiva chamada "Tran Hung Dao", comandada por Vo 
Nguyen Giap pessoalmente. Vamos ento nos encontrar frente a frente... Por que "Trang Hung Dao"? Giap, no 
comeo da carreira, ensinou histria e conhece bem os anais histricos de sua ptria. Sob a dinastia vietnamita 
dos Tran, que reinava em Tonquin, o general Trang Hung Dao, depois de ter caado o invasor do pas, fixara 
as tropas muito ao sul, at o Desfiladeiro das Nuvens, que domina a baa de Tourane...  
- Salan - trovejou com veemncia de Lattre -, no  um curso de histria do Vietn que espero de voc, mas uma 
exposio estratgica! Voc conhece esta porra de pas, parece, melhor que ningum. Mostre-o, que diabo!  
O rosto de Salan, habitualmente esttico, crispou-se, os lbios se afinaram mais, os olhos se alongaram; mais 
que nunca ele merecia o apelido de "Chins". Com uma voz sem expresso, ele comeou:  
- Os vietcongues querem isolar Hani de Haiphong e nos colocar desse modo numa posio insustentvel. 
Suas melhores unidades esto l, entre as quais a famosa Diviso 308, apoiada por trs regimentos. Nas frentes 
secundrias, seis regimentos. De reserva, a Diviso 304, aquela que nos empurrou para a R.C. 4 e que ainda 
est sendo reorganizada. Eis o quadro, que Giap soube criar, em sua brutal exatido.  impressionante.  
"Entenderam, senhores? Eis a situao. Diante disso, s tenho um bando de pobres-diabos malcalados, mal 
vestidos, habituados  derrota. Necessito de bons oficiais para comand-los.  preciso recuperar o armamento 
em qualquer parte em que ele se encontrar. Temos falta de munies, de tanques, de canhes. Preciso de tudo 
isso, os senhores entendem? Preciso!  
Vermelho de raiva, o general de Lattre caminhava de um lado para o outro gesticulando. Todos estavam 
tensos, receando ser espinafrados.  
- Salan, preciso de gente e, no momento, s posso anteci 
par as unidades da Cochinchina. O mais rapidamente possvel tenho de ir novamente  Frana. Ser que me 
compreendero? Preciso de gente, muita gente...  
A voz do general devia estar sendo ouvida para l do jardim da Maison de France.  
- Quero os melhres a meu lado: Vanuxem, Erulin, Linars. Vou escrever ao ministro da Frana de Alm-Mar, 
Franois Mitterrand, ele no pode me recusar ajuda e apoio junto ao ministro da Defesa Nacional.* Meus 
soldados precisam de comandantes, e os tero. Mostrarei a esses bandidos comunistas que no sou "um 
glorioso fragmento histrico", "um general teatral que gosta de escutar Chopin"...  
Franois Tavernier mal pode conter um sorriso ao se lembrar dos eptetos com que a rdio vietcongue saudara 
a chegada do comandante  Indochina. Era excessivo, mas no muito distante da realidade. "De Lattre", dizia a 
propaganda inimiga, "tem o hbito de descalar seus soldados para verificar a limpeza de seus ps... Os 
soldados vietcongues correm descalos atrs dos soldados franceses, que fogem!"  
- Desde o Natal - prosseguiu o comandante - as perseguies vietcongues no pararam. Chu foi evacuada. 
Pudemos corrigir a situao em Vit Tri e em Vinh Yen. Eu mesmo tive de telefonar para Vit Tri para suspender 
a evacuao dos civis e soldados. No quero mais evacuaes! Temos de enfrentar um inimigo agora 
poderosamente armado.  preciso que os Estados Unidos aumentem sua ajuda. O resultado dos combates na 
Indochina  to importante quanto os da guerra da Coria para o futuro do Ocidente diante do comunismo.  
Apoiado na beira da mesa onde estavam desenrolados os mapas, esse comandante de sessenta e trs anos, 
adulado ou odiado, a quem o governo francs confiara to pesadas responsabilidades, ergueu-se, com o olhar 
duro e arrogante.  
- Podem ir, senhores. Quero falar com o general Salan. At a cerimnia dos cumprimentos, amanh.  
- Que necessidade ele tinha de me fazer vir aqui? - suspirou Tavernier ao sair da Maison de France.  
A noite estava escura e fria, as ruas desertas. Hani j no parecia a cidade animada que ele 
amava, mas uma cidade cercada. Acreditando-se protegido atrs dos sacos de areia, o hotel 
Mtropole preparava-se, apesar de tudo, para festejar o Ano-Novo.  
Aps passar pelo bar e verificar que La no estava l, Franois subiu para o quarto. No corredor, 
cruzou com um criado.  
- Tudo est pronto, senhor, mas a senhora est dormindo  
- disse ele, saudando-o.  
Franois olhou para ele com ar admirado.  
- Posso abrir para o senhor...  
Sem esperar a resposta, o criado enfiou a chave na fechadura e afastou-se para deix-lo entrar.  
La preparara tudo: aproveitara sua ausncia para pedir um jantar.  
- O senhor quer que eu lhe sirva? - perguntou o criado  
- No. Est tudo bem.  
- Muito obrigado, senhor - disse o garom colocando a gorjeta no bolso. - Desejo-lhe um Ano-Novo 
muito bom.  
- Feliz Ano-Novo.  
O criado tinha razo: a senhora dormia. O livro que lia escorregara para o cho. Franois sentou-se 
na beira da cama. "Como  jovem ainda", disse a si mesmo, "parece uma menina." Mas a saia 
levantada mostrava a liga, que segurava as meias, e a pele tenra das coxas. Ele deslizou a mo entre 
elas. Os dedos se aqueceram com o calor dela. Em seu sono, La estremeceu. Ele subiu 
novamente, at a calcinha, que afastou, e a acariciou suave- mente. A princpio no aconteceu nada; 
ela dormia mesmo profundamente. Depois, pouco a pouco, o sexo ficou mido, as coxas se abriram, 
a respirao se acelerou... Como ele amava esse corpo fcil!  
Interrompeu a carcia.  
- Continue!  
Contemplou-a, oferecida e impudica, a gemer. 
- Continue, eu lhe peo...  
Sem se apressar, ele tirou a calcinha, que enfiou no bolso, e colou os lbios ao sexo da mulher.  
- Oh, como  bom!  
...Pouco depois, enrolados nos roupes de banho do hotel, com os cabelos despenteados, La e 
Franois levantaram os copos:  
- Feliz Ano-Novo, meu amor! - disseram ao mesmo tempo.  
Em 1 de janeiro de 1951, La reencontrou o general de Lattre no grande salo da Maison de 
France, onde o general Salan lhe apresentou seus votos de feliz Ano-Novo, bem como os dos civis e 
militares do Tonquin pelos quais era o responsvel.  
- O senhor pode contar conosco, general. Cada um em seu posto, seremos dignos da confiana e da 
amizade que o senhor tem por ns. Possa este ano concretizar nosso desejo mais caro: a paz entre 
as naes e a unio indestrutvel do Vietn e da Frana numa Unio francesa harmoniosa e forte!  
- Vim aqui para reconfortar meus soldados - respondeu de Lattre - e eu  que fui reconfortado por 
sua energia e ardor combativo. Repito-lhes o que j disse: confiana e coragem. No 
abandonaremos um pedao de terreno! J no h problema entre a Frana e o Vietn, cuja unio  
agora total: Seus filhos combatem lado a lado o inimigo comum. Minha mulher chega hoje mesmo a 
Saigon, vir juntar-se a mim aqui. Para todos vocs, civis e militares, eis o meu presente de Ano-
Novo: toda evacuao est suspensa, suas famlias permanecem com vocs.  
Uma exploso de alegria saudou essa declarao: enfim um comandante digno desse nome, que 
acreditava na vitria final, pois que no hesitava em trazer a mulher, a querida "Monette", para 
Hani; seu prprio filho, Bernard, servia no posto de Nhu Guynh. Com tal homem, os vietcongues 
iriam ver o que aconteceria com eles! Todos elevaram as taas em homenagem ao comandante em 
meio a um alegre murmrio.  
La e Franois estavam um pouco  parte da alegria geral; o comandante percebeu-o. 
- E ento, Tavernier, tudo isso no o alegra? Eu disse alguma coisa que o tivesse aborrecido?  
O tom irnico, desmentido pelo olhar penetrante, no pressagiava nada de bom.  
- E a linda senhora no est feliz de permanecer ao lado do marido?  
- Muito feliz, general. Mas, desde que meu marido est com o senhor, praticamente no o vi. O senhor o 
aambarcou completamente.  
Surpreendido pelo tom agressivo, de Lattre ergueu ligeiramente as sobrancelhas. Era raro que algum se 
opusesse a ele, mas, partindo dessa encantadora pessoa, no lhe desagradava.  
- Sinto muitssimo, mas tenho necessidade de um civil que no seja nem funcionrio pblico nem detentor de 
interesses locais muito importantes, e que tenha vnculos profundos neste pas, conhecendo sua cultura e sua 
lngua, sem negligenciar as relaes com os inimigos... A senhora ter de convir que seu marido  muito 
precioso para mim. Entretanto, prometo-lhe no abusar dele!  
- Obrigada, general.  
Um tenente, de olhar sombrio e traos marcantes, aproximou- se do casal.  
- Bom dia, Franois.  
- Bernard!... Era voc mesmo que vi desfilar outro dia?  
Os dois homens deram um forte aperto de mos e se abraaram.  
- La, apresento-lhe meu amigo Bernard Rivire.  
- Bom dia. Agora, conheo toda a famlia Rivire. Lien me fala sempre do senhor.  
Era verdade que ele no tinha nada de asitico; era preciso olh-lo atentamente para notar que os olhos eram 
um pouco mais repuxados que os de um europeu, e os cabelos castanhos completavam a iluso.  
- A senhora pode constatar como somos diferentes uns dos outros... Pretende ficar muito tempo em Hani? 
- Isso depender de Franois. Mas tenho pressa de rever meus filhos em Saigon.  
A palavra "filhos" o olhar de Bernard Rivire se entristeceu; ele pensava evidentemente na filha morta pelos 
vietcongues. La se lamentou de lhe ter reavivado a dor.  
Para afastar os fantasmas, Franois tomou o brao do amigo e o levou ao buf. Eles levantaram as taas em 
silncio, olhos nos olhos, separados pelo pensamento de Hai, que combatia nas fileiras inimigas. Era por 
razes completamente opostas que ambos tinham esperana na vinda do general de Lattre  Indochina.  
Muito cercada, La respondeu com um sorriso e um abanar de cabea s propostas divertidas que lhe faziam. 
Pouco a pouco, uma grande lassido se apoderou dela. O calor gerado pela reunio, a fumaa dos cigarros, o 
bem-estar provocado pelo champanhe lhe subiram  cabea. Sem parar de sorrir, dirigiu- se para a sada.  
Algumas pessoas a haviam precedido e conversavam no jardim. Seguida pelos olhares, ela ultrapassou o 
portal diante do qual duas sentinelas montavam guarda. Seguiu lentamente pela calada deteriorada, 
embaraada pelos sapatos de salto alto, atenta para no tropear nas razes das figueiras que ladeavam a 
avenida. Os pedestres eram raros nesse primeiro de janeiro. Sob um prtico meio desmoronado se escondia 
uma famlia de miserveis, encostados uns aos outros. Um garotinho nu, em cujo rosto sobressaam grandes 
olhos negros, seguiu-lhe os passos por um momento; devia ter a idade de Adrien. A lembrana do filho 
apertou-lhe o corao. O que fazia ela ali, longe dele? O absurdo de sua presena nessa cidade deserta, 
cheirando a medo e morte, apareceu-lhe to poderosamente, que ela parou de repente. Esse gesto, sem dvida, 
salvou-lhe a vida. Um ciclista acabava de passar por ela. Uma dezena de metros antes, uma granada explodiu 
na entrada do local confiscado. Da fumaa surgiram homens armados. Um deles, munido de fuzil, atirou na 
direo do ciclista, que ziguezagueou e depois caiu.  
Com o barulho da exploso, La no se mexera. Correu para o grupo que se precipitara sobre o homem cado. 
Por que corria 
assim ela no sabia, mas precisava urgentemente chegar perto do homem da bicicleta antes dos 
soldados. Chegou no momento em que, com a coronha do fuzil, o soldado que atirara virava o corpo. 
La deu um grito e empurrou os militares. Estes, muito jovens, viram, desorientados, sem um gesto, 
essa mulher branca, elegante e bela ajoelhar-se, com o rosto perturbado, ao lado do arremessador da 
granada.  
- Nhu-Mai!  
Delicadamente, La lhe ergueu a cabea e a colocou sobre seus joelhos. Seus cabelos se soltaram.  
- Uma mulher! - exclamaram os soldados.  
Bem que lhes haviam dito que as mulheres combatiam nas fileiras vietcongues e que elas se 
revelavam piores que os homens, mas nenhum deles fora confrontado com tal realidade.  
Ao ouvir seu nome, a violinista abrira os olhos. Apesar do sofrimento, abriu um sorriso luminoso ao 
reconhecer a mulher que estava inclinada sobre ela.  
- La...  voc?  
A curta vestimenta branca se impregnou de sangue. Um militar j se inclinava para ela.  
- Senhorita! - disse um soldado, abaixando-se.  
Rpido, encontrar alguma coisa... La o empurrou:  
- Por que o senhor atirou na minha amiga?... Ande, v buscar um mdico.  
- Mas, senhorita,  uma terrorista!  
- Como o senhor ousa dizer isso?  uma grande violinista.  
- Ela acaba de jogar uma granada.  
- O senhor a viu jogar?  
- No.  
- Ento, cale-se!... Ela est mal!... Depressa, um mdico!  
- Deixe-me passar.  
Um soldado carregando uma caixa metlica com uma cruz vermelha se aproximou da jovem ferida.  
- Afastem-se - disse ele cortando a blusa ensangentada. Um murmrio surdo se elevou  vista do 
frgil peito descoberto. 
- Teve muita sorte. Um centmetro mais baixo e o corao seria atingido... A bala j saiu. No  to 
grave...  
- O que aconteceu? - perguntou um tenente que chegava correndo.  
- Viliemin atirou nessa mulher, que acabara de jogar uma granada, tenente.  
- No  verdade - gritou La, ainda com a cabea de NhuMai nos joelhos. - Eu estava andando pela 
rua, vi-a passar de bicicleta, mas no a vi jogar coisa alguma.  
- Senhorita, o que diz  muito srio. Tem certeza de no t-la visto jogar nada contra o prdio?  
- Certeza absoluta, tenente.  
Enquanto isso, a mo de Nhu-Mai escorregara para dentro da sua, deixando-lhe alguma coisa. O 
corao de La bateu mais forte ao fechar os dedos sobre um pedao de papelo.  
Uma ambulncia parou ao lado delas. A ferida foi deitada numa maca sem que por um s instante 
sua mo largasse a da amiga. La se virou para o oficial:  
- Tenente, avise meu marido, senhor Tavernier; ele est na Maison de France com o general de 
Lattre. Diga-lhe que estou no hospital.  
- Sim, senhora.  
Durante todo o trajeto, as duas jovens mulheres ficaram silenciosas. O hospital Lanessan estava 
cercado de arame farpado, de obstculos e de muretas de sacos de areia. A ambulncia passou sob 
o prtico, guardado por sentinelas. No ptio, homens com curativos na cabea, nos braos, no tronco 
caminhavam. Outros, feridos nas pernas, eram empurrados em cadeiras de rodas por enfermeiras, 
enquanto alguns ficavam sozinhos, como abandonados, com o olhar vago. Havia marroquinos, 
argelinos, senegaleses, vietnamitas servindo no exrcito francs e franceses genunos.  
"Como so jovens", pensou La.  
O mdico, diretor-geral do hospital, adiantou-se quando o veculo parou diante do setor de 
emergncia.  
- Senhora Tavernier? 
- Sim. 
- Seu marido acaba de telefonar; vai chegar a qualquer 
momento. 
- Obrigada, doutor. Peo-lhe que minha amiga seja atendida logo!  
- Vou me ocupar pessoalmente dela. Siga-me.  
Eles percorreram longos corredores atrs da maca. Nhu-Mai estava de novo inconsciente.  
- A senhora diz que essa pessoa  sua amiga? Qual  o nome dela?  
-  a clebre violinista Pham Thi Nhu-Mai. Assisti a seu concerto no Opra, h um ou dois anos.  
Ele se inclinou sobre a maca.  
- Sim, eu a reconheo. Ela desapareceu algum tempo depois do concerto. Correu o boato de que havia se 
juntado aos vietcongues.  
-  ridculo, no acredito em nada disso! Ela viveu quase sempre na Frana, mal conhece seu pas e vive s 
para a msica. Acredito mais numa histria de amor que ela no ousou contar aos pais. A mim ela disse alguma 
coisa sobre isso...  
- Ah, as mulheres apaixonadas, so capazes de tudo!  
- V-se que o senhor nos conhece bem - disse La com seu sorriso mais sedutor.  
O mdico chefe se ergueu e tocou o bigode com ar presunoso.  
- Chegamos ao centro cirrgico. A senhora quer esperar aqui? - perguntou, mostrando-lhe um banco de 
madeira.  
- Seja delicado com ela, doutor.  
- No tema nada, senhora. Est em boas mos.  
Franois chegou no momento em que Nhu-Mai, com o peito rodeado por uma larga bandagem, saa da sala de 
operaes.  
- Nada de grave. A senhorita Pham estar de p em alguns dias. Dei-lhe uma injeo de penicilina para afastar 
qualquer risco de infeco.  
- Parabns, doutor, o senhor foi magnfico. No h quartos para mulheres neste hospital militar? 
- De fato, senhora...  
- Ento, para alivi-lo desse problema, vou lev-la comigo.  
- Mas no ser possvel, senhora... Tem de ser interrogada sobre o atentado.  
- Pode ser interrogada em minha casa. Nesse estado, no h de perigo de fugir.  
Franois ainda no dissera nada, mas compreendera que nada faria La ceder, a no ser a fora.  
- Comandante, minha mulher tem razo. Como o senhor sabe, fao parte do staff do general de Lattre. Assumo 
a responsabilidade de cuidar da senhorita Pham. Quando estiver melhor, podero fazer-lhe todas as perguntas 
que quiserem.  
- Se o senhor assume a responsabilidade.., uma ambulncia levar sua amiga para onde a senhora indicar.  
- Obrigada, comandante. Voltarei a v-lo para lhe dar notcias.  
- Ser um prazer receb-la, senhora.  
Franois tomou o brao de La e o apertou com fora.  
- Comandante, agradeo sua compreenso... Minha mulher  muito ligada  amiga.  
Franois subiu na ambulncia depois de ter dado ao motorista o endereo da famlia Rivire.  
- Ns no vamos para o hotel?  
- Voc est completamente maluca! Por um lado, o hotel est cheio e no tem nada de uma clnica de luxo; por 
outro, a presena de uma lanadora de granadas pode no ser apreciada pelos jornalistas e outros fofoqueiros 
de merda!  
- Nhu-Mai no tem absolutamente nada a ver com tudo isso! Ao responder, La se perguntava se falara com o 
marido do  
relacionamento de sua amiga com os comunistas. Na dvida, resolveu esperar para ver o que ele sabia. Tremeu 
quando ele replicou num tom irnico:  
- Com certeza ela no tem nada a ver...  
Um velho empregado veio abrir a porta da residncia onde La passara h no muito tempo momentos to 
intensos. 
- Senhor Franois! Estou to feliz de v-lo aqui, assim como  senhora La... No trouxeram a senhorita Lien?... 
Saigon no  uma cidade boa para ela... O senhor Bernard esteve aqui ontem... Feliz Ano-Novo, senhor 
Franois!  
- Obrigado, Ngnan. Feliz Ano-Novo para voc tambm. Pode preparar um quarto para a senhorita Pham, que 
est ferida?  
- Seu lugar no  aqui - disse ele em vietnamita.  
- A senhorita Lien ficaria aborrecida com a sua falta de hospitalidade.  
- Sou um bom catlico e no gosto dos comunistas.  
- Ningum aqui  comunista. Cumpra a sua obrigao.  
O velho se foi, arrastando os ps na laje, chamando os criados com gritos agudos.  
La instalou Nhu-Mai no quarto que ela ocupava quando de sua temporada anterior e a ajudou a tomar um 
pouco de ch. Como a ferida ia falar, La colocou a mo sobre seus lbios.  
- No diga nada, repouse. Falaremos mais tarde.  
Ela encontrou Franois na biblioteca. Ele estava de mau humor.  
- Voc pode me explicar?  
- Explicar o qu? Que encontrei uma amiga ferida e me propus a ajud-la?  
- No zombe de mim! Voc foi testemunha de um atentado que feriu gravemente trs soldados franceses. 
Segundo uma testemunha, foi um ciclista que lanou a granada. Ora, alguns segundos mais tarde, militares 
atiraram no nico ciclista que estava naquela rua. Voc sabe o que aconteceu depois...  
- No vi ningum lanar uma granada.  
- Voc reconheceu ter visto algum passar de bicicleta no momento da exploso?  
- No reconheci nada. No foi Nhu-Mai que lanou a granada!  
- Preste ateno, La. Um falso testemunho  coisa grave. A polcia do exrcito vai interrogar voc, vai 
interrogar sua amiga. A verdade aparecer muito depressa. 
- No posso inventar algo que no tenha visto para agradar a voc! - respondeu ela, apertando na palma da 
mo o pedao do papelo.  
Eles se enfrentaram com o olhar, sentindo pela primeira vez um incio de desconfiana mtua.  
Franois se lembrava perfeitamente da narrao que La lhe havia feito da fuga da violinista, em companhia de 
dois amigos, para ir juntar-se aos vietcongues. Compreendia que ela tivesse tentado salv-la. Mas contestar 
que ela fora a autora do atentado parecia-lhe incompreensvel. La no poderia negar a evidncia durante 
muito tempo e no era difcil imaginar as conseqncias que sua atitude teria para ela e para ele mesmo. Ele 
quase sorriu ao pensar em de Lattre e seus "marechais" ao saber que o casal abrigava uma terrorista. Sabia 
tambm que La no voltaria atrs em suas declaraes. Ela, a rigor, poderia ser compreendida. Mas e ele?...  
- No meu caso, isso se chama traio - disse em voz alta.  
O corao de La se apertou. Ele tinha razo. Era a guerra, e eles estavam dando asilo a uma inimiga, que no 
hesitara em matar. La reviu-se em Montillac, escondendo da Gestapo ou da Milcia os amigos da resistncia. 
"Mas no  a mesma coisa!", cochichava-lhe uma vozinha enquanto outra resmungava: "Essas pessoas esto 
lutando pela liberdade, como ns; ns  que somos os invasores.  normal que nos combatam por todos os 
meios." "Mas so franceses como voc que eles matam", replicou a vozinha. A outra voltou, mais forte: "So 
esses mesmos franceses que nos exploraram, aprisionaram, torturaram, mataram. So eles que nos empurraram 
para a revolta com seus odiosos procedimentos, seu desprezo pelos nossos costumes, e nos negaram o direito 
 igualdade, salvo quando precisavam de ns para nos fazer massacrar nas guerras que no eram nossas." "Os 
vietcongues no hesitaram sequer em eliminar os adversrios, em massacrar populaes inteiras que estavam 
ligadas  Frana, em queimar-lhes as cidades, em levar como refns crianas francesas e suas mes..."  
Mergulhada em pensamentos contraditrios, ela se assustou quando Franois a segurou. 
- Preciso reencontrar o general. Reflita bem. Respeito a  
hospitalidade que voc d a uma ferida, mas, quando ela melhorar  
e se j no estiver presa, quero que v embora. Entendeu?  
La o empurrou delicadamente. Pensativo, Franois a olhou  
com firmeza.  
- Nunca me esquecerei deste primeiro de janeiro! - suspirou  
ele, saindo.  
Era a primeira vez que a deixava sem um beijo.

Captulo 12

Franois partiu para Saigon com o general de Lattre. La se juntaria de novo a ele quando Nhu-Mai estivesse
completamente restabelecida.
No dia seguinte  sua instalao na casa da famlia Rivire, a violinista fora acometida de uma febre forte. 
Chamado, o mdico julgara crtico o estado, o que impediu o exrcito de interrog-la. La mandou levar uma 
cama para seu quarto e ficou ao lado dela dia e noite. Na manh de 6 de janeiro, a febre diminuiu. Com voz 
fraca, Nhu-Mai chamou La. Imediatamente, a jovem foi para junto dela e constatou com alvio que o olhar 
tinha recobrado a lucidez.  
- Oh, minha querida! Est melhor?  
Uma pequena mo descarnada agarrou a sua.  
- Onde estou?  
- No tem nada a temer. Est na casa dos Rivire.  
- A senhorita Lien est aqui?  
- No, est em Saigon com meus filhos.  
-  por minha causa que voc est longe deles...  
- No diga isso. Antes de tudo, no fale: vai se cansar e a febre pode voltar. Descanse.  
- O que fez do pedao de papelo? 
- No se preocupe, est em lugar seguro.  
- Estou com sede.  
La ergueu-lhe a cabea e a fez beber um pouco de ch. NhuMai sorriu e adormeceu, com a mo 
na da amiga.  
Mais tarde, La saiu para tomar ar no jardim. Cansada, deixou-se cair num banco, sob uma rvore 
cujos galhos tocavam o cho. O pedao de papelo trazido por Nhu-Mai era perigoso; tratava-se de 
uma espcie de carteira de identidade expedida pelos vietcongues.  
Tudo estava silencioso em torno dela, Hani no retomara a animao de antigamente. Ela estava 
com pressa de deixar esses lugares marcados pela guerra. Em quanto tempo NhuMai estaria 
restabelecida? Desde a partida, Franois no telefonara nem uma vez. Por seu lado, ela no 
conseguira falar com Saigon, todas as linhas estavam reservadas para os militares.  
Uma pedra rolou a seus ps. Imediatamente, ela se levantou. Uma nova pedra, envolta num papel, 
juntou-se  outra. La pegou-a, desdobrou a folha de papel. Era uma carta escrita com letra ruim, 
que ela decifrou com dificuldade.  
A me de Nhu-Mai foi prevenida de sua presena na casa. Est muito descontente e quer 
retomar a filha. Pediu  polcia que a viesse buscar Os amigos querem igualmente pr a 
mo nela. Seja prudente, eles no gostam dos franceses.  
Giau  
La caminhou pelo jardim olhando em torno de si, mas nem sombra do mendigo. No mesmo 
momento, a porta que dava para a rua se abriu e soldados entraram. La foi at eles.  
- Bom dia, senhores. O que desejam?  
-  a senhora Tavernier? - perguntou o oficial. 
- Sou. 
- Queremos ver a senhorita Pham.  
- A senhorita Pham ainda est muito fraca, no acredito que 
possa receb-los. 
- Se a senhora permitir, julgarei por mim mesmo.  
- Muito bem. Sigam-me.  
Ela parou diante do quarto onde Nhu-Mai repousava.  
- Esperem-me um instante, vou avis-la.  
O oficial concordou. La voltou logo.  
- Podem entrar. No permaneam muito tempo, ela est muito cansada.  
Apoiada em travesseiros, Nhu-Mai parecia uma garotinha frgil. O oficial se aproximou.  
- Senhorita Pham, a senhorita  suspeita de ter lanado uma granada num prdio do exrcito. O que 
tem a dizer?  
- Nada, senhor. Eu passava de bicicleta quando ouvi uma grande exploso... Tive medo e procurei 
me afastar.  
- S havia a senhorita na rua.  
- No  verdade, vi um homem fugir - interrompeu La.  
- Senhora Tavernier, no  a senhora que eu estou interrogando, mas a senhorita Pham. Ento, a 
senhorita nega ser a autora do atentado?  
- Sim, senhor. Tive medo, por isso fugi. No estou habituada  guerra... Isso me amedronta desde 
que assisti aos bombardeios na Frana.  
- A senhorita estava na Frana durante a Ocupao?  
- Passei l uma parte de minha infncia; foi l que comecei a estudar violino.  
- Por que a senhorita saiu da casa de seus pais?  
- Isso  assunto particular, s diz respeito a mim.  
- Nas atuais circunstncias, isso interessa tambm s autoridades policiais.  
- Deixem-na em paz! - insurgiu-se La. - No vem que est cansada?  
- Senhora Tavernier, temos um inqurito nas mos, deixe- me conduzi-lo como achar melhor, seno 
vou ser obrigado a lhe pedir que se retire. Senhorita Pham, recomecemos. Para onde a senhorita foi 
ao deixar a casa de seus pais?  
As faces plidas de Nhu-Mai enrubesceram. Ela respondeu abaixando a cabea, enquanto uma 
lgrima rolava pela face. 
- Parti com meu noivo.  
- Qual o nome dele?  
- Nguyen Van Trinh.  
- Onde ele est agora?  
- Est morto, senhor.  
La quase no pde esconder a surpresa. A violinista estava sendo sincera ou representando uma farsa? Se era 
este o caso, que comediante!  
As lgrimas agora rolavam abundantes pelas faces da jovem.  
- Eu lhes peo, deixem-na,  muita crueldade! - exclamou La segurando a amiga, que parecia a ponto de 
desmaiar.  
- Lamento, senhorita. Vou informar a meus superiores. Voltarei mais tarde.  
To logo partiram, Nhu-Mai secou as faces com um ligeiro sorriso.  
- A histria do noivo no era verdadeira?  
- No totalmente. Eu e os camaradas combinamos, caso fosse presa, que eu contaria essa fbula sobre o 
noivado.  
- Mas e esse Nguyen no sei de qu? Existe mesmo?  
- Existia...  
- Existia? Como assim?  
- Era um traidor; est morto. Ns o executamos.  
- Voc est brincando! - balbuciou La, olhando-a horrorizada.  
- Era o chefe da aldeia em que nos encontrvamos meus camaradas e eu. Ele me fazia a corte, oferecia 
presentes para mostrar a todos quais eram suas intenes. Na aldeia, ningum alm dele sabia quem ramos; 
ele declarara que ramos parentes afastados que tinham fugido das perseguies dos vietcongues. De fato, 
essa aldeia ficava nas proximidades de um posto da Legio que os habitantes abasteciam duas vezes por 
semana. Dois amigos e eu recebramos ordem de nos misturar aos camponeses a fim de conhecer o posto, 
avaliar o nmero de soldados, saber quais eram suas armas, descobrir as falhas de sua defesa... Estou com 
sede... Obrigada.  
Depois de beber, ela recomeou: 
- No foi muito difcil. A vigilncia estava relaxada, haviam- se estabelecido laos entre algumas mulheres da 
aldeia e os soldados. O comandante do posto bebia muito e pouco a pouco acreditou que os aldees fossem 
amigos. Isso era verdade quanto a um pequeno nmero deles, para os outros era apenas uma ocasio de 
vender peixe, carne, legumes vinte vezes mais caro que aos compatriotas. Depois de algum tempo, as relaes 
entre aldees e soldados tornaram-se dirias. Isso nos permitiu perambular pelo posto e levantar a localizao 
das armas pesadas. Enviei todas essas informaes ao camarada-comandante da minha seo. Alguns dias 
mais tarde, vestidos de nhque, escondidos nos barcos, tomamos o posto.  
- Voc participou do combate?  
- No, eu no podia ser reconhecida pelas pessoas da aldeia como comunista.  
- O que aconteceu aos legionrios?  
- Esto mortos.  
- Todos?  
-  o que me disseram.  
A indiferena com a qual Nhu-Mai falava desses combates e mortes revoltou La.  
- J pensou no que est me contando como a coisa mais natural do mundo? Voc me fala do assassinato de 
combatentes franceses! Esqueceu que sou francesa e que, ainda que justa a sua causa, a maneira de agir  
odiosa?  
- Pode ser, mas a de vocs  semelhante. Sabe o que seus amigos franceses fizeram?... Voltaram em grande 
nmero e massacraram todos os habitantes da aldeia. Antes de mat-los, violaram as mulheres, torturaram os 
homens. Depois disso, puseram fogo nas colheitas e nas casas.  
-  horrvel! Mas, matando os soldados, vocs no deveriam esperar represlias?  - Certo. Mas tais represlias provocaram o dio de todo o povo contra o ocupador 
francs e reforaram o 
Partido em sua  
determinao. Esses mrtires foram mortos pela independncia de nosso pas, sua memria 
permanecer para sempre entre ns.  
- Mas nem todos os vietnamitas querem morrer apenas pela glria do Partido, nem todos so 
comunistas!  
- Eles se tornaro, por bem ou por mal.  
- O que voc diz  espantoso. No acha que j houve bastante mortos, bastante sofrimento?  
- Cada vietnamita vtima do opressor torna o Partido maior, mais forte.  
La a olhou com piedade.  
- Voc me d medo. J no  voc mesma, contenta-se em repetir a doutrinao do Partido, perdeu 
toda a conscincia pessoal.  
- E estou orgulhosa disso! Sou um instrumento da Revoluo internacional. No existo como 
indivduo.  
Estas ltimas palavras, proferidas com paixo, acabaram com as foras de Nhu-Mai, que 
empalideceu e desmaiou.  
-  pssimo ficar em tal estado! - suspirou La, molhando-lhe a testa com um leno empapado de 
gua-de-colnia.  
Nhu-Mai reabriu os olhos e murmurou:  
- Vai me denunciar  polcia?  
- Deveria... No fale mais, est muito fraca, e no quero ouvir mais nada a respeito de suas 
atividades revolucionrias. Durma, que eu vou trocar de roupa.  
Nhu-Mai dormiu at a noite. Ao acordar, fez soar a campainha. Um empregado entrou com uma 
tigela de caldo fumegante; o odor do tamarindo encheu o quarto.  
- M3i c dng, mn ni rt tt cho c.  
- Can on, b Tavernier du ri?  
- O khch san Mtropole. Nu cn, chi ng ta c th lin lac vi b o dy. *  
- Beba, isso lhe far bem.  
- Obrigada. Onde est a senhora Tavernier?  
- No hotel Mtropole. Em caso de necessidade, poderemos busc-la. 
Transformada em enfermeira havia uma semana, La sentia uma urgente vontade de se afastar um 
pouco para refletir. Em outros tempos daria uma volta pelo Petit Lac, um passeio de cyclopousse 
pela avenida Parreau - que os franceses, que no receavam usar mais um anacronismo, chamavam 
de "dique" Parreau, nome do primeiro prefeito-residente de Hani em 1885 - ou teria passeado pelo 
jardim botnico, no sem ter feito um ligeiro desvio pelo pagode do Pilier-Unique, cuja construo 
datava de 1049. La logo gostara desse curioso edifcio rodeado de um fosso cheio, onde boiavam 
nenfares. Sobre uma larga coluna de pedra, feita de dois blocos cilndricos, estava colocado um 
delicado pagode, ao qual se tinha acesso por uma escada de tijolos, em mau estado. Toda a 
construo, alis, sofrera muito: a cobertura e o assoalho estavam destrudos em alguns pontos. 
Apesar da decrepitude, esse pagode tinha um charme incrvel. Ia-se l para assegurar uma 
descendncia.  
O bairro da Concession respirava calma provinciana, to cara aos antigos colonos. Podia-se 
acreditar estar em Vichy ou em Soissons se, de vez em quando, no passasse um ciclista ou um 
morador da terra a passos largos sob o chapu pontudo.  
Hoje, La tinha necessidade de ver gente, de no ficar confinada  cabeceira de uma doente - no 
importa que doente: uma terrorista lanadora de bombas!  
Dentro dela ocorria uma verdadeira batalha entre a amizade e o dever. O bom senso, o patriotismo 
queriam que ela denunciasse Nhu-Mai. Mas a compreenso das motivaes da amiga, mesmo que 
condenasse a ao terrorista, e o horror  delao a impediam de faz-lo.  
"Se Franois estivesse aqui, saberia decidir. Por que nunca est comigo quando eu preciso dele?"  
Era hora do aperitivo, havia muita gente em volta do bar do Mtropole: jornalistas maltrajados, 
correspondentes com roupas mais leves, civis de ternos claros, oficiais e suboficiais de cqui, 
AFATS de sapatos sem salto. A elegncia de La, que pusera o vestido usado no dia dos 
cumprimentos na Maison de France, destoava. 
Nem um lugar no bar; ela foi se sentar na nica poltrona livre do saguo. Remexeu na bolsa  procura dos 
cigarros, depois do isqueiro. Um homem lhe ofereceu fogo. Seus gritos se cruzaram ao mesmo tempo:  
- Jean!  
- La!  
Jean Lefvre estava ali, diante dela. Caram nos braos um do outro.  
- Oh, Jean, que felicidade rev-lo!  
- Deixe-me olh-la, no acredito nos meus olhos! Est ainda mais bonita que na minha lembrana.  
La riu, com esse riso que perturbava tanto os homens.  
- Olha quem est comigo.  
- Franck!  
O amigo de Laura a olhava com ar transtornado. Quando ela o beijou, um soluo sacudiu o corpo do jovem. O 
fantasma de Laura sorria ao contempl-los.  
Duas cadeiras foram desocupadas; eles se sentaram e fartaram o olhar com a viso dessa mulher encantadora 
que participara de suas vidas. Depois os trs falaram com animao de coisas ora difceis, ora fceis. Tinham 
tanto para contar! Quando se calaram, em meio  alegria dessas recordaes, entreolhando-se com emoo, 
La levantou-se:  
- Estou com fome! Convido-os para jantar.  
O maltre os colocou a uma mesa perto da varanda. De comum acordo, decidiram comer  europia. Quando 
um trivial macarro gratinado lhes foi servido, saborearam-no como iguaria, bebendo um Bordeaux medocre.  
- Parece que estamos em casa! - rejubilou-se Jean, devorando uma grande garfada de massa.  
Uma vez bem alimentado, Lefvre falou. Falou da beleza desse pas que aprendeu a amar, de suas mulheres, 
ao mesmo tempo frgeis e fortes, delicadas e cruis, daquela que se tornou sua congai.* Uma noite, ela 
havia lhe dado provas de seu amor e  
*Amante 
de sua fidelidade vindo avis-lo de um ataque iminente dos vietcongues; ela e sua famlia haviam 
pago com a vida, bem como o filho que ela esperava dele. Nessa noite, isolados no posto, ele e seus 
camaradas haviam conseguido rechaar o ataque dos vermelhos. Mas quatro foram mortos, e cinco 
feridos, que ele conseguira evacuar para Hani. Ele precisara esquecer o fim atroz da companheira e 
retomar a "pacificao" da regio. Os aldees estavam com eles de dia e os traam  noite. No 
tinha raiva deles: no tinham escolha. Os vietcongues tinham espies por toda a parte; seus mtodos 
eram mais eficazes que os dos franceses, isolados em seus picos, dominados por bandeiras 
tricolores, ou no pedao de terra perdido no meio dos arrozais. Com o tempo, Jean compreendera 
que cada aldeia "pacificada" estava condenada, que a proteo assegurada pelo posto era ilusria e 
que, aps a partida deles, a aldeia seria arrasada, seus habitantes torturados e massacrados. J no 
agentava tantas mortes no meio de tanta beleza. Aprendera a desconfiar das manhs calmas, do 
nevoeiro flutuando sobre os arroios, dos dias de chuva que apodreciam tudo, das noites frias e 
claras. Dois anos de Indochina o tinham aproximado desse pas e de seus habitantes, cuja 
sobrevivncia, ele acreditava, estava intimamente ligada  presena francesa. Estava convencido de 
que o dever da Frana era proteger essas populaes e auxili-las a chegar  independncia sem a 
ajuda dos vietcongues, que pouco se importavam com elas, pois s visava ao triunfo do comunismo. 
Ele, que combatera na Resistncia junto aos comunistas da Gironda, jamais teria acreditado que 
viria a combat-los nesse pas, a dezoito mil quilmetros do seu. Mas o comunismo mostrava aqui 
sua verdadeira face, dura e arrogante, o desejo de dominar, sem participao, os povos do mundo.  
Como poderia esquecer o dia em que, com ordens de abandonar o posto aps uma concentrao de 
foras dos vietcongues, tiveram de deixar uma aldeia perto de Bac Can? No incio, os habitantes os 
haviam visto, em silncio, destruir as fortificaes de bambu, desmontar o material pesado, fazer 
desaparecer tudo o que pudesse servir ao inimigo. Sempre calados, haviam observado os soldados franceses subirem nos caminhes, que lentamente se tinham posto em 
marcha. Houvera ento 
um movimento da multido, gritos; velhos, mulheres, crianas comearam a correr atrs dos veculos, com o 
chefe da aldeia  frente, a longa barbicha flutuando atrs, gritando palavras que o barulho impedia de 
compreender. Uma mulher segurando um beb agarrou-se ao caminho em que estava Lefvre.  
- Dng di! - suplicava ela. - Chng se git ht chng ti! Mang con ti di, ti van ng, mang n 
di!  
 - No vo embora! Vo nos matar a todos! Leve meu filho, eu lhe peo, leve-o! 
A velocidade a fizera desistir. Ficara de p no meio da estrada esburacada com o filho nos braos. Desde 
ento, toda manh, ele revia essa mulher, amaldioando o governo francs e o exrcito, que tinham ordenado 
a "pacificao" dessas pessoas para as sacrificar em seguida. Ele no compreendia. Para ele, a Frana 
cometera este erro imperdovel: abandonar populaes civis que estavam sob sua proteo.  
A lembrana desse abandono vincava o rosto de Lefvre; em seus olhos passaram clares de dio e de 
vergonha. Com voz monocrdia, prosseguiu:  
- Isso continuou. Pacificamos outras aldeias, que abandonamos. No final, louco de remorsos, voltei atrs com 
meus homens. Tarde demais. Os vietcongues foram mais rpidos. Na entrada da aldeia, uma dezena de 
cabeas estavam enterradas em estacas de bambu. Das casas no restava mais nada. Diante de sua cabana, o 
chefe ainda estava vivo, com o ventre rasgado. Perto dele, os intestinos, nos quais pousara uma nuvem de 
moscas e de mosquitos. Eu lhe dei o tiro de misericrdia. Nunca esquecerei a condenao violenta de seu 
olhar.  
Plida, com os olhos fixos no prato, La estava com nuseas. Depois de um longo silncio, Jean Lefvre 
pediu uma garrafa de conhaque, de que bebeu dois copos, gole a gole.  
- Perdoe-me, La, ter lhe contado tudo isso, mas eu precisava falar. Essa guerra no tem nada a ver com a que 
temos;  uma guerra em que a Frana se desonra. Amanh, partiremos ao amanhecer para combater homens 
cruis, mas que lutam em seu pas, mesmo que sob a cobertura de uma ideologia que aprendi a detestar. Eu os 
compreendo. Esta no  uma guerra de libertao, como diz a propaganda deles, mas uma guerra para 
viverem livres em seu pas ou, ao menos, sob um despotismo que seja deles. Alguns de ns se juntaram s 
suas fileiras, convencidos de que a guerra deles  justa. Se eu no prezasse minha honra de soldado francs, 
j teria feito o mesmo!  
- No diga isso - protestou Franck, que no havia dito uma s palavra. - Isso seria trair.  
- Garoto, a traio  um problema de circunstncia e de compromisso pessoal. Para mim a idia que eu fazia 
da Frana e da honra no era esta. Abandonando os que vieram a ns, fomos ns que nos tramos. Tra meu 
irmo morto pelos alemes, meus camaradas torturados, deportados; tra o ideal francs de liberdade, 
igualdade e fraternidade...  
Jean engoliu um terceiro copo de conhaque e continuou:  
- De qualquer maneira, com ou sem de Lattre, tudo est perdido, eles vo ganhar, perdero dezenas de 
milhares de homens, mas ganharo, retomaro as montanhas, os arrozais, as cidades e as aldeias. Tero paz? 
Nada  menos certo, mas sero os donos de sua casa.  
- Franois pensa que com de Lattre tudo vai mudar.  
- Est enganado. Sem dvida alcanaremos algumas vitrias, mas isso ser apenas para ser melhor derrotados. 
Quem no viu um ataque vietcongue no pode compreender. Eles se espalham por seu objetivo como 
formigas: matam-se dez, cem os substituem. Cem? So mil, que nos foram a fugir. Acredite-me, eles 
vencero!  
Franois pensara nisso uma vez, mas desde que estava com de Lattre via as coisas de outra maneira. Pela 
primeira vez, La comeou a duvidar de seu julgamento.  
- O que ele quer?! - exclamou Franck, mostrando a varanda. 
La se virou. Atrs do vidro, Giau agitava os braos atrofiados, fazendo-a compreender com gestos vivos que 
precisava encontrlo. Ela se levantou.  
- O que esse monstro quer com voc? - perguntou Jean.  
- No se assuste,  um amigo. Foi graas a ele que encontrei Franois.  
- Acompanharemos voc.  
- Se quiserem...  
No puderam sair pelas portas da varanda, fechadas por medo de atentados. Tiveram de fazer a volta pelo 
hail e contornar o prdio para chegar  varanda. Vendo aparecer dois homens de uniforme, Giau fez meno 
de fugir.  
- Pare, esto comigo, voc no tem nada a temer! O que est acontecendo?  
- No quero dizer nada diante deles.  
- Fiquem aqui, vou falar com ele - disse La, dirigindo-se aos amigos.  
- Mas...  
- Por favor, Jean, no h perigo.  
Eles a deixaram afastar-se alguns passos.  
- O que quer? Voc  louco de vir aqui.  
-  importante. Levaram Nhu-Mai e a me dela.  
- Quem as levou?  
- Os vietcongues.  
- Mas por qu?  
- Para que Nhu-Mai no fale mais.  
La pensou que era uma boa razo.  
- Vo maltrat-la?  
- No acredito. Sabem que no falou, e a me no sabe de nada. Mas voc deve tomar cuidado. Diga que 
ignora todas as atividades de Nhu-Mai. Trata-se de sua vida!  
- Apesar de tudo, no ousaro me levar.  
- No seria a primeira francesa a ser tomada como refm ou morta. Volte para Saigon,  menos perigoso que 
aqui. Os vietcongues vo atacar qualquer dia desses.  
- Como sabe disso? 
- No importa, eu sei. Todos os vietnamitas sabem. Outra coisa: no volte  casa dos Rivire, fique no hotel.  
- Mas por qu?  
- Os vietcongues tm ordem de levar voc tambm.  
Depois de ter estremecido com a narrativa de Jean, La sentiu uma sria ameaa pesar sobre ela.  
- Obrigado, Giau.  
O mendigo desapareceu com uma velocidade surpreendente. Abatida, La voltou a seus companheiros:  
- Podem me acompanhar at em casa para pegar alguns objetos? Vou me hospedar no hotel.  
- O que est acontecendo? - perguntou Jean.  
- Os vietcongues levaram Nhu-Mai, a jovem vietnamita de quem eu tomava conta.  
- A polcia sabe disso?  
- No sei de nada. Vocs vm? No  muito longe daqui.  
As grandes portas abertas da residncia no anunciavam nada de bom, nem o silncio inquietante que reinava 
no local. Cortada a eletricidade, eles se orientaram pela luz do isqueiro de Franck. Ao chegarem diante da 
porta do quarto de Nhu-Mai, ele deu um grito. Dirigiu a luz da chama para o cho. Em frente  porta jazia 
numa poa de sangue o corpo de Ngnan, o velho empregado das crianas Rivire, com a garganta cortada. 
Tiveram de saltlo para entrar no cmodo. No interior reinava a maior desordem. Jarros de porcelana preciosa 
haviam sido arremessados contra as paredes, as tapearias estavam dependuradas, os mveis, quebrados, a 
cama, destruda. La jogou numa grande bolsa algumas roupas amarrotadas e objetos de toalete. J iam deixar 
o quarto quando luzes de lanternas eltricas os ofuscaram.  
- No se mexam! O que est acontecendo?  
- Eu no sei - respondeu La ao oficial. - Quando voltei para casa com meus amigos, encontramos este lugar 
neste estado, o empregado morto. A senhorita Pham desapareceu. Ela no poderia sair sozinha, estava muito 
fraca...  
- Senhora - disse o comandante da patrulha - e senhores,  preciso que me acompanhem. Estou vendo, senhora Tavernier, que arrumou suas coisas. 
Traga-as com a senhora...  
- Aonde vamos?  
- A Citadeile.  
Foram em alta velocidade pelas ruas escuras. Logo que chegaram ao ptio da Citadelle, foram 
conduzidos at o comandante. Era um homem frgil, de rosto macilento, visivelmente exausto, s 
vsperas da aposentadoria.  
- Sentem-se - disse ele com voz seca. - Disseram-me, senhora Tavernier, que a terrorista Pham 
desapareceu de sua casa. O que tem a dizer?  
- Nada. A senhorita Pham parecia estar melhor, pensei que podia me ausentar por algumas horas 
para conversar um pouco com meus amigos. Quando voltei com eles, ela havia desaparecido.  
- No tem nenhuma idia do local onde possa estar?  
- Nenhuma, senhor.  
- Trate-me de coronel.  
- Nenhuma, coronel.  
Ela notou o olhar interrogativo de Jean e de Franck. "Tomara que no falem de meu encontro com 
Giau nem do que ele me disse."  
Ambos permaneceram em silncio.  
- E os senhores?  
- Ignorvamos totalmente a existncia dessa senhorita Pham at esta noite. Encontramos a senhora 
Tavernier, que  uma amiga de infncia, no hotel Mtropole, onde jantamos relembrando os velhos 
tempos.  
- O que esto fazendo em Hani?  
- Acompanhamos um comboio de feridos.  
- Estavam na frente de batalha?  
- Estvamos, coronel. Fomos atacados a leste de Vit Tri. Tivemos muitas baixas.  
- Eu sei, os senhores se defenderam como bravos. Quando tm de voltar?  
- Ao amanhecer, coronel. 
- Esto sob as ordens de quem?  
- Do coronel Mller.  
- Um bravo. De agora em diante os senhores ficaro com o coronel Vanuxem.  
- Ouvi falar disso, coronel.  
- Muito bem, retornem ao seu acampamento.  
O telefone tocou. O comandante da Citadelle atendeu.  
- Al...  
Ouviram-se gritos do outro lado.  
- Sim, general... Bem, general... As suas ordens, general. Boa noite, gen...  
O coronel, que se levantara para responder ao "general", de amarelo mudara-se em cinzento. Com a 
mo trmula, tirou um leno do bolso e enxugou o suor da testa.  
- Era - disse ele gaguejando - o general de Lattre. Eu no sei como soube que a senhora est aqui, 
mas me deu ordem de conduzi-la  sua casa e no a aborrecer mais com esse atentado.  
- Sempre com sorte... Ainda iam dizer que fui eu quem jogou a granada!  
- Ningum pensou que fosse a senhora, mas fortes suspeitas pesam sobre sua amiga, e sem seu 
testemunho...  
La sentiu os olhares de Franck e Jean como uma chama queimando-lhe a nuca. A censura deles 
pesava sobre ela, mas eles nada disseram.  
- Diga adeus a seus amigos, senhora. O dever os chama. Vou mandar que a acompanhem.  
Ela beijou os companheiros com efuso e com o corao apertado os viu sair da sala. Quando os 
veria novamente?  
- Tomem cuidado...  
Eles se voltaram com um sorriso desiludido.

Captulo 13

Franois voltou a Hani em 14 de janeiro de 1951, no comeo da tarde, a bordo do avio do general de Lattre.
A sua chegada  Maison de France, o general convocou os jornalistas a seu gabinete para lhes dar 
conhecimento do xito obtido em Cam Ly, na orla do delta, pelo coronel Erulin. De Lattre respondeu s 
perguntas em tom jovial, fingindo no notar o ar sombrio de Salan. O "Chins" virou-se para Tavernier:  
- Preciso falar com o general. Estou apreensivo com a frente norte do rio Rouge.  
- Empolgado como ele est, o senhor teria dificuldade em interromp-lo.  
- Pouco me importa! Se o senhor o conseguir, diga-lhe discretamente que estou mandando uma mensagem 
para o coronel Edon.  
A campanha de "Tran Hung Dao", anunciada por Salan e comandada pelo general Giap a partir de Tha 
Nguyen, capital dos guerrilheiros vietcongues, acabara de comear.  
Duas horas mais tarde, com o coronel Redon, ele conseguiu falar com de Lattre e explicar-lhe a gravidade da 
situao. Bruscamente este mandou embora os jornalistas e depois, com ar maldoso, voltou-se para Franois: 
- No preciso de civis neste momento. Pode ir encontrar sua bonita mulher. Mandarei cham-lo em caso de 
necessidade.  
- As suas ordens, general.  
Franois deixou a Maison de France vermelho de raiva. Estava farto desse dspota, que tratava os 
colaboradores como ces. Cego pela ira, ele se chocou com Lucien Bodard, que tinha parado no jardim para 
acender um cigarro.  
- No olha por onde anda?... Ah,  o senhor... Por sua fisionomia, estou vendo que o nosso "rei Jean" o tratou 
com aspereza...  
- Se um dia o jornalismo no der certo, o senhor pode trabalhar como vidente.  
- Eu me lembrarei disso, na hora certa. Mas o senhor no tem razo para ficar nesse estado; ele  assim com 
todo mundo.  
- Talvez. Mas no sou um de seus "marechais" e no estou habituado a ser tratado dessa maneira.  
- Aproveite isso para ir ver sua mulher; a encantadora senhora Tavernier se resfria no Mtropole.  
- O senhor, que conhece os segredos dos deuses, sabe se h notcias da jovem vietnamita acusada de ter 
lanado uma granada?  
- No, oficialmente; mas tudo leva a acreditar que est nas mos dos vietcongues.  
- Acha que  culpada?  
- Sinceramente, sim. Ela e sua mulher estavam sozinhas na rua no momento do atentado.  
- Deduz disso, ento, que minha mulher mentiu?  
- Tudo leva a crer nisso. No se pode excluir que tenha agido por solidariedade feminina. Elas se conheciam 
antes, no ?  
- Sim. Mas no vejo essa jovem como uma terrorista; ela passou a infncia na Frana e estava no incio de 
uma carreira internacional. No  o perfil vietcongue.  
- Ento, por que a levaram?  
- Como quer que eu saiba?  
- Se eu souber de alguma coisa, no esquecerei de avis-lo.  
- Obrigado.  
Eles apertaram as mos, e Franois partiu para o Mtropole. 
La no estava no quarto. Franois aproveitou para tomar um banho de chuveiro. Ele estava saindo nu do 
banheiro quando ela voltou, com os braos cheios de flores. Atirou sobre ele, batendo nele com o buqu.  
- Detesto voc, detesto voc!... Por que me deixou tanto tempo sozinha?  
Ele a reencontrava, selvagem e injusta. Arrancou as flores dela, jogou-as na cmoda, e a empurrou para a 
cama.  
- No, eu no quero... Largue-me! Pare ou grito!  
- Grite, minha linda! No ser a primeira vez que a farei gritar...  
Sempre falando, ele levantou-lhe o vestido e afastou a calcinha.  
- Deixe, amor. Tenho certeza de que voc est com tanta vontade quanto eu. Conversaremos depois.  
La se debateu por mais alguns instantes, mas esse corpo quente e nu, esse sexo duro acabaram com a razo 
de sua resistncia. Por um bom tempo ficaram imveis, enroscados nos braos um do outro, com o corao 
batendo, convencidos de que nada de mal poderia lhes acontecer, pois se amavam e estavam de novo juntos.  
- Eu o amo... - murmurou ela antes de adormecer.  
Dormiram at a noite cair, de novo fizeram amor, lentamente, atentos  chegada do prazer.  
Quando desceram para jantar, as marcas de sua felicidade eram to evidentes, que eles pareciam impudicos.  
No bar, ao v-los, Lucien Bodard ergueu o copo.  
- A sade dos apaixonados!  
No dia seguinte, o general de Lattre deu ordem ao coronel Mricourt para utilizar napalm. Era a primeira vez; 
mas no seria a ltima.  
De repente, um som encheu o ar e no cu apareceram estranhos pssaros, que cresciam de minuto 
a minuto. Avies! Ordenei a meus homens que se abrigassem das balas e dos projteis, mas 
os avies se foram sem atirar Entretanto, sem aviso, o inferno estava diante de mim! Um inferno que num 
instante tomou a forma de containers avais lanados pelo primeiro, depois pelo segundo aparelho. Imensas 
cortinas de fogo obstruem de uma s vez centenas de metros e aterrorizam meus homens. Isso  o napalm! O 
fogo que cai do cu...  
Fugimos para o limite dos bambus, e eu grito:  
- Reunio atrs da colina!  
Mas quem me escutaria em tais instantes? Quem poderia me ouvir?  
Atrs de ns a infantaria francesa comeou o ataque. Os gritos dos homens chegavam at ns. Meus 
soldados atravessaram as fileiras de uma seo que permaneceu de reserva. Parei perto do oficial que a 
comandava.  
- Tente o mais que puder retardar a progresso dos franceses, enquanto tentarei reagrupar meus homens 
atrs da colina.  
- O que  isso?A bomba atmica? -perguntou ele, com as pupilas dilatadas pelo horror  
- No,  o napalm!*  
Durante a noite de 16 para 17, os ataques vietcongues foram de uma violncia rara. Em Vinh Yen, 
as unidades francesas lutaram com bravura desesperada. Os correspondentes da imprensa 
internacional se misturaram aos combatentes e, nos dias que se seguiram, a guerra da Indochina foi 
o assunto principal de todos os grandes jornais, para satisfao do general de Lattre, que pensava 
com razo que essa publicidade lhe permitiria obter novos reforos do governo francs e novos 
crditos do Pentgono, que via a "mar vermelha" ser contida tanto na Indochina quanto na Coria. 
Os vietnamitas cognominaram o general vencedor de "Ong sau lua", o general de fogo, para maior 
orgulho do "Mocho".  
Em 24 de janeiro, Salan poderia dizer que o plano "Tran Hung Dao", do general Giap, malograra. 
Essa vitria dera novamente  
confiana ao exrcito, apesar das pesadas perdas de homens e material. Entretanto, as foras empregadas 
pelos vietcongues impunham respeito: vinte e quatro batalhes se arremessavam com um fanatismo que 
impressionara vivamente as tropas francesas, principalmente seus elementos norte-africanos, o que deixava o 
general Salan inquieto quanto ao futuro.  
Bastante chocado com a loucura diablica do soldado vietcongue no ataque no s durante o dia mas tambm 
 noite, pela facilidade de aceitar as perdas, pela inteligncia ttica de Giap e pela vontade feroz de conquistar 
o delta do Tonquin, tambm de Lattre estava preocupado:  
- No nos livraremos disso, no venceremos se a Frana e a Amrica no nos ajudarem. Tenho um plano: 
formao rpida de um exrcito vietnamita, estradas de asfalto cercando Hani e Haiphong, que transformarei 
em redutos... Para isso  preciso o apoio da metrpole, e  indispensvel que a Amrica nos fornea meios 
materiais, equipamento e armamento - disse ele a Salan.  
Diante do fracasso da misso confiada ao coronel Allard - e a despeito da presena do general Juin e do 
presidente Pieven -, de Lattre decidiu ir, ele prprio, aos Estados Unidos para tentar obter ajuda.  
- Mas, antes da minha partida, quero dar uma demonstrao. Vou exibir fora no Tet. * Nesse primeiro dia do 
ano anamita, quero uma parada em Hani, de noite. O presidente Sarraut chega em 6 de fevereiro; tudo dever 
estar pronto para esse dia!  
O comandante assumira riscos extraordinrios na batalha de Vinh Yen, pegando parte das tropas em Annam, 
na Cochinchina, requisitando tanques, navios, avies, desguarnecendo pontos estratgicos. Como era hbito 
seu, ele mostrou-se pomposo e injusto, condecorando uns, desprezando outros. O coronel Vanuxem, um dos 
vencedores de Vinh Yen, foi o bode expiatrio.  verdade que seu notrio mau procedimento escandalizava a 
esposa do general: se bem que casado na Frana, ele vivia em concubinato com uma AFAT que ele 
engravidara, cuja coragem impressionava a todos; era apelidada "a me dos muongs". O gigante ruivo de barba flamejante se ofereceu at para 
retornar  Frana para acalmar a clera de de Lattre. O coronel Cogni interveio e conseguiu acalmar o 
general, que, satisfeito de haver demonstrado sua autoridade, respondeu:  
- Se ele tem a inteno de se casar com ela, que fique! At serei testemunha na cerimnia.  
Franois e La foram convidados a assistir  grande parada ordenada pelo general de Lattre para impressionar 
o Exrcito, o imperador Bao Dai, as populaes francesa e vietnamita, e ridicularizar H Chin Minh, que se 
gabara de passar o Tet em Hani.  
Albert Sarraut, que acabara de chegar para um priplo de algumas semanas pelos Estados Associados da 
Indochina, agasalhado com um sobretudo de l, e de chapu de feltro cinzento na cabea, dirigiu-se a 
Franois.  
- E ento, Tavernier, como est indo sua temporada? - perguntou, estendendo-lhe a mo com um sorriso 
malicioso, os olhos cintilando atrs dos culos redondos.  
Com um riso que desmentia o olhar frio, Franois respondeu:  
- O melhor possvel, senhor presidente, agradeo. Permita-me apresentar-lhe minha mulher.  
Sarraut tirou o chapu e beijou a mo que La lhe estendia.  
- Senhora,  um prazer conhec-la, a senhora  um colrio para os olhos.  ainda mais bela do que me haviam 
dito.  
- Obrigado, senhor presidente. Eu  que estou encantada de conhec-lo.  
A simplicidade da resposta e da presena de esprito, vinda de mulher to bonita, impressionou Sarraut. 
Geralmente, quando um elogio lhes era feito, elas se tornavam exageradamente afetadas. Essa era bonita, 
sabia disso, mas no se gabava da beleza.  
- Ambos me agradam muito. Tenho certeza de que agradariam muito  minha filha tambm. Que pena que no 
veio", pensou ele. 
Vieram busc-lo para tomar lugar perto do comandante. A parada grandiosa, batizada "A Noite dos Mil 
Tanques", podia comear.  
A escurido havia chegado. A luz de tochas empunhadas por soldados, esquadres de todas as espcies de 
mquinas, com os faris acesos, desde os grandes Sherman-&-Shaffe at as metralhadoras automticas e os 
caminhes de tropas de apoio, colocaram-se em marcha. A movimentao se fez com uma preciso 
maravilhosa, as colunas de blindados se dividiam e reagrupavam, desfazendo a formao e se reencontrando, 
durante horas. O arranhar das lagartas encheu a cidade.  
Impassvel, em uniforme de gala, de Lattre observava o desfile das tropas com evidente orgulho. Perto dele, 
sua esposa, seus "marechais", o presidente Sarraut, o governador (Da Vit) do Vietn do Norte, Nguyen Huu 
Tri e as personalidades civis e militares viam passar com sentimentos confusos essa demonstrao de poderio 
francs, impressionados pela exatido dos condutores dos tanques com a cabea coberta por capacetes 
americanos que surgiam das torres blindadas, pelos soldados de infantaria com os braos nus, apesar do frio, 
segurando-se  estrutura dos GMC, pela fora, ao mesmo tempo moderna e brbara, que se desprendia dessas 
tropas equipadas com mquinas sofisticadas. Dentro do casaco curto, La tremia.  
Depois do desfile, os convidados se dirigiram para a Maison de France, onde um jantar os aguardava.  
A multido de vietnamitas, surgidos em grande nmero naquele momento, pois haviam desaparecido nos 
ltimos dias, espalhava-se num silncio que demonstrava a surpresa diante do formidvel espetculo.  
O banquete na Maison de France comeou com silncio muito grande. O general comia com indiferena; 
todos sentiam a tenso elevar-se. O governador Nguyen Huu Tri, representando o imperador, empalidecia de 
minuto a minuto diante do evidente ultraje. Logo, com os lbios comprimidos, de Lattre o olhou fixamente e 
exclamou:  
- Seu imperador est podre,  um canalha! Ele continua a 
beijar as prostitutas em vez de estar no Tonquin entre meus soldados, os de Vinh Yen! Mas no preciso dele, 
no quero mais saber dele!  
Os que assistiam, consternados, tinham parado de mastigar. Do lado de fora aumentava cada vez mais o 
barulho das rodas metlicas. De Lattre levantou-se, levou o hspede at a calada, seguido de todos os 
convivas. Uma coluna de blindados passava, terrvel. Segurando o brao do governador, ele gritou:  
- Veja esses homens assombrosos! Eo senhor queria que eu os mandasse morrer por seu imperador?  
Mudo, abatido, o governador chorava.  
Quando o infeliz partiu, de Lattre, de repente acalmado, perguntou aos que o cercavam: "Ser que eu fiz uma 
besteira?" Depois entrou para o gabinete, onde se trancou com os companheiros mais chegados.  
Todos deixaram a Maison de France atormentados, com um profundo mal-estar.  
- Ele fez mal - disse Franois a La. - Ele o fez perder o prestgio, e isso  imperdovel para um asitico.  
Quando chegaram ao Mtropole, todos se acotovelavam no bar, onde as conversas sobre o desdobramento do 
jantar e seu grande vexame estavam animadas. Eles subiram diretamente para seu quarto.  
Em 10 de fevereiro, La e Franois partiram no avio posto  disposio do escritor britnico Graham Greene 
em companhia do coronel Broyelle, para percorrer as regies interessantes do delta do Tonquin. Vindo como 
correspondente do Lfr, Greene desejava realizar um estudo anlogo ao que havia feito anteriormente sobre a 
guerra na Malsia, e tinha necessidade, para tanto, de impregnar-se da atmosfera do pas. Durante a viagem, 
ele falou dos bombardeios de Londres em 1940, das amplas destruies sofridas, da caa aos espies 
instalados na Inglaterra antes da guerra, dos sofrimentos suportados pelo povo ingls. La escutava, fascinada. 
Sob seus olhos desfilavam os ricos arrozais cobiados pelos vietcongues. Uma ligeira nvoa flutuava sobre o 
campo opulento, de inumerveis tons de verde. Como tudo parecia pacfico, visto do alto!  
Voltaram no fim da tarde e jantaram com o autor de O poder e a glria, cujos olhos fundos sob 
espessas sobrancelhas davam uma impresso de insacivel curiosidade. Sua conversa em ritmo 
irregular, numa mistura de ingls e de francs imperfeito, manteve-os interessados at tarde da 
noite.  
La fora convidada pela senhora de Lattre a visitar um orfanato, mantido por religiosas que se 
dedicavam a educar meninas abandonadas e a torn-las boas crists a poder de rezas e de servios 
de costura. Era uma honra ser assim escolhida por Monette, o que La no apreciava muito. Fora 
necessria toda a insistncia de Franois para que ela aceitasse o convite.  
Elas foram recebidas por freiras magras, que usavam touca; quarenta anos de abnegao e de sia 
lhes haviam marcado os traos e a alma. La supunha severas. Que contraste com as freirinhas 
vietnamitas, de rosto liso e redondo, alegres como garotas! A esposa do general passou em revista 
as rfs, de uniforme azul e branco com lao no cabelo. As de maiores mritos vieram oferecer 
buqus com uma pequena reverncia; visivelmente encantada, a senhora de Lattre acariciou-lhes as 
faces. Diante de tanta bondade, a madre superiora, cuja longa temporada no Tonquin transformara a 
carranca de camponesa francesa em aparncia de velha anamita, disse com voz suplicante:  
- O que fazer, senhora de Lattre? Imploramos a Deus, multiplicamos as novenas e as vias-sacras. O 
Senhor no nos respondeu. Senhora de Lattre, devemos evacuar nossas crianas ou conserv-las no 
convento? Mandamos embora as eurasianas, as mais ameaadas por causa do sangue dos pais. Mas, 
agora que vosso glorioso esposo est aqui,  preciso mandar para longe de ns as crianas 
vietnamitas, to caras a nossos coraes? Para poder conserv-las, a senhora precisa nos dizer que a 
vitria do general  certa. De outra maneira, seria abominvel... Senhora, estamos em suas mos.  
Responsabilidade pesada, que pareceu deixar a visitante perplexa por alguns instantes. Depois, em tom autoritrio, ela respondeu:  
- Permaneam em Hani. No se deve duvidar nunca da palavra do general.  
As religiosas bateram palmas como crianas. A madre superiora props-nos visitar o 
estabelecimento, depois de concordar em dar mais um recreio s meninas, a pedido da senhora de 
Lattre.  
Tendo de dissimular seu aborrecimento, La seguiu a comitiva. Ela parou diante de uma janela 
aberta, que dava para o ptio de recreio. Num canto, as meninas jogavam pedras e punhados de terra 
com gritos e risos. Ela olhou mais atentamente.  
- Crianas ms! - exclamou ela de repente, descendo a escada do corredor de dois em dois degraus.  
As crianas a viram chegar sem temor, com rostos doces e sorridentes. Sem contemplao, a jovem 
as empurrou. Uma figura coberta de terra e de cusparadas se mexeu.  
- Giau!  
La se inclinou e ajudou o infeliz a se levantar.  
- Voc est bem?... O que faz aqui?... Malvadas, porque fizeram isso?... Eu pensava que eram boas 
crists, no  verdade, so piores que demnios... Eu as detesto!...  
- Senhora Tavernier, o que est acontecendo? Por que esses gritos?  
- So essas pequenas pestes, que maltratavam um infeliz.  
- Oh, meu Deus! - disse a senhora de Lattre, descobrindo Giau.  
-  voc outra vez, co maldito! J lhe disse cem vezes que no quero v-lo rodando por aqui. Fora! 
- disse a superiora, brandindo uma vara.  
- Oh!...  
Com um gesto brusco, La acabava de arranc-la de suas mos.  
- A senhora no tem vergonha, madre, de tratar esse infeliz assim? Vendo-a agir, compreendo 
melhor a maldade dessas crianas. A senhora lhes d um pssimo exemplo. 
- Senhora Tavernier, modere suas palavras - interveio a senhora de Lattre.  
- Eu as moderei, senhora, moderei, acredite-me!  
A senhora de Lattre a encarava com arrogncia.  
- Acredito, senhora Tavernier. Mesmo deplorando a atitude das crianas, peo-lhe que no culpe 
essas mulheres admirveis. A crueldade est na alma anamita, pelo que li a respeito. Mas  preciso 
concordar que esta... criatura  repugnante.  
Plida de clera, La a desafiou com o olhar.  
- Essa... criatura, como a senhora diz, vale mais que suas boas irms, senhora. Permita que me retire.  
Sob os olhares estupefatos da platia, La tomou a mo de Giau e foi embora.  
Apesar de sua habilidade, o monstro quase no conseguia acompanh-la. Com passos largos ela 
desceu a rua Paul-Bert e atravessou sem olhar diante do correio. Um cyclo-pousse quase a 
atropelou; o condutor a cobriu de ofensas. Chegando ao Petit Lac, ela se sentou num banco de 
pedra, acendeu um cigarro e ficou contemplando os patos. Esfalfado, Giau deslizou para perto dela.  
- Obrigado - disse ele simplesmente.  
La estendeu-lhe um cigarro.  
- As "freirinhas" e a mulher do general no pareciam contentes - ressaltou ela, rindo.  
A face horrvel simulou um sorriso; pelo seu olhar passou uma luz, um relmpago de 
reconhecimento e de amor. Por um momento, eles fumaram em silncio. Trs mulheres com 
uniforme da Cruz Vermelha passaram diante deles; uma delas virou-se e voltou.  
- La!... La Delmas?...  
- Sim?... dith!  
Elas se lanaram nos braos uma da outra, saudando-se com alegria.  
-  voc!... O que tem feito desde Berlim?  
- Como v, alistei-me novamente. Faz um ano que estou na Indochina. E voc? O que est fazendo 
aqui? 
- Estou com meu marido e meus filhos.  
- No me diga... Voc  a senhora Tavernier... Isso no me admira!  
- O que  que no a admira?  
- S se fala de voc na cantina dos oficiais e no escritrio da Cruz Vermelha.  
- E por que, meu Deus?  
- Correm bobagens a seu respeito, como a de que ajudaria os vietcongues.  
-  uma completa idiotice.  
- Sem dvida, mas  o que dizem.  
- Dizem muitas bobagens...  
- E o que responderei, agora. Como imaginar a corajosa La Delmas ajudando os terroristas! O que 
voc quer, minha cara, sempre provocou opinies extremadas. Mas o que faz esse mendigo a seus 
ps?  
-  Giau, um amigo, meu guarda-costas!  
- Guarda-costas original! Ele est horroroso - acrescentou ela em voz baixa. - Deve afastar todos os 
seus admiradores...  
- Tem razo, vou precisar de outro.  
- Esta noite vamos oferecer um coquetel na Maison de France em homenagem ao CICR* Voc 
deveria ir, h duas ex- colegas de Arniens. Mas sem o guarda-costas!  
- Talvez v. A que horas?  
- A partir de dezessete horas. J vou, as outras esto impacientes. At a noite!  
- At a noite.  
Giau, que tinha se afastado enquanto ela conversava com Edith, voltou com uma manga descascada 
numa folha larga.  
- Obrigada - disse La, pegando a fruta.  
O monstro a observou comer com satisfao; eram raros aqueles ou aquelas que aceitavam alguma 
coisa de suas mos estropiadas! O suco escorreu pelo queixo da jovem.  
- Cuidado, vai manchar o vestido...  
La enxugou o queixo com as costas da mo.  
- Soube de alguma notcia de Nhu-Mai?  
- Est no campo de reeducao da Regio Alta.  
- De reeducao? Por qu?  
- Porque esteve em contato com o inimigo e querem verificar se ela continua uma boa comunista.  
- Que bobagem! Est sendo bem tratada?  
- To bem quanto possvel na guerrilha. Voc sabe, a vida  dura para os guerrilheiros. Disseram que ela toca 
para os camaradas no momento de descanso, consagrado  cultura.  
- O que quer dizer com isso?  
- Ela d cursos de msica, como outros do cursos de literatura, de pintura ou de dana...  
- Estranho que os combatentes tenham tempo para se interessar por tudo isso...  
-  normal. O presidente H Chin Minh se interessa muito. Voc ficar sem dvida surpresa de saber que a 
literatura francesa est em lugar de honra e na guerrilha se l Vitor Hugo, Anatole France e outros...  
- De fato,  surpreendente. Tente saber mais alguma coisa de Nhu-Mai. A me est com ela?  
- Acho que sim.  
- Preciso ir embora. At logo.  
La estendeu-lhe a mo. Ele a levou  testa.  
Franois andava de um lado para o outro no quarto do hotel Mtropole.  
- Ah, at que enfim! Voc me aprontou uma boa. A mulher do general est muito zangada!  
- Para mim tanto faz. Estou cheia de todas essas boas mulheres e suas pretensas boas obras!  
- Onde estava?  
- Com Giau.  
- Eu me pergunto o que voc viu nesse monstro!  
La encolheu os ombros e se despiu. 
- Quando voltaremos para Saigon?  
- Voc, mais cedo do que o previsto. Sua presena j no  desejada em Hani.  
- Isso ser timo, eu no tinha mesmo inteno de ficar aqui. Quando parto?  
- Amanh. Um avio sai depois do almoo.  
- E voc, quando ir?  
- No sei. O general me pediu que tenha um encontro com representantes dos vietcongues.  
- Eu achava que os vietcongues tinham posto sua cabea a prmio.  
- Isso foi h muito tempo! Os tempos mudam...  
- Mas  perigoso.  
- No. Tive um contato com Hai. Viajo esta noite para Vinh Yen e de l para Ct Nganh, de onde me levaro, 
sem dvida para Tha Nguyen.  
Ele a observava andar, nua, pelo quarto, com tranqilo despudor. Resistiu ao desejo de tom-la nos braos.  
- Vista-se. Tenho duas horas antes da entrevista com a imprensa. Vamos passear pelo bairro chins; disseram 
que um antiqurio recebeu jarros chineses muito bonitos.  
- Que bom! Vamos passear juntos.  
La se aprontou num piscar de olhos.  
Eles desceram o bulevar Francis-Garnier, recusando as propostas dos condutores de cyclo-pousses, 
pegaram a rua du Pont-enBois, depois a rua de la Soie, onde havia muita animao, o que significava que a 
calma tinha voltado. Na rua de la Laque, os negociantes tinham colocado para fora mesas e biombos; na rua 
du Riz, o comrcio estava a todo o vapor. Numerosas patrulhas circulavam, prontas para intervir. Eles 
pararam diante de uma barraca da rua des Tubercules, perto do cais Clemenceau.  
-  a o seu antiqurio?  
- Os bons antiqurios chineses no mostram sua mercadoria, tm muito medo dos ladres.  
Entraram num corredor pegajoso de sujeira e umidade. Um 
cachorro magro e amarelo escapuliu quando os viu. No fim do corredor, um pequeno ptio, onde as mulheres 
agachadas cozinhavam ou lavavam roupa, cercadas por crianas andrajosas que se agarraram s mes ao 
perceber os dois estrangeiros. Eles subiram uma escada escorregadia, com degraus s vezes esburacados. 
Franois bateu trs vezes, depois uma. A porta se abriu. Um rapaz os olhou fixamente.  
- Nhung ngoi ban da trng cua anh dj.  
- Mi ho vo v de chng ti ni chuyn*.  
* - So seus amigos brancos.  
- Faa-os entrar e deixe-nos.  
O adolescente os olhou com raiva e fechou a porta atrs deles. Um odor aucarado, misturado ao do 
nuocmm**, flutuava no cmodo mal-iluminado. Por uma estreita janela de vidros quebrados se podia 
entrever a ponte Paul-Doumer e seus muitos pedestres e ciclistas pesadamente carregados. Uma silhueta se 
destacou da parede.  
- Hai! - murmurou La.  
- No foram seguidos? - perguntou ele.  
- Acho que no. Um casal  menos suspeito que um indivduo sozinho - respondeu Franois.  
- Foi por isso que me convidou a esse passeio?  
- Perdoe-me, mas precisava que voc fosse a mais natural possvel.  
- No se zangue com ele, La. Agiu assim a meu pedido. Se bem que isso seja proibido, Nhu-Mai me entregou 
uma carta para voc. Evidentemente a li.  
- Evidentemente - repetiu La, pegando o papel amassado. - Voc  um de seus carcereiros?  
- Nhu-Mai no est presa.  
- Um campo de reeducao no deve ser muito agradvel.  
- Quem lhe disse isso? - perguntou ele com uma voz dura.  
- Ningum, mas ouvi falar dos mtodos de vocs.  
- La, tenho muito carinho por voc, mas preste ateno  
no que diz. Meus camaradas no so tolerantes como eu. Voc pode ir para o quarto ao lado? Preciso falar 
confidencialmente com Franois.  
O cmodo estava cheio de caixas; delas saam tufos de palha, que deixavam entrever porcelanas. La 
aproximou-se de uma pequena janela para ler a carta.  
Minha amiga  
Estou muito bem. Foi com alegria que reencontrei meus camaradas, mas com tristeza que a deixei. 
Agradeo-lhe ter cuidado de mim com pacincia e dedicao. Graas a voc estou muito melhor 
Agora  mame quem cuida de mim. Espero que, quando esta guerra terminar, voltemos a nos ver. 
Tocarei sua msica preferida. Aqui recomecei a tocar para os camaradas. Apesar da falta de 
treino, eles esto muito contentes. Decorei um poema de um poeta francs;  muito bonito. 
Conhece?  
Aquele que olhou fixamente para o sol  
Acredita ver diante dos olhos voar obstinadamente  
Em torno dele, no ar, uma mancha plida.  
Assim, muito jovem ainda e muito audacioso, Sobre a glria ousei fixar os olhos um instante:  
Um ponto negro ficou-me no olhar vido.  
Ento, misturado a tudo como um sinal de luto  
Por todo o lado, em qualquer lugar que meu olhar se detenha, Vejo aparecer tambm a mancha negra!...  
Por cue sempre? Sem cessar entre mim e a felicidade!  
Oh! E que apenas a guia - infelizes de ns, infelizes! - Contempla impunemente o Sol e a Glria.  
No sei o nome do autor Encontrei esse poema numa velha antologia  qual faltam algumas 
pginas. 
O camarada Hai tem toda a minha confiana, voc pode lhe entregar uma carta para mim; ele a 
remeter. Um bejo para voc e seus filhos.  
Sua amiga,  
Nhu-Mai  
"Se os vietcongues lem poetas franceses, nem tudo est verdadeiramente perdido", pensou La. "Nerval teria 
ficado muito surpreso de que no fundo da floresta saibam suas obras de cor!"  
A porta se abriu.  
- J pode vir - disse Hai.  
- No tenho papel para responder a Nhu-Mai. Diga-lhe que penso nela e mando um beijo com ternura.  
- Isso ser feito. Leve este jarro,  valioso. Principalmente, nem uma palavra sobre nosso encontro, disso 
depende a sua segurana.  
- No direi nada. Parto amanh para Saigon.  
- Tem algum recado para Lien?  
- No. Que se cuide.  
- Eu lhe direi. Adeus.  
Eles se separaram friamente.  
Na rua, Franois, levando o jarro protegido por uma armao de bambu, tomou-lhe o brao.  
- Procure no ter muita raiva de mim.  
- No tenho raiva de voc, mas estou cansada de tudo isso. Quando enfim teremos uma vida como todo 
mundo?  
- Em breve. Quer jantar aqui no bairro?  
- Boa idia.  
Sentaram-se nos banquinhos diante do "restaurante" de uma velha anamita.  
- Ela faz a melhor sopa de Hani.  
De fato, estava muito boa. No longe deles, Giau e outros mendigos mastigavam uma tigela de arroz. La 
sorriu em sua direo; mas ele virou a cabea.  
A jovem mulher e seu marido acabavam justamente de se levantar quando uma exploso os jogou contra a 
parede. La levantou-se, atordoada, com um filete de sangue ao longo da testa. Perto dela, Franois segurava a perna 
ensangentada. Em torno deles dois ou trs corpos estirados, horrivelmente despedaados, pareciam sem vida. 
Feridos gritavam, mulheres corriam em todos os sentidos, chamando pelos filhos. Giau correu para La, 
inclinada sobre o marido, que comprimia com as duas mos uma grande ferida de que saa muito sangue.  
- Depressa, faa um garrote. Est ferida?  
- No foi nada.  
La tirou o cinto do vestido e o apertou acima da ferida.  
- Pegue o jarro - disse ele.  
Ela o segurou: estava miraculosamente intacto.  
Ouviram-se as sirenes das ambulncias. A primeira parou com um guincho dos pneus. Dois enfermeiros 
desceram. S puderam constatar a morte das pessoas estendidas com o corpo dilacerado. Puseram Franois 
numa maca, enquanto um terceiro examinava La.  
- A senhora teve sorte. Apenas superficial.  
Foram conduzidos ao hospital Lanessan.  
- A senhora de novo! - exclamou o diretor, vendo La descer da ambulncia.  
- Perdoe-me incomod-lo, mas gostei da sua companhia!  
- O que aconteceu?  
- Um atentado na esquina da rua du Riz com a rua du Cuivre - disse um dos enfermeiros.  
- Que diabo a senhora estava fazendo naquele bairro?  
- Almovamos.  
- Estava almoando?... E isto? - perguntou ele, apontando o embrulho que La trazia.  
-  um jarro que compramos num antiqurio chins.  
- A senhora almoa, vai ao antiqurio... Por Deus, acho que pensa estar em plena Paris!  
Conversando familiarmente, dirigiram-se para o setor de operaes, onde trataram de La e da perna de 
Franois. Este perguntou: -  
-  muito grave, doutor? 
- No, no era a sua hora. Felizmente lhe fizeram um garrote.  
- Quando poderei ir embora?  
- Caro senhor, cuidaremos disso daqui a dois ou trs dias.  
- Mas no  possvel! O general de Lattre me encarregou de uma misso...  
- Ser preciso adi-la para mais tarde. Senhora, vagou um quarto com duas camas; quer dividi-lo com seu 
marido? A senhora tambm precisa de repouso.  
La aceitou.  
Deitados em camas estreitas, eles ficaram longo tempo em silncio.  
- Voc precisa ir em meu lugar - disse Franois em voz baixa.  
La, que dormia, deu um salto.  
- Ir onde?  
- Ao encontro dos vietcongues. V  Maison de France e pea para falar com o ajudante-de-ordens do general. 
Conte- lhe o que me aconteceu, e diga-lhe que dei todas as instrues a voc.  
- Onde elas esto?  
- No jarro. Quando chegar a Vinh Yen, quebre-o; ele tem um fundo falso. S ter de seguir as instrues que 
esto a.  
- E acha que vo acreditar na minha palavra?  
- Acho. Encontre Giau, ele a acompanhar.  
- Giau?  
- Sim.  um espio vietcongue. Perdoe-me pedir-lhe isso, mas no tenho escolha. Aceita?  
- E tenho escolha? Se eu recusar, voc encontrar um meio de ir l.  
- Obrigado, querida!...  
Logo que ele acabou a frase, perdeu a conscincia. La levantou-se e tocou a campainha. Uma enfermeira 
veio correndo.  
- Meu marido desmaiou. Vou procurar roupa de cama para trocar... 
Saiu depois de um derradeiro olhar para o homem que ela amava e que a mandava para a boca do lobo.  
Diante do hospital, Giau a esperava com um cyclo-pousse.  
- Hai est a par do acidente. Ele concorda que voc execute a misso de seu marido.  
Sem dizer palavra, ela subiu no veculo com o mendigo.  
- Para a Maison de France - disse ela.  
Sua entrada no salo principal da Maison de France causou sensao. Ela no tinha tido tempo de voltar para 
trocar de roupa; a frente do vestido estava manchada de sangue seco, o rosto arranhado, a ferida na testa, tudo 
era impressionante.  
- O que aconteceu com voc? - perguntou Edith, chegando perto dela.  
- Meu marido e eu escapamos de um atentado.  
- Seu marido est ferido?  
- Sim, est no hospital. Voc conhece o ajudante-de-ordens do general de Lattre?  
- Est em Saigon, mas voc pode falar com o coronel Beaufre. Veja, ele est aqui. Coronel, a senhora 
Tavernier queria lhe falar... 
- Venha senhora, sei o que a traz. Vamos para meu escritrio
 La seguiu atrs dele sob os olhares curiosos da assistncia.  
- Sente-se, senhora... Fale sem temor, conheo a misso da qual seu marido foi encarregado. No concordo, 
mas o general de Lattre pensa de outra maneira...  
- Ele sabe o que aconteceu a meu marido?  
- Sabe.  
- Sabe que meu marido pediu que eu o substitua?  
- No, mas ele mesmo lhe tinha sugerido isso.  
- O que o senhor pensa disso?  
- Que  uma loucura. A senhora no conhece nada do pas, ignora a lngua, e depois... no  lugar para uma 
mulher. Principalmente uma mulher to bonita.  
- Posso me sujar de carvo!  
- Ento, a senhora aceita? 
- Estou esperando suas instrues.  
- O alto-comando vietcongue concorda em receber um enviado do general de Lattre. Havia 
consentido, porque o conhece, que fosse seu marido. Tudo est pronto para receb-lo. No vamos 
mudar nada desse plano. A partida para Vinh Yen est prevista para as trs horas da madrugada. J 
saltou de pra-quedas?  
- No, ainda no.  
- A senhora ver, no  difcil. Basta ficar calma e pousar bem.  
- Isso me parece efetivamente de uma facilidade infantil. Diante do tom de ironia, o coronel Beaufre 
levantou as sobrancelhas, e o rosto plido se irritou um pouco.  
- A senhora ter consigo documentos que provaro sua identidade e a misso da qual est 
encarregada. Volte para se preparar e descanse um pouco antes da partida. Tem alguma pergunta?  
- Qual  exatamente o motivo disso tudo?  
- Levar H Chin Minh a encontrar o general.  
- S isso? Lembro ao senhor que meu marido j malogrou na tentativa de contato pedida pelo 
presidente da Repblica.  
-  verdade, mas as coisas mudaram.  
- Se o senhor acha...  
O coronel Beaufre se levantou, dando a entender que a conversa estava terminada. Acompanhou 
La at a porta.  
- Boa sorte, senhora.  
- Uma ltima coisa, coronel: quando e como volto de l?  
- No se aflija. Tudo est previsto.  
Diante da porta, dith a esperava em companhia de uma mulher alta, loura, com o uniforme da Cruz 
Vermelha.  
- La, a senhora de Vandeuvre gostaria de conhec-la. Senhora, eu lhe apresento La Delmas... 
desculpe, senhora Tavernier. La, eis a senhora de Vandeuvre, presidente das enfermeiras de 
socorro do ar.  
As duas mulheres apertaram as mos, olhando-se fixamente. 
- Estou feliz de conhec-la, senhora Tavernier. Conheci muito seu marido, um homem notvel e... 
muito sedutor. Vou visit-lo amanh no hospital. Mas a senhora tambm foi ferida?  
- Muito sangue para pouca coisa. Como compensao, eu beberia alguma coisa.  
A senhora de Vandeuvre fez sinal a um criado que trazia uma bandeja. La pegou uma taa de 
champanhe, que bebeu num trago.  
- Desculpem-me, mas tenho de ir. Estou feliz de t-la conhecido.  
- Eu tambm. At logo, cara senhora...  
"Mais uma conquista de Franois!", pensou La.

Captulo 14

Um Morane esperava La no aeroporto. Giau a acompanhava. Ela subiu no aparelho, calando
Pataugas e vestida com um macaco de aviador. Giau desaparecia no seu. A noite estava escura. 
Uma vez a bordo, receberam pra-quedas e lhes foram dadas algumas instrues para o salto. Numa 
bolsa cheia de retalhos presa  cintura de La estava o jarro.  
O vo durou uns trinta minutos. Giau batia os dentes. Foi bem pior quando a porta da cabine foi 
aberta e um vento glacial entrou. Presa por um gancho aos trilhos metlicos, La tremia como uma 
folha.  
- Go! - gritou uma voz  
Ela sentiu um forte empurro e caiu no vazio. Durante a queda uma prece lhe veio aos lbios. 
Depois uma brutal sacudidela atingiu-lhe violentamente os ombros. Ela fechou os olhos. Os ps se 
afundaram na terra; ela rolou sobre si mesma. Desatou depressa as correias e se desembaraou do 
pra- quedas. Livre, com dores por todo o corpo, olhou para cima; a algumas dezenas de metros 
percebeu um cogumelo branco,  
depois mais nada. Dirigiu-se para o lugar onde ele tinha desaparecido. Grunhidos chegaram 
at ela. Giau, cado num buraco cheio d'gua, debatia-se. Com a ajuda do punhal que lhe 
haviam dado, La cortou as correias e o iou para fora da armadilha. Coberto de lodo, o 
monstro estava mais hediondo que 
nunca. 
- Para onde vamos? - perguntou ela. 
- Para leste. 
Caminharam em silncio durante uma hora e chegaram  beira de uma estrada.  
- Deve ser a R.C.1 - disse Giau, parando.  
- O que fazemos agora?  
- Esperamos. Devem nos ter visto descer; vo vir nos procurar. 
- Quem? Os franceses?  
- No, os vietcongues. Os franceses nos aguardam mais ao sul.  
- Voc fez de propsito, para nos afastar deles!  
- Sim, eles nos teriam atrasado e tinham ordem de me prender. 
Como sabe disso? 
- Tenho meus informantes. 
- Voc me traiu, ento?  
- Nunca a trairia! Seus compatriotas  que a teriam trado.  
- Por qu?  
- Para capturar os vietcongues que voc devia encontrar. 
- Mas  absurdo! Isso no teria acontecido da mesma maneira com Franois?  
- Eu acho... Cale-se! Ouo algum se aproximar. Eles se agacharam no fosso. Uma tropa de 
vietnamitas armados examinava o lado de baixo da estrada. Giau se ergueu.  
- Cc dng ch chng ti o dy!*  
- Camaradas, estamos aqui! 
As armas foram apontadas na direo deles.  
- Rng tre se chin thng.  
- Duoc, cc anh c th ra. *  
O drago de bambu vencer.  
- Est bem, j podem sair.  
Eles obedeceram.  
- Ngoi chng ti doi khng phai l mt phu nu
- No espervamos uma mulher.  
 - disse o que parecia ser o chefe.  
- Khng, chng ba ta bi thuong; b thay mat ng tha.  
- Anh se giai thch vi dng-ch chi-huy. Ln dung!**  
- No, seu marido foi ferido; ela o substitui.  
- Voc se explicar com o camarada comandante. Em marcha! 
Eles se puseram em marcha. Ao fim de uma dezena de minutos, penetraram na floresta. Avanaram 
por um tnel de folhagens de perfumes fortes. O cansao se abateu de uma vez sobre La. Ela 
tropeou; um jovem soldado a segurou. Ela cambaleou alguns instantes ainda, depois perdeu a 
conscincia.  
Quando recobrou os sentidos, estava estendida sob uma coberta num quarto de teto baixo, mal-
iluminado pela luz amarelada de uma lmpada sob a qual um homem de ccoras fumava um 
cigarro. Devia ser um cigarro americano ou ingls, pois o odor era adocicado. Ela se levantou sobre 
os cotovelos. Atravs da tapearia que fechava a entrada do cmodo, percebeu a luz do dia. O 
homem agachado se levantou, afastou a cortina e saiu sem dizer palavra. Alguns instantes mais 
tarde, a cortina se abriu e uma jovem entrou, trazendo uma xcara de ch fumegante. Sua silhueta 
pareceu familiar a La.  
- Nhu-Mai!  
- Sim, sou eu. Tome, beba um pouco de ch.  
- Obrigada. Eu achava que voc estivesse num campo de reeducao...  
- Os camaradas me trouxeram para cuidar de voc.  
- A ferida est melhor?  
- Sim, estou quase curada. E a sua,  grave?  
- No. Estou feliz de rev-la. Onde est Giau?  
- O camarada comandante o interroga.  
La levantou-se.  
Onde esto minhas coisas? Quem me despiu?  
- Eu. Suas roupas estavam sujas e todas molhadas. Eu as lavei.  
- E o embrulho que estava preso  cintura?  
- Est aqui. Tome, aqui est.  
- Obrigada. Pode me deixar sozinha um instante?  
Nhu-Mai hesitou.  
- Se quer...  
Quando ela saiu, La desfez o embrulho e tirou o jarro, que quebrou no cho. Abriu a folha de papel 
dobrada num pequeno quadrado e se aproximou da luz para ler o que estava escrito. Sua decepo 
foi grande: estava em vietnamita. Dobrou-o novamente e ps dentro do suti, depois se vestiu. Mal 
acabava de prender o cinto quando um homem de aparncia frgil entrou.  
- Examinamos seus documentos e interrogamos o camarada Giau. Por que a senhora aceitou 
substituir seu marido?  
- Porque ele me pediu.  
-  uma esposa muito boa!  
A voz era delicada, o francs perfeito, mas o olhar sombrio estava cheio de dureza.  
- O senhor sabe quando vou encontrar o comandante?  
- Eu sou o comandante. O que deseja seu "general de fogo"?  
- Saber se o senhor estaria pronto para negociar.  
- Negociar o qu? No  caso de negociaes. Os franceses nunca cumpriram sua palavra. Mesmo o 
general Leclerc no cumpriu a palavra que havia dado a nosso presidente. Ento, seu general de 
Lattre, que corteja o traidor Bao Dai, s pode trair ainda mais.  
- O general de Lattre  um homem honrado. Quer apenas saber se o senhor aceitaria a possibilidade 
de um encontro. O general Giap e ele deveriam se encontrar.  preciso que ele saiba disso.  
- Eu sou o general Giap.  
La se adiantou para o pequeno homem. Ento, estava diante dela aquele que de Lattre e Salan 
diziam ser um grande estrategista, o implacvel inimigo da Frana, o vencedor da R.C.4. 
- Desculpe-me, eu no sabia.  
Ela apalpou o suti.  
- Tome, eu devia lhe entregar isto...  
Ele pegou o papel dobrado, abriu-o e leu.  
- A senhora sabe o que contm?  
Ela fez que no com a cabea.  
- Os franceses conhecem esta mensagem?  
- Isso me admiraria, estava no fundo falso do jarro que Hai nos entregou e que acabo de quebrar. O 
que diz o documento?  
- Isso no  da sua conta. Fique aqui, vo lhe trazer comida e gua para a senhora se lavar.  
Pouco depois, Nhu-Mai entrou, com uma bacia de esmalte azul, seguida por uma mulher trazendo 
numa bandeja tranada uma tigela de sopa e uma de arroz, que ela colocou num banquinho diante 
de La. Um sorriso revelou-lhe os dentes laqueados.  
- D chng ti ni chuyn 
Deixe-nos. 
- disse-lhe Nhu-Mai.  
Faminta, La procurou a comida. Sua voracidade fez rir a jovem violinista.  
- Parece a mulher do bicho-papo, que me dava tanto medo quando nossa senhoria, em Lyon, lia 
para mim contos de fada!  
- exclamou ela rindo.  
- Estava com fome - desculpou-se La, com a boca ainda cheia.  
Quando se satisfez, no sobrou um gro de arroz. Pegou a toalha que Nhu-Mai lhe estendeu e lavou 
o rosto e as mos.  
- O que posso fazer agora?  
- Esperar. Venha, vou lhe mostrar o campo.  
Do lado de fora havia grande animao. Jovens faziam ginstica sob o olhar de um homem magro 
que usava barbicha, bigode e fumava um cigarro, apoiado num basto. Com a cabea coberta por 
um capacete colonial cqui, calado com sandlias ordinrias de sola de borracha, ele vestia um 
short bege muito largo, uma camisa da mesma cor, e tinha em volta do pescoo uma toalha de 
algodo de cor indefinida.  
-  o nosso presidente - murmurou Nhu-Mai.  
Era esse ento o famoso H Chin Minh?... O homenzinho parecia insignificante. Ele voltou os olhos 
para as duas mulheres e sorriu. Que bondade nesse sorriso! No, no poderia ser o sanginrio 
comunista que aterrorizava os franceses! Ele se dirigiu para elas.  
- Bom dia, pequena Nhu-Mai, estou feliz de v-la restabelecida. A senhora  a esposa do senhor 
Tavernier? Tive o prazer de encontrar seu marido h trs anos. Disseram-me que foi ferido. Nada de 
grave, espero.  
- No, senhor presidente, mas est impossibilitado de andar.  
- A senhora  corajosa de estar aqui conosco. Vou procurar fazer tudo para que sua estadia lhe deixe 
boas lembranas. Deseja alguma coisa?  
- Voltar o mais rpido possvel para perto de meus filhos.  
- Compreendo. O lugar de uma me  perto deles. Acho que, daqui a alguns dias, a senhora poder 
se juntar a eles. Esta noite h uma pequena festa no campo; gostaria que a senhora comparecesse.  
- Com prazer.  
- At a noite, ento, senhora.  
O presidente se afastou e foi se agachar perto de um grupo de militares que discutiam em torno de 
um mapa. Nhu-Mai conduziu La.  
- Eu a levo para ver a escola.  
Esta ficava situada num sobrado. Umas vinte crianas, sentadas no cho, escutavam o professor. No 
quadro-negro, palavras em vietnamita em bela caligrafia.  
- Hay ly vo v chp lai mi chu lm mui ln.*  
*_ Peguem os cadernos e copiem dez vezes cada palavra. 
As crianas obedeceram e logo comearam a formar letras. O professor foi at elas. Ele tinha um 
aspecto muito jovem. -  
- Bom dia, senhora - disse ele num francs cantado. -  muito amvel de sua parte visitar nossa 
escola.  
- No  difcil estudar nessas condies?  
- As crianas esto habituadas e vidas por aprender.  
Milhares de insetos esvoaavam, atrados pelas altas chamas das fogueiras, destinadas a clarear um largo 
crculo onde tinham tomado lugar os combatentes, meninos e meninas misturados. La e Nhu-Mai estavam 
entre eles. Todos riam, acotovelando-se.  
- Bc dy ri
- Ei-lo.  
 - disse algum.  
Eles se levantaram e aplaudiram. O presidente penetrou no crculo seguido do general Giap e cinco ou seis 
outras personalidades.  
- Cc chu hay ngi xung. C chu da chin du tt, lm vic tt v hanh phc moi ngui; 
by gi dn lc cc chu vui choi.**  
**_ Sentem-se, meus filhos. Vocs combateram muito, trabalharam muito pelo bem de todos; est na hora de se 
divertirem. 
Sempre cumprimentando, ele deu a volta. Parou diante de La.  
- Venha para perto de mim, senhora. Eu lhe explicarei o desenrolar da festa.  
La sentou-se ao lado dele, de pernas cruzadas. H Chin Minh lhe estendeu um mao de cigarros: 
Chesterfield.  
- Obrigado - disse ela, pegando um cigarro.  
- Os camaradas dizem que fumo demais. Sem dvida tm razo.  um pequeno vcio sem conseqncias... A 
senhora vai assistir a uma demonstrao de vit v dao, que significa "o rumo da arte marcial vietnamita". 
 uma arte que praticamos h mais de vinte sculos.  
Dois jovens vestidos com um costume negro entraram no crculo e se inclinaram diante do presidente, que os 
saudou com a mo. Durante alguns instantes, os jovens fizeram exerccios de aquecimento; em seguida, 
depois de se inclinarem um diante do outro, puseram-se em posio. Um deles deu um grito que parecia de 
coruja.  
-  para intimidar o adversrio - cochichou o presidente. O outro, por sua vez, deu um breve grito e 
arremessou a perna  garganta do adversrio.  
- O grito de guia em rpido ataque...  
Ento, alternaram-se socos, pontaps e golpes com os punhos, entrecortados por onomatopias de diversos 
tons, de gritos de pssaros a rugidos, tudo com uma agilidade e uma rapidez extraordinrias.  
- Embora mais refinado, isso lembra o boxe francs, a savate dos jovens violentos. Eu a pratiquei 
antigamente, quando era jovem, em Paris.  
- Thi!*  
* Parem!  
A luta cessou. Dois outros rapazes comearam a lutar e mostraram uma agilidade ainda maior. Quando a luta 
terminou, um deles se inclinou diante do presidente.  
- Bc H, se tht vinh hanh nu chng chu duoc Bc biu din cho.**  
- Tio H, seria uma honra se o senhor fizesse uma demonstrao.  
Sem se fazer esperar, H Chin Minh levantou-se, ps-se em posio e o saudou. Com lentido, fez diversos 
movimentos. Podia-se dizer que era uma dana. A platia prendeu a respirao. Quando a demonstrao 
terminou, todos se levantaram para aplaudir.  
- Cm on, cc chu, cm on!'  
Obrigado, meus filhos, obrigado! 
Ele voltou a se sentar ao lado de La e lhe fez um sinal.  
- Eu lhe ensinarei, se a senhora quiser. Pode ser muito til para uma mulher saber se defender.  
Empunhando o violino, Nhu-Mai entrou, ento, no crculo. Quando as primeiras notas subiram na noite, La 
teve a impresso de ser transportada para um universo de perdo e de serenidade. A beleza da msica enchia-
lhe o corao, envolvia-o em melancolia. Havia no toque da virtuose algo de irreal que conduzia os que a 
escutavam para alm de si mesmos. Como se em  
cada um a alma se separasse do corpo. Sem lugar para a violncia, tudo era apenas harmonia. Um 
arrepio voluptuoso a percorreu. Ao seu lado, H Chin Minh escutava de olhos fechados, com um 
inefvel sorriso nos lbios. As largas narinas de Giap tremiam. Um homem, ao lado de La, deixava 
correr as lgrimas pelo rosto sombrio. Apenas com a magia do violino, Nhu-Mai os tinha presos a 
seu encanto, e todos esses orientais comungavam com a msica de Bach.  
Quando ela terminou, houve um longo silncio, como se cada um no voltar  realidade. Depois os 
aplausos estouraram. La virou-se, radiosa, para o que chorava. O homem deu um riso estranho, que 
parecia um soluo, e fez um sinal  violinista, chamando-a.  
- Nhu-Mai, cada vez que voc toca  como se nos abrisse as portas do paraso. Ns lhe agradecemos 
isso.  
- Obrigada, camarada Dong.  
- Cc chu, cc chu da chin d2u hang say; by gi la lc cc chu giai tr: bay vui choi 
tt! No chng ta hay nhay ma. * 
*_ Meus filhos, vocs combateram com ardor; agora  hora de se divertirem: distraiam-se bastante! Vamos, 
dancemos todos.  
Os rapazes se levantaram, mas as moas, mais tmidas, balanavam-se de um p para o outro. Tio 
H foi at elas e lhes disse:  
- Cc chu cn tht l phng kin! cc chu da chin du nhu cc dng ch nam; cc chu 
cungphai giai tr nhu ho mi dng ch. **  
**__ Vocs so ainda muito feudais! Combateram como homens;  justo que se divirtam como eles. 
Ele conduziu uma delas. Todos danaram, segurando-se pela mo, a dana Trabalhos dos 
campos, chamada "sol-l-sol", e todos disseram pausadamente "sol-l-sol, d-si-l-sol-mi".  
La pensou que os generais de Hani no acreditariam em seus prprios olhos ao verem seu pior 
inimigo danar como um rapaz. A dana o revigorava.  
- O senhor no dana? - perguntou La ao vizinho.  
- No, eu no sei. No nos acha muito... exticos?  
- De maneira alguma. Acho seu presidente um homem  
magnfico. Por isso no me surpreende que tenha seduzido tantos franceses e que os senhores todos 
paream am-lo tanto.  
Ele a encarou atentamente.  
- No me admira que a senhora seja a mulher do senhor Tavernier. Os dois se parecem.  
- Obrigado. O senhor fala muito bem nossa lngua. Aprendeu-a na Frana?  
- No, mas a estudei em parte nas prises francesas... Haha-ha!  
- Oh, perdo...  
Ele tinha um riso esquisito e desagradvel, que surpreendia num homem to sedutor, com uma testa 
larga e olhos brilhantes.  
- Oh, senhora Tavernier, a senhora enrubesce como uma mocinha! Aprendi muitas coisas nas 
prises francesas, muito teis para mim aqui.  
- Camarada Dong, deveramos deixar nossa hspede ir repousar - disse H Chin Minh aproximando-
se. -A senhora dormir com Nhu-Mai. Boa noite.  
- Boa noite, senhor.  
Os dois homens viram-na afastar-se.  
- Dy l mt ngui dn h can dam, b c th l mt dng ch cua chng ta duoc*
 uma mulher corajosa, poderia ser uma das nossas. 
- murmurou o chefe vietcongue para Pham Van Dong.  
O sol j estava alto quando La acordou na manh seguinte. A esteira de Nhu-Mai estava 
cuidadosamente enrolada. Num banquinho estavam colocados um bule de ch e uma pequena 
tigela. La se serviu. Do lado de fora tudo estava calmo. Ela ajeitou os cabelos com os dedos e saiu. 
Exceto por algumas galinhas e um cachorro, no havia sinal de vida. La se dirigiu para a escola: 
nem professor nem alunos. O campo parecia estar abandonado. Desorientada, ela sentou-se 
embaixo de uma rvore e aguardou.  
Esperou longo tempo.  
A tarde j ia muito avanada quando chegaram os primeiros feridos, trazidos em macas 
improvisadas pelos camaradas e segui- dos pelo resto da tropa, muito sofrida, a julgar pela tristeza 
das fisionomias e pelo desalinho das roupas. La procurou com os olhos Nhu-Mai. A jovem no 
estava entre eles. Uma angstia disfarada apertou-lhe o corao. Um soldado se aproximou dela.  
- O camarada mdico a chama. Siga-me.  
O homem afastou uma cortina de bambu e folhagem que ela no havia notado, e fez sinal para 
segui-lo. Uma vez passada a estreita abertura, descia-se curvado, entre paredes de terra. Chegaram a 
uma primeira sala, onde estavam reunidos os feridos. Eles continuaram e entraram em outra, que 
servia de centro cirrgico. Numa mesa, iluminada por luzes bruxuleantes, o cirurgio acabava de 
amputar a perna de um rapaz, quase uma criana.  
- A senhora vai ajudar o mdico - disse o soldado, empurrando-a para a mesa.  
O cirurgio levantou os olhos.  
- Hai! - murmurou La.  
- Pegue a linha, vou lhe mostrar como se costura uma ferida.  
Com gestos precisos, ele furou o coto sanginolento.  
-  sua vez.  
Com a mo trmula, La tomou a agulha avermelhada.  
- Fure aqui... Puxe devagar... Bem... Agora, l... Muito bem. Pode-se dizer que fez isso a vida 
inteira... Perfeito. Vou deix-la fazer o curativo. Quando tiver terminado, venha me encontrar na 
sala seguinte.  
Terminado o terrvel trabalho de costura, La limpou as mos numa toalha de sujeira repugnante. 
Novamente seguiu o soldado que a conduzira at l. Avanaram, quase agachados, pelas estreitas 
trincheiras de terra.  
Na outra sala jaziam em colches de palha os feridos, quase todos com um brao ou uma perna 
amputados. O odor era sufocante. Hai ia de um para o outro, refazendo um curativo, dando uma 
injeo, conversando alegremente com os menos atingidos. 
- Voc est encarregada dessas pessoas. D a eles um pouco de ch, se pedirem. Verifique o estado 
das feridas. Volto mais tarde.  
- Mas...  
- Essas so as ordens. Obedea. O camarada Trinh a ajudar.  
Hai saiu, deixando La desalentada. Durante horas, ela limpou, tratou, deu de beber a uns cinqenta 
homens, cujos olhos febris lhe seguiam cada um dos movimentos. Quando acabou, ela caiu num 
banquinho na entrada da sala. Mas Trinh no a deixou descansar.  
- Venha, precisam de voc em outro lugar.  
Ela se levantou com dificuldade, os olhos queimando de cansao. Os dedos dormentes, a nuca 
rgida; a ferida na testa doa.  
A sala em que entraram era relativamente fresca e limpa. Mulheres vestidas de branco iam e 
vinham. Atrs de uma cortina, uma mulher gritava. A cortina se abriu; Hai saiu, segurando pelos 
ps um recm-nascido, que entregou a uma enfermeira. La compreendeu que se encontrava na 
maternidade do campo.  
- J assistiu a algum parto?  
- Ajudei o filho de uma amiga a nascer.  
- Muito bem. O beb dessa mulher est bem, no dever haver dificuldades. Em caso de problema, 
uma enfermeira ir me chamar. Volto para operar. Lave as mos e vista uma blusa branca. J 
comeu?  
No, respondeu ela com a cabea.  
-  preciso alimentar-se, seno no vai agentar.
 Dng-ch Trinh, hay di ly com.  
- Nhung, thua dng-ch bc-si, ti khng duoc ri b ta.  
- Dng lo, d ti trong chng cho.*  
- Camarada Trinh, v buscar arroz.  
- Mas, camarada mdico, no posso deix-la.  
- No se aflija, eu tomo conta dela. 
A contragosto, o soldado Trinh deixou a sala.  
- Sou prisioneira?  
- O general Giap deu ordem de mant-la aqui e faz-la trabalhar.  
- E se eu recusar?  
- Eu no faria isso. Seria trancada numa gaiola de bambu:  
 muito desconfortvel...  
- O presidente H Chin Minh me deve uma resposta. Seu general Giap parece esquecer que sou uma 
emissria do general de Lattre.  
- Ele no esqueceu, est pensando.  
- Quero ver o presidente H Chin Minh!  
- Ele j no est aqui; raramente fica mais de dois ou trs dias no mesmo lugar.  
"Como os da Resistncia...", pensou ela.  
Trinh voltou com uma tigela de arroz com pedaos de carne. La quase no teve tempo de comer. 
Uma enfermeira de olhar duro se aproximou.  
- A mulher est na hora de parir - disse num francs hesitante.  
Atrs da cortina, a futura me, com as pernas totalmente abertas, empurrava com todas as foras. 
Logo cabelos negros apareceram. Com um grande grito, depois de um ltimo empurro, a criana 
saiu de uma vez. La teve tempo apenas de agarrlo antes que escorregasse para debaixo da mesa.  
-  um menino!  
Com apreenso, cortou o cordo umbilical, temendo ao mesmo tempo fazer mal  me e ao beb. A 
desagradvel enfermeira pegou a criana para lav-la.  
- Acho que esta noite no teremos novos nascimentos. V descansar - disse ela.  
Arrastando os ps, La seguiu curvada atrs de Trinh. Do lado de fora, a noite estava escura e 
perfumada. Ela parou e inspirou profundamente.  
- Quero ir ao banheiro...  
O soldado hesitou, mas depois lhe apontou a floresta. La foi tateando pelas rvores; agachou-se, 
pensou nas cobras, nos bichos ferozes escondidos no mato. Quando se levantou, viu o soldado diante dela, olhando-a com ar de zombaria. Ficou ruborizada.  
Nhu-Mai no estava na cabana. La desenrolou a esteira, tirou a combinao, manchada de sangue, 
e se deitou s de calcinha e suti, com o ouvido  espreita. Mas o cansao foi maior que a 
inquietao; adormeceu pesadamente.  
Sonhou que algum se arrastava at ela. Paralisada pelo terror, ela assistia ao lento arrastar. Urros 
silenciosos enchiam-lhe o peito; ela gritava e ningum a ouvia. A alguns passos dela, o presidente 
H Chin Minh a olhava com tristeza, o general Giap a encarava com olhar cruel, Pham Van Dong, o 
homem de pele escura, observava-a com um sorriso irnico, enquanto Nhu-Mai tocava violino, 
Franois abraava Lien, Charles, Adrien e Camille a chamavam, Flai amputava com toda a fora, 
Kien lhe dava um cachimbo de pio e assassinos nazistas, disfarados de legionrios, se lanavam 
em sua perseguio sob os aplausos da mulher do general de Lattre e os risos obscenos do marido e 
de Lucien Bodard, ambos bbados.  
- Calada! No grite!  
Uma mo malcheirosa e calosa tapou-lhe a boca.  
- No tenha medo, sou eu, Giau.  
Ele esperou que seu tremor parasse para tirar a mo.  
- Principalmente, no faa barulho; eles nos mataro a ambos... Mas antes...  
La comeou a tremer.  
- Por que eles me retm aqui? - balbuciou ela.  
-  uma idia do general Giap. Quer trocar voc por prisioneiros.  
- Isso no estava previsto. O presidente H Chin Minh sabe disso?  
- Ele deve voltar amanh ou depois de amanh. Nesse momento ser libertada.  
- Pode me conseguir novas roupas? As minhas esto imundas. 
- Sim, o que quer?  
- Queria um traje igual ao das mulheres daqui.  possvel? 
- No poderia lhe arranjar outra coisa. Agora durma, eu vigio. Pouco antes do amanhecer, ela foi acordada: 
Nhu-Mai voltou, mal se sustentando nas pernas. Tateando, La desenrolou- lhe a esteira e ajudou a amiga a se 
deitar.  
- Est ferida?  
- No, mas tivemos de andar durante horas para escapar dos legionrios.  
As imagens do pesadelo voltaram  memria de La.  
- Os combates foram duros, muitos de nossos camaradas foram mortos, outros foram feitos prisioneiros - 
contou a jovem violinista.  
- Os feridos desta tarde estavam com voc?  
- Creio que sim. Fomos atacados em dois lugares. Foi horrvel.  
- Descanse.  
La a tomou nos braos e a ninou como a uma criana at que adormecesse. Pouco a pouco o calor do corpo 
mido a acalmou, e ela mesma adormeceu.  
Quando reabriu os olhos, ainda estava com Nhu-Mai no colo. Inclinado, H Chin Minh as observava.  
- Eis o que poderiam ter sido a Frana e o Vietn: duas naes abraadas e unidas numa felicidade comum. A 
senhora fez um bom trabalho ontem, no hospital. Em nome de todos os meus camaradas, agradeo-lhe.  
- Quando poderei voltar para casa?  
- S depois de alguns dias. As tropas francesas infestam a regio. A senhora est mais segura conosco do que 
com eles.  
- O que devo dizer ao general de Lattre?  
- Que  tarde demais. O governo francs acreditou em Bao Dai. Seu pas cometeu um grave erro favorecendo 
esse traidor de sua ptria; o povo vietnamita no pode se encontrar nesse renegado. O custo desse erro ser 
muito elevado, pois, cedo ou tarde, ns venceremos.  
- Mas quantas mortes, sofrimentos antes de...  
- Sim... Em alguns momentos, digo a mim mesmo que o preo a pagar por nossa independncia  muito 
pesado, mas, ao 
mesmo tempo, a liberdade no tem preo e s o partido pode nos dar fora quando comeamos a duvidar...  
Nhu-Mai mexeu-se no sono.  
- Como essa criana  bonita! Uma vida de glria se abria para ela e, entretanto, no hesitou em se juntar a 
ns. No combate  forte e dura; descansando, encanta os camaradas com seu talento... Senhora, o dr. Hai a 
espera.  
- Lembra-se, senhor presidente, de que me prometeu ensinar o vit v dao?  
- Lembro muito bem. Eu lhe darei a primeira lio esta noite. V para junto dos feridos...  
Agachado diante da cabana, Giau apertava a si uma tigela de sopa. Quando a viu, estendeu-a a ela.  
- Tive dificuldade em guardar para voc, esses meninos maus queriam tom-la de mim.  
Um grupo de garotos, seminus, os observava com ar aparentemente tranqilo.  
- No parecem muito maus!  
- No se engane. Para eles no sou mais que um inseto, e voc, como branca, vale pouco mais.  
-  divertido! Vou para o hospital, voc me acompanha?  
Com seu andar de sapo, Giau se aproximou dos garotos, que recuaram. Um deles atirou-lhe uma pedra. 
Outros se preparavam para imit-lo, mas La agarrou a orelha do agressor e o sacudiu como a uma ameixeira. 
O menino deu gritos como um porco que vai ser morto. H Chin Minh saiu da cabana.  
- O que est acontecendo? O que est fazendo com esse menino?  
- Repreendendo. Sem motivo ele atirou uma pedra no meu amigo Giau. Isso eu no posso aceitar.  
- Deixe-o, ele no compreende. Ai de mim, entre ns os mendigos, os deficientes nunca foram estimados. Para 
muitos eles representam o mal...  
- Que covardia! Aqui, como em todo lugar, nenhuma compaixo com os fracos! O que diz o partido, a direo 
do partido?  
- Venha La, por favor.., venha... 
- No tema nada, camarada Giau, ela tem razo. Sob esse aspecto, valemos tanto quanto o mais brutal dos 
colonos.  
Chegando ao hospital, desceram pelo estreito tnel. Trinh os esperava na entrada da sala de operao.  
- Apresse-se, o camarada mdico a espera.  
Como na vspera, Hai realizava uma amputao. Gotas de suor rolavam-lhe pelo rosto. Com a ajuda de um 
pano quase limpo, La o enxugou.  
- Obrigado. Passe-me uma pina.  
Durante uma hora, trabalharam em silncio. Num canto, Giau cochilava.  
- Vamos ver os outros feridos. Dois morreram durante a noite. Temos falta de medicamentos.  
De todos os lados da sala vinham gemidos e suspiros. A chegada do mdico, alguns levantaram a cabea. Hai 
deu algumas injees, La refez curativos. No final da manh subiram para o ar livre.  
Como na vspera, o campo estava deserto. Deitados, sob uma rvore, Hai e La adormeceram, enquanto Giau 
e Trinh vigiavam, lanando um ao outro olhares de m vontade.  
As trs horas da tarde, deu-se uma agitao do lado da floresta. Soldados voltavam do combate, empurrando 
diante de si trs militares franceses. Um deles, ferido na cabea, avanou cambaleando. Caiu diante de La. A 
jovem mulher se inclinou para ele.  
- Franck!  
O ferido abriu os olhos e sorriu ao reconhec-la. Hai examinou a ferida.  
- Ele teve sorte. Vou cuidar dele aqui.  
Os outros dois franceses observavam La com curiosidade. O que fazia uma branca com os vietcongues? Sem 
dvida uma prostituta que se havia juntado  guerrilha desses sujos. Um deles cuspiu em sua direo. Trinh 
saltou e lhe deu uma paulada nos rins. O soldado caiu.  
- Thi, dng-ch Trinh! o dy chng ta khng nguoc dai t binh!
- Pare, camarada flinh! No se maltratam prisioneiros aqui! 
 - disse Hai.
La acabou de fazer o curativo na cabea de Franck e o ajudou a se apoiar numa rvore.  
- Voc tem um cigarro? - perguntou ele.  
Com avidez tragou a fumaa, fechando os olhos.  
- - Como  bom - murmurou ele... - O que voc faz aqui?...  prisioneira?  
- No sei de nada. Jean Lefvre no estava com voc?  
- Sim. No momento da emboscada, fomos separados, no ovi mais.  
- Quem so os outros?  
- Faziam parte do batalho: um se chama Michel Bernard, o outro Marc Duvilier. Esto na Indochina h 
quatro anos. Duvilier, Bernard, aproximem-se!  
Os dois homems se aproximaram, com as mos amarradas s costas.  
- No pode desamarr-los? - perguntou La.  
Hai cortou as cordas do primeiro.  
- Dng-ch bc-si, dng-ch khng nn lm th
..... Camarada mdico, no devia fazer isso.  
 - objetou Trinh.  
- Ho dui su quan 1L9 cua ti.*  
- Esto sob minha responsabilidade.  
Ele cortou as do segundo. La lhes ofereceu o mao de cigarros.  
- Essa  La, de quem j lhes falei.  uma mulher formidvel! - exclamou Franck.  
- O que faz aqui?  
Fui enviada em misso pelo alto-comando.  
- Pfff... Uma mulher!... Deve estar tudo indo por gua abaixo, para enviarem mulheres em misso...  
"Pobre sujeito", pensou La.  
Em pequenos grupos, os combatentes vietnamitas voltavam.  
- C thuong binh khng?
- Vocs tm feridos?  
 - perguntou Hai.  
- Khng. Vi lnh ty th khng th. Cam by cua chng ta da thnh cng tt.** 
- No. No se pode dizer o mesmo dos franceses. Nossas armadilhas funcionaram bem. 
Os vietcongues encararam os franceses e depois voltaram as suas ocupaes.  
No fim do dia, H Chin Minh chegou, apoiado numa bengala. Dirigiu-se para os prisioneiros guardados por 
Trinh.  
- Ento, meus filhos, vocs caram nas mos dos cruis vietcongues! Sei que combateram valentemente. So 
nossos prisioneiros, mas sero convenientemente tratados. Tragam comida para eles! Camarada mdico, como 
esto os feridos?  
- Muito bem, tio H. Mas temos falta de medicamentos.  
- Eu sei, ai de mim!... Faa o melhor possvel. Venha, La, vou lhe dar a primeira aula...  
H Chin Minh iniciou La nos segredos do vit v dao. Logo a jovem demonstrou uma habilidade 
surpreendente.  
- Agora, a senhora precisa de um professor melhor que eu  
- disse-lhe ele. - No esquea que  importante desligar-se, no pensar em mais nada. S lute para se defender; 
em caso de ataque, lute com calma, sem dio. No deixe os sentimentos ficarem em primeiro plano. A 
senhora vai nos deixar em breve; pense de vez em quando no velho tio H. Dir aos que a enviaram que o 
tempo das palavras de paz passou e que o povo vietnamita sair vencedor desta horrvel guerra. Volte para 
perto de seus filhos. Esta noite haver aqui uma festa em sua honra. V se preparar.  
- Senhor presidente, aprendi muitas coisas com o senhor. Eu lhe agradeo... O que vai acontecer com os trs 
prisioneiros franceses?  
- Voltam com a senhora.  
- Oh, obrigado!  
La pulou no pescoo do tio H e o beijou nas duas faces. Surpreso com o abrao apertado, este ruborizou-se.  
- A senhora me lembra uma jovem que conheci em Paris...  
- Como se chamava?  
- Maria.  
Pareceu a La que lgrimas brilhavam nos olhos do velho lder revolucionrio. 
A festa prometida por H Chin Minh foi um xito total. Moas danaram, jovens fizeram demonstraes de 
vit v dao, e NhuMai tocou violino. Encadeou com um virtuosismo prodigioso rias ciganas, trechos de 
Tchaikovski, de Gustave Faur, de Ravel, de Tartini, de Paganini. Terminou com uma cano de Bazzini. Foi 
um delrio. Os jovens vietnamitas a carregaram em triunfo, enquanto os franceses aplaudiam com muito 
entusiasmo.  
- Porra! Nunca ouvi nada mais bonito! - exclamou Marc Duvillier, esfregando os olhos.  
Nhu-Mai se aproximou deles, com o violino na mo. La beijou-a emocionada.  
- Voc est sempre com meu amuleto do drago? - perguntou-lhe a jovem prodgio.  
- Sim. Deixei-o em Hani antes de partir.  
- Aqui est outro, esculpi-o especialmente para voc numa madeira mgica de nossas florestas.  
La apertou nas mos o objeto rusticamente entalhado.  
- No o perca - disse Nhu-Mai, afastando-se para dissimular as lgrimas.  
H Chin Minh se aproximou:  
- Amanh a senhora estar com os seus. Fiquei muito feliz de conhec-la, minha filha. Cuide-se bem. Homens 
de confiana vo acompanh-los at o prximo posto francs. Adeus. Que os olhos deles sejam vendados!  
Por sua vez, Hai veio at ela.  
- Diga a Franois que gosto muito dele e ele  meu amigo para sempre.  
- Direi... Onde est Giau?  
- Foi na frente. No se aflija por ele.  
De olhos vendados, La e os companheiros penetraram na floresta. Ao fim de duas ou trs horas, tiraram as 
vendas dos olhos.  
- Continuem sempre em frente - disse um dos vietcongues.  
- O posto fica a quinhentos metros.  
O acompanhante desapareceu como que por encanto.  
Eles avanaram na direo indicada.  
- Alto! Quem vem l? 
- Amigos! Somos franceses.  
- No se mexam!  
Um soldado muito jovem iluminou-lhes o rosto com uma lanterna.  
- Meu Deus! Uma mulher!  
- Leve-nos a seu comandante - ordenou Franck.  
- Vo na frente... e no tentem fugir. Atiro no primeiro que tentar.  
Ao fim de alguns instantes, chegaram a fortificaes de bambu.  
- Estou trazendo quatro dos nossos, um dos quais  uma mulher.  
- Entre, vou avisar ao tenente.  
O oficial no demorou a aparecer no ptio do posto, ainda vestindo as calas.  
- Que histria  essa?  
Ele parou diante de La, boquiaberto.  
- Bem, essa eu nunca tinha visto! ... Agora encontramos mulheres na floresta? E bonitas, Deus seja 
louvado!  
- Pare de blasfemar. Estamos cansados. Poderia telegrafar a Hani e dizer que a senhora Tavernier 
terminou sua misso?  
- perguntou La.  
- Telegrafar a Hani!... Como disse, princesa... Esperam- na l, com certeza?  
- Sim, o general de Lattre me espera.  
- O general! Meu Deus, em nome de Deus!... Precisava cair uma histria dessas em cima de mim?!  
Uma vietnamita carregando um beb chegou correndo.  
- Maurice, chuyn gi th?  
- Ct di!  
_ Maurice, o que est acontecendo?  
- Fora! 
Com uma ameaa enxotou a mulher, que se afastou com os olhos brilhando de dio.  - No ligue, senhora,  minha conga e seu menino.  
- Seu filho, sem dvida?  
- Ela diz que ...  
Ele os fez entrar no refeitrio dos oficiais; pelo menos assim batizara esse cmodo srdido, quase 
inteiramente ocupado por uma grande mesa coberta de garrafas vazias de cerveja e cinzeiros cheios 
de guimbas, do qual exalava um fedor de estrebaria.  
- No reparem, est tudo desarrumado aqui. Beberiam uma cervejinha enquanto falo com Hani?  
- No se pode recusar - disse Marc Duvillier. - Estou cheio daquela porcaria de ch!  
- Voc deve estar cansada - murmurou Franck para La.  
- No quer descansar?  
- No, prefiro esperar a resposta de Hani. Tem um cigarro?  
- Senhora, meu camarada e eu lhe somos muito gratos... Nem sei como dizer... Ns lhe agradecemos 
muito - disse Michel Bernard, estendendo-lhe a mo.  
- Isso  verdade! - acentuou Duvillier, estendendo a sua.  
Alguns minutos mais tarde, o tenente reapareceu:  
- Tenho ordens de conduzi-la at Vinh Yen. L, um avio vir busc-la.  
- Vamos embora! - disse La, esmagando o cigarro.

Captulo 15

Apesar de alguns atentados, a cidade estava mais calma; era entretanto recomendvel no se afastar mais de
dez quilmetros:
da em diante as tropas vietcongues causavam estragos.
Adrien e Camilie no sofriam muito com o clima; Charles ia
 escola no liceu Chasseloup-Laubat, era bom aluno. Lien se  
ocupava da casa. Todos os dias, La ia  piscina do clube esportivo, o melhor lugar das elites de Saigon. Kien 
lhe encontrara um  
professor de vit v dao. Quanto a Franois, apesar da ferida, que  
o fazia mancar, era o mais terno dos amantes.  
Na noite de 30 de maio de 1951, durante o ataque aos montes Ninh Binh, Bernard de Lattre, filho nico do 
general, foi morto. O comandante partiu para a Frana com os despojos do jovem tenente. Em 4 de junho teve 
lugar em Saint-Jean-desInvalides uma cerimnia emocionante na presena de representantes de todas as 
armas. A multido desfilou durante horas diante dos atades de Bernard e de dois dos amigos mortos a seu 
lado.  
- Fui para Indochina para proteger os jovens e nem sequer fui capaz de proteger meu filho - disse de Lattre a 
Salan.  
Foi um homem alquebrado que voltou a Saigon. Apesar da dor, 
ele teimou em assistir, em 11 de julho,  distribuio dos prmios do liceu Chasseloup-Laubat e em 
pronunciar um discurso diante dos alunos, na maioria vietnamitas:  
-   juventude de todo o Vietn que seus ancestrais confiam o patrimnio que receberam outrora por seu 
valor. E eu, que conheci e gostei da juventude de muitas naes, digo que essa juventude est  altura dessa 
confiana e das exigncias da Histria. Juventude trabalhadora e ardente, hbil e orgulhosa, ambiciosa e 
entusiasmada, juventude refinada pelos sculos e apaixonada pelas inovaes, juventude sensvel, pronta para 
ser levada a lutar por uma grande causa. Na verdade, a gerao que atinge hoje a idade adulta no Vietn tem 
em si todas as extraordinrias qualidades requeridas de imediato pela conjuntura excepcional dos dias de hoje. 
Sejam homens, isto , se forem comunistas, juntem-se aos vietcongues, l existem indivduos que combatem 
certo por uma causa errada. Mas, se so patriotas, lutem por sua ptria, pois esta guerra  sua! Organizem um 
exrcito nacional, que substituir progressivamente o exrcito francs em suas tarefas primordiais. E na 
fidelidade s idias que S. M. Bao Dai representa que se encontra a verdade de vocs. Jovens da elite 
vietnamita, aos quais me sinto ligado como  prpria juventude de minha terra natal, chegou o momento de 
defender seu pas. Junto ao sol da independncia, h necessidade tambm de suor e sangue para fazer 
germinar a colheita dos homens livres. Tenho certeza de que o Vietn ser salvo por vocs!  
A platia se levantou numa trovoada de aplausos. O general desceu do palco e passou diante dos alunos, 
vibrantes de emoo patritica.  
Ao lado de La, Kien zombou:  
- Palavras, no mais que palavras! Entre todos esses jovens no vejo um s que possa lutar, principalmente 
por Bao Dai!  
- Cale-se! - replicou La. - O general tem razo, so eles que libertaro o pas, com ou sem os comunistas.  
- Voc ainda acredita em Papai Noel, irmzinha!  
Charles, com os braos cheios de prmios, chegou, solene, a La. 
- Tome, foi para voc que os ganhei. Foi bonito o discurso do general. Se eu fosse vietnamita, iria 
combater logo.  
- E para que lado iria? O dos vietcongues ou o do imperador? - perguntou Kien.  
Charles virou-se para La.  
- Para onde voc iria?  
- No sei.  difcil responder. Acredito na sinceridade de H Chin Minh, mas talvez porque o tenha 
conhecido de perto. Essa pergunta no  para mim: no sou vietnamita.  
La no acompanhou Franois no desfile de 14 de julho em Hani, na presena do imperador Bao 
Dai; preferiu ficar em Saigon, para preparar a partida deles para a Frana, em 27 de julho. O general 
de Lattre, acompanhado de uma parte de seu staff, decidira ir a Paris para advogar mais uma vez 
sua causa. Eles deviam aproveitar a viagem, e La planejara passar o vero em Montillac. Ela 
deixou a Indochina um pouco triste, pois no reencontrara Nhu-Mai, nem Jean Lefvre, nem Franck 
Lagarde.  
Cinco dias depois, La chegou  sua querida Montillac. Franois ficara em Paris. O reencontro das 
duas irms foi alegre. Pirre e Isabel estavam cheios de vitalidade; Charles ficou feliz de rever os 
que ele chamava "primos". Ele tinha agora onze anos, parecia-se muito com a me, era ao mesmo 
tempo discreto e audacioso, fisicamente muito corajoso e com muita resistncia.  
A propriedade estava muito prspera, as vendas de 1947 e de 1949 haviam sido excepcionais. Alain 
Lebrun conseguira contratar empregados agrcolas permanentes. A guerra parecia muito distante.  
La decidiu aprender a pilotar avio e ia, duas vezes por semana, ao aeroclube de Bordeaux. 
"Nunca se sabe", dizia ela, "isso um dia pode me ser til."  
Apesar das ausncias de Franois, esses trs meses passados em famlia foram para todos meses 
abenoados.  
Em 7 de setembro, Franois embarcou no transatlntico Ilede-France com destino aos Estados 
Unidos, em companhia do 
general de Lattre, que desejava defender a causa da Indochina junto ao Congresso 
americano. Viajaram tambm Franois Valentin, Jean-Pirre Danaud, o coronel Bousarie e 
o coronel mdico Petchot-Bacqu. O general foi recebido com todas as honras devidas a 
seu posto; ele ficou satisfeito com isso. Prestou-se solicitamente s numerosas entrevistas, 
conquistou os jornalistas e obteve de Washington substancial ajuda. Encarregou Franois 
de vigiar a aplicao dos acordos e voltou  Frana em 30 de setembro.  
La ficou furiosa com o anncio do prolongamento da temporada do marido; as crianas 
reclamavam o pai. Esperando para saber quando voltariam para a Indochina, Charles fora 
matriculado como interno dos jesutas na sexta srie, O menino mal pde conter as lgrimas 
quando deixou La. Esta lhe prmeteu que todo fim de semana iria busc-lo. Essa promessa 
o consolou um pouco.  
Franois voltou para o Natal de 1951. O primeiro que passavam juntos em Montillac! La 
reencontrou a agitao da infncia, comprou uma poro de presentes, encomendou os 
perus, o foje gras, o sorvete. Haveria fartura, como antigamente... Antigamente... Fora tanto 
tempo atrs! Desse tempo s ficara Ruth, que preparava sempre inesquecveis trufas de 
chocolate, e a pobre tia Lisa, que quase j no saa do quarto.  
Na vspera do Natal, La foi visitar o tmulo dos pais. O fim do dia se aproximava. Ela 
subiu lentamente o morro de Verdelais. Sob seus ps rolavam pedras do caminho, as 
rvores desfolhadas estendiam os galhos negros para o cu escuro. Ela se apoiou num deles, 
invadida de repente pela tristeza... Nunca mais seria aquela criana perseguida por Mathias, 
rolando nas plantas, escondendo-se nas valetas, pegando aqui e ali a uva verde, correndo 
para o pai, que lhe estendia os braos e levantava "sua princesa" to alto, que ela gritava de 
medo e de alegria misturados. "Papai..."  
Uma sombra se ergueu diante dela. Sentindo uma presena querida, ela fechou os olhos 
com fora para no quebrar a iluso. Algum a tomava nos braos, um hlito quente lhe 
fazia ccegas 
no pescoo, lbios procuravam os seus; ela se entregou. Oh, que nunca ela se cansasse desses beijos, que seu 
corpo fosse sempre ao encontro dessas carcias! Ela gemeu e se deixou escorregar para o cho gelado. Ele se 
estendeu sobre ela; era pesado, mas esse peso que a machucava a tranqilizava. Quantas vezes tinham feito 
amor assim, sob as rvores do calvrio?... Suas pernas se abriram. Sem dificuldade ele encontrou o caminho. 
Como sempre ela estava disponvel, aberta, deixando fluir o prazer. Por longo tempo a possuiu com ternura, 
feliz de ouvi-la gemer.  
O Natal e o 1 de janeiro correram alegres. Maravilhadas com as luzes da rvore e os presentes, as crianas 
davam saltos pela casa aos gritos. Do lado de fora, a neve caa em grossos flocos sobre um mundo calmo e 
silencioso. A Indochina e a guerra estavam a milhares de quilmetros. Franois no falava em voltar.  
No dia 11 de janeiro o rdio anunciou a morte do general de Lattre. Franois sentiu profundamente. A 
despeito de suas inmeras divergncias, os dois homens se estimavam, e ele comeara a gostar do "general de 
fogo", do "rei Jean", como o chamavam os companheiros. O pas lhe concedeu cerimnias fnebres 
nacionais, e ele foi nomeado Marechal de Franapostmortem. O general Salan, o oficial mais condecorado 
da Frana, sucedeu-o.  
O governo Pleven pediu demisso. Edgar Faure foi investido pela Assemblia. Habib Bourguiba, o chefe dos 
nacionalistas tunisianos, foi preso, enquanto sangrentos motins tinham lugar em Bizerta. Jean Letourneau, 
ministro de Estado encarregado das relaes com os Estados Associados, pediu a Franois que voltasse para a 
Indochina: Salan precisava de homens como ele. Ele partiu em abril; La foi ter com ele - sem as crianas - no 
ms de junho. Antoine Pinay substitura Edgar Faure na presidncia do Conselho.  
Ao aterrissar no aeroporto de Than Son Nhut em companhia do marido, La teve a satisfao de ver Jean 
Lefvre, com o brao na tipia, bem como Franck, ambos de licena em Saigon. 
Franois os convidou para o casaro de Lien. Um calor opressivo pesava sobre a cidade. Os trs amigos 
passavam os dias no Crculo Esportivo, e as noites no Grand Monde, no qual reinavam Kien e Bay Vien. Este 
ltimo impressionava La, que sempre se sentia constrangida em sua presena. Ele prosperara desde o 
primeiro encontro! Em abril, Bao Dai o nomeara general-de- brigada do exrcito nacional vietnamita. Que 
desforra para o fugitivo de Poulo Condor! Era respeitado e temido por todos. Os jornais o chamavam general 
"Van Vien". As mulheres lhe lanavam olhares amorosos quando ele passava dirigindo o Jaguar, presente de 
Bao Dai. Tornara-se o companheiro preferido nas esbrnias imperiais. Foi apresentado ao soberano por Pham 
Van Giao, um farmacutico de Annan elegante e esportivo, com um belo rosto de bomio distinto, que 
acompanhara Bao Dai no exlio, servindo-lhe at de motorista, de mordomo e de cozinheiro. Isso o monarca 
nunca esquecera. Ao retornar, nomeara-o governador do Vietn Central, de que se valia para encher os cofres 
imperiais. Aproveitava as funes para recrutar as mais belas garotas de Hu, que ele "provava" antes de p-
las na cama do chefe. Bay Vien e Giao no gostavam um do outro, mas o imperador tinha necessidade de 
agradar ao chefe dos binh xuyen.* Ele fazia isso lhe oferecendo garotas bonitas. Bay Vien repelia essas 
amveis propostas com arrogncia:  
- Senhor, nunca compartilhei uma mulher que tenha pertencido, uma nica vez que fosse, a um amigo ou a um 
homem de meu cl... Ainda mais uma mulher que dormiu com o imperador! Mesmo sendo uma prostituta!  
Ele se inclinou respeitosamente e saiu com seu passo leve.  
Essa atitude pouco comum impressionou muito Bao Dai, que ps Giao asperamente em seu lugar no dia que 
este exclamou:  
- Quem ele pensa que , esse vagabundo travestido de general? O senhor viu sua cara de estpido?  
- Cale-se! Esse vagabundo, como voc diz, tem brio.  o  
Nome derivado do de uma aldeia de Rung Sat, ao sul de Saigon, que serve de refgio para os fora-da-lei. 
 o nico que me disse no. E me lembrarei disso. No o subestime:  
 capaz de vir cortar-lhe a garganta no meio de seus homens!  
Uma grande cumplicidade se desenvolveu muito rapidamente entre Bao Dai e Bay Vien. Tornaram-se 
companheiros de caa e pesca. Para a caa, o imperador deixava de ser umplayboy indolente; era um 
homem resistente, corajoso, um atirador excepcional. Nas noites de caada, junto da fogueira, ele fazia 
confidncias ao novo favorito, falando-lhe de H Chin Minh com uma mistura de dio e respeito:  
- Um homem simplrio... Antes de tudo, um formidvel comediante. Quando o conheci, ele tinha cinqenta e 
trs, cinqenta e quatro anos. Toda vez que aparecia, dava a impresso de ser um velho. Mas, de um minuto 
para o outro, podia se transformar. Eu o observei bem, poderia lhe contar vinte anedotas, escrever trs livros 
sobre ele. Ele era o contrrio do que tentava parecer. Em pblico, passava por ser um asceta de costumes 
rigorosos, inteiramente devotado  causa de seu pas. Em particular, era um insacivel freqentador de 
prostbulos, talvez porque tenha estado doente dos pulmes. Os ex-tuberculosos so tarados por sexo... 
Tambm fumava pio e bebia muito. Ele me disse que o hbito de beber vinha da poca em que era 
marinheiro. O vinho , parecia-lhe, o melhor remdio contra o enjo. Sim, realmente era uma pessoa 
verdadeiramente curiosa de observar! Por exemplo, s fumava cigarros americanos, Philip Morris de 
preferncia. Bem, trazia com ele dois maos de Bastos: um continha cigarros escuros, de fumo de trabalhador, 
que ele oferecia ostensivamente aos visitantes; o outro, Philip Morris camuflados sob a etiqueta Bastos, que 
ele fumava. Sempre esse comportamento duplo... E muito forte; acreditei que pudesse venclo no jogo de 
quem enganava o outro, mas ele no  bobo... Foi nesse momento que tomei a deciso errada. Quis enganar 
meus adversrios fingindo ser um farrista desiludido, e fui eu o enganado.* 
Uma noite, no Grand Monde, BayVien apresentou La a Bao Dai. O imperador convidou-a para sua mesa e 
tentou insistente- mente fazer-lhe a corte, sem ligar para a presena de Jean Lefvre e de Franck Legarde. 
Quanto a Kien, plido, mandbulas crispadas, sentia-se que estava a ponto de saltar, tanto que BayVien teve 
de pr a mo em seu ombro. Por alguns momentos, La entrou no jogo e se mostrou exageradamente coquete. 
Bao Dai se julgou ento autorizado a certas liberdades. Inclinado sobre a nuca da jovem mulher, roou-a com 
os lbios. Calmamente, ela se levantou e jogou o copo de champanhe na cara do "Filho do Cu", exclamando:  
- Este lugar est mesmo muito mal freqentado. Vamos embora!  
Jean e Franck se levantaram e a cercaram.  
- Puta! - resmungou Bao Dai, limpando o rosto.  
Kien virou o rosto.  
O gesto de La divertiu o general Salan e chocou parte da colnia francesa. Mas o incidente logo foi 
esquecido, pois acontecimentos graves acabavam de ter lugar. O centro militar de repouso de Cap Saint-
Jacques fora atacado; seis crianas francesas, quatro vietnamitas, duas mulheres, oito suboficiais e oficias 
tinham sido massacrados. Uma forte emoo agitou a Indochina e a metrpole. Falou-se novamente, desta vez 
em Saigon, em evacuao dos civis. O general Chanson, em viagem de inspeco em Sa Dec, fora vtima de 
um atentado perpetrado por um caodasta, que jogara uma granada no cortejo; Chanson fora gravemente 
ferido na cabea; Thai Lap Than, o governador da Cochinchina, que o acompanhava, fora morto. Depois 
Chanson, conduzido ao hospital, morreu sem ter recobrado a conscincia. Isso afetou muito Salan.  
Ao mesmo tempo, a notcia da morte de Eva Pern levou o esprito de La  Argentina e lhe fez lembrar 
Carmen, assassinada pelos nazistas*...  
La passava muito tempo com Kien. As escondidas de Franois, ela recomeara a fumar pio. Uma ou duas vezes por semana, ia a uma casa de fumar em 
Cholon. A gerente do estabelecimento, uma chinesa alta e forte, recebia-a efusivamente e a 
instalava na alcova mais confortvel, onde Kien vinha se juntar a ela.  
Depois de mais de uma semana, Franois continuava ausente, viajando pela regio de Son La a 
pedido do comandante. Vestida com um quimono leve, La se deixou levar pelo rancor, no 
encontrando na droga a fuga e o bem-estar esperados. Kien deslizou para junto dela e pegou o 
cachimbo que um criado lhe estendia. Por um instante fumaram em silncio. Atravs da seda, o 
jovem acariciou suavemente os ombros, depois o peito de La. Ela gemeu. Encorajado, ele abriu o 
penhoar e descobriu aquele corpo que tanto havia cobiado. O moreno das coxas e braos ressaltava 
a brancura do ventre e do peito, acentuando a aparente fragilidade. Ele teve vontade de maltrat-la. 
Lentamente, esticou a mo e apertou a ponta de um seio.  
- Com mais fora - murmurou La.  
Ento, com pacincia e volpia, apertou as duas pontas oferecidas. La se contorcia sob o efeito da 
dor e do prazer misturados. Logo, o desejo de ser possuda foi to forte, que se deu sem reserva, O 
jovem se afastou e disse em tom triunfante:  
- Agora voc  minha!  
A partir desse dia ela se encontrava com Kien duas vezes por semana na casa de fumar. Vendo o 
irmo freqentar mais vezes a casa, Lien desconfiou de alguma coisa, mas no disse nada. Comeou 
ento para La uma corrida desenfreada pelo prazer, tanto nos braos de Kien quanto nos de 
Franois. Nenhum remorso, apenas um pequeno embarao diante do olhar plcido de Lien...  
Um dia Kien props a La um passeio pelos lados de Mytho. Ele queria lhe apresentar um de seus 
amigos, mestio como ele, que reinava na provncia de Ben Tr; chamava-se Jean Leroy e acabara 
de ser nomeado coronel.  
Fizeram os noventa quilmetros que separavam Saigon de 
Mytho em menos de duas horas, o que era um bom tempo, levando-se em conta o estado das 
estradas e a presena de tropas vietcongues nas plancies dos Joncs. Em Mytho, esperaram a 
barcaa diante do "restaurante" de uma velha chinesa. Comeram iguanas aromticas, vendo a gua 
do rio correr e as crianas brincarem.  
- Fale-me desse Leroy - pediu La.  
-  o filho de um pequeno campons de Pithiviers e de uma nh qu. Sua infncia foi difcil e pobre. 
O pai teimou em querer construir um dique para tornar frtil uma ilha de lama imobilizada entre 
dois braos do Mekong. Mas o mar destruiu em uma noite a obra, que custara meses de trabalho, 
quando no eram os javalis que devastavam as culturas de paddy.* Seis vezes o pai reconstruiu o 
dique. Na ltima vez, venceu. Jean e os irmos puderam enfim comer para matar a fome. Era um 
garoto magricela que tinha medo dos gansos e dos chu vi, e no dizia uma palavra em francs. Foi 
mandado para a escola em Mytho, com os frades. Depois, quando aprendeu a ler e a escrever, foi 
para o Instituto Tabert. S voltava para casa nas frias longas. Para ganhar um pouco de dinheiro, 
fazia o transporte dopaddy num junco, ao longo do canal Chogao, que vai de Mytho a Cholon. Aos 
quinze anos, alm do diploma elementar, possua um fuzil, o que lhe era permitido porque era 
francs. Graas a esse fuzil no tinha de pagar a taxa exigida pelos piratas. Juncos vieram se colocar 
sob sua proteo. Mesmo os bo*** do canal chins de Cholon o respeitavam por causa da arma. 
Em 1935, ele entrou para o liceu Chasseloup-Laubat. Em 1940, ingressou na infantaria colonial. 
Mandaram-no para Bac Can, na fronteira com a China, o pas dos homens azuis...  
- Homens azuis?  
- So chamados assim porque se vestem com roupas de cor ndigo que desbotam na pele. So os tho. 
Ele teve de ficar com os thu 
 at 45. L, foi aprisionado pelos japoneses. Ele conta que serviu de guia ao general Leclerc e, 
em seguida a um ferimento, este quisera condecor-lo com a Legio de Honra. Conseguiram 
dissuadi-lo disso, informando-o de sua condenao a cinco anos de trabalhos forados...  
- Por que motivo?  
- Nunca entendi bem. As razes que ele invoca so confusas. Teria dado fuga de uma priso 
francesa a quatro partidrios, depois de ter destrudo o estabelecimento. O juiz de instruo, 
chamado Stalter, que mandara prender seus companheiros, conseguira de Saigon um mandado de 
priso contra ele, e o tribunal o condenara  revelia. No sei o que h de verdade em toda essa 
histria. No podemos esquecer que ele combate os vietcongues, expulsa de suas terras os binh 
xuyen, e deixou de matar meu amigo Bay Vien! Desde ento ganhou terreno: fundou o prprio 
exrcito, composto de catlicos, os UMDC,* muito bem treinados para a guerrilha... Ah, eis a 
barcaa. Ela chega na hora: no tenho quase mais nada para lhe contar desse homenzinho. Mas voc 
mesma vai ver como ele ...  
A travessia no durou mais de meia hora. Eles desembarcaram na ilha de An Hoa, que desaparecia 
sob uma vegetao luxuriante. Fazia um calor de chumbo. No barranco, um homem sozinho, 
apoiado numa bengala, esperava-os. Ele cumprimentou La solenemente, enquanto sua guarda, 
mais atrs, batia continncia. La quase no conseguiu ficar sria diante desse homem pequeno, de 
pele escura e lbios finos, vestido com uma camisa imaculada em que brilhavam as condecoraes, 
uma cala cqui com as pernas arregaadas e um barrete preto na cabea. Convidou-os a visitar seu 
feudo a bordo de um jipe. Nos dois lados da estrada, a populao reunida se prosternava, jovens 
ofereciam flores e frutas. Impassvel, ele agradecia com um breve sinal de cabea. Pararam diante 
de um pagode, onde monges vieram receb-los com muitos lai. A sombra do templo, uma mesa 
estava posta, cheia de comida; a refeio, servida por jovens de olhos  
baixos, foi suntuosa. Depois, deitados em redes, os homens fumaram charutos, e La, com um 
cigarro na mo, escutava distrada as conversas. De repente, ela ouviu Leroy dizer com profunda 
convico:  
- Quero criar no Vietn uma nova raa, em que franceses e vietnamitas estejam fundidos!  
Ela surpreendeu-lhe o olhar e sentiu-se constrangida.  
No fim da tarde, tomaram novamente a barca em companhia do coronel, para ir visitar Binh Dai, 
"sua" capital, onde iriam desfilar "suas" tropas. Ficaram num palanque ricamente decorado, erguido 
na praa do mercado diante de uma imensa multido concentrada em volta, silenciosa. A um sinal 
do coronel, milhares de vozes deram gritos de boas-vindas que superaram o barulho dos tambores, 
dos pratos, das trombetas e dos clarins. Depois tudo silenciou. Comeou ento o desfile das 
milcias. A frente de cada companhia flutuava um estandarte bordado com uma cruz e uma espada, 
seguido por homens armados de metralhadoras e punhais, vestidos de preto e com capacetes 
coloniais. Marchavam a passos lentos, impressionantes.  
- Observe-os, eles sabem lutar! Os vietcongues os respeitam. Mas os franceses so cegos, caem em 
todas as armadilhas do inimigo. Minha guerra  a do pas: a dos comandos, das ciladas, das 
emboscadas, das traies. Meus espies me informam durante semanas, depois, um dia, ataco. Ajo 
sempre sem erro. Destruo as aldeias que  preciso destruir; mato os homens que  preciso matar. Os 
franceses destroem e matam ao acaso, porque no sabem nada nem podem saber. Os nh qu 
dizem que sou justo. Se tm medo do corpo expedicionrio,  porque  imprevisvel. A existncia 
dos nh qu  uma tragdia. So esquartejados entre duas foras impiedosas. A noite, os 
vietcongues deslizam para as aldeias e lhes dizem: "Se ajudarem os franceses, plantaremos amanh 
no arrozal as cabeas de seus homens." Em pleno dia, os franceses desembarcam de caminhes, 
armados de metralhadoras e todas as armas da morte, modernas. Um oficial, agitando seu stick grita 
para os importantes apavorados:  
"Vocs so traidores! Participaram da emboscada em que os 
vietcongues mataram dez dos nossos. Acabaram com nossos feridos. Vamos castig-los!" Esse drama  
desconhecido dos franceses, presos  sua rotina. No tm imaginao. No compreendem que no tm direito 
de exigir o que quer que seja, a menor fidelidade, a menor dedicao, sem dar em troca proteo. Mas no 
protegem ningum, em lugar nenhum; fecham-se em seus postos e gritam: "Moradores, venham para ns; 
estamos aqui para defend-los!" Eis tudo o que sabem dizer quando se estabelecem numa regio. Depois de 
alguns meses, os anamitas que tiveram confiana foram assassinados pelos vietcongues. Os franceses matam 
os outros chamando-os a todos de "safados"... Essa guerra  a do povo.  preciso tom-la para si, arranc-la 
dos vietcongues. A primeira condio  saber quando se deve ser bom e quando se deve ser cruel.  muito 
complicado para os militares do corpo expedicionrio. Os franceses nunca se juntaro ao povo. Esto com 
muito sangue nas mos. No falo do sangue dos homens que eles prprios mataram, mas do sangue dos que 
deixaram morrer enganando-os, de todos aqueles com que estavam comprometidos e foram abandonados. 
Este sangue dificilmente ser perdoado...  
Apesar do calor, La tremia. O que dizia o pequeno coronel eurasiano soava terrivelmente verdadeiro. Ela 
reconhecia a algumas afirmaes de Jean Lefvre ao falar da responsabilidade do exrcito francs diante das 
populaes, da vergonha sentida por ter tido de abandon-las. Essa guerra no era deles; era preciso deixar os 
vietnamitas entenderem-se entre si. "Mas isso ser a guerra civil!" Ela acreditava ouvir as boas almas de 
Saigon e de Hani temendo perder suas piastras e seus privilgios. Mas todos esses mortos para nada. Como 
um eco, a voz do pequeno homenzinho voltara:  
- ...Quantos franceses mortos por nada! Sem compreenderem, sem quererem compreender... Por excesso de 
bravura, freqentemente, por excesso de preguia, s vezes. E, depois, todos esses postos perdidos! Imaginem 
esta loucura: um francs vem de Carpentras ou de Auxerre para comandar uma centena de guerrilheiros de 
fisionomia patibular. Imaginem o que deve ser 
a vida desse homem nesse mundo violento. Ele espanca, maltrata os subordinados, insulta os importantes, 
violenta as jovens. Um dia o encontram assassinado... Admiro o exrcito francs; ele combate com a 
tenacidade de uma velha raa militar. Mas sua guerra j no  desta poca. Os franceses esto colocados 
diante de uma revoluo. Diante desse gnero de acontecimento, so impotentes. Eu no. No conheo 
princpios nem regras, salvo os meus. Sei me fazer temer pelo povo, ainda mais que os vietcongues; tambm 
sei me fazer amar mais ainda que eles. Sei como chegar at eles, trago isso de nascena. Nasci nessa ilha de 
.Am Hoa; conheo cada palmo de terreno, conheo a todos. Os nh qu acreditaram em mim desde que lhes 
disse: "Venham comigo exterminar os vietcongues. Eu nunca os abandonarei!" Meu exrcito protege a 
populao.  verdadeiramente o exrcito do povo de Am 1-loa, com uma disciplina frrea.  
-  verdade - confirmou-lhe mais tarde Kien -, seus homens no cometem nenhuma cobrana indevida nas 
zonas que pacificaram. L o roubo e a violao so proibidos. Pior para os que se tornarem culpados! Os 
soldados que violentam so castrados, os que roubam tm uma das mos cortadas. A amputao  realizada na 
cidade, diante de um grande pblico...  
La deixou com alvio a regio de Ben 'l} e seu senhor da guerra.  
- Tem muitos como ele por aqui? - perguntou ela na viagem de volta.  
- Dessa envergadura no. Entretanto, eles so mais numerosos do que se pensa, tm seus prprios exrcitos, 
seus territrios, e se comportam como senhores feudais, com direito de vida e de morte. O exrcito francs os 
tolera, pois fazem um bom trabalho de eliminao dos vietcongues. Os prprios vietcongues os temem.  
Na noite de 1 de dezembro, Giap lanou suas tropas ao assalto de Nan San e venceu a batalha, apesar de toda 
a coragem dos combatentes franceses.  
Nessa data, La recebeu notcias de Montillac: 
Minha muito querida irmzinha  
Aqui todos vo bem, as crianas esto esplndidas. Acabo de ter uma nova filha, vai se chamar 
Laura;  um beb muito bonito. Charles continua sempre um excelente aluno, uma criana 
encantadora, um pouco fechado talvez, mas muito envolvente. Adrien o adora e est sempre junto 
dele nos dias em que est em Montillac. Quando o grande amigo no est aqui, seu filho fica 
impossvel, tem o carter igual ao seu. Pierre j est um rapaz. Camilie  to bonita que d vontade 
de devor-la com beijos. Fisicamente,  uma mistura de voc e de Franois. Nossa querida Ruth 
envelheceu. Quanto  tia Lisa, ela se extingue docemente. Nosso vizinho, Franois Mauriac, 
ganhou o prmio Nobel de Literatura;  uma grande honra para nossa regio.  
Montillac est se equipando, temos uma grande geladeira e uma mquina de lavar roupa;  
singularmente prtica, especialmente para as crianas.  
Envio-lhe fotos de todo este pequeno mundo. Como voc vai ver, todos esto muito bem, mas 
sentem muito falta de vocs. Quando pensam em voltar? Charles prepara no maior segredo o seu 
presente de Natal. Seria bom se estivssemos todos reunidos! Mande-nos notcias e envie fotos.  
Ns a esperamos com impacincia. Um carinhoso beijo para voc e Franois. Alain tambm manda 
um beijo. Ele acaba de comprar um belo carro, est como uma criana. Um meo, Sua irm, que a 
ama,  
Franoise  
A ausncia dos filhos foi to violentamente sentida por La, que ela explodiu em soluos. Lien 
ouviu e irrompeu no quarto.  
- O que aconteceu? Recebeu ms notcias da Frana?  
- Meus filhos...  
- O que houve com seus filhos?  
- Sentem falta de mim!  
Lien sorriu. 
- No fizeram tanta falta para voc nesses ltimos tempos...  
-  verdade. Tenho sido uma pssima me.  
Nesse momento Franois chegou.  
- O que voc tem? Chorou? As crianas?...  
- Elas vo muito bem, mas tenho tanta vontade de rev-las!  
- Eu tambm. Sou obrigado a ficar aqui, mas voc pode ir. Eles ficariam to felizes dev-la! Vou tratar de 
encontrar um lugar para voc no prximo avio.  
- Preferia ir com voc...  
- Impossvel, a situao se deteriora por toda a parte. Os vietcongues se reforam, cada dia mais, sua 
campanha de propaganda comea a dar frutos. Se partir agora, terei a impresso de estar deixando uma
histria inacabada por medo de saber seu fim...

Captulo 16

La deixou Saigon em 20 de dezembro. Passou um dia em Paris para fazer algumas compras e chegou a
Montillac na tarde do dia 24. Na lareira o fogo crepitava. Empoleirada numa pequena escada, Franoise 
prendia as guirlandas e as bolas douradas que as crianas lhe davam. Enrolada em seus xales, Lisa desaparecia 
na poltrona, sorrindo com esses preparativos para a festa. Na cozinha, Ruth preparava o tradicional peru com 
castanhas, enquanto na adega Alain escolhia as melhores bebidas. Ficara decidido que pequenos e grandes 
iriam  missa da meia-noite na baslica de Verdelais. Como toda vez que entrava na igreja, La parou diante 
da caixa com as relquias de santa Exuprance. Ali, diante da pequena imagem de cera, ela reviu Philippe 
d'Argilat* de p em sua carruagem batizada com esse nome, e ouviu novamente os gritos da multido em 
jbilo danando nas ruas de Paris libertada.  
No sermo, o padre teve uma palavra para os que combatiam longe do pas; La sentiu-se grata a ele.  
Quando voltaram na noite fria, os pequenos dormiam. S  
Charles e Pierre ainda estavam acordados, decididos a participar da festa com os grandes.  
A ceia foi  altura do talento de Ruth. Todos a elogiaram e lhe agradeceram. O telefone tocou. Alain foi 
atender e voltou com pressa:  
-  para voc.  
La correu para o escritrio do pai.  
- Al! - disse ela.  
- Feliz Natal, meu amor!  
- Oh, Franois!... Como estou feliz por ouvi-lo!... Feliz Natal para voc tambm... Al! Eu estou ouvindo 
mal!... Al!... Eles esto bem... Eu tambm, eu o amo... Al! Voc me faz tanta falta... Preste ateno... Sim... 
Meu querido... Al! Al!...  
A ligao fora cortada. Ela se sentou no div em que o pai gostava de descansar; fechou os olhos, as mos 
apertadas contra o peito. "Meu Deus, protegei-o... Guarde-o para mim..."  
- La! La! Venha, Papai Noel j passou!  
Charles a tomou pelo brao e a levou at o pinheiro iluminado. Os embrulhos multicoloridos estavam 
colocados diante dos sapatos de cada um. Logo o tapete estava cheio de papis rasgados. Franoise ficou 
extasiada diante do vestido escolhido por La. Alain se declarou muito satisfeito com seu casaco, Ruth, com 
seu confortvel penhoar, Lisa, com sua echarpe de seda, Pierre, com seu trem eltrico, Charles, com sua roupa 
e seus livros.  
- E voc? No vai abrir seus presentes? - inquietou-se ele. Em criana, La esperava que todos tivessem aberto 
os embrulhos para desfazer os seus; ficava esperando, aborrecendo as irms.  
Franoise tricotara para ela um grande suter de fina l branca, Ruth, um gorro e luvas; Lisa lhe dera um par 
de brincos de diamantes que tinham pertencido  me. Alain, uma agenda encadernada em couro, e Pierre, um 
desenho muito bonito, representando Montillac. O presente mais inesperado foi o de Charles:  
um retrato de La pintado a leo com muito talento.  
-  magnfico, querido! Obrigada, muito obrigada! 
- No o fiz muito grande, para que pudesse lev-lo para toda parte com voc.  
O retrato estava muito parecido. Entretanto, no se podia olhar para ele sem experimentar certo mal-estar. O 
sorriso era doce e terno, mas o olhar ausente. La estava vestida  moda anamita, com o chapu pontudo nas 
costas. Perto dela estava Ong Cop, parecendo surgir da floresta. O conjunto dava uma impresso curiosa, 
incmoda.  
...As semanas passadas ali foram agradveis para La. Os filhos estavam sempre com ela. Charles aproveitou 
a estada para pintar tambm o retrato dela em companhia de Adrien e Camilie.  
Em 15 de fevereiro de 1953, ela deixou a Frana. Na chegada a Saigon, Lien lhe contou que Franois estava 
no Tonquin. Contra a opinio da amiga, La recusou esperar o vo civil para Hani e conseguiu lugar no trem 
protegido de la Rafale, o trem encarregado de reabastecer a zona costeira de homens, armas e vveres at T 
Bong. Muitas vezes atacado, tornara-se legendrio. Muitos homens tinham sido mortos para que ele pudesse 
cumprir sua misso. O comboio blindado da Legio era sem dvida o trem mais condecorado do mundo: 
Legio de Honra, Medalha Militar, Cruz de Guerra! Composto de quatorze vages, dos quais oito blindados, 
abrigando cada um quinze legionrios, ele percorria os quatrocentos e cinqenta quilmetros que separavam 
Saigon de T Bong, parando freqentemente diante das pontes destrudas e dos trilhos sabotados, que os 
legionrios reconstruam sempre, sujeitos a uma emboscada.  
O trem chegou sem dificuldades a T Bong, onde um comboio militar de uma dezena de veculos se 
encarregou dos passageiros. Algumas horas mais tarde, soube-se em Saigon do ataque ao comboio e do 
desaparecimento de todos os passageiros. Durante uma semana, de caminho, a p, a bordo de sampanas, os 
prisioneiros foram transportados at a fronteira do Laos, onde eles foram dispersados. La se encontrou, em 
companhia de duas 
religiosas mestias, numa aldeia de leprosos. O diretor, um velho anamita, designou-lhes uma barraca perto da 
das irms e dos mdicos. A aldeia era construda numa ilha do rio. O setor administrativo compreendia um 
posto de milicianos, um secretariado, cozinhas, dependncias, uma maternidade para crianas no- leprosas. 
No fim da ilha, cercados por tapumes de bambu afiado, as construes dos incurveis, abastecidos pelos 
doentes vlidos. A ilha era separada em duas por uma pequena ponte, guardada dia e noite. A aldeia 
compreendia dois bairros cercados de gua, que se comunicavam por passarelas: o dos homens e o das 
mulheres.  
No dia seguinte  chegada, La foi levada para ali com as duas religiosas. Ao longo dos caminhos cobertos de 
imundcies, percebiam-se entre as construes seres sem rosto, arrastando-se de uma barraca para outra. O 
odor era atroz. La tremia. Uma das irms a tranqilizou:  
- No so contagiosos.  
Contagiosos ou no, La no queria ficar l. Seu medo e pnico dos leprosos vinha da infncia. Ainda 
guardava na memria as narrativas das irms, em Bordeaux, que causavam repugnncia...  
- Estudei os remdios nativos contra a lepra - disse a prisioneira -, so freqentemente eficazes, principalmente 
no incio ou para preveno. Encontrei o mdico anamita da aldeia, ele me preparou um cozimento que fez 
efeito. Tenho um frasco comigo. Tome um gole!  
Para maior segurana, La tomou dois. Na ltima barraca, as mulheres grvidas esperavam a hora do parto.  
De noite La teve um acesso de impaludismo, que durou muitos dias. A febre cedeu, mas ela emagrecera 
muito. As irms, que estavam se revezando  cabeceira, fizeram-na comer regularmente carne de bfalo, para 
lhe dar novas foras. No dcimo quinto dia depois da chegada ao leprosrio, ela pde se levantar e tomar 
banho numa grande bacia de zinco. Irm Amlia a esfregou sem delicadeza e lavou-lhe a cabea com tal 
energia, que arrancou gritos  convalescente. Depois a vestiu com uma roupa 
nativa. Cansada do banho, La adormeceu numa esteira, perto do rio.  
Gritos e tiros a despertaram. No leprosrio em chamas, os doentes corriam em todas as direes 
antes de serem mortos pelos assaltantes. Uma das religiosas, que cuidara de La com tanta 
dedicao, caiu perto dela, com o crnio despedaado. La desapareceu entre as roseiras  beira do 
rio, O morticnio chegou ao mximo; corpos mutilados foram jogados no rio. O incndio era muito 
violento. Bruscamente, La foi transportada, oito anos antes, para Montillac... Os soldados ateavam 
fogo  casa. Por todo o lado, sempre, os mesmos gritos, os mesmos risos, o cheiro da plvora, da 
madeira queimada, de sangue derramado substituindo o dos gros recm-cortados. O cu 
incrivelmente azul, como aqui, hoje... "No, no  o mesmo azul...", pensou La. "L, na Gironda, 
era um azul profundo, insolente... Aqui, nas margens do rio Noir,  mais plido, mais sereno..."  
- Voc vem, Mamadou? Ns nos enganamos, aqui no h vietcongues, s doentes atingidos por essa 
imundcie.  
La ficou dentro d'gua at a noite. Depois subiu para a margem e andou pelas runas fumegantes. 
Cadveres por toda a parte. Diante da capela, o velho diretor, ferido na cabea, ainda vivia.  
- Deus seja louvado, a senhora est salva! No viverei por muito tempo. Pegue comida, se sobrou, e 
deixe este lugar maldito. Fuja!  
O velho homem, que passou a vida enfrentando a lepra, morreu repetindo esta palavra: "Fuja!"  
Ela encontrou nas cozinhas um pouco de arroz grudento, peixe seco e algumas frutas. Embrulhou 
tudo num pedao de pano e partiu em direo  floresta, com a trouxa no ombro. De longe, parecia 
uma camponesa. Andou horas numa estreita picada, sobressaltando-se ao menor barulho. De noite, 
acomodou-se num rochedo, comeu uns bocados de arroz, bebeu gua que corria pela pedra.  
Cantos de pssaros a acordaram ao amanhecer. Ela devorou uma fruta e partiu novamente. Andou 
trs dias. Na noite do terceiro dia, os ps esfolados, apesar das sandlias, j no lhe permitiam andar. Exausta, ela se deitou. 
Foi acordada em sobressalto,  noite, por cantos e pelo som de um tambor. Monges de cabea 
raspada, em longos hbitos marrons, marchavam em procisso, brandindo tochas. La se jogou 
diante deles.  
- Mt ngui dn h!*  
-  uma mulher!
Um monge gordo a levantou.  
- Chi lm gi xa lng th?**  
- O que voc faz longe de sua aldeia?
- Eu no compreendo - disse ela.  
- Mt ngui Php!***  
-  uma francesa!
- O que voc faz sozinha na floresta? - perguntou um monge num francs hesitante.  
- Fui presa pelos vietcongues em companhia de duas religiosas. Levaram-nos para uma aldeia de 
leprosos. Soldados vieram, acho que eram franceses, massacraram muita gente. Consegui fugir.  
- Leprosos que escaparam nos contaram. Voc andou muito tempo para chegar at aqui. Venha 
conosco, ns a esconderemos no eremitrio. Fica na montanha, ao abrigo de qualquer ataque.  
- No quero ficar com vocs - disse ela, desatando a soluar. - Quero encontrar meu marido em 
Hani. Levem-me at ele!  
O monge que falava francs lhe deu ch.  
- Vamos ver isso mais tarde. No estamos em segurana aqui. Voc precisa acompanhar-nos.  
Tendo perdido toda a vontade, La os seguiu e teve de andar ainda durante trs horas. O mosteiro 
era cercado de uma paliada de bambus que se confundia com a floresta. No ptio, aves domsticas, 
porcos pretos circulavam em liberdade diante de um belo pagode de madeira pintada. No interior do 
edifcio, trs grandes budas vermelhos e dourados, diante dos quais queimava o  
incenso, faziam do lugar um ambiente tranqilizador. Numa sala que devia servir de refeitrio, um monge 
muito idoso trouxe ch. Todos beberam em silncio.  
- Venha deitar-se.  
Conduziram-na a um pequeno cmodo com paredes de madeira esculpida, no qual havia uma cama baixa.  
- Aqui no corre nenhum perigo. Veremos amanh o que  possvel fazer por voc.  
La dormiu imediatamente. Foi acordada pelo canto do galo e por batidas de gongo a intervalos regulares. 
Com o corpo dolorido, saiu do quarto. O sol j estava alto. No ptio, os monges estavam 
reunidos. Um deles lhe fez sinal para se aproximar.  
- Decidimos que voc pode ficar conosco at o momento de voltar para os seus. Enquanto permanecer aqui, 
usar o mesmo hbito que ns. E vai precisar raspar a cabea.  
- Oh, no! - exclamou La.  
- No podemos agir de outra maneira, seria muito perigoso para ns. Um campons pode ver voc e denunci-
la. Somos apenas pobres mulheres...  
La observou-as mais atentamente. As cabeas raspadas, os hbitos rsticos lhe haviam feito acreditar que se 
tratava de monges! Ela sorriu de seu engano e se sentiu aliviada.  
Quando os cabelos comearam a cair pela ao das tesouras e ela sentiu a lmina fria da navalha na cabea, 
chorou.  
Nos dias seguintes participou da vida da comunidade, trabalhando no campo, na cozinha e dentro de casa. 
Uma grande paz reinava no lugar. Nada parecia poder atingi-la. As religiosas eram numerosas, umas trinta 
talvez. Difcil calcular-lhes a idade, pois tinham um ar de bebs velhos; todavia, os risos de algumas 
mostravam que eram todas jovens. A que falava francs parecia ser a superiora das novias, uma mulher boa e 
inteligente. Ela explicou a La que o eremitrio era muito antigo:  
oitocentos ou novecentos anos. At esse dia a guerra no havia chegado perto delas. Com certeza isso se devia 
s preces de todas. Um dia, entretanto, perceberam gritos, tiros. Elas se 
haviam entrincheirado na sala dos trs budas e comeado as oraes. Sem dvida, 
Deus as ouvira, pois os soldados se afastaram sem notar a construo. Os trabalhos 
foram retomados, marcados pelos ofcios.  
Essa calma tranqilizou La, que se fortaleceu e ficou amiga dessas mulheres 
simples e sensveis.  
Mas isso no durou muito. Uma manh o mosteiro foi invadido por uma tropa de 
senegaleses, comandados por dois brancos. No comeo pediram apenas alguma 
comida. As irms os serviram com pressa. Quando eles chegaram, a que falava 
francs suplicara a La que no aparecesse, pois no se conheciam as intenes dos 
soldados. Escondeu-a no interior de um dos trs budas e fechou a abertura atrs. Por 
uma fenda, La podia respirar e perceber o que se passava numa parte da sala. Um 
soldado com o tronco nu entrou, tocando gaita, enquanto outro batia numa espcie 
de tambor. Eles danaram. Pelos olhos arregalados, La compreendeu que estavam 
embriagados ou drogados. Dois outros entraram, arrastando atrs de si uma das mais 
jovens monjas. Despiram-na e violentaram metodicamente. A mulher urrava. O pior 
foi quando um deles a sodomizou, enquanto outro lhe enfiou uma garrafa de cerveja 
na vagina. A infeliz estava ensangentada e se arrastou, de mos estendidas, at o 
altar. Eles haviam acendido o fogo nos braseiros, que projetavam clares 
assustadores nas paredes. Outras religiosas foram violadas, algumas tiveram a 
garganta cortada em meio a risos. Um branco entrou de repente. La quase deu um 
grito: Jaime Ortiz* era o chefe desse bando de assassinos. Ele estava bbado, 
coberto de sangue.  
- Encontraram a puta? - perguntou ele em espanhol.  
- No, no existem brancas entre essas prostitutas - respondeu um dos negros.  
- Vocs no procuraram direito. Com certeza ela est aqui. Nosso informante no se enganou.  
- Ela deve ter fugido...  
- No, sinto que ela est aqui. Interrogaram todas as irms?  
- Sim, chefe, elas dizem que nunca houve uma branca entre elas.  
- E a velha que fala francs? Perguntaram a ela?  
-  claro! Nem mesmo as formigas a fizeram falar.  
- Onde ela est?  
- Deve estar morrendo por a num canto.  
- Vo busc-la.  
As lgrimas corriam pelo rosto de La, vendo o estado a que fora reduzida a pobre mulher. Haviam 
arrancado os bicos dos seios, o ventre era uma s ferida e o rosto estava inchado dos socos e 
picadas.  
- Diga-nos onde est a francesa, e sua vida ser salva! No, fez ela com a cabea. Jaime Ortiz ficou 
furioso. Comeou a bater nela com pontaps e socos.  
- Tragam gasolina, vou ass-la, essa vaca velha!  
La no pde suportar; e saiu do esconderijo.  
- Deixem essa mulher, estou aqui!  
Ortiz a olhou com estupefao. Esse fradinho de cabea raspada no podia ser a orgulhosa La 
Delmas. Ele se aproximou, fedendo a suor e sangue.  
- Mas  verdade,  voc mesma! Reconheo esses olhos de tigresa... Como voc est? Foi difcil 
reconhec-la...  
La no o escutava, estava inclinada sobre aquela que lhe oferecera hospitalidade e tentara salv-la.  
- Oh, madre o que fizeram com a senhora!...  
- Voc no deveria ter sado, eles no a encontrariam...  
- Deixe essa carnia, vamos tratar de voc. Matem-na!  
Um tiro soou e a monja de bom corao foi reencontrar os ancestrais.  
Ortiz pegou La pelo brao e a levou para fora. Ali a carnificina era terrvel. Corpos despedaados e 
nus jaziam no ptio, pisados pela soldadesca embriagada.  
- Voc  a nica sobrevivente. E  voc que vai escolher se quer ficar assim muito tempo... se for 
dcil!  
Como resposta, La cuspiu-lhe no rosto. Um par de socos a 
fez rolar at o santurio. A cabea bateu num degrau de pedra. O sangue jorrou.  - Franois... - murmurou ela, e tudo ficou escuro.  
- Merda, chefe, o senhor a matou!

Captulo 17

Quando soube do ataque e do desaparecimento de La, Franois voltou para Saigon.
As notcias que lhe foram dadas eram alarmantes. Kien tinha sabido por Bay Vien que La fora conduzida a 
uma aldeia de leprosos prxima da fronteira do Laos, e que a aldeia fora atacada e inteiramente destruda por 
uma tropa de africanos comandada por dois legionrios desertores. Todos os habitantes tinham sido mortos. 
Pelos informantes, ele soubera que uma branca escapara do massacre e fora recolhida por monjas num 
eremitrio budista, que, algumas semanas depois, tambm fora arrasado pelo mesmo destacamento. A 
desapareciam as pistas da jovem mulher.  
Franois se queixou com Lien:  
- Por que a deixou ir? Era preciso obrig-la a ficar!  
- Ela no queria, s pensava em se juntar a voc - soluou Lien.  
Houvera buscas na rea do eremitrio. Nenhuma dera resultado. A medida que os dias passavam, Franois 
sentia-se cada vez mais enlouquecido. Ele voltou a Hani, onde obteve do general Salan permisso para partir 
para a regio de Chieng, no Song Ma. 
Foi lanado de pra-quedas, com Giau e Lefvre, que estava de licena em Hani. Escondidos em casas de 
moradores, tentaram conseguir indcios. Uma noite, Giau voltou com uma informao: dizia-se que uma 
mulher branca, ferida, estava nas mos dos vietcongues, mais ao norte, perto de Hang Ki. Eles se colocaram 
a caminho no dia seguinte, depois de ter oferecido presentes aos hospedeiros.  
Seguiram o Song Ma at uma altitude de mais de mil metros. Passaram a noite em cavernas, que abrigavam 
centenas de morcegos, assaltados por mirades de mosquitos. Franois se comunicava por radiotelefone com 
Hani. L tambm no havia nenhuma notcia de La. Em Hang Ki no souberam de nada. Continuaram at 
o rio Noire. Numa parada, encontraram um comando pra-quedista, que lhes informou ter localizado um 
acampamento vietcongues perto de Ban P Ngoai, na margem oposta do rio. A regio, montanhosa, de difcil 
acesso, era inteiramente controlada pelos vietcongues. Eles agradeceram aos pra-quedistas e partiram 
novamente na direo de Ban P Ngoai.  
- Um de meus irmos ainda mora l - disse Giau.  
Ao chegarem, Giau encontrou o irmo, catlico, comandante de um grupo mo. Souberam ento que Bay 
Vien se tornara comprador da produo de pio, com o aval do general Salan e a autorizao de Deo Van 
Lang, o "senhor da guerra" de La Chau. Nessa regio de montanhas, os mos eram os senhores, mas o 
terreno oferecia numerosos esconderijos aos vietcongues. Dizia- se que H Chin Minh estabelecera ali um de 
seus acampamentos, numa caverna inacessvel. Franois gostaria de encontr-lo novamente para lhe pedir que 
fizesse tudo para encontrar La. Algo lhe dizia que ela ainda estava viva. Giau conseguiu entrar em contato 
com um comissrio do povo que servia como espio francs. At ento, nenhuma suspeita pesava sobre ele. 
Ele contou a Franois que um mdico francs que morava havia muitos anos entre os mos fora levado pelos 
vietcongues. Para o informante isso queria dizer que se tratava de um rapto destinado a cuidar de um europeu. 
Essa notcia deu novas esperanas a Franois. Ele compreendeu que eles no eram bastante numerosos para agir com eficcia nessa regio, em parte 
inexplorada pelos antigos colonizadores. Decidiu voltar a Hani e organizar um comando. Giau ficou em Ban 
P Ngoai para tentar conseguir novas informaes.  
Ameaando partir sozinho com um punhado de mercenrios, Franois obteve do general Salan, que estava a 
ponto de receber seu sucessor, o general Navarre, autorizao para reunir um comando de voluntrios e partir 
 procura da mulher. Claude Thvenet, o legionrio da R.C. 4 ferido no momento do ataque a Vinh Yen e 
convalescente em Hani, foi o primeiro a se apresentar na casa dos Rivire, onde Tavernier estabelecera seu 
QG, acompanhado de dois companheiros da Legio, Jean Boutin e Roger Marchal, de licena temporria 
dada pelo coronel. Foi-lhes dada ordem de recrutar elementos locais brigados com a guerrilha. Kien, vindo de 
Saigon com os guarda- costas Fred e Vinh, conhecia a fundo as regies de Thanh Hoa, Hoa Binh, Son La, La 
Chau, Lao Cai... por ter ido muitas vezes a elas e caado em companhia dos mos. Franois aceitou alist-los.  
Eram onze, sem contar Giau. De comum acordo, decidiram conseguir novos companheiros no local para onde 
iam.  
Foram os primeiros do "comando Vandenberghe".  
Roger Vandenberghe, o gigante de Flandres que recentemente salvara a vida de Franois,* fora morto aos 
vinte e quatro anos, em Nam Dinh, por um b di que ele tirara de um campo de prisioneiros para incorpor-
lo ao comando Tigre Negro. Apesar dos repetidos avisos, no desconfiara dos olhares de profundo dio do 
nhqu. Na noite de 5 ou 6 de janeiro de 1952, Kho assassinara com muitas rajadas de metralhadora o 
matador de vietcongues, o queridinho de de Lattre, sua jovem companheira chinesa, Khiem, e o melhor 
amigo, o sargento Pue.  
- Isso tinha de acontecer - concluram os oficiais. Nenhuma investigao fora feita. O suboficial-chefe 
Vandenberghe e o  
sargento Puel foram enterrados lado a lado no cemitrio de Nam Dinh.  
O comando reunido por Franois foi lanado de pra-quedas em 30 de maio de 1953, perto de Ban Lm, no 
rio Noire. Todos estavam com roupas de camponeses vietnamitas e chapu de folhas de coqueiro tranadas. 
Ergueram acampamento numa caverna espaosa e clara, de cho de areia branca.  
Thvenet partiu com os trs do comando Vandenberghe, Chau, Tho e Diem, felizes por ter reencontrado um 
chefe branco digno dos Tigres Negros. Kien, por seu lado, foi com Fred e Vinh encontrar os chefes das 
aldeias mos a fim de negociar o nmero de "voluntrios" que podiam participar da operao. A bordo de um 
barco de bambu, Marchal e Boutin desceram o rio Noire at Ban P Ngoai, para trazer Giau. Franois ficou 
sozinho.  
Marchal e Boutin foram os primeiros a voltar em companhia do monstro, todos to excitados que falavam ao 
mesmo tempo.  
- Chega! Um de cada vez! - gritou Franois.  
- Giau encontrou a pista de sua mulher... - conseguiu explicar Boutin.  
- Onde?... Fale! - exclamou, levantando Giau pelos farrapos e sacudindo-o.  
- Ela est em Koun Hia ou em Nghia D, na regio tha.  
- Onde fica?  
- Depois do grande lago do rio Rouge.  
- Tem certeza?  
- Meu irmo soube por intermdio de um b di que lhe deve dinheiro; em troca, forneceu-lhe as 
informaes. Faz parte das sentinelas do quartel-general do presidente H Chin Minh.  
- O que voc quer dizer? Seu quartel-general est instalado perto de Tuyn Quang?  
- Estava; j no est.  
A informao poderia ser verdadeira: H Chin Minh se deslocava muito.  
Thvenet voltou com trs guerreiros mos seminus e armados de fuzis, lanas e zarabatanas. Dois dias depois, Kien voltou, por sua vez, com quatro homens 
de fisionomia inquietante.  
- So os melhores cortadores de cabea da provncia, foi o que me assegurou DeoVan Lang. No h 
ningum melhor do que eles para ficar a dois passos do inimigo e cortar-lhe a garganta...  
- Giau localizou La - interrompeu Franois.  
Subiram novamente o Song Giang at a estrada que levava a Than Uyen. A mil e cinco metros de 
altitude, atingiram Minh Luo'ng, onde caram de cansao, no limite de suas foras... salvo os mos 
e os companheiros de Vandenberghe, que negociaram com o chefe da aldeia a ocupao da cabana 
reservada aos estrangeiros. Os vietnamitas acenderam um fogo e todos foram para l.  
Kien e Thvenet, a despeito da ferida, que ainda doa, foram os primeiros a se levantar. Giau 
desaparecera. Os mos voltaram com bastante carne, que dividiram com os hspedes. Houve festa 
at tarde da noite; as mulheres da aldeia danaram, e bebeu- se muita aguardente de arroz.  
No dia seguinte, o chefe, com a lngua pastosa, explicou-lhe que nunca os vietcongues tinham 
chegado at l; eles eram os primeiros visitantes desde muito tempo. Poderiam ficar o tempo que 
quisessem, mas, se desejassem ir a Bao Ha, no rio Rouge, seu filho caula teria muita honra de 
conduzi-los. Franois agradeceu, disse que ia pensar com seus homens e lhe transmitiria a deciso.  
Franois ordenou que fossem explorados uns dez quilmetros em torno da aldeia, para se assegurar 
que o chefe no mentira a respeito dos vietcongues. Ao fim de quarenta e oito horas todos os 
exploradores estavam de volta: s haviam encontrado animais, que fugiam  aproximao. 
Aceitaram a proposta do chefe da aldeia e deixaram Minh Luo'ng numa manh fria e de nevoeiro. 
Chegaram sem problemas ao rio Rouge. Bao Ha ficava situada na outra margem; para atingi-la, era 
preciso pegar uma barcaa que fazia o transporte de maneira irregular, de acordo com o nmero de 
viajantes carregados de embrulhos que esperavam, agachados na beira do rio. A julgar pela maneira 
como estavam, alguns aguardavam havia muitos dias. Como sempre na sia, 
mulheres vendiam sopa preparada por elas prprias. Franois e sua tropa aproveitaram a comida de 
trs matronas, que riam com todos os seus dentes laqueados diante da voracidade dos estrangeiros.  
Ao fim de trs dias, a barcaa vinda de Bao Ha chegou numa nuvem de fumaa muito malcheirosa. 
O excesso de carga era tal que todos os passageiros tinham gua at a canela. O desembarque foi 
feito em meio a uma confuso indescritvel; velhos e crianas caam na gua, diante da indiferena 
geral. Franois pescou uma menininha cuja irm, um pouco mais velha, a acomodou no quadril sem 
sequer dar um olhar de agradecimento.  
Kien e seus homens se aproximaram do dono da barcaa:  
- Dua chng ti sang bn kia ngay by gi, anh ly bao nhiu?  
- Ti khng di duoc, phai doi my nguoi.  
- Bao nhiu, nu khng l my cht! - gritou Kien, sacando sua pistola.  
- Nhung thua ng, chng ta se bi pan o giua sng!  
- Se khng bi pan. Dy l mui ngn dng.*  
*_ Quanto custa levar-nos para o outro lado, agora?  
- No posso, o motor precisa esfriar.  
- Quanto, ou voc morre!  
- Mas, senhor, vamos enguiar no meio do rio!  
- No vamos enguiar. Eis dez mil piastras.  
Os viajantes, que haviam reunido a bagagem, apressaram-se a subir na barcaa.  
- Dui ho di! 
- Expulse-os! 
- ordenou Kien.  
A coronhadas e socos, os passageiros foram postos para fora. Uns dez deles, entre os mais fortes e 
os mais geis, conseguiram entretanto subir a bordo. A um gesto de Kien, os mos os mataram e 
jogaram os corpos na gua. Lefvre e Tavernier no fizeram nenhum comentrio. Com muitos 
problemas, e uma fumaa acre e negra, a barcaa conseguiu deixar a margem e chegar, com 
lentido insuportvel, ao meio do rio. Depois de uns vinte minutos, a outra margem se aproximava.  
- Deitem-se! -- gritou Thvenet.  
Uma rajada de metralhadora fez voar pedaos de madeira.  
- Bon Vit-Minh, chng se dnh dm chng ta! 
*_ So os vietcongues, vo nos afundar!  
- guinchou o condutor.  
- Di xui dng sng!
- Desa o rio! 
 - ordenou Kien, batendo-lhe no rosto com o cano da pistola.  
A correnteza aumentou, e logo a embarcao deslizou entre dois muros de calcrio.  
- Pergunte a ele se h lugar onde atracar! - gritou Franois.  
Kien traduziu.  
- Sim, em Lang Phat. Isso no nos serve,  na margem que acabamos de deixar. Um pouco mais longe, h 
Lang Na mas, l tambm existem vietcongues.  
- Diga-lhe que no nos importamos, que  para l que vamos.  
J era quase noite quando avistaram as luzes fracas de Lang Na. O piloto se aproximou da margem tanto 
quanto possvel, mas, em volta da ponte destruda, os redemoinhos impediam a atracao. Kien arrancou as 
roupas, com que fez um embrulho. Amarrou-o em volta do pescoo com a metralhadora, ficando apenas com 
um cinto, no qual estava o punhal. Enrolou uma corda em torno do tronco e pediu aos guarda-costas que 
segurassem a ponta. Tendo feito um sinal com a mo na direo de Franois, pulou n'gua. Um redemoinho o 
pegou; ele reapareceu na superfcie a uns dez metros da embarcao. Apesar da fora da correnteza, ele 
conseguiu se afastar algumas braadas.  
- Ajudem-nos - gritou Fred.  
Franois e Thvenet seguraram a corda, deixando-a estender-se devagar. Aps um tempo que lhes pareceu 
interminvel, ela esticou de uma s vez. Eles a amarraram na cabine do piloto, ordenando-lhe manter o motor 
contra a correnteza.  
- Todos nus! - ordenou Thevenet.  
Franois, o primeiro, escorregou ao longo da corda estendida sobre os redemoinhos.  
- Pule! - gritou Kien.  
Ele caiu na lama, que amorteceu a queda. Foi preciso perto de uma hora para que todos pudessem atingir a 
margem.  
Franois interceptou um rpido olhar de interrogao lanado para Kien pelo ltimo a passar. Era um dos 
cortadores de cabeas, que concordou com um largo sorriso: ele ocupara-se do barqueiro.  
Apesar de sua repugnncia, Franois teve de concordar que no havia outra soluo para manter por algum 
tempo em segredo a misso.  
A noite estava muito fria; no havia possibilidade de acender fogo para secar as roupas.  
- Besuntem-se de lama, seno sero devorados pelos mosquitos e outros insetos - recomendou Kien. - Vamos 
seguir o que resta da estrada de ferro;  a linha Vit Tri-Lao Cai.  
A lua aparecera, e, se algum visse passar, caminhando pelos pequenos diques, aquela coluna de esttuas de 
argila, no deixaria de fugir em silencio, convencido de ter visto gnios do mal ou almas do outro mundo.  
Eles contornaram sem dificuldade a aldeia de Bao Ha. O amanhecer os surpreendeu perto de um riacho, em 
que se lavaram. Comeram um pouco de arroz grudento e beberam ch frio. Lefvre e dois mos foram os 
primeiros a ficar de guarda, enquanto os companheiros dormiam. Partiram novamente de noite, subindo de 
novo o riacho que serpenteava atravs dos arrozais. Logo, as culturas deram lugar a um estreito pedao de 
terra pantanosa. Um dos mos voltou e cochichou algo com Kien. Este parou.  
- Segundo Tho, no estamos longe de Nghia D.  
-  uma das duas aldeias citadas por Giau - disse Franois.  
- Nesse caso, estamos em pleno territrio vietcongue.  imprescindvel encontrar um lugar onde nos 
escondamos e enviar os mos para fazer um reconhecimento - interveio Franois.  
- Ah, bom, no tinha pensado nisso - disse Thvenet em 
tom irnico. -At agora tivemos muita sorte... Isso no me agrada! Se querem um conselho, 
rapazes, isso no vai durar muito. Os vietcongues so muito astutos, j sabem que estamos aqui.  
- Mais um motivo para enviar os mos - repetiu Fred. Mais uma vez, encontraram abrigo numa 
caverna, onde passaram trs dias, saindo um de cada vez para explorar a regio. Os mos foram 
caar, dois a dois, com a ajuda das zarabatanas ou das lanas. Nunca voltaram sem trazer alguma 
coisa. A regio, extremamente selvagem, parecia desabitada. Uma vez, Franois e Thvenet quase 
foram surpreendidos por uma patrulha de vietcongues visivelmente cansados. Quando voltaram, 
Kien queixou-se:  
- Vocs deviam ter feito um prisioneiro, ns o teramos feito falar!  
- Pensamos nisso, mas, embora exaustos, eles estavam atentos e eram muito numerosos.  
- Vou seguir suas pegadas. Elas nos conduziro ao seu acampamento. Fred, Vinh! My da kia, di 
theo lun 
*_ Venham vocs tambm. 
- acrescentou ele na direo dos homens de Deo Van Long.  
Thvenet e Tavernier escorregaram para o interior da caverna. Boutin cozinhou uma espcie de 
cabrito monts numa carapaa de argila para evitar a fumaa e o cheiro. Marchal lia  luz de uma 
fenda entre duas rochas.  
- O que est lendo? - perguntou Franois, acendendo um cigarro.  
O legionrio virou a capa em sua direo. Era escrito em ciriico.  
- Pouchkine?  
- Sim.  
- Voc  russo?  
- O que voc tem a ver com isso?  
- Nada, apenas queria saber.  
Marchal retomou a leitura. Boutin se aproximou de Tavernier.  
- Ele no gosta quando lhe fazem esse tipo de pergunta. Certamente  russo. Russo branco, mesmo! 
Uma noite em que estava embriagado ele me disse que entrou para a Legio aos dezoito anos 
porque a me no quisera que ele se naturalizasse francs. Fugiu de casa e adotou o primeiro nome 
que lhe veio  cabea: Marchal, porque ele era interrogado por um segundo sargento.  
Boutin abaixou mais a voz:  
- Acho mesmo que seja prncipe, ou algo assim. Em seu bolso h uma tabaqueira, eu seria capaz de 
jurar que  de ouro; na tampa h uma coroa gravada.  
Kien e seus homens voltaram sem ter encontrado pista dos vietcongues.  
- Vamos deixar a picada que margeia o rio e nos separar em dois grupos. Kien e Marchal, levem os 
homens que acharem necessrio - ordenou Franois.  
Kien escolheu quatro cortadores de cabeas, um mo, Chau, do comando Vandenberghe, e seus 
prprios guarda-costas.  
- Estamos na regio dos montanheses mans. Nos vales esto os thas brancos, que dominam h 
sculos, mas h tambm mos, chineses e alguns nongs. A maior parte no compreende o 
vietnamita, utilizam uma espcie de dialeto tha. Voc veio a Pho Lu e a Lao Cai com meu pai 
quando era criana? - perguntou Kien a Franois.  
- Sim, tomamos o trem com Hai. Seu pai tinha um encontro em Lao Cai com o compradore* de 
um negociante de seda chins.  
- No  hora de contar suas recordaes de infncia! - resmungou Thvenet. - No momento estamos 
na merda, num pas de merda.  
- Voc est errado,  um pas muito bonito - protestou Marchal, com ar sonso.  
- No se trata apenas de lembranas de infncia, mas de fazer vocs compreenderem que, a menos que 
conheam um pouco os hbitos dos moradores desta regio, nunca sabero se tm pela frente um amigo ou 
um inimigo.  
- O melhor  considerar a todos inimigos - observou Thvenet. -  mais seguro. Para mim esses caras-de-limo 
so todos iguais.  
- Pode-se ver a coisa dessa maneira - comentou Kien em tom frio e ajustando o armamento.  
- Mosquitos safados! - exclamou Marchal, dando tapas no rosto. Depois, dirigindo-se a Thvenet: - Voc 
deveria prestar ateno no que diz, tenho a impresso de que Kien no gosta da sua maneira de falar dos 
compatriotas dele.  
- Que se dane. Alm do mais, no gosto desse cara. No me inspira confiana. No gosto dos mestios. Dou-
lhe um conselho, faa o que quiser com ele: fique de olho nesse sujeito.  
O grupo compreendendo Franois, Thvenet, Marchal, Tho, Diem e trs cortadores de cabeas partiu 
primeiro, quando a noite caiu, depois de besuntar o rosto de fuligem e lama. O mais velho dos cortadores de 
cabeas os guiava, escalando as rochas com agilidade surpreendente. Ele caminhava em boa velocidade, 
aparentando ar de quem sabia bem onde ia. Depois de seis horas de marcha, Franois deu ordem para 
descansar. Thvenet jogou-se no cho, gemendo.  
- Safado, ele quer nos matar, esse macaco!... - exclamou, pondo um cigarro na boca.  
- Infeliz, quer que sejamos localizados! - disse Marchal secamente.  
- Merda, eu tinha esquecido. Desculpe velho... Em todo o caso vou tomar um trago.  
- No h tempo,  preciso continuar. O velho descobriu um acampamento vietcongue a aproximadamente 
duzentos metros, a leste de Nghia D. Ns vamos para oeste.  
Eles seguiram os dormentes de uma estrada de ferro invadida por plantas cortantes e cheias de espinhos, e 
pararam na entrada de um tnel parcialmente desmoronado. Thvenet, seguido por Tho e Diem, afastou os cips que 
obstruam a abertura e avanou com as costas roando a parede. Uma umidade gelada os envolveu. Por toda a 
parte se sentia o odor de hmus e de seiva, e mais forte ainda o do carvo. Grossas gotas d'gua caam do teto 
fazendo "ploes" que ressoavam demoradamente. O tnel tinha apenas uns trinta metros; a sada estava quase 
inteiramente fechada por um bloco de pedra. Entretanto, um homem poderia se esgueirar entre a rocha e o 
revestimento. A um sinal de Thvenet, Diem passou. Voltou depois de uns dez minutos:  
- No h nada, chefe. O lugar parece tranqilo.  
- V procurar os outros.  
Ele acendeu uma lanterna eltrica. Gordos morcegos voaram guinchando. Vagonetes virados estavam 
enferrujados. O local servira de abrigo: aos vietcongues ou aos montanheses?  
- Acho que vamos poder ficar aqui - disse Thvenet a Franois, que chegava.  
- Voc foi ver o que h do outro lado?  
- Sim,  tudo igual.  
- Bem, coloque sentinelas em cada ponta.  
 exceo de Franois e dos dois homens acocorados na entrada e na sada do tnel, todos dormiam, 
cansados.  
Franois, com a nuca apoiada na roda de um vagonete, fumava na escurido, invadido por um desespero 
profundo. Por sua culpa a mulher que ele amava estava em perigo. Ele no ousava pensar alm. Todas as 
fibras do corpo se contraam violentamente diante da idia de que ela estivesse... Seu sofrimento era tal que 
ele deixou escapar um gemido. Em seu canto, Marchal se ergueu.  
- O que houve?  
- Nada, volte a dormir.  
Apesar de tudo, ele adormeceu, pois, quando reabriu os olhos, j era dia. Diem lhe trouxe ch quente. Ele foi 
se encontrar com Thvenet, que, com a ajuda de binculos, tentava furar as nuvens de cerrao agarradas s 
rvores. 
- No o inquieta o desaparecimento do monstro? - perguntou  queima-roupa o legionrio.  
- No, na verdade, no. Na minha opinio, deve ter tentado atingir uma das aldeias.  mais fcil para ele 
passar despercebido.  
- Com a figura ridcula que tem, isso parece difcil... - riu- se Thvenet. - Veja, parece que est melhorando um 
pouco.  
- Passe-me os binculos.  
A perder de vista, s existiam rochas e emaranhados de rvores. Nenhum sinal de vida humana; ouvia-se 
apenas o grito dos macacos e o canto dos pssaros. Um deles se elevou, magnfico, com as penas de cores 
vivas brilhando ao sol nascente. Era como um desafio dessa natureza selvagem e forte.  
Franois decidiu fazer um reconhecimento, e levou consigo dois mos. Andar sobre o que restava da via 
frrea ficou cada vez mais difcil. Logo a floresta se fechou sobre eles, que continuaram abrindo caminho com 
a ajuda dos faces. Depois os trilhos reapareceram de repente: o terreno subia, a vegetao se tornava rara. 
Chegaram a um ponto alto seguindo a estrada. Reinava estranho silncio. Tinha-se a impresso de estar no 
teto do mundo. Os prprios mos pareciam impressionados. Um deles fez sinal a Franois de que era preciso 
voltar atrs. Franois concordou de m vontade. Teria preferido ficar l,  espera. De qu?... No sabia. 
Esperar, apenas.  
Voltaram pelo mesmo caminho. Um dos mos matou uma espcie de antlope.  
- Ento? - perguntou Thvenet.  
- Nada. O caminho vai at um cume. Acho que continuando, se deve chegar  fronteira chinesa. Os mos me 
pareceram inquietos.  
- Que droga! - exclamou Marchal. - Diem, pergunte o que eles viram l em cima.  
Os dois homens discutiram longamente, fazendo grandes gestos. Diem voltou para junto de Franois e 
Marchal.  
- O que h?  
- Voc vai achar graa, chefe. 
- Desembucha, por favor.  
- Eles dizem que l em cima existem maus espritos.  
- Maus espritos?... Voc no acredita nessas bobagens, no 
 mesmo? 
- No... chefe. A hesitao era perceptvel. 
- Eles compreendem um pouco de vietnamita. Explique- lhes que maus espritos so coisa sem importncia - 
disse Marchal.  
- No vai adiantar; os maus espritos dos mos no so os mesmos dos vietnamitas. Se nos obstinarmos a 
continuar nessa direo, pode-se esperar que vo fugir.  
- O que sugerem?  
Antes de responder, Franois consultou a bssola.  
- Estamos a leste de Nghia D. Vai ser preciso descer novamente para oeste, atravs da floresta.  
- Pssimo programa!  
- No vejo outro!  
Kien e Boutin avistaram Nghia D dois dias depois de deixar Tavernier. A aldeia parecia calma; nada 
revelava algum trao de vietcongues. Um grupo de mulheres deixou a aldeia levando nos ombros paus 
recurvos com cestos nas pontas, os quais estavam vazios, exceto os que continham dois bebs. Suas roupas 
eram as dos thas brancos. Elas passaram diante da pequena tropa escondida no mato, rindo e conversando.  
- Chau e Vinh, deixem as armas, levem s os punhais. Entrem na aldeia dizendo que faziam parte de um 
comboio que foi atacado pelos vietcongues esto sem comer h trs dias e precisam hospedar-se - ordenou 
Kien em vietnamita. - Procurem faz-los contar alguma coisa. Um de vocs volte de noite para me dar 
informaes.  
Os dois homens limparam os traos de fuligem do rosto, deixaram as armas e se arrastaram at a entrada da 
aldeia. Caminharam alguns instantes na rua principal sem que ningum desse ateno. Pouca gente diante das 
casas, alm dos velhos e de 
crianas nuas brincando na poeira. Os moradores vlidos deviam estar nos arrozais ou nas montanhas. Numa 
tbua pintada de azul desbotado estava gravado em letras mal escritas a palavra "Restaurante". Trs caixas 
faziam as vezes de mesas; banquinhos baixos as rodeavam. Eles sentaram, dando longos suspiros. Uma 
mulher que trazia um beb lhes serviu ch. Eles pediram duas tigelas de sopa. O pai ou marido da mulher 
chegou  soleira da porta fumando um longo cachimbo de barro. Como nica roupa, vestia uma espcie de 
tanga imunda e um capacete colonial outrora branco. Vinh lhe contou sua histria, enquanto o outro fazia 
pequenos anis de fumaa, escutando-o de olhos semicerrados.  
- Anh l ngui Saigon* 
- Voc  de Saigon. 
- disse ele a Vinh.  
Era to afirmativo, que seria inbil discordar dele.  
- Os vietcongues s passaram por nossa aldeia - continuou ele em francs: - requisitaram nossos estoques.  
- Ouviu dizer que havia uma branca entre eles? - perguntou Vinh na mesma lngua.  
- No. Uma branca que fazia parte de seu comboio teria sido levada?... No, no ouvi nada disso. Mas posso 
me informar.  
- Vamos voltar para nossos companheiros, que esto mais fracos que ns. Podemos passar a noite na aldeia?  
- Minha mulher  a filha do chefe; vou falar com ela sobre isso. Mas no deve haver problema. Vo ento 
buscar os outros.  
O chefe era um homem idoso desdentado, de barbicha e turbante, que vestia uma tanga amarrada entre as 
pernas magras e arqueadas. Kien o saudou respeitosamente, com as mos postas, dirigindo-lhe algumas 
palavras em vietnamita.  
- No se canse, o velho s compreende seu dialeto selvagem, e alm disso  surdo - disse o genro. - O que 
vocs vieram fazer aqui? Se  pelo pio,  tarde demais, nossa produo j foi vendida. Custo-me acreditar no 
que contou seu companheiro: vocs procuram uma mulher?... Nenhuma mulher vale tanto trabalho!  
- O senhor tem razo, mas h uma boa recompensa por ela.  
- Agora compreendo. Venha tomar uma bebida, no muito gelada, infelizmente.  
- Voc ouviu falar de alguma coisa? - insistiu Kien.  
- No, efetivamente...  
- Fale, ser pago.  
- Um grupo grande de vietcongues teria permanecido nas cavernas do lado de Niou Sang...  
- Mas  ao norte da aldeia?  
- E. J no esto l.  
- Quantos eram?  
- Falaram de muitas centenas. No acredito. Uma centena no mximo, e ainda... Um nmero to grande no 
pode passar despercebido nestas regies desertas.  
- Garantiram-nos que estavam aqui ou em Koun Hia. Mas pouco importa: a mulher, uma branca, ouviu falar 
dela?  
- Comerciantes chineses vindos de Ha Giang falaram de grandes reunies de vietcongues na fronteira do Laos.  
- Voc est me gozando! - exclamou Kien, agarrando o aldeo. -  o diabo!  
- Sim, eu sei, mas todo o estado-maior estaria l, e o prprio H Chin Minh, seguramente. Seu mdico, Pham 
Ngoc Thach, ensinava os mdicos jovens. Os comerciantes chineses disseram que uma branca era tratada por 
ele.  
Boutin, que no dissera palavra, levantou-se e deu alguns passos diante do "restaurante".  
- O que acha disso? - perguntou-lhe Kien.  
O legionrio retornou.  
- Isso no me agrada. Esperemos Tavernier. Ele  que deve decidir se vamos para o norte, jogar-nos na boca 
do lobo. Alguma coisa me preocupa: como  possvel que num pas infestado de vietcongues no tenhamos 
sido atacados?  
-  a sorte, companheiro,  a sorte! - exclamou Fred, um tanto embriagado.  
- Sorte... no acredito nisso - resmungou Boutin, retomando a caminhada.  
Kien empurrou o taberneiro para dentro da cabana. 
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$ 
- Voc  mestio, como eu, e sabe que os brancos e os vietnamitas nos desprezam. H muito 
dinheiro para voc se fizer o que digo.  
- Espere, para falar de negcios, tenho uma velha garrafa de conhaque, que bebo nas grandes 
ocasies. Estou com a impresso que esta  uma delas.  
Tirou de baixo do balco de tbuas mal aparadas uma garrafa empoeirada e dois copos, que limpou 
com uma ponta da tanga. Despejou o lquido perfumado at quase transbordar.  
- De um s trago!  
Esvaziaram os copos. O homem encheu novamente.  
- Voc disse que havia muito dinheiro para ganhar... fazendo o qu?  
- Hoje ou amanh, outro grupo vai chegar.  composto de trs franceses e nativos. Seu chefe se 
chama Tavernier. Voc lhe dir que passamos por aqui e fomos para Niou Sang.  
-  para l que querem ir?  
- No se faa de idiota. Vamos para Ha Giang.  
- Por que quer mand-lo na direo errada?  
- Isso no  da sua conta. Aceita? Sim ou no?... Ateno, se aceitar, no me traia, seno o mato, a 
voc e toda a sua famlia.  
- Mostre o dinheiro.  
De um saco de couro do qual nunca se separava, Kien tirou um mao de notas. Os olhos do 
interlocutor pareciam a ponto de saltar das rbitas. Nunca vira tanto dinheiro.  
- O que tem essa mulher para valer tanto dinheiro? - perguntou ele, estendendo a mo.  
Kien tirou a sua. -  
- Mais devagar.  preciso que sua mulher e o chefe se calem. Como vai fazer?  
- No se aflija. Vou trancar o velho e bater na minha mulher para que se cale.  
- Perfeito. H outra coisa...  
- O que mais?  
- Viu o branco que est conosco? Ele no deve nos seguir. 
- O que quer que eu faa?  
O gesto de Kien era explcito.  
- Matar um branco? Est maluco!  
- O que  que h? Quer me fazer acreditar que nunca matou ningum? Ningum se enterra num 
lugar desses sem motivo muito forte...  
- Cale-se! - exclamou o outro, olhando em volta.  
- Adivinhei! At a polcia est atrs de voc?  
O homem transpirava abundantemente, estava lvido.  
- Foi h muito tempo.  
- E ento, acha que esqueceram? Os policiais nunca esquecem. Foi h quanto tempo?  
Acabrunhado, sem reao, o aldeo respondeu:  
- Quatro anos.  
- No faz tanto tempo, com certeza ainda se lembram Onde foi?  
- Em Lang Son, um funcionrio.  
- Um funcionrio! Ah, meu pobre velho! Voc  bom... Espere, isso me lembra uma coisa... Voc o 
matou a facadas depois de ter atirado nele de emboscada?... Mas voc se arrisca a uma guilhotina!  
- Cale-se!  
- No se arrisca a mais nada matando outro. Sem contar que vai ganhar uma grana, o que lhe 
permitir deixar esse buraco podre. Tome, eu lhe dou um mao mais. Mas ateno: quero um 
trabalho bem-feito. Sem vestgios!  
- De acordo.  
O dinheiro pareceu dar-lhe novamente segurana.  
- Ser feito corretamente. Vou colocar alguma coisa, para mat-lo, na cerveja; assim, voc poder 
partir sem que ningum desconfie.  
-  uma boa idia, mas depois voc "cuida" dele. Sem brincadeiras!  
- Entendido, chefe.  
- Qual  seu nome?  
- Vai achar graa... 
- Diga logo!  
- Dieudonn.  
Kien ainda ria quando chamou Fred e Vinh  parte e os mandou para a sada da aldeia.  
- No creio que Tavernier chegue logo, mas, se isso acontecer, impea-o de entrar, dizendo a ele que os 
vietcongues ocupam o povoado. Vou embora. Vou procurar os outros.  
Ele voltou e sentou num dos banquinhos.  
- Dieudonn, sirva-nos cerveja e comida. Sente-se Boutin, um prato quente nos far bem.  
- Aonde voc mandou Fred e Vinh?  
- Esto de guarda na entrada da aldeia. Pensei que assim seria mais prudente.  
- Est certo - disse Boutin, sentando-se.  
O mestio trouxe as bebidas enquanto a mulher punha diante deles uma iguaria apetitosa.  
-  porco laqueado, depois me digam se gostaram - disse o taberneiro.  
Comeram em silncio.  
- A sua sade! - disse Kien, levando o gargalo da garrafa  boca.  
Boutin levantou a sua e bebeu.  
- Conhece Tavernier h muito tempo? - perguntou ele.  
- Desde criana. Meu pai e o dele trabalhavam juntos. Ele  amigo principalmente do meu irmo mais velho. 
Por que me pergunta isso?  
- Por nada. Por causa de Pouchkine, talvez...  
- Pouchkine?  
- O poeta russo que Marchal estava lendo.  
Ele bebeu um grande gole de cerveja. Kien lanou um olhar de interrogao em direo a Dieudonn. "Tudo 
certo", disse este piscando os olhos.  
- Quando pensa que Tavernier deve chegar? - perguntou o legionrio.  
- No antes da noite. Amanh de manh, no mais tardar. 
- Isso no me agrada - disse ele, terminando a cerveja. A garrafa lhe escapou das mos. Quis se levantar, mas 
as pernas bambearam. Ele caiu no cho.  
- Nhanh ln, chng ta di dip!
- Aprecen-se, vamos partir de novo.
 - disse Kien aos companheiros.  
Depois, dirigindo-se a Dieudonn:
- Sabe o que falta fazer?
O mo, o vietnamita e os cortadores de cabeas obedeceram, sem parecer admirados de ver o corpo
inanimado de Boutin. Isso no era da conta deles: era um branco.

Captulo 18

No tnel, com o corpo e a alma gelados, Tavernier e os companheiros aguardavam o fim de um
ciclone. O vento diminua com a escurido. Ao amanhecer, Thvenet acordou para urinar. Pareceu-
lhe que alguma coisa mudara durante a noite. Tateando, dirigiu-se para a sada do tnel, guiado pela 
vaga luz do incio do dia. Nem sombra da sentinela que estava ali desde a vspera. Ele chamou em 
voz baixa:  
- Diem?... Tho?...  
S se ouvia a chuva caindo. Thvenet voltou atrs e sacudiu Franois e Marchal.  
- Acordem, uma das sentinelas desapareceu.  
Eles se ergueram num pulo e pegaram as armas.  
- Thvenet e Marchal, vo para a entrada: eu volto para a sada.  
Nem de um lado nem do outro encontraram os homens deixados vigiando: Tho, Diem e os 
cortadores de cabeas tinham desaparecido, levando armas e vveres. O que mais os admirava era 
estarem os trs ainda vivos.  
- No compreendo por que esses filhos da puta no nos degolaram! - exclamou Thvenet. 
- Certamente  por causa dos espritos - respondeu Tavernier.  
- Espritos?.., O que quer dizer? - perguntou Marchal.  
- Tiveram medo de que, se nos matassem neste lugar aparentemente sagrado, nossos espritos no se 
transformassem em almas errantes e os perseguissem no somente enquanto vivos, mas tambm 
depois de mortos. E disso tm muito medo!  
- Acredita nessas bobagens? - perguntou Thvenet.  
- Eu no; mas eles acreditam! Vejamos o que nos deixaram.  
O inventrio foi feito rapidamente: cada um tinha uma metralhadora, uma pistola, trs granadas e 
punhais. Quanto aos vveres, no restou nem uma migalha.  
- Que safados, estamos em maus lenis! - exclamou Franois, rindo. - Mas no faam essa cara, 
estamos vivos!  
Thvenet lhe lanou um olhar sombrio, e Marchal deu um sorriso velhaco.  
- O que vamos fazer agora? - perguntou ele.  
- Devemos nos juntar de novo a Kien e Boutin em Nghia D. J no temos guia nem comida. No 
podemos seguir sempre na mesma direo, acabaramos chegando  China! - observou Thvenet.  
- Tem razo, no temos escolha - disse Franois, dando o sinal de partida.  
Eles voltaram, no sentido inverso, pelo caminho penosamente percorrido, enganando a fome 
quando podiam acender um cigarro escondidos por um rochedo. Felizmente, gua no lhes faltaria, 
dissera, sarcstico, Marchal bebendo no chapu de feltro. Com toda aquela chuva, nem sonhar em 
fazer funcionar o rdio. A ltima vez que conseguiram um contato, tinha sido antes da travessia do 
rio Rouge; desde ento, nada.  
Quando chegaram a Nghia D, o "restaurante" j fechara as portas e os habitantes estavam 
trancados nas choas. Depois de muita lengalenga por meio de mmica e gestos, Franois conseguiu 
arroz e ch. Requisitaram uma cabana e tentaram, diante de um fogo fraco, aquecer-se novamente e 
secar as roupas. Montaram guarda, cada um por sua vez. No dia seguinte, o tempo 
melhorou, o que fez os moradores sarem das tocas. Thvenet aproveitou para "fazer compras". Tavernier e 
Marchal no lhe perguntaram como encontrara comida. Comeram com muito apetite, sem remorsos.  
Depois da refeio, Marchal decidiu barbear-se e aconselhou os companheiros a fazer o mesmo.  
- Com esta barba e esta sujeira, parecemos bandidos.  
- Em seu lugar, eu no mudaria nada - disse Thvenet.  
-  melhor meter medo nesses caras de limo!  
- Voc  quem sabe.  
Uma hora mais tarde, os trs homens tinham recuperado a pele de recm-nascidos; ou quase...  
- Voc estava com a razo, isso muda um homem - suspirou Thvenet.  
Depois de muitas manipulaes, Marchal conseguiu ligar o rdio.  
- Merda... est confuso...  
- Essas porcarias nunca funcionam.  
- "Aguia de prata" chamando "Aguia negra", fale...  
Ele esperou um momento e repetiu a mensagem:  
- "Aguia de prata" chamando "Aguia negra", fale...  
- Quem foi o idiota que escolheu esses nomes de araque?  
- resmungou Thvenet.  
- Fui eu...  
Como resposta final, s obtiveram uma srie de estalidos, e por fim um barulho de bomba molhada.  
- Sua mquina morreu - disse Thvenet.  
Franois havia se retirado da aldeia para refletir. Em pleno territrio controlado pelos vietcongues, e sem 
notcias de Kien, a situao deles era das piores. Os aldees aparentemente no tinham compreendido suas 
perguntas ou no tinham querido responder- lhes. De qualquer maneira, no poderiam ficar eternamente em 
Nghia D.  
Duas velhas passaram andando rpido, levando cestos empilhados uns sobre os outros. Como estavam 
conversando, no o 
viram. Elas saram do atalho e entraram no bosque. Pouco depois, voltaram de mos vazias. Franois esperou 
que se afastassem para entrar, por sua vez, no mato. Depois de alguns passos, parou, sentindo o cheiro do 
nuoc-mm. Mais alguns passos, e viu, agachado na entrada de uma gruta, um homem comendo uma tigela de 
arroz; vestia um hbito cor de aafro, de monge budista. Um galho se quebrou sob o p de Tavernier.  
- Quem est a?... So vocs, minhas irms? - perguntou o monge num dialeto desconhecido de Franois.  
Sempre falando, ele se virou; no rosto sem nariz nem lbios, semelhantes a uma mscara de couro cozido, 
apenas os olhos rodeados de vermelho brilhavam, vivos. Um leproso.  
- No, sou estrangeiro - disse Franois em vietnamita.  
O leproso largou a tigela e escondeu o rosto atrs da bainha do hbito.  
- Anh Khngphai l ngoi vit nam - disse ele atravs do tecido.  
- Ti l ngoi Php.  
- L lnh ?  
- Khng. Ti di tm vo.  
- Nhiu ngisoi da dn lng; ho cung tm mt ngoi dn b... Dng dn gn!*  
*_ voc no  vietnamita.  
- Sou francs.  
- Soldado?  
- No. Procuro minha mulher.  
- Alguns homens estiveram na aldeia; tambm procuravam uma mulher... No se  
aproxime! 
- Voc fala francs?  
- Um pouco. Aprendi em Hani, com os padres.  
- Sabe o que aconteceu a esses homens?  
- Partiram.  
- Para onde?  
- No sei de nada, e os moradores tambm no, seno as velhas me teriam dito, elas no sabem calar.  
- Sabe se ainda existem postos ocupados por franceses?  
O bonzo estourou de rir. A juventude do riso era surpreendente.  
- Poder encontrar alguns brancos em Lao Cai. Mas esto na regio h tanto tempo que se tornaram mais 
chineses que os da China.  preciso ir at La Chau para encontrar soldados franceses; La Chau  o nico 
lugar que eles ainda controlam... mas no por muito tempo, sem dvida.  
- Como se chega a Lai Chau?  
- Entre Lao Cai a La Chau h em torno de cem quilmetros, em linha reta. H que atravessar numerosas 
montanhas para chegar.  
A partir de certo momento o monge comeou a falar com o rosto descoberto. Ele serviu-se de um pouco de 
ch e bebeu.  
- No teria um pouco para mim? - perguntou Franois.  
O bonzo o fitou longamente com os olhos sanguinolentos e, sem parar de observ-lo, limpou em sua roupa o 
recipiente em que bebera, encheu-o novamente de ch e estendeu-lhe. Franois agradeceu com a cabea e 
esvaziou a taa de uma s vez.  
- No lhe inspiro repugnncia?  
- A lepra no  contagiosa, e j vi coisa pior que a sua doena. Quer um cigarro?  
Eles fumaram alguns instantes em silncio.  
- Posso conduzi-lo, se quiser. Eu fui monge num mosteiro em Phong T. Com meus irmos, amos mendigar 
em La Chau.  
- Voc dizia que os vietcongues controlam tudo.  
- Quase tudo, mas muitas aldeias no reconhecem a autoridade deles; eles obedecem aos chefes de sempre ou 
aos padres e respeitam muito os monges... Pelo menos enquanto no vem que so leprosos.  
- O que fazem ento?  
- Expulsam-nos ou abandonam-nos, como aqui, na orla dos bosques, onde as mulheres nos trazem um pouco 
de comida.  
- Por que faria isso por mim? Pode ser perigoso.  
- Ns bebemos juntos.  
- No estou sozinho, tenho dois companheiros comigo. 
- Confio em voc. Junte os alimentos e roupas e me encontre em dois dias, depois da vinda das velhas.  
Quarenta e oito horas depois Marchal, Thvenet, Tavernier e o monge Nhon deixaram Nghia D. Depois de 
cinco dias difceis, chegaram a Lao Cai, na confluncia dos rios Nam Thi e Rouge, na qual coabitavam 
populaes com lnguas e costumes os mais diversos: thas brancos, mos, yaos, anamitas, chineses se 
misturavam nessa cidade fronteiria, tanto na vila tonquinesa de C Lu, na margem direita do rio, quanto no 
bairro yunans de Ho H'eou, que margeava o rio Nam Thi. Era contudo difcil para eles passar despercebidos, 
no s por sua estatura, muito mais alta que a mdia, como por seu trajar ridculo: uniformes militares cqui, 
tnicas acolchoadas thas, equipamentos de mateiros, fuzis-metralhadoras a tiracolo. Sujos, barbados, estavam 
com cara patibular. A multido se afastava  sua passagem, sem manifestar curiosidade particular; j vira 
coisas mais extraordinrias.  
Em Lao Cai alguns europeus tinham se estabelecido, a maior parte desertores ou encongas, * como se 
dizia. Quase todos viviam de trficos, mais ou menos lucrativos: pio, piastras, prostituio. Outros ainda 
eram gerentes de bares. Foi num desses que os trs franceses entraram, tendo o guia preferido esper-los do 
lado de fora.  
Uma espcie de gigante ruivo ps na mesa pegajosa quatro garrafas de cerveja chinesa, sem dizer uma s 
palavra. Thvenet pegou uma garrafa e abriu-a com o polegar. Uma espuma branca escorreu-lhe ao longo dos 
dedos e do queixo. O ruivo, com uma camiseta imunda, metade de um cigarro nos lbios, os braos cruzados 
sobre a enorme barriga, observava-os beber com ar de desagrado. Os trs homens fingiam que o viam.  
- De onde vocs vm? - acabou ele por perguntar com forte acento alsaciano, gritando para superar o barulho.  
Thvenet fez um sinal dbio, que tanto poderia significar  
"daqui" como "de fora". O outro deu um soco na mesa com o punho enorme. As garrafas vazias balanaram.  
- Quando fao uma pergunta, quero que me respondam! - gritou.  
- Ento, pergunte com delicadeza! - vociferou por sua vez Marchal, em alemo.  
Um largo sorriso iluminou a carranca do bbado. 
- Ich wusse es ia. Ihr seid Legionre? Deserteure? Stimmt's! Hier kommt euch niemand 
holen* - disse ele, sentando-se e fazendo sinal para uma das trs empregadas chinesas de que trouxesse 
bebida.  
- Queremos ir para La Chau - disse Thvenet.  
- O qu?  
- Para La Chau!  
- Para La Chau?... Querem se jogar na boca do lobo! L ningum gosta de gente como ns.  
- No estamos pedindo que gostem - retrucou Marchal.  
- Precisamos ir l. Pode nos ajudar?  
O gigante coou a cabea, com ar de dvida.  
- Seria possvel... Tudo depende de quanto vocs tenham.  perigoso por l.  
- Quanto? - perguntou Tavernier, que ainda no dissera nada.  
- Ser preciso pagar muita gente...  
- Isso  bastante? - disse Franois colocando na mesa um diamante de tamanho respeitvel e de maravilhosa 
pureza.  
Thvenet, Marchal e o dono do bar assobiaram de admirao ao mesmo tempo.  
- De onde tirou isso?! - exclamou Thvenet, apanhando a pedra.  
- Uma herana de famlia - disse Franois, lacnico, retomando-a e colocando-a na na palma da mo estendida 
do gigante.  
- Eu tinha certeza. Vocs so legionrios? Desertores? Admitam! Aqui ningum vir  
procur-los. 
- No  grande coisa,  difcil de vender - resmungou o dono do bar, examinando-a atentamente.  
- Ento passe-a para c. Vou procurar um comprador.  
- No seja bobo, no se deve tratar com esses homens, eles so muito "malandros" para ns.  
- E o monge? - perguntou Marchal em voz baixa. - O que vamos fazer com o monge?  
- Deixa que eu trato disso. O que prope? - perguntou Tavernier, estendendo a mo para o alsaciano.  
Com pesar, este devolveu a pedra.  
- Vou precisar de dois dias para reunir os guias que os levaro a La Chau. Repito: vocs no devem 
ir l...  
- Isso  conosco - interrompeu-o Thvenet.  
- O que eu quis dizer com isso... E problema seu, rapazes.  
- E isso a,  problema nosso. Agora, por esse preo talvez voc pudesse nos arranjar tambm umas 
garotas...  
O ruivo deu uma gargalhada que superou o barulho do bar.  
- Bem lembrado, tenho as melhores garotas do lugar; algumas vindas de Saigon, outras do Camboja 
ou do Laos...  
- Voc no teria uma de Paris ou Marselha? Estou cheio de olhos rasgados! - suspirou Thvenet.  
- Aqui s a minha - disse o gigante coando a cabea. - Mas  um mulhero. Geg! - gritou bem alto.  
No mentira: Geg era uma criatura de formas imponentes, cujas mos, do tamanho de uma p, 
podiam mandar o homem que lhe faltasse com o respeito para o outro lado da sala. Perto dela, o 
ruivo parecia ter uma estatura normal, e os outros trs europeus, embora altos e fortes, pareciam 
franzinos.  
Thvenet a devorava com os olhos.  
- Senhora... - disse ele levantando-se.  
- Voc me chamou - perguntou ela a seu homem, sem olhar para o legionrio, colocando o 
impressionante traseiro modelado no cetim vermelho num tamborete, que estalou sob o peso.  
- Sim, minha franguinha. Nosso amigo est farto de mulheres pequenas.  
- E da? - perguntou ela com voz rouca. 
- Voc talvez pudesse abrir uma exceo. Estamos negociando esses senhores e eu.  
A mulher observou longamente Thvenet com os pequenos olhos azuis afundados na gordura de um rosto de 
pele clara. Os grossos lbios pintados mostraram desdm.  
- No  dos piores... mas  s para lhe fazer um favor!  
- Voc  uma boa garota, eu sabia que podia contar com voc.  
Ela se levantou, os enormes seios brancos balanaram e, quando se afastou, requebrando o enorme traseiro, 
Thvenet foi atrs dela, fascinado. Os companheiros seguiram com os olhos a libertina. Por que caminhos 
viera parar nesse fim de mundo?  
-  bonita minha mulher, hem? - disse o dono do bar com uma convico infantil.  
Tavernier e Marchal reprimiram um sorriso e concordaram com ele.  
A grande sala do bar, com paredes de tbuas e de taipa, no se esvaziava. Era preciso gritar para se fazer 
ouvir, mas isso no atrapalhava em nada os que bebiam ou tomavam sopa, menos ainda os que jogavam 
mahjong, que derrubavam com estrondo as pedras sobre as mesas. Depois dos dias de solido e do silncio 
to particular da floresta, Marchal e Tavernier ficavam completamente atordoados por essa confuso 
ensurdecedora.  
- No poderamos encontrar lugar mais calmo? - gritou Franois.  
- Voc tem razo, no se pode conversar, aqui. Venham!  
Atravessaram o estabelecimento evitando as crianas e os cachorros, que circulavam entre as mesas. Passaram 
pelo que devia ser a cozinha, escorregando num cho cheio de detritos, aspirando uma mistura de fortes 
odores de peixe e carnes e do estonteante cheiro de incenso queimado diante de um altar suspenso sobre um 
antigo forno. Chegaram a um beco sombrio, lugar ideal para uma emboscada. Ouviu-se o rudo caracterstico 
de uma arma sendo engatilhada.  
- Est tudo bem - rapazes, disse o ruivo, parando diante 
de uma espessa porta de teca, que ele abriu com a ajuda de uma chave de tamanho respeitvel.  
Riscou um fsforo. A pequena chama iluminou uma lamparina a leo colocada sobre um console; ele a 
acendeu.  
- Vocs esto admirados, hem? - disse ele vendo a cara embasbacada dos outros. -  o meu tesouro de guerra.  
Havia l no apenas todo o necessrio para sustentar um cerco de muitos meses como tambm uma 
quantidade de arte chinesa e cambojiana capaz de abastecer todos os grandes antiqurios especializados de 
Paris, Londres e Nova York. Eram budas, mveis, caixas, biombos, peas de seda bordada, porcelanas em 
profuso, algumas peas com mais de mil anos de idade.  
- Que beleza! - exclamou Marchal, pegando uma delicada estatueta de jade.  
- Voc tem bom gosto - disse o gigante, tirando-a de suas mos. - Ela data da dinastia Dinh, que reinou no 
Annam e no Tonquin no sculo X. Tenho peas mais antigas ainda, de antes da dominao chinesa: duzentos 
e cinqenta anos antes de Cristo!  
Estupefatos, Tavernier e Marchal se entreolharam. Decididamente a Indochina reservava muitas surpresas. 
Mais um pouco, o alsaciano lhes teria dado um curso sobre arte do Extremo- Oriente!  
- Sigam-me, mas com cuidado de no esbarrar em nada - disse ele.  
Eles se esgueiraram pela estreita passagem no meio do tesouro. Pararam diante de uma parede em que estava 
pendurado um pesado tapete chins, que o ruivo afastou. A porta em frente  qual se encontravam parecia a de 
um cofre-forte.  
-  muito imprudente vir aqui sozinho, com pessoas que voc no conhece e que esto armadas. Poderia ser 
atacado por malfeitores - disse Franois.  
- Conheo os homens e, alm do mais, no estou sozinho.  
A um sinal se ergueram do depsito cinco ou seis indivduos, cuja fisionomia, por si s, bastava para inspirar 
temor. E apontaram para eles canos de fuzis. 
- Como vem, no tenho nada a temer...  
Fez um novo gesto, as armas foram abaixadas e os guardas desapareceram.  
O cmodo em que penetraram parecia, por contraste, vazio. Mas era apenas uma iluso. Os objetos 
mais raros do estranho colecionador estavam ali reunidos. Seus traos rudes pareciam refinar-se em 
contato com tantas belezas e objetos antigos. As mos grossas tinham delicadezas imprevisveis 
para apanhar tal ou qual objeto precioso.  
- Sentem-se - disse ele. -A calma desse lugar lhes agrada?  
- Perto do barulho do bar,  at calmo demais - respondeu Franois no mesmo tom irnico, 
sentando-se.  
- Vocs no sabem o que querem, s vezes h barulho de mais, s vezes de menos...  
- Para mim est timo. Podemos contar com voc, para La Chau?  
- No haver problema. Ainda tenho dois ou trs amigos na Legio; com meus guias eles marcaro a 
estrada at La Chau. Apesar dos vietcongues, a expedio no dever ter verdadeiramente 
dificuldades.  na aldeia que vocs as tero!  
- J entendemos bem, mas, repetimos, o problema  nosso  
- resmungou Marchal.  
- Nesse caso, no tenho mais nada para dizer. Durante as quarenta e oito horas que preciso para 
organizar a viagem de vocs, evitem aparecer; o lugar est infestado de espies, tanto comunistas 
quanto americanos. Mediante um pequeno aumento, posso conseguir um lugar seguro para os trs.  
- No acha que est sendo guloso demais? - replicou Franois.  
- Tudo tem um preo hoje em dia...  
- Voc vai ser obrigado a nos dar crdito e esperar que eu volte a Saigon para lhe pagar o 
suplemento.  
Perplexo, depois suspeitoso, o alsaciano coou a cabea.  
- No entendo mais nada: voc fala de ir para Lai Chau, e agora  Saigon... Quem voc ?... No  
da Legio!... Eu me enganei... Quem  voc?... E seus amigos? Quem so?... 
- So legionrios, no desertaram. Esto... digamos, em misso, como eu.  
As plpebras do gigante piscaram, rpidas; ele fez um movimento em direo  porta.  
- No se mexa - disse firmemente Marchal, com a mo no punhal. - Voc no tem nada a temer de 
ns. Assim que o deixarmos, esqueceremos voc e tudo isso... No , companheiro?  
- Completamente - aprovou Franois. - O que decide? Voc nos d o crdito ou chama os guardas?... 
Ah, ia me esquecendo: seria melhor no nos acontecer nada; lembro a voc que nosso companheiro 
est com sua mulher, e de ns trs ele  o pior.  
O colosso encolheu os ombros, pegou num aparador uma garrafa de conhaque e trs copos:  
- Brindemos ao nosso negcio. Bebam, vo me dizer o que acharam dele, esse no  ordinrio.  
-  verdade, ele  bom - resmungou Marchal com ar de conhecedor.  
- S falta um charuto para que a felicidade seja completa  
- suspirou Tavernier.  
Ele abriu uma caixa diante deles.  
Vendo-os preparar os charutos, cada um  sua maneira, poder-se-ia crer estar na sala de fumar de 
algum clube londrino. Por um bom momento, esses homens to diferentes se uniram na volpia do 
tabaco.  
- Tenho certeza de que os havanas de Batista no valem os meus birmaneses - afirmou o alsaciano.  
Onde o dono do bar de Lao Cai ouvira falar do poltico cubano que um golpe de Estado, em maro 
de 1952, tornara senhor da ilha? "S na Indochina se podem encontrar pessoas assim", pensava 
Franois, fumando com satisfao o charuto.  
Com as pernas esticadas, confortavelmente instalados em  
poltronas incrustadas de pedrarias, os trs fumantes desfrutavam de uma doce beatitude. Marchal 
foi o primeiro a voltar  terra.  
- Obrigado... Por alguns instantes esquecemos, graas a voc, a grande confuso em que estamos 
metidos. Voc tem um mapa do local?  
- Devo ter - disse o hospedeiro com voz calma, remexendo numa pilha de papis colocados num 
cofre de madeira dourada. - Vejam... No se pode confiar muito nele, pois  de antes da ocupao 
japonesa; depois disso, muitas estradas tornaram- se impraticveis, muitas pontes desapareceram. O 
pior aconteceu com a do rio Rouge, a qual os vietcongues explodiram depois da incurso relmpago 
dos soldados de Bao Dai;  preciso atravessar o rio de noite, de barco.  
Ele abriu o mapa e o estendeu sobre o cofre. Com um dedo, mostrou uma aldeia:  
-  melhor passar por Phong Th que por Cha Pa,  qual se chega, em tempo normal, em sete ou 
oito horas, segundo os guias. Phong Th  uma sede de diviso administrativa do canto, com um 
posto militar.  uma regio muito vasta, povoada por thas brancos e negros, yais, yaos, miaos, 
wou-nis e chineses. No falam vietnamita, s os dialetos prximos do laociano, do tha ou do 
chins.  
- Fcil para conversar! - comentou Marchal, fazendo um anel de fumaa perfeito.  
- Alguns arriscam algumas palavras em francs, e eu algumas palavras de seus diferentes dialetos. 
Acabamos por nos entender. Se chegarmos a Phong Th sem problemas, continuaremos a viagem 
por gua at Bac Tan. Vai ser preciso ter pacincia, o trajeto dura quinze horas, se tudo correr bem, 
e mais de vinte, caso contrrio. E isso no  nada, perto do que os espera para chegar a Moeung 
Lai...  
- No estou vendo esse nome no mapa - observou Marchal. -  
-  natural,  o nome laociano de La Chau. Ento, em Moeung... quer dizer, em La Chau, toma-se 
uma grande canoa, e em dois ou trs dias chegaremos. 
- Que expedio! - disse Tavernier, empurrando o mapa.  
- Ao menos temos certeza de que La Chau ainda est em mos francesas?  
- H dez dias, fui chamado pelo rdio, por um suboficial amigo meu; ele me disse que, no momento, 
est tudo calmo, mas na sua opinio isso no vai durar muito tempo; desde do armistcio de junho 
com a Coria, os americanos intensificaram a ajuda  Frana. Estaria sendo articulada, segundo ele, 
a instalao de uma base aeroterrestre em Dim Bin Phu, reocupando o vale, ao mesmo tempo para 
conservar o pas tha e La Chau, e para fechar a estrada entre o Laos e o territrio dos vietcongues.  
-  o general Navarre ou o governo francs que est na origem dessa idia to interessante? - 
perguntou Franois.  
- No sei nada sobre isso, e meu amigo tambm no. S h um desejo: sair de l com os thas que 
esto com eles. Mas voltemos ao que nos interessa: vocs sero deixados a dois ou trs quilmetros 
a montante de La Chau. L, na beira da estrada, encontraro quatro casebres e depois um bar. 
Entraro nele.  administrado por um velho que trabalhava na estrada de ferro de Yuncan. No h 
ningum melhor para lhes contar a construo dos quatrocentos e sessenta e cinco quilmetros de 
estrada entre Lao Cai e Yunnan Fou, na China, suas trs mil cento e cinqenta pontes e viadutos, 
seus cento e cinqenta e cinco tneis. Uma epopia! Milhares e milhares de anamitas foram mortos 
na construo, sem contar os brancos, tanto engenheiros quanto operrios. De cara o reconhecero: 
 um velho pequeno, seco, enfezado. A fora de viver l, passou a parecer-se com os nativos. Veste-
se como eles, sem contar um gorro basco que j no tem cor. Vocs lhe diro que vm da parte de 
Valre. Ele lhes dar uma ajuda; somos amigos.  
- E, como se chama? - perguntou Marchal.  
-  chamado o Basco, sem dvida por causa do gorro.  
Eles reencontraram um Thvenet com olhos cheios de reconhecimento. 
- Que mulher! Essa  uma mulher! - exclamou ele, vendo-os entrar no boteco do alsaciano.  
- Estamos muito contentes por voc, meu velho - disse Tavernier. - No vi o monge na entrada. Sabe o que 
aconteceu?  
- No sei de nada, acabo de descer. Voc sabe, a mulher ficou minha amiga, aceitou nos alojar por esta noite. 
O que lhes parece?...  uma boa idia!  
Valre, que desaparecera no bar, foi at eles, com ar visivelmente admirado. Expulsou de uma mesa uma 
famlia de chineses e fez sinal aos trs homens para se sentarem. Um criado trouxe garrafas de cerveja. Ele 
bebeu no gargalo, os olhos fixos em Thvenet. Arrotou:  
- No sei o que voc fez com ela, a patroa... Ela me disse que voc e seus amigos so seus convidados... Isso 
no parece coisa dela. Um gesto de despedida, sem dvida...  
Thvenet baixou a cabea, fingindo modstia, enquanto Tavernier e Marchal quase no conseguiam manter-
se srios.  
Eles passaram uma parte da noite bebendo com Geg, que veio ficar em sua companhia. Ela foi a ltima, 
Marchal, a se sentar. Alguns instantes depois, roncava profundamente, como os outros, arriada sobre a mesa.  
- No sabem beber - resmungou em russo o legionrio antes de cair tambm, depois de um ltimo copo.  
No dia seguinte, todos estavam com a famosa ressaca, que tentaram curar com a ajuda de sopa chinesa e 
novas doses de cerveja.  
Durante a tarde, Marchal e Tavernier percorreram as ruas e ruelas de Lao Cai perguntando pelo monge 
Nhon, enquanto Thvenet era requisitado por Geg para o prosseguimento dos jogos amorosos. Lao Cai no 
tinha nada de uma povoao vietnamita: era muito mais uma grande aldeia chinesa, com seu mercado 
flutuante, suas tabuletas vermelhas com caracteres pretos ondulando nas fachadas das casas, na maior parte 
em mau estado. O cheiro das especiarias e de peixe seco chegavam a suplantar o da sujeira e das latrinas a cu 
aberto. Observadores 
atentos poderiam identificar as diferentes etnias pela forma de um colar, pelo desenho de um bordado, pelas 
jias das mulheres, pelo penteado. Agachados diante das bandejas onde o ch era servido, homens e algumas 
velhas fumavam enormes cachimbos de bambu.  
Nenhum sinal de Nhon, muito menos de monges budistas. Eles foram a um templo em que as nicas pessoas 
presentes eram mulheres queimando bastes de incenso diante das esttuas de Confcio e de seus discpulos. 
Nem sombra de roupa aafro, porm.  
- No fiquemos muito aqui - disse Franois. - J comeam a nos observar com olhar esquisito.  
Assim que eles retornaram a seu estabelecimento, Valre lhes disse:  
- Encontrei para vocs um quarto no Hotel do Comrcio:  
conforto oriental garantido, baratas includas. O dono, um chins,  um amigo. Em princpio, vocs no 
correm nenhum perigo; entretanto, fiquem com uma arma ao alcance da mo. Partiro amanh, ao amanhecer. 
No dever chover; nesta estao, j no h tantas tempestades. Ainda est com o diamante? - perguntou ele a 
Franois.  
- Quer v-lo?  
- No, no  preciso. A propsito, sou eu quem vai acompanh-los amanh, com meu criado tha, ele conhece 
todos os caminhos da montanha.  
- Ontem voc nos disse que nos arranjaria guias. Hoje...  
- Eu pensei melhor. Achei que quanto menos gente souber do assunto melhor ser - disse, interrompendo 
Marchal.  
- Isso no me agrada, essas mudanas de ltima hora - resmungou o legionrio.  
- H muita agitao para os lados de La Chau; os thas no querem ficar entre os vietcongues e os franceses. 
Pode-se compreend-los...  
- Certo - aprovou Franois. - Mas no d para entender muito bem a sua atitude... Espero que saiba o que est 
fazendo e jogue honestamente, seno... 
- No lugar de vocs eu tambm ficaria desconfiado... Mas  
pensem: se eu quisesse roub-los, teria feito ontem, quando vocs  
estavam completamente embriagados.  
Franois ps a mo no bolso o apalpou-o e tirou a pequena  
bolsa de couro em que guardara a pedra preciosa; abriu-a: ainda  
estava l.  
- J falamos demais, a patroa nos espera para jantar. E ela  
no gosta de esperar!  

Captulo 19

Quanto tempo La ficara inconsciente, com a cabea quebrada nos degraus do pagode? Foi uma
tropa de soldados do exrcito regular vietcongue que a encontrou.
- O ki... Dy l b dm da gip chng ta o H-Ni, ban cua Nhu-Mai dy m.
- Anh chc kng?  
- Chc, du b bi cau nhu mt ni-c, nhung dng l b ta. Nhin kia b ta c3n sng!*  
 - Mas...  a francesa que nos ajudou em Hani, a amiga de Nhu-Mai.  
- Tem certeza?  
- Tenho. Est de cabea raspada como uma monja, mas  ela. Veja, est viva! 
La se mexera e abrira os olhos. Os soldados fizeram uma  
maca de hastes de bambu e voltaram para o acampamento. L,  
um mdico vietnamita tratou dela.  
- Perdeu muito sangue - disse ele em francs, como falando para si mesmo.  
- Dng-chbc-si, phi cu b ta: b dagip chng ti, NhuMai, Khiu em ti, v chinh ti.  
- Ti se c ht sc. Anh bao b v Nhu-Mai quen nhau ? Haygoic ta dn.*  
*_ Camarada mdico,  preciso salv-la: ela ajudou Nhu-Mai, minha irm Khiu e a mim.  
- Farei tudo que estiver ao meu alcance. Voc diz que ela e Nhu-Mai se conhecem? V procur-la.  
Na caverna que servia de centro cirrgico, o mdico Thach examinou as feridas da jovem mulher. Tinha uma 
fratura no crnio. Ele terminava o curativo quando Nhu-Mai entrou.  
- Dng-ch bc-si cho goi ti?  
- Vng, c c bit ngui bi thuong ny khng?**  
- Voc me chamou, camarada mdico?  
- Sim. Voc conhece esta mulher ferida? 

Sem acreditar, Nhu-Mai enxugou a testa e exclamou em francs:  
- No, no  possvel!... La!...  La!  
- Eu a encarrego de tomar conta dela.  
-  preciso avisar tio H.  
- Por qu?  
- Ele a conhece; os franceses a enviaram a ele, h alguns meses.  
Avisado, H Chin Minh quis saber notcias dela todos os dias. As feridas cicatrizavam, mas ela ainda no 
recobrara a conscincia.  
Com pacincia infinita, Nhu-Mai a alimentava como a uma criana. De noite ia buscar o violino e tocava uma 
msica para faz-la dormir. Ela disse ao doutor Thach:  
- Quando toco, parece que seu rosto se acalma e ela me ouve.  
De fato, mais tarde, La lhe confessaria:  
- Do lugar sombrio e longnquo onde eu estava, esperava o momento em que voc ia tocar. Desde as primeiras 
notas, eu ficava como inundada de luz. Quanto mais voc tocava, mais eu ficava cheia de alegria. Voc me 
falava, pedia que ficasse com voc, que no fosse juntar-me aos meus ancestrais. Eu tentava dizer  
que no queria nada; mas eles me chamavam fortemente assim que voc parava de tocar... Todos os que 
conheci, amei e esto mortos me chamavam. Havia meu pai, minha me, minha irm caula, Laura, meu tio 
Adrien, Mathias... Eu os ouvia dizer: "Venha juntar-se a ns. Aqui onde estamos no h medo nem 
sofrimento; h o nada. E aqui que moramos agora. Venha..." Eu lutava, chamava Franois e as crianas, mas 
eles no respondiam... Ento pensava: "Por que no juntar-me a eles?..." Mas havia a sua msica... Oh, como 
ela cuidava bem de mim! Ela dizia para mim: "Oua, a vida  bela, s voc pode conserv-la..." Eu tentava, 
tentava com todas as minhas foras...  
Um dia ela reabriu os olhos e murmurou:  
- Nhu-Mai...  
A violinista correu para sua cabeceira e, com o rosto molhado de lgrimas, cobriu-lhe de beijos as mos 
emagrecidas. O mdico Pham Ngoc Thach entrou nesse momento. Nhu-Mai correu para ele, inclinando-se 
numerosas vezes em lai profundos.  
- Camarada mdico, ela est curada. Voc a salvou!  
- No, Nhu-Mai, foi voc, com seu amor.  
No dia seguinte, La foi conduzida para um casebre espaoso, bem dissimulado na floresta. Deitaram-na 
numa cama de madeira. Ela comeu um pouco de arroz e carne, bebeu ch e adormeceu.  
Todo dia o doutor Thach ia examin-la; ele estava muito orgulhoso dos progressos da paciente.  
- Logo as cicatrizes j no sero visveis, e o cabelo logo voltar a crescer. Mas  preciso repousar. A senhora 
foi ferida gravemente, e seu esprito tambm foi atingido. Vai precisar de tempo para que essas feridas se 
fechem.  
La estremeceu e ficou muito plida.  
- O que a senhora tem? Sente-se mal?  
- No - disse La sacudindo a cabea, enquanto as lgrimas corriam-lhe pela face.  
- Pobre jovem - murmurou o mdico. 
Um dia ela lhe perguntou:  
- Pareceu-me que um mdico francs veio me auscultar Sonhei?  
- No, a senhora no sonhou. Um de meus antigos colegas do hospital Laenec clinicava em Vit Tri. Eu lhe 
pedi que viesse, o que fez apesar dos aborrecimentos que isso lhe trouxe.  
- Por que teve aborrecimentos?  
- O alto-comando francs o interrogou longamente sobre as circunstncias de seu seqestro.  
- O senhor o tinha seqestrado!  
- No, mas combinamos diz-lo.  
- Ento, ele no disse a meus compatriotas que foi de mim que cuidou?  
- No, seria muito perigoso para ns.  
- Meu marido deve estar pensando que morri!...  
- Acalme-se. Daqui a alguns dias lhe mandaremos uma mensagem, para que saiba que a senhora est viva.  
-  verdade? Promete?  
- Prometo, pela sade dos meus filhos.  
La fechou os olhos, tranqilizada. O doutor Thach lhe havia falado da filha, Colette, do filho, Alain, que lhe 
faziam muita falta, da mulher, Marie Louise, uma enfermeira que ele conhecera antes da guerra, na Frana, no 
sanatrio de Hautevilie. Estava sozinha com os filhos, na rua Chasseloup-Laubat. Ele renunciara ao prspero 
consultrio,  clientela de franceses e ricos vietnamitas, para se juntar  revoluo. Depois da expulso dos 
franceses pelos japoneses em 9 de maro de 1945, fora designado pelo comit regional do partido do Nam 
Bo* para organizar o movimento dos jovens, que tomou ento o nome de Juventude de Vanguarda. No ms 
de agosto do mesmo ano, foi designado ministro da Sade pelo presidente H Chin Minh. Em 1947, recebeu 
ordens de se infiltrar em Hani, onde conheceu a clandestinidade. Sempre clandestino, voltou a Saigon com 
presidente do comit administrativo de resistncia da zona especial de Saigon. No incio de 1953, juntou-se  guerrilha doVit Bac* na qualidade de chefe da comisso 
de 
Sade do partido, encarregado mais particularmente da sade de H Chin Minh e dos membros do Comit 
Central. L, amado e estimado por todos, realizou uma obra notvel, ensinando a jovens mdicos as 
dificuldades de trabalhar na floresta e nos hospitais subterrneos.  
O rudo de uma mquina de escrever e o odor aucarado de um cigarro americano a acordaram. J era noite. 
Iluminado por um lampio protegido do vento, um homem sentado de pernas dobradas e joelhos afastados, 
com uma coberta jogada nos ombros, cigarro nos lbios, batia no teclado. La o reconheceu. Percebendo-lhe o 
olhar, o homem interrompeu o trabalho e virou-se.  
- Perdoe-me, eu a acordei.  
- No. Por que eu estou aqui, senhor presidente?  
- Chame-me tio H, todos aqui me chamam assim... Voc dormia. No queria acord-la. Aproveitei para 
trabalhar. Sua cabea raspada lhe d um ar de jovem rapazinho...  
La levou a mo  cabea. Os dedos seguiram o traado da cicatriz. Ela fez uma careta; ainda estava dolorida. 
Uma ligeira penugem comeava, entretanto, a brotar.  
- Devo estar horrorosa...  
- No fique preocupada. Logo estar novamente com seus cabelos. Est precisando principalmente de repouso 
e boa alimentao.  
La se estendeu na esteira, puxando a coberta sobre si. Ficou um bom momento de olhos abertos; depois, 
insensivelmente, adormeceu. H Chin Minh no retomara o trabalho; observava-a dormir.  
Ela lhe recordava aquela jovem militante francesa que ele amara, em Paris, nos anos 20. Como o tempo 
passara! Ele revia as tardes de inverno passadas na biblioteca Sainte-Genevive, as manhs de primavera no 
Jardim do Luxembourg, a ler Zola ou  
bus. Ela no quisera segui-lo  Unio Sovitica, dizendo que havia muito trabalho a fazer pelos proletrios 
franceses. Ele quase renunciara a participar da "revoluo mundial" para ficar perto dela. Mas, em 13 de 
junho de 1923, partira clandestinamente para a URSS a chamado do Komintern.*  
Ainda dormindo, La se mexeu. H Chin Minh se aproximou, cobriu-a. Nunca mais, depois de Maria, ele 
tivera intimidade real com uma mulher. As militantes moscovitas eram na maior parte muito grandes, 
assustadoras. E, alm disso, ele tinha tanto que fazer!  
Na China, para onde Moscou o enviara para participar da  
revoluo e, principalmente, organizar o movimento comunista  
vietnamita ele se casara em 1926 com uma jovem chinesa, Tang Tuyet Minh. Minh era parteira e membro do 
Partido Comunista Chins. A unio s durara um ano; desde ento, nunca mais a vira. Em Canto, ele ajudara 
na formao de jovens rapazes vindos do Vietn, entre os quais o fiel Pham Van Dong, Tran Phu, Ngo Gia 
Thu e tantos outros que retornaram  Indochina para fundar as clulas clandestinas e difundir o jornal Thanh 
Nien ,* * proibido pela polcia colonial.  
At a guerra ele teve notcias de Maria; soubera com desgosto de seu casamento com um sindicalista da CGT. 
Durante sua temporada na Frana, no vero de 1946, ele pedira aos amigos Lucie e Raymond Aubrac que se 
encontrassem com ela. Soubera com tristeza que tinha morrido quando deportada para Ravensbrck.  
Diante de La adormecida, ele se lembrava tambm de Rose, a bonita costureira que o defendia das 
brincadeiras dos camaradas militantes, aos quais o jovem exilado censurava por falar demais e fazer pouco; 
ele sorriu pensando nas propostas ingnuas daqula poca:                 "Todas essas polmicas me fazem mal  cabea, 
pois me esforo para compreender o essencial... 'No discutam  
Victor Hugo, as doces noites de vero em que a Guarda Republicana tocava no quiosque... As 
garotas coravam com o olhar febril do jovem frgil e pobre que ele era naquela poca. A vida era 
dura nessa Paris do ps-guerra. Freqentemente, para sobreviver, ele tinha de entrar na fila, em 
companhia de outros na misria, diante dos locais da sopa dos pobres. Ali conhecera a solidariedade 
dos expatriados: um amigo tunisiano aceitara dividir a modesta habitao, no dcimo terceiro 
distrito. Chamava-se ento Nguyen Ai Quc, e esperava que seus documentos fossem acertados. 
Michel Zecchini, membro do Partido Socialista, fora encarregado de cuidar dele, de procurar uma 
residncia para ele at conseguir uma licena para trabalhar. No foi fcil alojar um anamita em 
situao irregular. Zecchini lhe encontrara um cmodo desconfortvel no primeiro andar do 9, Beco 
Compoint, no dcimo stimo distrito. Instalara ali um ateli de retoques fotogrficos, mas pintava 
principalmente tabuletas para os comerciantes do bairro. Freqentemente cozinhava para os 
camaradas, num aquecedor a carvo usado para calefao de algum quarto. Mas isso era quando ele 
tinha algum dinheiro; se no, comia-se salsicha, batata frita e vinho tinto. J fumava muito. Vtima 
de uma pneumonia, fora internado no hospital Cochin, onde o amigo e jornalista Babut o visitava 
quase todo dia. Outros, os escritores Phn Chu Trinh e Phan Van Truong, assim como Marius 
Moutet, iam v-lo. Quando saiu, consagrara mais tempo a seus artigos no Humanit ou no Paria, 
la tribune du proltariat colonial.  
Desde a publicao de seu primeiro artigo no Humanit, de 18 de junho de 1919, a polcia francesa 
se interessou pelo jovem. Um espio anamita conseguira infiltrar-se no pequeno grupo e enviava 
regularmente  Segurana Nacional relatrios que ele assinava com o nome "Jean".  
Encontrou Marie Brire nessa poca. Ela trabalhava numa confeco e tinha dezoito anos; ele trinta. 
A paixo fora mtua. Nunca o futuro H Chin Minh se esqueceria desse primeiro amor. Ele a revia, 
magra e bela, danando com os camaradas socialistas numa pequena boate s margens do Mame, 
lembrava-se dos passeios de barco, dos retornos a Paris no ltimo ni  
tanto. Vocs todos so socialistas. Todos esto resolvidos a lutar pela libertao da classe operria. Ento, II 
ou III Internacional, no d tudo no mesmo? Pouco importa qual vocs escolhem; o importante,  que se 
unam, fiquem juntos. Enquanto discutem aqui, em meu pas meus compatriotas continuam sendo oprimidos."  
Um dia em que estava novamente aborrecido com o "batepapo" dos amigos, Rose lhe dissera delicadamente:  
-  difcil explicar porque voc  novo; mas tenho certeza de que compreender mais tarde a razo por que 
temos tanta necessidade de discutir;  to importante para o futuro da classe operria...  
A pequena costureira estava com a razo. Mais tarde ele compreenderia a importncia, para os oprimidos, de 
poder enfim exprimir-se, livres para dizer e repetir as mesmas coisas. O que teriam pensado os camaradas do 
partido se ele houvesse confessado ter adquirido esses princpios de uma simples operria francesa?  
La gemeu e se agitou. H Chin Minh se aproximou; lgrimas umedeciam a face da jovem mulher. Ele ia 
despert-la para arranc-la do pesadelo quando seus gemidos cessaram. Seu sono tornou-se calmo.  
Logo que estivesse restabelecida, mand-la-ia para perto dos seus. Ele acendeu um cigarro e saiu.  
Graas aos cuidados do doutor Thach e  presena de Nhu-Mai, La logo foi capaz de levantar e participar 
da vida do campo. Uma noite, eles tiveram de fugir com urgncia: uma centena de soldados franceses os 
ameaavam de cerco. Com o corao disparado, La tentou fugir para encontrar-se com eles. Nhu-Mai jogou-
a ao cho e amarrou-lhe os pulsos.  
- No faa isso outra vez, seno serei obrigada a mat-la.  
- Voc seria capaz de me matar? - perguntou ela.  
- Sem nenhuma hesitao, caso achasse que voc iria nos trair. 
- Sou sua amiga e gosto de voc, mas nossa luta  mais importante que uma vida humana, mesmo a sua... e no 
entanto eu daria a minha por voc!  
La sentiu que Nhu-Mai dizia a verdade e se deixou amordaar sem resistncia.  
Tudo fora previsto para uma evacuao rpida. Depois de uma marcha difcil de algumas horas, que ela fez 
deitada numa maca, La teve a surpresa de descobrir dezenas de caminhes militares cobertos de galhos, nos 
quais subiram os soldados vietcongues.  
- De onde vm esses veculos? - perguntou La a NhuMai assim que esta lhe tirou a mordaa.  
- So caminhes chineses.  
- Aonde vamos?  
- No sei. Quer um pouco de arroz?  
- No.  
- Ento, durma. A viagem  capaz de ser longa.  
E foi longa, efetivamente, e cheia de solavancos. Tendo terminado a estao das chuvas, nuvens de poeira 
envolviam o comboio; de avio, teria sido fcil seguir-lhe o rastro. Ao fim de trs dias e trs noites por 
estradas e caminhos intransitveis, a caravana parou.  
- Xung di chng ta dang o bn Lo 
- Desam, estamos no Laos. 
- disse um soldado abaixando a grade do caminho.  
La saltou desajeitadamente, com as pernas entorpecidas.  
- O que ele disse? - perguntou a Nhu-Mai.  
- Que estamos no Laos.  
- No Laos?... Para fazer o qu?...  
Nhu-Mai caiu na gargalhada.  
- Lutar, com certeza!  
- No estou compreendendo nada. Eu achava que o presidente H Chin Minh iria me soltar... ele me 
prometera!  
- Isso, sem dvida, no pode ser feito agora; mas ele cumprir a palavra. 
- Eu achava que voc era minha amiga, que gostava de mim! 
Desanimada, La atirou-se ao cho. Sob um chapu de folhas de palmeira, vestida com o uniforme negro dos 
combatentes, calada com as mesmas sandlias de borracha, os braos e o rosto queimados de sol, parecia a 
irm mais velha de NhuMai.  
- O que h, La, est sentindo alguma coisa? - inquietou- se o doutor Thach.  
- Quero voltar para casa, estou cheia de tudo! Quero ver meus filhos!  
O mdico mostrou um sorriso cansado e ajudou-a a levantar-se.  
- Seja corajosa. Logo estar junto dos seus; o tio H lhe prometeu.  
A base, na fronteira com o Laos, era ao mesmo tempo campo de treinamento e centro de repouso para os 
feridos. Uma fbrica de armamento e uma impressora de textos de propaganda funcionavam ali dia e noite. La 
assistiu aos cursos de doutrinao comunista ministrados aos jovens militantes; eram dados em vietamita, e 
Nhu-Mai os traduzia. Tudo isso era muito aborrecido, e ela mal conseguia manter os olhos abertos, apesar das 
cotoveladas da amiga. As noites, em compensao, eram passadas mais agradavelmente com cantos, danas, 
exerccios de caligrafia chinesa para aqueles e aquelas que quisessem aprender, ou de vit v dao, no qual 
La se superava, para grande admirao de Nhu-Mai e a despeito das advertncias do doutor Thach, que temia 
por seus ferimentos. O que mais a surpreendia eram os cursos de literatura dados pelo professor Hoang Thieu 
Son, que conseguiu interessar ao auditrio falando-lhe de Dostoievski, Montaigne, Shakespeare, Goethe ou... 
Franois Mauriac. Quando La lhe disse ter encontrado muitas vezes o escritor, e que morava muito perto da 
casa dele, o professor no parou mais de fazer perguntas sobre o homem, a obra, a regio de Bordeaux, 
Malagar, que ele sonhava conhecer. Era capaz de recitar de memria pginas inteiras daquele a quem 
considerava o mais francs dos autores contemporneos. Para La essas sees eram ao mesmo tempo 
momento de esquecimento 
do cotidiano e tormento; as perguntas do professor Son lhe lembravam muito instantes felizes e infelizes. Ele 
queria saber tudo sobre a guerra na Frana: Como os franceses se haviam comportado em face do ocupante? 
Como fora organizada a Resistncia? Haviam sido denunciados muitos traidores? O que acontecera a eles? Ele 
no esquecia nunca de fazer comparaes entre a guerra de libertao de seu pas e a que tivera lugar na 
Frana ocupada...  
Uma manh de chuva e vento, os caminhes vieram buscar La e uma centena de b di* para reconduzi-los 
ao Vietn, sem que nenhuma explicao lhes fosse dada. Atravessaram o rio Noire em Van Yn, onde as 
barcaas os transportaram de uma margem  outra. A viagem foi extenuante no s por causa das estradas 
intransitveis, dos caminhes que derrapavam ou viravam e era preciso reerguer, molhados e gelados at os 
ossos, mas tambm por causa dos grupos de resistncia anticomunistas e dos franceses, que por meio de 
pequenos comandos atacavam os retardatrios e desapareciam para ressurgir mais adiante. La pedia aos cus 
que os soldados metropolitanos lanassem uma ofensiva e viessem libert-la. Quando o comboio parava, 
amarravam-na cuidadosamente, o que a deixava louca de raiva.  
"Aonde pensam que eu vou, com estas sandlias aos pedaos, neste pas de lamaais e de animais ferozes, 
sem alimentos, nem armas, nem nada?" Ela se apiedava de si prpria e se virava para que no a vissem chorar. 
Nhu-Mai tentava aliviar-lhe o estado encontrando-lhe, sempre que possvel, algo com que se lavar. Era com a 
falta de higiene, com a sujeira que La sofria mais. No se acostumava  imundcie, aos odores e, 
principalmente, s sesses coletivas de despiolhamento.  
- E nojento! - exclamou ela na primeira vez.  
- Nojento - respondeu Nhu-Mai -  no se livrar deles. Entre ns  normal o despiolhamento entre parentes e 
amigos.
Graas aos cabelos curtos e  lavagem da cabea que ela fazia quando Nhu-Mai lhe conseguia 
um pouco de sabo, ela evitara a infestao dos "bichinhos".  
E tambm havia o tdio, um tdio persistente que aderia ao esprito como a lama colava ao 
corpo. Para engan-lo, lembrava- se dos poemas que aprendera. Infelizmente, apenas algumas 
estrofes lhe vinham  memria.  
 doce barulho da chuva  
Na terra e sobre os telhados!  
Para um corao que se aborrece  
O, o canto da chuva!  
Via-se bem que o poeta no viera perder-se neste maldito pas, pois, se o tivesse feito, jamais 
poderia falar "do doce barulho da chuva..."  
Como se v no ms de maio a rosa no galho,  
Em sua fresca juventude, em sua primeira flor..  
Impossvel lembrar a continuao. E todavia, ela estava certa de sab-la. Era uma de suas 
distraes favoritas com o pai a declamar, de preferncia na hora das refeies, para o auditrio 
familiar, os versos aprendidos na vspera para maravilhar o outro.  
Impossvel lembrar tambm este poema de Ronsard de que ela tanto gostava:  
Quando voc estiver bem velha,  noite,  luz das velas...  
Esse ela soubera de cor. E Verlaine, seu caro Verlaine? Ao menos ele no lhe faltaria:  
Meu corao est triste... Meu corao sofre tanto... Bate o meio-dia. Por favor afaste-se, 
senhora... A msica antes de qual- 
quer coisa... O azul desordenado de estrelas claras... E me vou com o vento mau que me 
leva...  
Nada, nada, no restava mais nada, tudo se apagara!... Papai, esqueci nossos poemas... No  
verdade!... Vou tentar de novo. Veja este que voc gostava tanto e que Verlaine havia dedicado a 
Germaine Nouveau. Oua...:  
Numa rua, no centro de uma cidade de sonho... Ser fatal que ali se deseje morrer:  
Lgrimas rolando docemente pelas faces, Risos soluantes no choro dos que sofrem, 
Splicas  morte que vir...  
Um solavanco a jogou sobre Nhu-Mai. Um riso incontido subiu-lhe  garganta.  
- O que voc tem?... Machucou-se? - perguntou a amiga, apreensiva.  
- Lembra-se do poema que me mandou?... Era de Grard de Nerval...  
- Sim, lembro-me dele muito bem:Aquele que olhou fixa- mente para o sol /Acredita ver diante 
dos olhos voar obstinada mente.. -  
- Cale-se! No me interessa que voc saiba o poema!  normal que a memria esteja intacta, no 
lhe quebraram a cabea... E est na sua terra, com os seus... Seu querido tio H a tem em alta 
conta! Sua palavra  sagrada, ele conhece de cor o evangelho vermelho, e voc o recita como uma 
idiota, pronta para matar  sua ordem, sem pensar, pois o far pela Grande Revoluo Proletria, to 
importante para os camaradas Lenin e Stalin...  
- Cale-se, por favor, cale-se!  
- Por que me calaria?... Porque os que entendem francs vo me denunciar e seus comissrios do 
povo vo me mandar para um de seus famosos campos de reeducao?...  
Nhu-Mai tapou-lhe a boca com a mo. 
- Cale-se!  
La a afastou com violncia.  
- No me toque! Estou farta, entende? Estou cheia!... Quero rever meus filhos, meu marido... Quero voltar para 
casa! Estou cheia desta chuva que apodrece, do arroz frio com cheiro de mofo, de seu ch repugnante, de sua 
propaganda, de sua guerra suja! Quero rever pessoas normais, limpas e gentis, no quero mais ver essas caras 
de limo, esses olhos rasgados, esses cabelos pretos cheios de piolhos... No quero mais...  
La se dobrou sobre si mesma, tremendo. Nhu-Mai tocou- lhe a testa.  
- B ta bi nng st, dng l con st rt. Nhanh ln, hay mi bc-si Thach dn.*  Ela est ardendo de febre,  uma crise de impaludismo. Rpido, v buscar o doutor 
Thach. 
Mais uma vez La estava delirando de febre e sendo tratada pelo doutor Thach e cuidada por Nhu-Mai. De 
acordo com os superiores, o mdico decidiu deix-la em tratamento numa aldeia: junto com o impaludismo 
havia agora uma disenteria; ela era apenas um pobre corpo que sofria. O comandante do comboio deixou trs 
b di com Nhu-Mai, e o doutor Thach lhe entregou, escondido, comprimidos de quinino. Para tratar a 
disenteria, o mdico chins da aldeia faria o que achasse melhor. Nhu-Mai viu partir os companheiros com o 
corao apertado, mas um gemido de La, estirada numa cama de teca, debaixo do mosquiteiro, fez-lhe 
esquecer o medo de estar num lugar desconhecido.  
Na casa cedida pelo chefe da aldeia, passaram todos os habitantes, homens, mulheres e crianas, que iam 
contemplar essa branca que parecia ser a protegida dos vietcongues. Nhu-Mai teve muito trabalho para faz-
los compreender que a doente precisava de tranqilidade. Foi necessria a interveno dos b di para que 
voltassem para casa.  
Com a mulher do mdico chins, Nhu-Mai limpou o corpo sujo da amiga. Graas s poes de ervas, a 
disenteria acabou em  
dois dias, e o quinino resolveu provisoriamente o impaludismo. A febre diminuiu, La pde alimentar-se. Pouco 
a pouco sentiu as foras voltarem.  
- Seu violino  mgico, foi ele que de novo me impediu de juntar-me aos ancestrais no paraso. Cada vez que eu 
sentia estar a ponto de partir, voc tocava e a msica me trazia de volta  vida. Como explica isso? Voc  uma 
feiticeira?  
- No - disse ela, rindo, feliz por ver a face da amiga retomarem um pouco de cor. - Notei que minha msica a 
acalmava.  
- Sabe onde estamos?  
- Na regio dos campos.  
- Que campos?  
- Campos de prisioneiros nas aldeias.  
- E para a que me levaro quando puder caminhar?  
- Isso me surpreenderia. A s h homens aprisionados depois de nossas vitrias de Cao Bang e da R.C. 4.  
- Por que me lembrar de nossas derrotas?! - exclamou La, exasperada.  
- Por favor, no se aborrea, isso far a febre voltar. Desculpe-me.  
Ansiosa, Nhu-Mai a observava; ela estremeceu quando viu lgrimas escaparem dos olhos fechados de La e 
correrem ao longo das tmporas, enquanto o frgil peito se levantava e se abaixava sob o efeito de espasmos. 
Ela quis falar, mas se conteve. Diante dessa angstia, as palavras no serviriam para nada. Levantou- se e 
pegou o violino.  
Pouco a pouco a respirao de La se tornou regular; as lgrimas foram as que demoraram mais tempo para 
parar.  
Nhu-Mai tocou por muito tempo. Quanto mais o tempo passava, mais ela se integrava  msica, para ser 
apenas sua alma. A noite caiu. Um dos b di trouxe um lampio aceso e ficou agachado a escutar. Nessa 
noift, Nhu-Mai tocou como nunca. Tudo o que estava oculto nela se exprimia por meio do violino, ela exprimia 
a esperana de amanhs felizes, o amor por seu pas, a 
compaixo para com a amiga, o desejo de amar e ser amada, a nostalgia da infncia, as dvidas, as 
alegrias, as tristezas, os medos e, sobretudo, essa formidvel alegria de viver que brotava dela 
quando as notas, de pureza alterada, saam do arco.  
Ela parou, exausta, como um autmato e fez sinal ao soldado para se retirar. Depois da sada deste, 
ela afastou o mosquiteiro e abraou La, que ainda estava fascinada.  
- Obrigada - murmurou La, tomando-lhe a mo. - Eu no conhecia essa parte... Tinha a impresso 
de estar sendo levada para muito longe daqui. Como voc consegue, to pequena, encontrar tal 
fora, exprimir assim, um aps o outro, o herosmo, a volpia, a paixo, a ternura?... Quando o arco 
toca as cordas, voc cresce tanto... A magia de sua arte, a nobreza de sua alma brilham quando a 
ouvimos... Pode-se dizer que seu violino nos conduz para um alm de pureza e sensualidade juntas. 
Sonho em ver voc tocar no alto de uma colina, diante dos combatentes franceses e vietcongues. 
Tenho certeza de que, depois de a ouvirem, deporo por alguns instantes as armas e juntaro suas 
lgrimas diante da fatalidade que pesa sobre os homens... Como se chama esse compositor?  
- Jean Sibelius, um finlands. Foi o seu concerto para violino que toquei. Mas no est perfeito, eu 
sei disso...  
- Est louca, estava magnfico! Ningum, tenho certeza, consegue interpret-lo como voc.  
- No diria isso se tivesse ouvido Ginette Neveu na Opera de Marselha. Acho que foi nesse dia que 
compreendi que o violino seria a minha vida. Meu professor levou-me para v-la no camarim e lhe 
disse que eu tambm seria uma grande violinista. Ela me beijou e disse que ento seria a vez de ela 
vir me escutar. Papai e mame estavam l: se voc tivesse visto como estavam orgulhosos! Nunca 
mais ela poder ouvir-me...  
- Foi ela que morreu, em 1949, no acidente de avio em que tambm perdeu a vida Marcel Cerdan?  
- Foi. Eu estava aqui e fiquei muito triste, pois se falou muito mais da morte do boxeador que da dela. 
Ela s tinha trinta anos. Quando a guerra terminar e eu der o meu primeiro concerto em 
Hani ou em Saigon, vou dedic-lo a ela... Enquanto isso,  bom voc dormir!  
Durante o sono, os dedos das duas permaneceram enlaados.  
La recobrou as foras. O mdico chins esfregava as mos de contentamento, persuadido de que 
sua cincia fora suficiente, e o doutor Thach, vindo de Tuyen Quang para saber notcias, no o 
desmentiu.  
- Voc tem uma resistncia admirvel; esteve  beira da morte e de repente ressuscitou! Bem sei 
que as mulheres so mais resistentes que os homens, mas dessa vez voc me assombrou - disse ele, 
concluindo o exame.  
La tornou a fechar a roupa.  
- Tambm sei - prosseguiu ele - que Nhu-Mai conseguiu aliment-la corretamente, o que, nas atuais 
circunstncias,  uma espcie de proeza. Mas  preciso que no deixe de se alimentar como fez, 
seno ela  quem vai ficar doente.  
- O que quer dizer, doutor?  
- No soube, no ?... Desde que voc est conosco, e no s desde que est doente, Nhu-Mai lhe 
deu mais da metade de sua rao diria, e, desde que est nesta aldeia, conseguiu encontrar-lhe 
carne quase diariamente.  
- Eu no sabia... - balbuciou La, muito emocionada.  
- No duvido... Voc precisa fazer um pouco de exerccio; passeie pela aldeia.  
- Est fazendo um tempo horrvel...  
- No  um pouco de chuva que vai lhe dar medo.  
- O senhor chama esse dilvio de "um pouco de chuva"! 
Doutor... 
- Sim? 
- O senhor no me falou da nica coisa que me importa:  
quando vou voltar para casa? Por que no me responde?  
- Porque no sei nada desse assunto; no depende de mim.  
- Sei disso. Seu presidente no tem palavra; ele me prometeu que eu seria levada de volta para 
Hani. Enganou-me; todos aqui me enganaram... Eu os odeio! 
Com um gesto cansado, o doutor Pham Ngoc Thach fechou a maleta.  
- No se afaste da aldeia. Os franceses, ao partir, instalaram minas, e nossos combatentes colocaram armadilhas 
- preveniu ele antes de sair.  
"Encantador!", pensou La.  
Apoiada na grade de madeira que contornava a palhoa, balanando as pernas nuas no vazio, La via com 
olhos tristes a chuva cair. Com o olhar sempre fixo, tateou o assoalho,  procura do mao de cigarros que NhuMai lhe dera antes de partir numa misso de que no 
quisera falar. Trs dias se haviam passado... La tentou 
vrias vezes fazer funcionar um antigo isqueiro, que soltava uma fumaa enegrecida e malcheirosa. Por fim 
conseguiu e aspirou com volpia o cheiro acre do tabaco dos soldados vietcongues. Com nostalgia, pensou 
nos cigarros americanos do tio H e nos charutos de que Franois tanto gostava. Com esse pensamento, todo 
o seu corpo ficou doendo. Sobretudo, no deixar aflorar as recordaes, mant-las a distncia para ter fora de 
viver, ser apenas um animal com necessidades sumrias: comer, dormir, no ter medo nem sofrimento, 
encontrar um canto para se abrigar do frio, da chuva, dos piolhos e dos animais ferozes... Fazia alguns dias La 
se esforava para no se lembrar, no tentar reconstituir os poemas que amava. Recusava at a msica de Nhu
Mai, para no se distrair em sua obra de auto-aniquilao.  
A chuva cessou, e um ligeiro raio de sol tentou brilhar atravs das nuvens espessas. As crianas saram de 
casa como pequenos ratos, e os gritos agudos encheram o ar. La desceu os cinco degraus da escada; os ps 
nus se afundaram na lama. Ela atravessou a praa da aldeia, no meio da qual flutuava a bandeira vietcongue, 
cujas cores sobressaam contra o cinzento do cu e o verde da floresta que cercava a povoao. Quando a 
viram, as crianas interromperam as brincadeiras e os gritos, observando-a, atentos e receosos ao mesmo 
tempo. No tinham esquecido quando ela lhes arrancou das mos um filhote de cachorro que estavam 
maltratando, nem sua clera quando percebeu que estava mor- 
to: perseguira-os, batendo-lhes com o cadver. Sem a interveno dos b di, ela teria sido linchada pelos 
pais alertados. Desde ento mantinham respeitosa distncia.  
A porta de batentes macios, encimada por um telhado em forma de pagode, abria para um caminho que se 
perdia na floresta. Ao longo da cerca de bambu, invadida por uma vegetao espessa, serpenteava um atalho 
que desaparecia, s vezes, sob as plantas, cuja folhagem explodia de vigor. Todos esses vegetais pareciam 
dotados de apetites ferozes que o homem devia pisar sem cessar, no somente para sobreviver mas tambm 
para no ser devorado. Essa sensao fez La parar. No havia necessidade de carcereiros nem de grades para 
mant-la prisioneira; a prpria natureza se encarregava de faz-la compreender o absurdo dos sonhos de fuga. 
La sentou-se numa pedra, diante da porta, e se lembrou...  
...Ela emergia com dificuldade da crise de impaludismo quando um comboio de prisioneiros franceses parara na 
aldeia. Amordaada e amarrada, assistira  sua chegada. Deviam ser uns cinqenta, esfarrapados, plidos, com 
a pele cor de cera, o rosto coberto por uma barba de vrios dias, inchado pelas picadas de mosquitos, com 
olheiras profundas, pernas esfoladas - as moscas se amontoavam nas feridas - ou enrolados em trapos 
cobertos de sangue. Alguns, com o brao na tipia, a cabea ou o tronco enfaixados, apoiavam-se num basto 
improvisado. Exaustos, tinham-se deixado cair no lamaal da praa. Mulheres aproximavam-se, trazendo bules 
de ch verde e taas de barro que haviam enchido e estendiam aos homens cados. De onde estava, La 
adivinhara por que no lhes ouvia agradecimentos surpresos. Com avidez, atiravam-se  bebida morna. Os 
guardas vietcongues haviam tentado empurrar as mulheres. Mas elas, com coragem teimosa, obstinavam-se em 
lhes dar de beber, apesar da raiva dos soldados. Um deles, com a cabea coberta por uma espcie de chapu 
de folhas de palmeira cuja forma lembrava a do capacete colonial, com um basto na mo, gritara uma ordem. 
Logo os prisioneiros haviam tirado os sapatos ou o que tivessem 
em lugar deles, e os haviam depositado diante do pequeno homem. Com o basto ele designara quatro 
homens, depois outros quatro haviam deixado o grupo, escoltados por um soldado. Os que no tinham sido 
indicados continuavam sentados, cansados, estafados. Um deles se levantara com dificuldade e ia de um para 
outro. "Um padre ou um mdico", pensara La. O primeiro grupo voltou, trazendo ramos; o segundo no 
demorara. Um negro alto de rosto risonho gritara:  
- As valas esto prontas, chefe!  
Isso fora um sinal para os esfarrapados, que se levantaram aos empurres. Corrodos pela disenteria, 
experimentavam consolo apenas pelo anncio da concluso das latrinas improvisadas. A chuva, depois de ter 
cessado por alguns instantes, voltara com violncia. Os prisioneiros haviam sido empurrados para debaixo das 
palhoas construdas sobre estacas; o local servia de estbulo para os bfalos. Ali, amontoados no esterco e 
no mau cheiro, haviam esperado o fim do aguaceiro. A noite caa, algumas tochas haviam sido colocadas na 
praa, diante da casa do chefe da aldeia. Sem maiores cuidados, os prisioneiros haviam sido reunidos diante do 
homem de barrete, em p no alto dos degraus. Andando de um lado para o outro, ele os olhara com cara de 
nojo; depois parara, encarando-os um a um.  
- Vocs no passam de vermes! - gritara ele. - No fosse a magnanimidade de nosso presidente, ns os teramos 
exterminado. Mas o nobre povo vietnamita no quer empregar os mtodos dos colonialistas decadentes e dos 
capitalistas corruptos. Com seu exemplo, o valoroso povo vietnamita, que mostrou ao mundo sua 
determinao na luta contra a ocupao dos franceses sanginrios, autores de uma guerra injusta e criminosa, 
quer ajud-los a tornar-se instrumentos necessrios e teis aos combates justos que conduzem os povos 
oprimidos contra os imperialistas, sedentos de sangue e de dinheiro. Vocs no passam de vis mercenrios 
desses covardes e, para alguns de vocs, irmos da escravido desencaminhados: o marroquino, o negro e o 
vietnamita deveriam se unir num mesmo combate contra a 
perfdia colonialista e pelo advento do comunismo internacional!  
Extenuados, os homens visivelmente j haviam ouvido esse tipo de discurso; La no. Ao menos 
no nesses termos e nesse contexto. Ela tinha a impresso de assistir ali a uma espcie de lavagem 
cerebral. Nhu-Mai, o doutor Thach, o presidente H Chin Minh tinham uma linguagem dupla: nunca 
mais ela voltaria a ver os seus. Um desespero profundo a invadira.  
Mais uma vez ela tentara libertar-se das cordas, mas seus esforos apenas as haviam apertado 
mais. A mordaa a sufocava. Ia morrer...  
O ch correndo-lhe entre os lbios a reanimara; Nhu-Mai estava ali, enxugando-lhe a testa coberta 
de suor. A fraca luz de uma lamparina colocada no cho, La adivinhara a silhueta de dois b di 
apoiados no fuzil. De fora chegava o barulho de tosse, de pigarro. Ela tentara escapar dos braos de 
Nhu-Mai; bruscamente, adormecera.  
Pela manh, ao acordar, o lugar estava vazio, porcos negros e patos haviam tomado o lugar dos 
prisioneiros franceses. Pelo gosto estranho que sentia na boca, La compreendera que a tinham 
drogado. O desgosto a invadira ao lembrar-se do ch que Nhu-Mai a fizera beber. Desde esse dia 
mergulhara na tristeza...  
Ela ajeitou a pequena coberta com que se enrolara, levantou-se e penetrou a aldeia. No interior dos 
casebres com tetos de palha, as mulheres preparavam a comida, as velhas balanavam os bebs 
diante dos altares dos antepassados, crianas faziam seus deveres, agachadas numa esteira, velhos 
fumavam cachimbo. Tudo estava calmo, a fumaa dos foges subia lentamente. Meninas pegavam 
gua no pntano, perto das cabanas, sem tomar cuidado com a lama enegrecida em que se 
afundavam at a canela. Tinha-se a impresso de que esse modo de vida vinha de tempos 
imemoriais e no acabaria nunca. A guerra era apenas um acidente, como lembrado de vez em 
quando, mas no modificava em nada os antigos comportamentos. 
Gritos vindos de fora da aldeia romperam bruscamente a quietude.  
- Chng ti dm phai mn! Chng ti dm phai mn!  
- Uma mina explodiu embaixo de ns! Uma mina explodiu embaixo de ns! 
O rapaz, de uns vinte anos, mostrava uma mo ensangentada sem dois dedos. La reconheceu um dos 
companheiros de Nhu-Mai. Com um pressentimento terrvel, afastou a quantidade de gente que cercava o 
ferido.  
- Onde est Nhu-Mai? Estava com voc?  
Ele no compreendeu, e comeou a chorar.  
- Nhu-Mai, onde est Nhu-Mai? - gritou La, sacudindo-o.  
Ele estendeu a mo s em direo  floresta. La o deixou e partiu correndo, guiada pelos pingos de sangue. 
Seus ps nus no sentiam as pedras do caminho. Teve de diminuir a velocidade:  
cada passada ressoava-lhe no crnio. Ps as mos na cabea para diminuir a dor. O caminho pouco a pouco 
deu lugar a um estreito atalho, depois a uma picada, onde ela precisava se curvar para no se arranhar nos 
galhos, que se uniam e encobriam o cu em alguns pontos. Uma dor do lado obrigou-a a parar para retomar 
flego. Os ps esfolados doam muito. Ela rasgou um lado da coberta, cortou-o em dois e os enrolou. O 
silncio era esmagador.  
La retomou a caminhada, mancando. Numa curva da picada, esbarrou num corpo. Imagens sucediam-se em 
seu esprito a uma velocidade louca; lembrava pedaos de conversas ouvidas em Hani: "Nunca virar um 
corpo... ele pode ser uma armadilha... pode ser um fingimento..." La se inclinou e com as duas mos virou o 
cadver. Deu um grito: do ventre despedaado saam os intestinos. O cheiro era insuportvel. No era Nhu-
Mai, mas um dos rapazes que entravam na casa para escutar a violinista tocar. Os grandes olhos abertos 
pareciam olhar com admirao e censura. La abaixou-lhe as plpebras. Quando se ergueu, ouviu um gemido, 
depois choros.  
- Nhu-Mai... Nhu-Mai...  
Tropeando, procurou de onde vinham os gemidos. A picada  
se dividia: as lamrias vinham da direita. Com as pernas fracas, La parou e levou a mo ao corao, tentando 
comprimir as batidas, tomada de uma vontade doida de fugir para no ver o que receava encontrar. A custa de 
um esforo imenso, saiu do terror que a prendia no lugar.  
A exploso formara uma espcie de clareira; a folhagem despedaada formava ali um tapete muito verde. Nesse 
tapete jazia Nhu-Mai. Um lamento transtornado saa-lhe dos lbios. Com dificuldade La chegou at ela.  
- No!...  
O grito foi ouvido at na aldeia. Ela caiu de joelhos. Nhu-Mai estava sem as duas mos.  
Garrotes feitos com plantas tranadas impediam o sangue de jorrar. Seus grandes olhos abertos giravam em 
todos os sentidos; pararam no rosto da amiga. Esta sorriu como uma criana feliz por encontrar a me.  
- La!  
Depois o sorriso deu lugar a um esgar de dor. Levantou os cotos, de que escorria sangue, e comeou a 
soluar.  
- Veja... Perdi as mos... Nunca mais voltarei a tocar... Meu violino... Quero meu violino!  
La olhou em volta,  procura do instrumento. Nhu-Mai nunca se separava dele, qualquer que fosse a misso 
de que a incumbissem. Levava-o preso s costas. A caixa estava cada no muito longe, pouco danificada. La 
a colocou sobre o peito da amiga.  
- Abra a caixa... Mostre-o para mim...  
La obedeceu e tirou o instrumento do estojo. As duas mulheres o contemplaram chorando.  
- Ponha-o sobre o meu rosto... Estou me sentido mal!... Oh, La!... Ele nunca me traiu... Sou eu, hoje, que o 
abandono.  
- Cale-se, no se canse. Na aldeia vamos cuidar de voc...  
- No, eu no quero. Sem a msica no poderei viver. No diga nada, preste ateno. No quero que me curem, 
no quero ser uma invlida... O violino era a minha vida.., mais que o Partido... Sem o violino... Voc  minha 
amiga?  
- Adoro voc... No fale, isso a cansa. 
- La, eu cuidei de voc, tratei-a como a uma irm. Prometa-me fazer o que vou lhe pedir... Prometa!  
- Prometo, minha querida, eu prometo.  
- Mate-me!  
La se jogou para trs, com um grito.  
- Eu lhe peo... Voc prometeu!  
- Isso no!  
- Pense no que ser minha vida... Tenha piedade!  
Nhu-Mai se arrastou, apoiando-se nos cotovelos para se aproximar da amiga.  
- Faa, La, faa... Voc o faria por um animal...  
- No posso... Eu a amo.  
- Faa-o justamente porque me ama... Estou me sentindo mal, La, estou com medo... Mate-me, pegue o fuzil... 
No me deixe assim!  
Ela estava ajoelhada, com os braos sem mos estendidos para a amiga.  
- Pegue o fuzil, pegue... Por piedade, mate-me!...  
Como num sonho lentamente, La se abaixou, pegou a arma, destravou-a e puxou o gatilho. Nhu Mai caiu, 
atingida no peito.  
- Obrigada - sussurrou, curvando-se.  
Os aldees que chegaram, guiados pelo b di ferido, encontraram-na de p, imvel, com os dedos crispados 
no fuzil, o olhar fixo. Imobilizados, por sua vez, contemplaram a cena. O chefe da aldeia conhecia os laos que 
uniam as duas mulheres e compreendeu o que acabara de ocorrer. Aproximou-se de La e, delicadamente, 
soltou-lhe os dedos um a um. 

Captulo 20

La no guardava nenhuma lembrana dos dias que se seguiram  morte de Nhu-Mai. Nem do
lugar para onde fora conduzida e dos encontros com Kien.  
Uma manh ela abriu os olhos, reconheceu o quarto do junco do mestio, sentiu a doura da seda no 
corpo, distinguiu o cheiro de incenso e se espreguiou, satisfeita; os seios lhe pareceram pesados e 
tensos, segurou-os com ambas as mos, com um arrepio de prazer, e sentou-se na cama. Diante 
dela estava uma garota, de busto nu, um pouco magricela, de cabelos anelados e curtos como o de 
um rapaz. Embaraada, La se cobriu; a jovem fez o mesmo. No espao de um instante, ela esteve 
perdida, olhou em torno de si, e depois comeou a rir ao se levantar. Via refletida na psique algum 
de quem se lembrava, que devia ser ela, mas no era. A nudez da outra a surpreendeu; nesse corpo 
cuja magreza o tornava juvenil no encontrava o esplendor de mulher que ela se lembrava de ter 
sido em outro tempo. "Que tempo?", perguntou-se. No tinha a resposta.  
Bateram  porta; antes que ela tivesse tempo de responder, Kien entrou. Ele ficou imvel na soleira 
da porta a contempl-la. Sob esse olhar, La procurou uma roupa. Ele compreendeu e 
apanhou um xale de seda bordada, com que a envolveu. A suavidade das franjas, que lhe roavam os ps, era 
agradvel.  
- Obrigada - disse ela com um sorriso gentil, encarando-o intensamente.  
Ele lhe parecia mais velho que em sua lembrana. O rosto era ainda to bonito quanto antes, porm mais 
marcado. Vestia apenas um short branco, que ressaltava uma pele to bronzeada que lhe parecia negra. De 
repente, ela teve certeza de que, na noite passada, na anterior, talvez em outras e outras mais, ele fora seu 
amante. O pensamento tornou-se subitamente desagradvel, pois, se ela sabia que conhecia esse homem, no 
lembrava nem o nome nem quando o conhecera.  
Delicadamente, ele fechou a porta e avanou. Ela recuou, indo de encontro  cama, em que caiu, enquanto ele 
continuava caminhando e olhando-a nos olhos. Havia nesse olhar uma autoridade e um desejo dos quais ela 
no podia se defender. As mos dele lhe haviam tirado o xale e se detinham, com as palmas para cima, em 
diversas partes do corpo; seus lbios se entreabriram, suas coxas se separaram. Sem deixar de olh-la, ele 
desabotoou o short, que escorregou. Nu, era magnfico; o sexo comprido e fino, colado ao ventre, estremecia. 
Ele a levantou nos braos e ps no meio da cama; sua boca se apossou da dela. Os dedos a acariciavam, 
penetravam, apertavam os mamilos duros. De olhos bem abertos, ela o deixava fazer, silenciosa, e no entanto 
receptiva. Quando ele a penetrou, ela vibrou da cabea aos ps e gozou sem um gemido, trada apenas pela 
abundante secreo, de que o homem se impregnou com avidez. Quando ele se ergueu, com o rosto brilhante, 
ela j adormecera.  
Se fosse com outra mulher, ele sentiria clera ou se divertiria, mas, naquele momento, experimentou um 
sentimento de frustrao: em vez de ver o cansao de uma amante satisfeita, sentia-se rejeitado pelo sono dela. 
Esteve a ponto de penetr-la de novo, brutalmente, mas por fim pensou que mais de um ms depois de a ter 
tirado dos vietcongues, tempo em que tantas vezes tinham feito amor, ela bem merecia um pouco de descanso. 
Deitou-se ao lado dela e, com as mos na nuca, relembrou os momentos que precederam a libertao...  
...Andando durante a noite, evitando as aldeias, penetrando nelas apenas para roubar alimento, s vezes 
matando para isso, descendo o rio em embarcaes conseguidas ao acaso, Kien, Fred, Vinh e Chau haviam 
chegado  aldeia de Thp Mieu, a uns trinta quilmetros de Hani. Depois de se terem assegurado de que os 
franceses ocupavam a aldeia, Kien se apresentara ao tenente que comandava o posto. Este telefonara para os 
superiores em Hani aps ouvir a histria rocambolesca daquela expedio.  
- Deixe-me falar com ele! - gritara uma voz no telefone.  
- Al! Sou o comandante Garnier. Que histria maluca  essa? Achvamos que vocs estavam mortos, 
principalmente quando vimos reaparecer o monstro que os acompanhava... Al!... O que houve com os trs 
legionrios?... Desaparecidos?... No resta nenhum sobrevivente do comando Vandenberghe?... Tavernier est 
morto, tem certeza?... Por Deus!... Nenhum sinal da mulher? Os bandidos devem t-la matado tambm... Que 
merda! Que confuso, isso vai causar muita agitao... O alto-comando j no havia gostado que trs 
legionrios fizessem parte dessa porcaria de comando...  bem idia de civil querer procurar a mulher... E voc? 
O que estava fazendo no interior?... Ajudar o amigo de infncia!... E ento se meteu numa enorme confuso... 
Qual o seu nome? Rivire?... Conhecemos bem esse nome... Voc  parente do subtenente Rivire, Bernard 
Rivire?...  irmo!... Parabns; ele luta como um leo contra esses safados dos vietcongues... Voc deve vir a 
Hani fazer um relatrio.  
Decidido a no fazer nada disso, Kien deixara o tenente para se juntar aos companheiros.  
- Veja, chefe, quem est aqui! - exclamou Fred, mostrando um bando de esfarrapados.  
Com o p o mestio o empurrara.  
- Giu dy ? My sng dai tht, d su bo!*  
- Giau? Voc no morre, verme! 
- Encontrou-a? - perguntou o infeliz.  
- No.  
- Onde est o marido?... E os outros brancos?  
- Esto mortos.  
- Mortos! Todos?...  
- O que  que voc queria? Nem todos tm uma pele de couro como a sua - escarnecera Kien, 
dando-lhe um pontap que o arremessara na poeira em direo a Fred, que o mandara para Vinh, 
que por sua vez o enviou para Chau.  
-  melhor que bola de futebol! - exclamara Fred. Mas o monstro havia dado um grito. Logo, uma 
nuvem de mendigos se abateu sobre os quatro homens. Sem dvida teriam passado maus momentos 
se soldados africanos no interviessem, dispersando os miserveis a coronhadas.  
Uma nova ferida ensangentava a face de Giau, que se arrastara como animal ferido at a sombra 
de umflamboyant. Kien se aproximara dele.  
- Queramos apenas brincar...  
- Um dia eu vou mat-lo - respondera calmamente o mendigo.  
Pela primeira vez na vida, Kien experimentara um sentimento de medo e pressentira que aquele 
aborto era o nico inimigo que tinha que recear, tal o dio, visvel, que lhe emanava dos olhos 
angustiados. "Eu o matarei antes", dissera a si mesmo.  
Mas na noite seguinte uma notcia lhe fizera esquecer completamente o monstro.  
Soldados vietcongues haviam sido aprisionados e acabavam de ser trazidos para o posto, para ser 
interrogados. Eram seis ou sete; trs foram selvagemente torturados, mas nada disseram. Foram 
jogados em estado lastimvel na cabana de bambu onde estavam os companheiros. J cansados, os 
algozes haviam transferido para o dia seguinte o interrogatrio. Por um longo tempo s se ouviram 
na cabana gemidos e o choro de um dos homens. Quando a noite caiu, o tenente lhes mandou gua 
e arroz. Duas sentinelas montavam guarda. Kien se introduziu atrs 
do crcere quando soube que esses b di vinham da regio  
dos campos. Achava que, se La ainda estivesse viva, devia estar  
num desses campos. Colou a boca numa fenda do muro de  
bambu.  
- Ai chi huy?* - sussurrou.  
*_ Quem  o comandante?  
Houve um silncio que lhe pareceu muito longo.  
- Ti - disse uma voz muito fraca.  
- Ti c th gip cc anh trn thot nu anh tra li hai cu  
hoi!**  
Eu.  
- Posso ajud-los a fugir se responderem a duas perguntas.  
***_ Vocs no resistiro  tortura... eles os mataro!  
Ningum emitiu o menor som.  
- Cc anh se khng chiu ni su tra tn... chng se git cc  
 anh!  
- Anh l ai?... Mt tn phan bi dui quyn chng ?  
- Khng. D chng to thuc tm, anh hay ly luoi dao ny.*  
- Quem  voc?... Um traidor a soldo deles?  
- No. Para lhes provar minha boa-f, peguem esta lmina.  
Kien fez deslizar um fino punhal pela fenda diante do que falava. Uma mo o agarrou.  
- Anh mun bit gi?  
- Anh c nghe ni dn mt ngoi dn b da trng bi giu o Cao-Nguyn khng?  
- Anh mun g b ta?****  
O que quer saber?  
- Ouviram falar de uma mulher branca presa da Regio Alta?  
- O que quer com ela?  
Ento ela estava viva!  
- B y o du?... Tic th cungcp vu khv cho ccanh trn thot ngay...  
- Ai chng minh anh khng ni di?  
- Dai dy v hay nhn qua song cua.**  
Onde ela est?... Posso trazer armas e faz-los fugir imediatamente...  
- O que nos prova que no est mentindo para ns?  
- Esperem e olhem para a grade da porta. 
Como um felino, sem rudo, ele deu a volta ao crcere, saltou 
a sentinela mais prxima, arrastou-o para trs do muro e cortou-lhe a garganta. - Marcel, o que est fazendo? Ah, est urinando... Eis uma excelente idia, vou fazer 
o mesmo - disse a segunda 
sentinela, encostando a arma na parede de bambu.  
-Ah!  
Seu grito se afogou num gargarejo sinistro.  
No espao de um instante, Kien,  espreita, ficou imvel, depois voltou para trs da priso.  
- Anh thy chua? By gi, ni ti bit b y o du.  
- C th khng phai ngui anh tm... Ngu)i ta c thy mt ngui dn b da trng trong lng 
Na Hon, o vng Bc Can.*  
*_ Viram? Agora, digam-me onde ela est.  
- Talvez no seja a que voc procura... Vimos uma mulher branca na aldeia de Na Hon, na regio de Bc Can. 
Dez minutos depois, os corpos das duas sentinelas foram encontrados, e os prisioneiros tirados das celas e 
torturados. Pela manh, no tendo entendido nada do que haviam contado, apesar dos tradutores, foram 
fuzilados. Nesse meio tempo, Kien e os companheiros fugiram de jipe para Hani. Muitos dias depois se 
descobriu num arrozal o cadver do motorista, degolado como as sentinelas.  
Os franceses ocupavam apenas uns quarenta quilmetros ao norte, a leste e a oeste de Hani, com uma via 
para Haiphong e uma faixa de terra at a fronteira chinesa. O restante do Tonquin - afora a regio de La Chau, a 
do campo entrincheirado em torno da pista de aviao de Na Sam e a de Lang Son, recentemente reocupada 
pelos pra-quedistas - e dois teros do Annam estavam nas mos dos vietcongues assim como o sul da 
Cochinchina.  
Depois de ter certeza de que o junco do pirata e as sampanas espis estariam prontos para o mar assim que a 
ordem lhes fosse dada, Kien decidiu que Fred voltaria para Hani e depois para Saigon por seus prprios 
meios. Lamentava a ausncia de Fred,  
mas a presena de um branco teria sido perigosa e comprometeria a expedio.  
Em Tha Nguyen, foram festejados por jovens b di, aos quais contaram como haviam roubado o jipe dos 
franceses. Foram recebidos como verdadeiros heris. Chegaram mesmo a lhes dar gasolina, para que pudessem 
prosseguir a misso: informar os camaradas de Bc Can dos preparativos inimigos contra um ataque dos pra-
quedistas...  
Fazia um tempo magnfico, dia quente, noite fresca. A estrada nunca esteve to bem conservada desde a 
construo por engenheiros franceses. Vrias vezes cruzaram com mulheres levando nos cestos pedras 
destinadas a tapar os buracos. Elas respondiam rindo s brincadeiras de Vinh e de Chau. Em Cho Moi era dia 
de feira. Mulheres, crianas, velhos e animais atravessavam diante do veculo com certa indolncia, prpria 
dos asiticos. Por seu lado, Vinh dirigia como se a rua tivesse sido desimpedida.  
- Devagar - disse-lhe Kien. - No  hora para haver um acidente!  
Pararam para tomar uma tigela de sopa e depois partiram, sem que ningum lhes prestasse ateno. 
Continuaram ao longo do Sn Cu e atravessaram um vale circundado por falsias escarpadas e coberto por 
vegetao exuberante. Pequenos macacos davam cambalhotas de galho em galho, soltando gritos agudos. Em 
alguns lugares as falsias se separavam, dando lugar aos arrozais.  
Em Bc Can, antigo principado tha, foram presos e seu veculo tomado. Mediante um gentil mao de piastras, 
o comissrio poltico da cidade os deixou ir, mas no devolveu o jipe. Passaram a noite num albergue mantido 
por um habitante local.  
Ao amanhecer, munidos de provises, partiram a p em direo a Cho Dn. A estariam a poucos quilmetros 
de Na Hon e poderiam obter informaes sobre a branca detida pelos vietcongues. Antes da partida, Fred 
lembrara que muitas brancas tinham sido levadas pelos vietcongues desde 1946, e a maior parte delas nunca 
fora sido encontrada; algumas, capturadas muito jovens, 
haviam se casado com vietnamitas e nunca haviam manifestado desejo de voltar  ptria. Mas Kien 
respondera:  
- Eu sei que La est l.  
Fred encolhera os ombros. Tinha muita razo para desconfiar das mulheres: eram capazes de transformar um 
homem, um verdadeiro homem, num frouxo!  
At Cho Dn, a estrada, se bem que estragada em alguns pontos, era transitvel. Em seguida, o caminho 
freqentemente desaparecia, coberto pela vegetao. At onde a vista alcanava, Kien no via nenhuma das 
belezas da paisagem, as elevaes calcrias coroadas de verde, o cu azul refletido nos arrozais sobrepostos, 
rvores de flores deslumbrantes, macacos ou pssaros que fugiam  aproximao.  
A noite os surpreendeu a trs ou quatro quilmetros de Na Hon. Aps uma refeio frugal e alguns momentos 
de repouso, decidiram continuar.  
A uma ordem de Kien, ficaram nus, besuntaram-se de graxa e sujaram-se de terra: assim, ao mesmo tempo que 
no poderiam ser agarrados, ficavam assustadores.  
As portas da aldeia estavam fechadas, e no havia guardas. Kien pediu a Vinh que desse a volta  muralha de 
bambu e procurasse eventuais aberturas. Vinh voltou rpido: descobrira uma abertura pequena mas bastante 
larga para um homem, escondida por um monte de palha.  
Um cachorro latiu, depois outro. Os trs homens ficaram imveis.  
- Hay c di vng khp ca lng
*_ Acho que encontrei alguma coisa.  
- sussurrou Kien para Vinh.  
Ele obedeceu e saiu correndo, sem fazer barulho com os ps nus. A um gesto, Chau se introduziu na abertura e 
penetrou no interior; tudo parecia tranqilo. De vez em quando, filtrava-se um claro atravs de uma parede, 
ouvia-se uma tosse, um ronco, o choro de um recm-nascido, o grunhido de um porco, o riso de uma mulher, o 
grito de um pssaro noturno.
 Chau re 
**_ No notei outra passagem.  
 D pelo menos a volta completa  aldeia. 
cuou. Subitamente pulou para trs da pilastra de uma casa: um homem armado de fuzil estava acocorado diante 
de uma construo baixa, que ele no notara. Impossvel passar sem ser visto pelo homem. Chau teve sorte: 
uma voz de mulher chamou. A sentinela olhou em volta e, seguro, partiu na direo da voz. Com alguns passos 
Chau chegou  pequena cabana. As paredes de palha de arroz tranada no deixavam perceber nada; 
entretanto, algum estava l, a julgar pelo rudo que se ouvia, parecido com o de um corpo virando-se numa 
esteira. Chau voltou pela abertura.  
- Ti nghi da tm thy g ri
- Bem, fique aqui, ns vamos entrar. 
 - sussurrou a Kien.  
Um estalo os alertou. Eles se encostaram  muralha, tentando confundir-se com ela, punhais nos dentes. Vinh 
voltou at eles.  
- Ti khng ghi nhn li no khc.  
- Tt, hay o lai dy, chng ti se vo.  
Em Na Hon tudo dormia. A sentinela no voltou ao posto. Eles se aproximaram da porta da cabana; um 
cadeado rudimentar a fechava. Para Chau foi um brinquedo de criana arromb-lo. A porta se abriu com um 
rangido que os colou ao cho. Nada se movia. Kien entrou; a escurido era total. Sentia-se no pequeno 
cmodo um forte odor de ervas e de excrementos. A sua direita algum se mexeu; ele tateou. Uma forma 
feminina estremeceu sob ele, depois tentou livrar-se.  
- La?... No tenha medo, sou eu, Kien.  
O corpo resistia; depois tremeu de alto a baixo, enquanto um gemido escapava da boca da mulher.  
- Cale-se, no grite...  Kien, fale baixo.  
No escuro, uma pequena mo procurou o rosto do mestio.  
- Kien? - murmurou ela.  
- Venha, vamos tirar voc daqui.  
Ela se arrastou atrs dele, mas, do lado de fora, foi incapaz de se levantar. A escurido no permitia distinguir-
lhe os traos. Kien a levantou - como estava leve! - e correu para a abertura, apertando-a a si. Chau fechou a 
porta e o seguiu. Sempre correndo, atravessaram o caminho que contornava a aldeia e entraram num bosque. 
Vinh se juntou a eles com as roupas e as armas.  
- Dua bt lua cua ti dy*
- D-me o isqueiro. 
 - ordenou ele.  
A pequena luz da chama, que pareceu a todos to forte como a luz de um projetor, permitiu a Kien reconhecer 
aquela pela qual, havia semanas, eles traam e matavam. Ele lhe estendeu um punhado de arroz grudento, sobre 
o qual ela se arremessou.  
- Mais!  
- No, isso pode lhe fazer mal. Beba um pouco de ch.  
La bebeu um grande gole e logo comeou a vomitar. Ele limpou-lhe os lbios com delicadeza.  
- Agora beba, vai melhorar.  
A inteno de Kien era alcanar Ha Coi ou Mng Cai, ao norte da baa de Ha Long, onde devia se encontrar 
sua flotilha. Para isso, o mais simples era passar por Bc Can, tentar evitar Lang Son, em mos dos pra-
quedistas, e chegar  costa, fugindo ao mesmo tempo dos vietcongues e dos franceses.  
Eles fizeram uma espcie de maca para levar La e chegaram, aos primeiros clares do amanhecer, aos bosques 
que cercavam Bc Can. Vinh foi encarregado de procurar comida. Por volta do meio-dia, ele voltou com uma 
grande tigela de sopa de carne, um galo de ch e frutas. Kien fez La comer um pouco de arroz e sopa. Depois 
esperou duas horas para lhe tornar a dar comida. De noite ela conseguiu ficar sentada, mas ainda no podia 
andar. Eles contornaram Bc Can e usaram a estrada que conduzia a Ph Binh Gia. Kien lembrava que uma de 
suas babs, de origem chinesa, morara ali. Ele tinha oito ou nove anos quando  
ela voltara para casa por ordem do pai. Por duas vezes viera visitla, com os pais. A jovem mulher sempre o 
recebera como a um filho. Se ainda estivesse viva, reconheceria nele o rapazinho de doze anos que vira quando 
de sua ltima visita? Chamava-se XiaJing.  
Eles levaram trs noites para atingir Ph Binh Gia. A aldeia sofrera muito com a guerra. Kien confiou La aos 
companheiros e entrou no povoado. Na rua principal, comerciantes exibiam pobres mercadorias diante de 
casas destrudas; "restaurantes" funcionavam perto do pntano onde as cozinheiras pegavam gua para fazer 
comida. Kien se acocorou diante de uma delas, uma velha de dentes laqueados que parecia dirigir as 
"cozinhas". A velha ps alguns galhos secos sob um trip, onde estava um prato redondo de alumnio. 
Pequenas fatias de carne tostavam; com os pauzinhos de comer juntou algumas ervas e rodelas de cebola, que 
misturou com mo experiente; depois despejou gua sobre tudo. A fumaa que se desprendeu fez Kien ficar 
com gua na boca.  
- C ve ngon dy. Cho ti mtphn, vi mt t com.*  
- Isso est com cheiro bom. Quero uma poro disso, com uma tigela de arroz.  
A mulher o fitou franzindo os olhos. Serviu a sopa com a ajuda de uma concha de madeira e a colocou numa 
tigela trincada, e juntou algumas gotas de nuoc-mm e uma pitada de talo de cebolinha, picado fino. Ps tudo 
sobre a tbua que servia de balco. Sem deixar os preparativos culinrios, lanava freqentes olhares em 
direo a Kien. Ela tomou coragem quando ele lhe estendeu a tigela para ser servido novamente.  
- Anh khngphai o vng ny?** 
**_ Voc no  daqui?  
- perguntou ela enchendo novamente a tigela.  
- Cung phai m cung khng; ti c dn dy khi cn b.** 
- Sim e no; eu vinha aqui quando criana. 
Ele continuou a comer.  
- Canh cua b ngon dy. Da lu ti khng duoc an mn ngon nhu th... Cn b, b l ngui 
vng ny?  
- Ti duoc sanh de o dy, cung nhu b me ti.  
- Ti tim mt b tn l Xia-Jing. B c bit b ta khng?*  
*_ Excelente a sua sopa. Faz muito tempo que no como coisa parecida... E voc?   daqui?  
- Nasci aqui, como meu pai e minha me.  
- Procuro uma mulher chamada Xia-Jing. Conhece?  
 Foi bab em Hani?  
- Foi.  
As rugas da testa da velha pareceram aumentar.  
- B y c lm v em o H-Ni khng?  
-C.  
- B vn cn sng. Chng con b da bi git cht. T d b khng cn duoc tinh.  
- B ta o du?  
- Khi dy, khi d... Thinh thoang b dn an xin mt t canh. Anh cho ti bit tn. N c 
gap b, ti se ni c anh tm. Anh hay tro lai chiu nay hay ngy mai. **  
- Ainda est viva. O marido e os filhos foram mortos. Desde ento no tem andado  
com a cabea muito boa.  
- Onde mora?  
- Aqui, ali... Vem de vez em quando mendigar uma tigela de sopa. D-me seu nome.  
Se a vir, eu lhe direi que voc a procura. Volte aqui esta noite ou amanh. 
Kien deu seu nome e pagou, com generosa gorjeta. Comprou comida para os companheiros, e 
roupas, sapatos e um chapu de folhas de palmeira para La.  
A jovem mulher podia agora dar alguns passos, e sua face tinha perdido o aspecto macilento. Kien 
falava delicadamente com ela, como com uma criana. Ela sorria, com o pensamento visivelmente 
em outro lugar, a memria apagada. O corao do mestio se apertava toda vez que ele a olhava. 
Fechando os punhos, jurou cur-la.  
J era noite quando voltou a Ph Binh Gia. Os lampies a lcool, pousados no cho ou pendurados 
em rvores, lanavam clares vacilantes. A animao era maior que em fim de festa. Kien notou 
alguns b di, que "desfilavam" diante das moas. Abaixou o chapu pontudo e curvou os ombros, 
na esperana de reduzir a estatura. Encontrou a cozinheira, sentou-se diante dela e pediu o jantar 
Ela lhe serviu porco seco cozido com brotos de bambu, razes, aipo, folhas de alface cortadas em 
tiras aromatizadas com alho e tostadas no azeite. Uma delcia ao mesmo tempo doce e salgada. Ele 
repetiu. A velha o serviu novamente com um sorriso satisfeito; depois tirou do busto um cachimbo 
de barro, em que colocou o tabaco com o dedo experiente, e fumou, vendo-o mastigar.  
- Xia-Jing khng c dn hm nay. Anh hay tro lai ngy mai, b y se c mat.*  
KUXia-Jing no veio hoje. Venha amanh, ela estar aqui.
  Qien escondeu a decepo e disse que voltaria no dia seguinte, no por Xia-Jing, mas por ela, por 
causa da comida.  
Ela no demonstrou nenhuma admirao quando ele comprou trs pores de porco seco e de arroz, 
que ela envolveu em largas folhas de ltus.  
Ele teve de dar uma volta para evitar um grupo de b di que fechava a estrada.  No dia seguinte, a hbil cozinheira estava no lugar habitual. A seu lado, outra 
velha preparava os 
legumes. Quando a vendedora de sopa percebeu o jovem, inclinou-se para a companheira e 
cochichou-lhe algo no ouvido.  
A recm-chegada parou o que estava fazendo e levantou os olhos na direo de Kien. Um grito 
gutural saiu-lhe do corpo magro.  
- Con!**  
- Meu filho!  
Um gosto amargo invadiu a boca de Kien: no, esse pobre ser mirrado no podia ser sua assam... 
mas era! A forma do rosto enrugado, o sorriso, que revelava as falhas na dentio, esse olhar 
terno... Ela se levantou penosamente e veio at ele com pequenos passos apressados.  
- Con*** 
- Meu filho. 
- disse ela novamente.  
 Xia-Jing!  
Ela caiu-lhe aos ps e abraou-lhe as pernas, murmurando palavras desconexas. Comeou a 
formar-se uma aglomerao em  
torno deles, com diversos comentrios; isso poderia tornar-se perigoso. Kien a levantou e se afastou com ela. 
A contragosto, todos voltaram ao trabalho.  
- Chng ta v nh u di.  
- U khng cn nh nua; bon Vit-minh da dt tiu nh u ri.  
- Taisao?  
- u da lm vic cho Ty.*  
- Vamos para a sua casa.  
- J no tenho casa; os vietcongues queimaram minha casa.  
- Por qu?  
- Porque trabalhei para os franceses.  
Diante de seu ar frustrado, ela acrescentou:  
- Nhung u dang o mt noi rt yn tinh m khng ai dn: mt ngi dn rt c m ho cho l bi 
tns m. No theo u.  
- Mas moro num lugar muito tranqilo, aonde ningum vai: um templo muito velho  
que dizem ser maldito. Venha, siga-me. 
Apesar da aparncia frgil, ela andava rpido, apoiada no basto. Por duas vezes parou para retomar flego, 
depois partiu de novo, rapidamente. Xia-Jing penetrou numa espcie de recinto guardado pelo que deviam ser 
outrora drages. Uma vegetao exuberante exalava perfumes fortes, ao mesmo tempo aucarados e opiceos. 
Respirando-os, podia-se acreditar que se inalava algum veneno mortal. Um emaranhado de cips, troncos, 
espinhos, bambus, flores e runas fazia parar os mais temerosos; uma corrente de ar glacial envolvia os que 
ousavam aventurar-se por l. Era incontestavelmente o sinal da presena de um gnio mau.  
Eles penetraram na confuso vegetal por uma estreita passagem e, ao fim de uns vinte metros, desembocaram 
num ptio atravancado por bancos, tartarugas de pedra e esttuas quebradas, escadas desmoronadas, 
pilastras de madeira apodrecida, telhas. Num tanque de gua estagnada desabrochavam flores de ltus de 
cores delicadas. Essa beleza tornava mais penosa a viso do desastre e a impresso de mal-estar que se 
desprendia dessas paredes desabadas, desses tetos arrebentados, dessas salas abandonadas. O que se havia 
passado de to terrvel nesse  
lugar sagrado, para que a populao dele se afastasse? Ele fez a pergunta a Xia-Jing; ela respondeu que no 
sabia. Atravessaram cmodos devastados, nos quais a natureza recuperou seus direitos. Ao fim dessa 
seqncia, a ama empurrou uma porta em que estava esculpida uma serpente engolindo uma r. Ela juntara ali 
tudo o que lhe restava de uma vida de trabalho. O conjunto era miservel mas limpo. Perto da esteira, 
cuidadosamente enrolada, havia uma caixa coberta por um pedao de seda bordada, e, junto  parede, um 
aparador, sobre o qual estavam trs estatuetas e fotografias ante as quais queimavam alguns bastes de 
incenso; era o altar dos antepassados. Kien se aproximou, fez os lai rituais e emocionou-se ao reconhecer os 
retratos do av e dos pais juntos com os da famlia de Xia-Jing. Entretanto, uma fotografia no devia estar l: a 
que representava as trs crianas Rivire rodeados por suas assam.  
- Cm chua cht m!* - disse ele, beijando-a.  
Ela corou como uma adolescente no primeiro beijo.  
Delicadamente, ele lhe explicou o que esperava dela. Sorrindo com a boca desdentada, ela balanava a cabea, 
escutando-o.  
Ao cair da noite, Kien e os companheiros se haviam mudado para o templo maldito. Chau levava as esteiras 
que comprara na aldeia.  
- Vo con dy ? 
-  sua mulher?
- perguntara Xia-Jing ao ver La.  
- Vng** 
- 
- respondera ele.  
La no se manifestara e aceitara sorrindo o ch de boas-vindas que lhe haviam oferecido.  
Vinh partira como batedor e reaparecera dois dias depois. A picada estava em mau estado, mas pouco 
freqentada, e numerosas cavernas serviam de esconderijo. Era indispensvel evitar Lang Son, passando por 
Than Moi. Uma vez l, era preciso ainda encontrar o melhor caminho para chegar a Tin Yn.  
- Uc chiv anho Tin Yn. D u cng di, use dn dung. Ngoi ta se khng d dn mt mu 
gi.  
- Chng ta khng th dua b y theo, se lm chng ta bi chm tr. Vi b kia da l... 
- Tenho uma irm e um irmo em Tin Yn. Deixem-me ir com vocs, eu os guiarei.  Ningum desconfia de uma mulher velha.  
- No podemos lev-la conosco, isso nos atrasaria. J basta ela...  
objetara Vinh, mostrando La.  
Ele nem tivera tempo de terminar a frase, e j Kien o pegara pela garganta.  
- Anh ccn ni d, vo ti nhu th, ti git anh!  
- D mac hn. Nhn b ngoi, hn khng th bit duoc u khoe manh v dung cam, cung nhu 
khng bit vo con da khoe hon nhi.**  
- Se voc falar de novo de minha mulher dessa maneira, eu o mato!  
- Deixe-o. Ele no pode saber que j estou forte e valente, apesar das aparncias, nem  
que sua mulher est muito melhor. 
Ele empurrara Vinh, que esfregava o pescoo.  
- Perdoe-me, chefe.  
- Est bem, est bem.  
Ele se aproximou de La, que olhava as pequenas rs saltando de uma folha de ltus para outra.  
- Voc se sente em condies de andar muito tempo? Ela sorrira e concordara com a cabea.  
Nessa noite eles tinham feito amor. 

Captulo 21

Bateram violentamente  porta do quarto srdido. Tavernier e Marchal se ergueram, empunhando as pistolas.
- No atirem rapazes! Sou eu, Valre... Venham rpido, h novidades.  
Os dois homens, cansados, calaram os Pataugas, juntaram bolsas e armas e seguiram o alsaciano. O dia 
amanhecia, fazia frio: o vento se engolfava pelas ruelas lamacentas. No caf, comerciantes chineses, 
camponeses thas, montanheses mans tomavam sopa ou bebiam ch. Valre os chamou  parte e fez sinal a 
uma empregada, que voltou rapidamente, carregando uma pesada bandeja.  
- Comam,  preciso recompor as foras - disse ele, inspirando ruidosamente o ch fervente.  
- Ainda agora voc gritou que havia novidades: o que queria dizer com isso? - perguntou Marchal.  
- Esperem, eis o amigo de vocs: assim eu no preciso repetir. Ento, voc dormiu bem? - perguntou ele a 
Thvenet, que vinha encontr-los.  
- No preguei olho... Que disposio tem seu mulhero! Valre encolheu os ombros. 
-  forte... Agora, rapazes, agucem os ouvidos: ontem, trs mil pra-quedistas saltaram no vale de Din Bin 
Phu.  
- Onde fica isso? - perguntou Thvenet, bocejando.  
- Ao sul de La Chau. A operao se desenvolveu sob as ordens do general Guies.  
- O zarolho?! - exclamou Thvenet. - Eu o conheci em Na San. Pensei que tivesse voltado para a Frana. Para 
que todo esse circo?  
- Na minha opinio, vo evacuar La Chau e concentrar foras em Din Bin Phu para fechar a estrada de Luang 
Prabang.  
- At ontem voc nos dizia que queriam conservar La Chau e a regio tha - recordou Marchal.  
- Mudaram de opinio - disse laconicamente o ruivo.  
- Ns no - replicou Tavernier. - Mas voc ainda quer partir?  
- No vai ser fcil chegar at l... Se estiverem de acordo, eu tambm estou, e no apenas por causa do 
diamante:  
preciso mudar de ares... Estou me embrutecendo aqui. Que dia  hoje?  
- No sei... 20, 21 de novembro...  isso, ontem foi 20 de novembro de 1953... Porra, era meu aniversrio! - 
exclamou Thvenet.  
- Feliz aniversrio, companheiro! Festejaremos quando estivermos em La Chau - disse Franois, estendendo-
lhe a mo.  
- Feliz aniversrio! - disseram os outros ao mesmo tempo.  
Eles se despediram de Geg e agradeceram a ela por lhes ter conseguido roupas quentes, vveres - e para 
Thvenet muito sexo. Do lado de fora caa uma chuva mida e muito fria. Com as armas e granadas escondidas 
sob a cobertura que os protegia da chuva, eles contornaram o posto de b di instalado na sada de Lao Cai e 
seguiram ao longo do rio Rouge, para atingir o local do embarque, alguns quilmetros rio acima, onde 
aguardaram a noite. Graas a Paul - o nome cristo do criado tha de Vaire  
- navegaram at Ba Xa, pela margem oposta. Do outro lado do rio estendia-se a China. 
Quarenta e oito horas mais tarde, chegaram  montanha, tiritando durante a noite e transpirando durante o dia, 
escondidos no capim alto. Escaparam de ser surpreendidos por uma patrulha vietcongue pesadamente armada 
e descendo para Phong Tho. Paredes de arbustos formadas por plantas cheias de espinhos atrasavam a 
caminhada; ao fim de uma semana, haviam percorrido apenas uns quarenta quilmetros.  
- Nessa velocidade, quando chegarmos a La Chau, a guarnio ter sido evacuada e os vietcongues estaro 
ocupando o lugar - disse Valre. - Sou mesmo um idiota para ter me metido nessa porcaria!  
- Pare de se lamuriar como uma mulher velha! - exclamou Thvenet.  
- De que voc me chamou, filho da puta? Vou quebrar-lhe a cara...  
Tavernier se ps entre eles.  
- Parem! Acham que est na hora de brigar, enquanto os vietcongues esto por toda a parte?  
- Tem razo - disse Valre. - Mas, se ele voltar a me comparar com uma mulher, eu o mato. Compreendeu, 
palhao?  
- Est bem, est bem. Voc est errado de se zangar sem motivo... Era s um jeito de falar.  
- No h jeitos entre homens.  
- Todos estamos exaustos - disse Roger Marchal. - Tentem dormir, eu fico no primeiro turno de guarda.  
A noite transcorreu sem problemas. Eles acordaram gelados, sob a chuva mida. Depois de terem bebido um 
pouco de ch frio e mastigado um pedao de carne-seca, partiram novamente, por um atalho que, segundo 
Paul, conduzia a Sinh Ho. Da seguiram por uma picada ao longo do cume dos morros, avanando 
penosamente atravs do tran, o capim-elefante, cujos talos cortantes e empoeirados atingiam s vezes dois 
metros. Sua nica vantagem era escond-los, da mesma maneira que podiam esconder o inimigo.  
No foi o inimigo que eles encontraram, mas uma companhia de irregulares* thafs, comandados por um jovem suboficial francs. No fosse a surpresa 
experimentada de parte a parte, que os paralisou por um breve instante, os dois grupos teriam se 
matado um ao outro. Mas o sargento, notando quatro homens de raa branca, interveio.  
- Alto!... Vocs so franceses?... Desertores?...  
- Franceses, sim. Desertores no! - respondeu Tavernier.  
- Este o tenente Thvenet, e este, o suboficial Mar chal, ambos de licena da Legio e em misso 
especial. Senhor Valre...  o seu nome? 
Meu nome  Meyer. Valre Meyer.  
Nosso guia, Paul.  
- E o senhor?  
- Franois Tavernier, incumbido de misso pelo alto-comando.  
- O senhor tem prova disso?  
- Meu jovem amigo, nestes lugares  melhor levar o menor nmero de provas possvel.  
O jovem corou sob a barba. Para disfarar, alteou a voz:  
- Aonde iam?  
- Estamos tentamos chegar a Lai Chau e fazer um relatrio para as autoridades militares - disse 
Tavernier.  
- Tambm estamos tentando... Mas os vietcongues esto por toda a parte, e eu j perdi onze 
homens.  
- Estamos longe de La Chau? - perguntou Marchal.  
- No, uns vinte quilmetros. Mas aqui isso no significa nada. - Aps uma hesitao, ele 
acrescentou: - Eu sou obrigado a lhe pedir que venha conosco, tenente.  
- No se incomode, garoto, ns assumimos tudo - respondeu Thvenet.  
Juntos retomaram a marcha na poeira amarela do capim-elefante, a qual lhes irritava os olhos e 
ressecava os pulmes. Em cinco horas de marcha estafante, haviam percorrido apenas quatro 
quilmetros.  
- Alto! - murmurou o jovem sargento.  
- Nesse andar no chegaremos a La Chau - observou Thvenet, deixando-se cair ao solo, no que foi 
imitado por todos.  
Exaustos, os homens nem tinham fome: sede, sim, mas os cantis estavam vazios.  
- E essa porcaria de rdio que no funciona! - disse o sargento, batendo na maleta.  
De repente, um bando de vietcongues surgiu gritando no meio do capim e abriu fogo. Cinco 
irregulares tombaram. Rolando, Thvenet pegou uma das granadas, tirou o pino e a lanou sobre os 
atacantes, abrindo uma brecha em suas fileiras. Tavernier e Marchal a aumentaram com o fuzil-
metralhadora. Quanto ao colosso alsaciano, acertava o alvo a cada tiro de pistola.  
Os b di se reagruparam e atacaram. Uma rajada ceifou os primeiros, enquanto os outros se 
empenhavam num corpo a corpo, armados de punhais ou de faces. Valre conseguiu se esconder 
no capim e, contornando os combatentes, abateu  queima- roupa quatro vietcongues, antes de ser 
por sua vez mortalmente ferido por uma punhalada.  
Uns vinte minutos depois, o sargento, ferido no ombro, contou vinte e cinco mortos de ambas as 
partes. Entre eles, Meyer, o amante dos charutos, o colecionador de antiguidades, que queria "mudar 
de ares", e Paul, seu servial  
- Eu estava comeando a me acostumar com ele - disse Thvenet,  guisa de orao fnebre.  
Franois fechou os olhos e colocou o chapu sobre seu rosto. Era tudo o que podia fazer. Marchal 
pegou a bolsa e as armas.  
Na manh de 7 de dezembro de 1953, houve no cu um bal areo que trouxe um alvio ao corao 
do sargento, dos thas sobreviventes e de Marchal. Thvenet e Tavernier ficaram mais cautelosos; 
haviam guardado na memria as palavras de Meyer lembrando a evacuao de La Chau. Podia-se 
dizer que ela comeara... Alguns avies aterrissavam, enquanto outros decolavam. Ao norte e a 
leste, os Dakotas jogavam vveres e material de pra-quedas. Isso durou dois dias, durante os quais 
eles tentaram alcanar a cidade. Parecia que toda a natureza se mobilizava para impedi-los de avanar. Alm da vegetao, em que se feriam, mos e 
braos sangrando, precisavam, em alguns lugares, contornar fendas profundas, escalar, descer, escorregar, 
com o rosto deformado pelas picadas de mosquitos, temendo ao mesmo tempo os vietcongues e os animais 
ferozes.  
Depois a calma voltou. Um grande silncio caiu sobre a regio. No por muito tempo.  
- Os safados! Eles nos abandonaram - disse o sargento, com lgrimas nos olhos.  
- H umas caixas que caram no muito longe daqui. Vamos ver se tm algo que se possa comer - disse 
Thvenet.  
O contedo de duas caixas tinha se espalhado. Os irregulares, contentes, juntaram latas de conservas, 
cigarros, gales de gua e de cerveja, raes de sobrevivncia, cobertores, duas caixas de medicamentos e at 
bolos. Nessa noite, diante do sol avermelhado que se punha atrs das montanhas que dominavam La Chau, 
todos, apesar da angstia, fizeram boas refeies.  
No dia seguinte, foram acordados pelos rudos do rdio:  
- Al? Aqui Hirondeile...  com voc, fale! - gritou o sargento.  
Ningum respondeu. Depois, bruscamente, uma voz saiu do aparelho.  
- Alerta a todas as companhias, alerta a todas as companhias: voltem  base de Din Bin Phu.  
- Din Bin Phu?  um lugar que est ficando na moda, parece! - disse Thvenet.  
Depois de examinarem os mapas, eles decidiram no tentar entrar em Lai Chau, aonde os vietcongues no 
tardariam a chegar, se j no estivessem l, e descer o Mu'ong Tong e da seguir a estrada Pavie* na direo 
de Din Bin Phu.  
Muito tempo depois, Franois iria se perguntar como haviam  
feito para atingir o pequeno lugarejo tha, que se tornou clebre com o nome de Gabrielie.  
O dia se anunciava trrido quando eles penetraram no vale de Din Bin Phu, cercado aqui por colinas 
suavemente arredondadas, ali por calcrios recortados emergindo de florestas onde havia tigres. Dos dois 
lados da estrada Pavie, pomares de laranjeiras e limoeiros, dominados por grandes mangueiras, eram agitados 
por uma brisa ligeira. Algumas palhoas sobre pilares formavam um povoado. Mulheres e crianas os viam 
passar, apertados uns contra os outros. Velhos fumavam. Feios ces amarelos os perseguiram latindo, porcos 
negros chafurdavam nos chiqueiros, galinhas fugiam e cavalos pequenos sacudiam a crina.  
"O vale feliz...", pensou Marchal.  
Esse encanto buclico foi quebrado pela chegada de caminhes militares, precedidos de um jipe, que parou 
junto  tropa andrajosa.  
- Sargento Noir! Feliz de v-lo novamente! - exclamou um tenente, descendo do veculo.  
- Eu tambm, tenente.  
Logo que pronunciou essas palavras, ele desmaiou. Foi transportado para um dos caminhes; os thas subiram 
com ele. Tavernier, Marchal e Thvenet tomaram lugar no jipe, que deu meia-volta.  
 medida que avanavam, a paisagem idlica dava lugar a extensos canteiros de obras para construes no 
local; diversos veculos se cruzavam mais de uma vez. Milhares de homens cavavam buracos, trincheiras, 
construam muros de sacos de areia, desenrolavam rolos de arame farpado, instalavam barracas, juntavam e 
esvaziavam caixas jogadas de pra-quedas um pouco antes, derrubavam as grandes rvores que ficavam junto 
 pista de aterrissagem. Das cozinhas montadas sob barracas subiam odores de comida. Meninos thas, com 
gorros na cabea, no perdiam nada do espetculo, muito mais divertido que o dos bfalos no meio dos 
arrozais ou da pesca no rio Nam Youn. No campo de aviao 
construdo pelos japoneses e aumentado pelos franceses, um Bauer pousou, logo cercado por 
soldados, que descarregaram bicicletas, enquanto na pista, deitados em macas, feridos aguardavam 
o embarque. Uma jovem usando macaco de pra-quedista, com um chapu amassado, tirava 
fotografias.  
-  Brigitte Friang, reprter fotogrfica. Ela est aqui desde o incio. Uma grande mulher: saltou 
conosco.  
O vento fez baixar uma nuvem de fumaa proveniente do mato que estava sendo queimado. O jipe 
deu uma guinada para evitar trs pra-quedistas que faziam o trajeto, montados em pequenos 
cavalos thas. Os cavalos eram to baixos, que os ps dos homens roavam o cho. Perto das casas 
ainda de p, jovens mulheres em longos vestidos pretos com gola ornada de gales bordados e 
cabelos presos em coque usavam o pilo para descascar o arroz.  
Tavernier e os dois legionrios foram conduzidos ao PC do coronel de Castries. A conversa com 
Marchal e Thvenet durou uns dez minutos; o estado-maior os mandou ao comandante Guiraud, 
que comandava o BEP*  
- Vamos reencontrar os companheiros - disse Thvenet, deixando Franois.  
Para este, ao contrrio, o encontro com o coronel foi tempestuoso.  
- E quer que eu engula toda essa histria?... O senhor me toma por um imbecil! - exclamou de 
Castries, levantando as grossas sobrancelhas pretas, depois de t-lo escutado por muito tempo.  
- Coronel, telegrafe ao general Navarre: o general Salan contou a ele.  
- O general Salan no foi explcito no momento de sua partida.  
- Seja como for, peo-lhe permisso para falar com Saigon para saber se tm notcias de minha 
mulher.  
- Antes de concordar com o que o senhor me pede, tenho  
de ter certeza de sua identidade. Enquanto espero, considere-se preso... sob palavra, bem entendido. 
Tenente!  
- Sim, coronel.  
- Conduza o senhor Tavernier para que ele tome banho depois da visita ao mdico...  
- Mas no estou doente!  
- Isso quem vai julgar  o major. Se o senhor Tavernier estiver com boa sade, d-lhe uma cama. 
Suas armas, senhor.  
Contrariado, Franois entregou ao tenente o punhal, o faco, a pistola e o fuzil-metralhadora.  
Tomou banho num meandro do rio Nam Youn. Nu at a cintura na gua gelada, esfregou-se com o 
sabo de Marselha que lhe passara o suboficial senegals encarregado de vigi-lo. Com a cabea e 
os olhos cheios de espuma, escorregou nas pedras redondas e caiu na gua, para grande hilaridade 
do africano.  
- Chefe! Assim vai amedrontar os peixes.  
Franois saiu da gua e prendeu a toalha cqui em volta dos quadris.  
- Pensou na barba?  
- Sim, chefe. Penso em tudo.  
Lavado e barbeado, Franois se sentiu pronto para enfrentar todos os coronis e generais de Din 
Bin Phu. Fez uma careta quando viu as roupas sujas que devia tornar a vestir.  
- Suas roupas esto nojentas, chefe...  
- Senhor Tavernier!  
O tenente se aproximava.  
- O coronel me encarregou de lhe acompanhar ao furriel, para que lhe consiga uma roupa limpa.  
- O senhor agradecer ao coronel a cortesia - disse Franois, com um piscar de olhos, ao suboficial.  
Com toda a dignidade, vestido apenas com a toalha, atravessou o campo at a barraca do sargento 
furriel.  
- Sargento, eis uma autorizao para uma roupa completa; faa o melhor possvel.  
- As ordens, tenente.  
Uma meia hora mais tarde, sempre seguido pelo senegals, 
Franois Tavernier, de roupa nova, foi ao cabeleireiro, que lhe fez um corte da moda, isto , o mais curto 
possvel.  
Examinado pelo mdico, foi dado como "apto para o trabalho"...  
S depois de trs dias  que foi autorizado a fazer as refeies em companhia dos oficiais. S se falava da 
entrevista concedida por H Chin Minh ao jornal sueco Expressen, na qual o lder vietnamita se dizia pronto 
para examinar as propostas de armistcio do governo francs. Dizia-se que o ministro do Exterior, Georges 
Bidault - "Ainda ele!", disse a si mesmo Franois - opusera um veto formal  retomada das negociaes com o 
vietcongues, apesar da opinio favorvel do ministro da Defesa, Ren Pleven, e mesmo da do presidente do 
Conselho, Joseph Laniel. Driblando a censura, as informaes chegaram ao campo. Franois Tavernier teve 
dificuldade para no demonstrar clera e desprezo pelos "burocratas", como os chamavam os militares. 
Quantas vezes tinham eles deixado passar a chance de acabar com essa guerra suja!  
Em 17 de dezembro de 1953, o general Navarre veio a Din Bin Phu em companhia do general Cogny. Quando 
desceu do Dakota, uma seo de marroquinos de turbante e polainas brancas bateu continncia. Fazia tempo 
bom, e ele os saudou com ar satisfeito. Depois de um rpido almoo, o coronel de Castries, dirigindo ele mesmo 
o jipe, com pra-brisa deitado sobre o cap, levou-o a visitar as novas instalaes, seguido por uma dezena de 
carros militares, em que estavam oficiais e fotgrafos. Castries mostrou o local escolhido para criar o ponto de 
apoio* "Gabrielie" na estrada Pavie, ao norte do funil.  
Pouco antes da partida, Franois conseguiu aproximar-se de Navarre e disse-lhe algumas palavras.  
- Estou a par. Levo-o para Hani; ficaremos baseados l.  
- Obrigado, general.  
Nomes femininos (Claudine Huguette, Dominique. Eliane, Isabelie etc.) haviam sido  
dados aos diferentes pontos de apoio do funil de Din Bin Phu. 
Ele teria gostado de se despedir de Thvenet e de Marchal, mas j eram dezessete horas, o sol ia se pr e a 
partida era iminente.  
Visto do alto, o vale parecia minsculo, aprisionado pelas colinas e pelas montanhas. "Uma verdadeira 
armadilha", pensou ele, voltando os olhos para o outro lado.  
- A diviso 308 percorreu cinqenta quilmetros em dois dias. Em menos de uma semana estar em Din Bin 
Phu - disse o general Cogny.  
Franois se ergueu na cadeira, atento.  
- Voc se preocupa  toa: teremos com que receb-los - respondeu Navarre em tom impaciente. 
- Mas... 
- Cale-se! Temos civis no avio.  
O Dakota aterrissou em Hani com chuva e frio. 
Detido por dois dias no quartel da Citadeile, Franois foi interrogado pelos oficiais dos servios de informao. 
S na vspera de Natal  que o deixaram sair. Ele respondeu o mais exatamente possvel a todas as perguntas, 
sem conseguir nada a respeito de La.  
- Aqui no sabemos nada. Esperamos uma resposta do escritrio em Saigon.  
Com o corao apertado, ele deixou a fortaleza sob um aguaceiro. Caminhou por aquelas ruas pelas quais La e 
ele tanto gostavam de passear: rua de la Laque, rua de la Soie... No lugar onde fora ferido, nada parecia ter 
mudado: apesar da chuva, havia a mesma atividade, os vendedores de sopa se abrigavam sob grandes guarda-
chuvas, os mendigos estavam a postos.  
Franois parou subitamente com os olhos voltados para um corpo agachado e meio escondido sob um pedao 
de chapa ondulada.  
Se um dia lhe tivessem dito que ficaria feliz de rever o mendigo, a ponto de ter vontade de abra-lo, teria 
ficado muito espantado. Ao ser chamado, o infeliz ergueu a cabea. Estava ainda mais horroroso que em sua lembrana. Os olhos purulentos brilhavam de febre e o fitavam 
sem parecer 
reconhec-lo. Franois se abaixou.  
- Sou o marido de La.  
Ao ouvir esse nome, o olhar do enfermo se iluminou; ele tentou se levantar, mas caiu novamente.  
- V buscar um "carrinho" - disse ele a um garoto, dando-lhe um dinheiro.  
O garoto partiu correndo e voltou logo depois com um cyclopousse, que fazia muito j ultrapassara a idade 
da aposentadoria. Ajudado pelo garoto, Franois iou Giau para o banco, apesar dos protestos do condutor.  
- Para a estao!  
De frente para a estrada de ferro, erguia-se outrora uma hospedaria para nativos cujo dono fora, durante 
muitos anos, o criado habitual do pai de Hai.  
- Espere-me - disse ele ao condutor.  
Assim que entrou, viu-se cercado por um odor de sopa e de misria. Nas poltronas de vime estavam sentadas 
duas mulheres, uma magra e muito idosa, a outra gorda e mais jovem. Nenhuma se mexeu com a sua entrada.  
- Sou da famlia Rivire. Queria um quarto com duas camas - disse ele em vietnamita.  
- O hotel est lotado - respondeu-lhe a gorda em francs.  
Ele tirou um mao de piastras, que agitou sob o nariz dela.  
- E com isso?  
Ela se apoderou das notas e disse com um sorriso ignbil, mostrando um quadro de onde pendiam trs ou 
quatro chaves.  
- O nmero dois.  
Ele pegou a chave, saiu e voltou trazendo Giau. A mulher gorda o olhou com dureza, mas o olhar que ele lhe 
lanou impediu imediatamente possveis reclamaes.  
O quarto no era to sujo como ele receava. Deitou Giau numa das camas, cobriu-o e desceu novamente.  
- Onde posso encontrar um mdico? 
- Na prxima rua  direita: ver uma tabuleta. Ele pelo menos no vai morrer aqui, no ?  
Franois no respondeu.  
- Ele est com bronquite e, principalmente, morto de fome  
- diagnosticou o mdico, um mestio chins.  
Depois de quarenta e oito horas, Giau recobrara suas foras e j no tinha febre. Maravilhado, observava tudo 
em redor.  
-  a primeira vez que durmo numa cama!  
Durante esses dois dias Franois tentara telefonar para Lien, em Saigon. Sem sucesso. No hotel Mtropole foi 
recebido calorosamente pelo gerente e pelo pessoal. Nenhum rosto conhecido no bar: os correspondentes de 
guerra, os fotgrafos haviam sido substitudos. Alguns, diante de seu rosto cansado e seu cabelo curto, 
quiseram comear uma conversa; ele se mostrou apenas educado. Engoliu um conhaque-soda e voltou para 
perto de Giau. Nas ruas, a despeito de chuva, reinava certa animao - era Natal.  
Giau sabia pouca coisa a respeito de La. Perdera sua pista perto de Chim Hoa, sobre o Song Gm. L ele 
soubera que uma mulher branca, prisioneira dos vietcongues, fora morta. Pela descrio que lhe fora feita, 
poderia ser ela. Mas como ter certeza? Para os asiticos todos os brancos se parecem... Tudo o que pudera 
recolher ulteriormente parecia confirmar a morte. Voltara para Hani para tentar saber mais. No sabia de mais 
nada. Quem sabe ele...?  
Dois dias aps o Natal, Franois foi convocado, tarde da noite, pelo servio de informaes. Incomodado, mas 
visivelmente apressado para ir jantar, o chefe do servio lhe estendeu uma folha: o texto datilografado estava 
redigido em estilo telegrfico:  
"Uma mulher branca, depois de ter morto uma violinista, combatente vietcongues, foi executada no ms de 
outubro ou novembro ltimo perto de Ngn Son."  
Apalermado, ele olhava para a frente, vendo La  cabeceira de Nhu-Mai... Por que a teria matado? Isso no 
fazia nenhum sentido! E no entanto... 
- Amigo! Est sentindo alguma coisa?  
Franois se levantou e saiu. As ruas estavam escuras, o vento  
soprava, uma chuvinha fria caa sem parar enquanto os sinos da  
catedral de Hani anunciavam a missa da tarde. Maquinalmente  
ele se dirigiu para o carrilho.  
A nave estava cheia de mulheres, crianas e velhos que rezavam  
e cantavam com fervor. Ele deslizou para um canto escuro, -  
ajoelhou-se e, com a cabea entre as mos, comeou a chorar.  

Captulo 22

Sem os cuidados atentos de Xia-Jing e o amor de Kien, La no
teria chegado com vida a Tin Yn.  
O pequeno grupo percorrera os cento e cinquenta quilmetros que os separavam do mar em condies 
espantosas, evitando ao mesmo tempo os vietcongues e os franceses, roubando, matando para tentar 
conseguir um pouco de comida. Nessa par- te do Tonquin devastada pela guerra, tinham cruzado muitas vezes 
com crianas errantes, nuas, que se jogavam sobre eles gritando e chorando de fome. A algumas faltava um 
brao ou uma perna, arrancados por uma mina. A maior parte do tempo, Kien e XiaJing as enxotavam, 
enquanto Chau e Vinh s vezes lhes davam escondido um pouco de arroz.  
A morte de Nhu-Mai parecia ter paralisado a inteligncia e o juzo de La. Quanto  memria, funcionava em 
meio a eclipses. Por momentos, ela franzia as sobrancelhas, depois ria ou soluava chamando o pai ou a me. A 
viso das crianas estropiadas suscitava-lhe invariavelmente o choro, mas em nenhum caso a fazia pensar nos 
prprios filhos. Freqentes dores de cabea a deixavam abatida, apertando as tmporas com as mos. A cada 
parada, Kien a levava para um canto e fazia amor com ela. La 
deixava-o fazer, com os olhos bem abertos, sentindo prazer, mas sem exalar um s suspiro, 
nenhuma palavra. Apenas um longo tremor de todo o corpo manifestava prazer ao amante, que a 
teria preferido gemendo, provocante. Mas essa La ficara na clareira junto ao cadver de Nhu-
Mai. Freqentemente, nas horas de descanso, ela ouvia o violino da amiga e, deitada, adormecia, 
com um sorriso nos lbios, enquanto uma lgrima rolava suave- mente para os cabelos curtos.  
At Lc Binh, a cinco dias de marcha de Ph Binh Gia, La seguira o passo dos companheiros. 
Mas a travessia,  noite, da plancie lacustre de Lc Binh, o vento glacial que descia dos mil e 
quinhentos metros do Mu So'n haviam vencido suas foras. Por ordem de Kien, Vinh e Chau 
lhe tinham feito uma maca. Para escapar das patrulhas francesas, descansavam durante o dia e s 
retomavam a caminhada ao crepsculo. A progresso era lenta. Ao amanhecer, depois de ter 
cuidado e alimentado La, Xia-Jing ia adiante: cruzava com soldados ou camponeses que no lhe 
prestavam nenhuma ateno, o que lhe permitia comprar dos pequenos negociantes de beira de 
estrada arroz, frutas, algumas vezes carne ou peixe seco, que ela punha numa espcie de alforje 
preso s costas. No passava pela cabea de ningum desconfiar dessa velha nh qu 
desdentada.  
Depois de Dinh Lp, eles tinham encontrado famlias yaos que se aqueciam perto de um fogo e 
lhe haviam dado lugar sem fazer a menor pergunta. As crianas haviam olhado La de uma 
distncia respeitosa. Depois eles tinham caminhado ao longo do Sng Ki Cung: as rochas de 
arenito vermelho davam uma cor de sangue  paisagem. Pouco antes de tomar a barca de corda 
para atravessar o curso d'gua, haviam sido surpreendidos por atiradores marroquinos, que, no 
esperando descobrir uma europia estendida numa padiola, haviam reagido muito tarde e pago 
com a vida pela surpresa. Um punhado de piastras e a ponta de uma adaga no cncavo dos rins 
do condutor da barca lhes haviam ativado a fora dos braos e feito vencer os quinze metros do 
riacho em tempo recorde. Eles entraram em Tin Yn ao cair da noite.  
Xia-Jing saiu pela pequena cidade devastada  procura da casa 
do irmo e irm; mas todo o bairro desaparecera. Ela soube por um velho que a irm, Da Luo, se 
refugiara na aldeia de Dam Ha, perto do mar. Vinh acompanhou a ama, com a misso de encontrar 
um junco ou, na falta dele, uma sampana. Na praia prxima a Dam Ha, Xia-Jing correu o mais 
rpido que lhe permitiam as pobres pernas, desgastadas nesses dias e dias de caminhada, para uma 
apanhadora de moluscos que ela reconhecera como Da Luo. As duas mulheres se abraaram, 
dando grandes gritos de alegria. Graas a Da Luo, Vinh pde alugar um pequeno junco, que estava 
em estado muito satisfatrio. Mediante algumas milhares de piastras, o proprietrio aceitou conduzi-
los pelo golfo de Tonquin at Ha Ci e depois ao longo da ilha de Vinh Thuc,  procura do junco de 
Kien, sem fazer perguntas.  
Embarcaram no dia seguinte. Xia-Jing os acompanhava: ela recusara ficar com a irm, que deveria 
se juntar ao marido na priso militar de Pointe-Pagode, onde eram "reeducadas" as cabeas 
pensantes do exrcito, para grande prazer dos vietnamitas ali colocados por oficiais perversos para 
vigi-los no trabalho humilhante. Foi ao sul da ilha de Tr C, ligada ao continente por um dique de 
mais de um quilmetro, que Kien encontrou o junco, escoltado por trs sampanas em que homens 
armados estavam escondidos por sacos de arroz. Fred fizera um bom trabalho, de noite o junco de Kien 
se afastou das costas indochinesas. A  
trs sampanas o escoltaram entre a ilha de Wei Tcheou e a de Vinh Thuc, depois voltaram. Cinco 
homens, todos excelentes atiradores, estavam a bordo. Ao amanhecer, viu-se um junco do qual 
faziam sinais.  
-  Fred! - exclamou Kien, olhando pelo binculo. - Ele deve estar vindo de Pak Koi. At aqui temos 
escapado dos barcos costeiros franceses e chineses. Que os demnios do mar continuem a nos 
proteger!  
Os dois juncos navegaram juntos sem encontrar obstculos at o estreito de Hai Nam. A passagem 
entre a China e a grande ilha foi difcil, por causa do nevoeiro: a luz dos dois faris que 
protegia o estreito mal era visvel. O piloto temia chocar-se com os bancos de areia, de cuja presena ele tinha 
conhecimento. Inclinado na frente do barco, Kien o guiava. A sada do canal, o nevoeiro se dissipou.  
La, doente, ficou fechada na cabine.  
A algumas milhas de Hai Nam, os dois juncos foram inspecionados por uma pequena embarcao da alfndega 
chinesa. Apesar de estar com todos os documentos em ordem, Kien teve de dar uma boa soma de dinheiro aos 
agentes, o que fez sem reclamar, de bom humor: era o costume,  melhor cair nas mos de agentes 
alfandegrios desonestos do que nas de piratas, que matavam para se apoderar da embarcao e violentar as 
mulheres, quando havia alguma a bordo, antes de vend-las para os bordis.  
O bom tempo voltou, e La, j no sentindo enjo, subiu para o deque. Havia quatro dias que navegavam. 
Passaram perto de dezenas de ilhas e ilhotas.  
-  aqui que est enterrado So Francisco Xavier, o apstolo das ndias, como dizem os catlicos.  
- Como se chama esta terra? - perguntou La.  
- Os portugueses a denominaram Sancian; ela faz parte das ilhas Saint-Jean.  
Mais tarde, passaram ao largo de Macau, o Mnaco chins.  
- Vou traz-la aqui - disse Kien. - No bairro da Praia Grande parece que estamos na Cte D'Azur, e na rua de 
Felicidade, em Cholon, no Grand Monde, mais extravagante ainda! Nas ruas do bairro chins, cada casa  uma 
espelunca... uma casa de jogo, como dizem os habitantes. Desde 1946 Macau  tambm um dos maiores 
importadores de ouro do mundo.  
Enfim, na imensa embocadura do rio des Penes, eles perceberam a primeira ilha do enclave de Hong Kong, 
Lantau.  
Nessa mesma noite, La dormiu numa sute do hotel Peninsula, um suntuoso palcio dos anos 20 que parecia 
muito longe da Indochina e da guerra.  
Haviam chegado fazia trs dias quando um gigantesco incndio 
irrompeu, no dia de Natal, no bairro de Shep Kip Mei, pobre e superpovoado. Durante todo o dia e 
toda a noite viaturas dos bombeiros e ambulncias cortaram as ruas. A Cruz Vermelha e as 
associaes de caridade lutaram para realojar os que perderam tudo. Verdadeiras aldeias de 
barracas surgiram em diversas partes, coletas foram organizadas para ajudar os cinqenta e trs mil 
resgatados.  
Foi um mdico chins que disse a La que ela estava grvida de trs meses. O anncio dessa 
gravidez a deixou indiferente. Kien, ao contrrio, demonstrou muita alegria.  
Entretanto, o estado geral da jovem mulher melhorava dia a dia; a magreza dera lugar a uma 
elegante esbeltez, e a face estava novamente arredondada. Apenas o olhar traa a perturbao do 
esprito. Pouco a pouco ela revia pedaos do que fora sua vida antes do pesadelo que vivera desde o 
instante em que tomara lugar a bordo do comboio do Rafale. Cada lembrana reencontrada 
representava para ela tal soma de sofrimentos, que se esforava imediatamente por apag-la, 
procurando prazeres imediatos, desde a compra de uma pea de seda ou de uma jia at o 
esquecimento total no pio.  
Durante todo o tempo passado na guerrilha vietcongue, La levava no pescoo, preso por um lao 
de couro, uma bolsa de pelica contendo todos os seus tesouros: o papelo entregue por Nhu-Mai 
quando do atentado em Hani, na realidade uma espcie de carteira de identidade do combatente 
vietcongue (quando fazia o inventrio dessa bolsa, La alisava a ponta do papelo sujo, passando 
longamente o indicador na parte vermelha estriada de branco, que encimava o nome datilografado 
de Nhu-Mai), um minsculo buda de jade, oferecido por Giau, que ela gostava de aquecer na palma 
da mo, um drago de madeira esculpido por Nhu-Mai, um desenho de criana, uma aliana muito 
grande e uma foto, endurecida, gasta, onde se viam trs crianas, uma das quais um beb. Ela j 
no sabia quem eram essas crianas e no ousava falar disso com o amante.  
Kien alugara uma grande vila no monte Vitria, o bairro 
residencial da ilha de Hong Kong, conhecido pelo clima temperado. Haviam sido necessrios muitos 
dlares para que a proprietria, uma riqussima chinesa, aceitasse um mestio como locatrio; 
felizmente sua "encantadora mulher" era europia... Xia-Jing se instalou l. Aguardando que o local 
fosse arrumado ao gosto de Kien - La s manifestava indiferena a esses embelezamentos -, 
permaneceram no hotel Peninsula, Salisbury Road, em Kowloon.  
No comeo, La ficava longos momentos no grande salo de colunas douradas, bebendo, conforme 
a hora, chocolate quente, ch ou champanhe, sentada perto das grandes janelas. Contemplava o 
trfego incessante de carros, de bicicletas, de nibus de dois andares, de rickshaws,* enquanto 
chineses e pedestres corriam na direo das embarcaes que ligavam o continente chins aos 
diferentes portos da ilha. Freqentemente ela entrava numa dessas embarcaes e descia no 
Central District; depois pegava outra, que a conduzia a Wanchai, bairro onde marinheiros vindos do 
mundo inteiro se amontoavam, ao cair da noite, numa dezena de bares, em busca de aventuras com 
mulheres. Durante o dia, o bairro fervilhava com uma populao pobre e trabalhadora, barulhenta e 
animada, que fingia ignorar essa elegante europia. Ela gostava de passear ao longo dos cais, onde 
estavam os melhores fabricantes de mveis chineses; o lugar tinha o cheiro bom da cola, da madeira 
recentemente lavrada. O trabalho de marcenaria era feito na prpria calada. La andava entre as 
cmodas, as mesas e as poltronas, ou, mais freqentemente, junto ao meio-fio, o risco de ser atingida 
por um rickshaw ou um txi mais apressado. Apesar de se vestir com simplicidade, chamava a 
ateno. Um dia, mandou o alfaiate do mercado confeccionar uma roupa de algodo preto, parecida 
com a que usavam as mulheres idosas dos bairros populares: para sua grande surpresa, quando 
passou a us-la, as pessoas, que at aquela data teimavam em ignor-la, sorriram-lhe, principalmente  
as mulheres, que at a tocavam como para verificar se era mesmo real.  
Sob a roupa curta o ventre se arredondava. Kien ficara furioso quando a vira assim vestida.  
- Voc me desonra! - gritara ele.  
Mas La resistira e at acrescentara ao traje negro um vasto chapu, um grande crculo de palha 
tranada rodeado de um vu negro, atado em volta do pescoo, tal como usavam as mulheres da 
tribo Hakka. Quando ela atravessava, assim "disfarada", dizia Kien, o saguo do Peninsula, fazia-
se grande silncio de reprovao, tanto entre a clientela rica, de maioria branca, como entre o 
pessoal nativo. Ela no se importava com isso, achando esse modo de trajar mais prtico para ir 
descobrir a colnia de Sua Mui Graciosa Majestade Britnica, a jovem rainha Elizabeth II.  
De Wanchai, voltava de bonde para Western, o primeiro bairro ocupado pelos ingleses em 1841, e 
descia perto do mercado central. Nessa parte da ilha, podia passar dias inteiros perambulando pelas 
ruelas, que lhe recordavam o quarteiro chins de Hani. A maior parte dos comerciantes e 
artesos estavam agrupados por corporaes; donos de restaurantes que s cozinhavam cobras, 
vendedores de ervas e farmacuticos, fabricantes de caixes, notrios, impressores, gravadores de 
sinetes e os escultores em marfim, jade, pedra ou madeira, alfaiates, mdiuns, consertadores de 
bicicletas etc. - quase todos instalados em menos de trs metros quadrados, em lojas feitas de 
chapas onduladas e caixotes de madeira. As mercadorias tambm transbordavam para a calada, 
quando no para o meio-fio.  
Para La, o lugar mais fascinante era o Thieves Market, o "mercado dos ladres", na esquina de 
Ladder Street com Hollywood Road. Essa rua, freqentemente em aclive, e as da vizinhana eram o 
lugar predileto dos amantes de antiguidades e de materiais de recuperao da colnia. Seguiam, um 
ao lado do outro, a venda de bordados antigos ou de porcelanas milenrias, o faz-tudo dos motores e 
o consertador de ventiladores. La regateava sem nenhuma vergonha e voltava ora com bonitas 
estatuetas de deusas, ora com caixas de tabaco delicadamente esculpidas. 
Em seus passeios, ela no deixava jamais de parar no templo do deus da literatura ou dos mandarins, 
Man Mo, onde fazia queimar incenso no meio da aglomerao de fiis. As vezes sentia vontade de 
ar puro, de verde; ela ia visitar o jardim zoolgico, que abrigava trezentas espcies de pssaros, 
depois o jardim botnico, onde ao amanhecer, como ao crepsculo, os habitantes faziam sua 
ginstica, que parecia um lento bal, o tai chi chuan. "Eu devia estar aqui", pensava La toda vez 
que via velhos e jovens, homens e mulheres dedicados aos exerccios. Depois ela tomava o funicular 
para Garden Road e subia at o fim, o pico Vitria. A primeira vez que foi l, ficou impressionada 
com a imensido da baa e a surpreendente beleza da vista que se tinha de Hong Kong, Kowloon, as 
ilhas e ilhotas, e com a importncia do trfego martimo entre os diferentes pontos da ilha e o 
continente: veleiros de recreio, navios de guerra, petroleiros,ferry-boats, juncos, barcos de pesca, 
navios mercantes, de passageiros, rebocadores sulcavam a baa, numa impressionante espcie de 
dana. Os juncos, com as velas rosadas em forma de asas de morcego, deslizavam, graciosos e 
imemoriais, no meio dessa esquadra dos tempos modernos; as sampanas, como uma mirade de 
insetos, agitavam-se ao redor. Subindo de novo Lugard Road, ela descobria a outra parte da ilha, do 
porto de Aberdeen a Repulse Bay e s ilhas de Lamma e Lantau, experimentando sempre o mesmo 
assombro diante da competio entre a criatividade a que se entregava o gnero humano e a da 
natureza. Sentada num dos bancos do passeio, retomava pouco a pouco conhecimento do mundo.  
Foi ali, num desses bancos, que ela sentiu pela primeira vez o filho se mexer. Esse longo tremor foi a 
chave que reabriu a porta s lembranas. Num relmpago, ela reviu o rosto dos filhos; o de Adrien, 
que se parecia tanto com o pai; o de Camille, a filhinha to bonita. Acreditou sentir-lhe o corpo junto 
ao seu, os beijos molhados do filho, a boca delicada da filha mamando-lhe no seio. Lembrou-se da 
doura de sua pele, da cor de seus olhos. Outros rostos, paisagens surgiram, "Montillac!", disse ela 
em voz alta. Um grupo de estudantes chineses de uniforme passou diante dela. Viraram a cabea 
com desprezo diante dessa branca, vestida ridiculamente com o traje negro dos humildes, sentada num banco, que se balanava para a frente e para trs, 
com as mos pousadas na pedra de um lado e de outro do corpo, um sorriso resplandecente no rosto coberto 
de lgrimas.  
Como pudera esquec-los?... A resposta lhe chegou em forma de imagens sangrentas, cuja violncia a deixou 
sem foras diante do cu imenso, onde algumas nuvens corriam. A medida que partes considerveis da 
memria se reavivavam, ela tentava ocult-las para no sofrer muito. Mas o conseguia cada vez menos.  
No dia seguinte acordou gritando:  
- Franois!  
Kien, que dormia junto dela, acordou sobressaltado, por sua vez.  
- Franois? - disse ela novamente, agora em tom de interrogao, virando-se para ele.  
Depois de algum tempo, com raiva no corao, o jovem via La escapar-lhe  medida que o passado voltava.  
Quis tom-la nos braos; ela o empurrou.  
- Responda-me - disse ela com dureza.  
Nu, deitado de costas, mos atrs da nuca, ele murmurou com um sorriso vago:  
- Est morto.  
Lentamente, ela se levantou, afastou a musselina do mosquiteiro e atravessou o quarto. Apoiou a testa, depois 
o ventre redondo no vidro fresco... No, isso no eraverdade!... Franois estava vivo, ela o sentia. Kien estava 
enganado... ou a estava enganando... No, ele no faria isso, seria muita crueldade, muita covardia!... Ps as 
mos na cabea. Precisava pensar, reunir todas lembranas, que lhe chegavam desordenadamente, fazer uma 
triagem. Se Franois no estava morto, o que fazia ela com Kien, grvida dele?  
Neste momento, tinha de dissimular a dvida para Kien. Ela se virou para ele, inconsciente das lgrimas que lhe 
banhavam o rosto, e desmaiou.  
Quando voltou a si, estava deitada na cama, coberta por um lenol. O mdico do hotel acabara de lhe dar uma 
injeo. 
- A senhora precisa descansar. Pense no seu filho.  
Quando ficaram sozinhos, Kien sentou-se ao lado dela e lhe disse:  
- Eu no queria lhe contar assim to brutalmente... Aconteceu na Regio Alta da Serra, quando fomos  sua 
procura. Camos numa emboscada. Franois foi morto logo: no pude fazer nada...  
- Onde o enterrou?  
- Em Nghia D.  
- Houve outros mortos?  
- Dois legionrios e mos.  
- Voc avisou as autoridades francesas?  
- Sim, em Thap Mieu, no longe de Hani.  
- Quando a guerra terminar, irei procurar o corpo de Franois e o trarei para perto de mim... Agora, deixe-me.  
Kien se inclinou para beij-la; ela virou a cabea. Ele saiu, aliviado. Esperara gritos, lgrimas; mas nada! Ela 
recebera bem a coisa... As mulheres so estranhas, pensou. Como as cadelas, precisam de um dono: se um 
desaparece, ligam-se a outro. Principalmente se este lhes d prazer e lhes faz um filho. Quando o seu nascer e 
que eles estiverem instalados na vila de Victoria, ele se encarregar pessoalmente dela novamente, acabar 
com esses passeios pelo bairro chins, e ela se tornar a elegante dona de casa de que ele precisa para seduzir 
aqueles com que est negociando.  
Desde esse instante, apesar de toda a dvida que a atormentava s vezes - E se "ele tiver dito a verdade?... Se 
Franois estiver verdadeiramente morto?..." -, ela no deixou de preparar a fuga.  
Em primeiro lugar, exigiu que um britnico lhe acompanhasse a gravidez. Teve caprichos cada vez mais 
onerosos. Todo dia Kien lhe dava um bom dinheiro para comprar essas antigidades de que ela tanto gostava. 
Gastava sem conta nas luxuosas lojas prximas do Peninsula, no fim de Nathan Road, mandando entregar 
jias, o carrinho ingls para o beb, o enxoval e roupas, que Kien, sorrindo, pagava sem comentrios. 
Ela conhecera a jovem chinesa responsvel pela decorao floral do hotel. Esta falava muitas lnguas, entre as 
quais um francs sumrio mas suficiente para que se entendessem. Numerosas vezes, La a felicitara pelos 
arranjos de flores. Chin_Hua* ficara sensibilizada por uma europia elogi-la e se esforava por decorar o 
apartamento de La com os mais belos buqus.  
Um dia La lhe pediu que a levasse aos floristas em que ela se abastecia. Chin-Hua aceitou com numerosos 
agradecimentos, e, no dia seguinte, foram ao mercado de Kowloon. Passaram toda a manh ali, circulando entre 
os cestos de Lion Rock Road e as ruas adjacentes. O bairro inteiro era um vasto mercado; o comprador poderia 
encontrar ali tudo o que desejasse. Em Nga Tsin Long Road, tinha-se a impresso de passear por um jardim 
encantado. Depois de muito regatear, Chin-Hua fez a encomenda aos floristas, que carregados de cestos 
perfumados e coloridos, foram lev-las ao hotel.  
- A senhora est com fome? Quer comer alguma coisa? - perguntou Chin-Hua, apontando os balces dos 
cozinheiros.  
Elas comeram bananas assadas e beberam ch. No fim de Lion Rock Road, La viu um grande telhado com 
telhas de um amarelo forte, e o mostrou a Chin-Hua.  
-  o templo de Wong Tai Sin - disse a chinesa.  
- Vamos l - disse La sem notar a hesitao da moa.  
Diante do templo, de colunas vermelhas e douradas, os fiis faziam fila para entrar, ou, ajoelhados ao p dos 
degraus, depositavam as oferendas e rezavam.  
- O que  esse barulho?  
-  o chim - respondeu a acompanhante, dando vinte cents a uma velha sentada na entrada. - Antigamente, 
era um templo proibido ao pblico; atualmente, pagando a entrada, pode-se fazer meditao nele.  
No interior, o rudo do chim enchia o santurio. Chin-Hua pegou duas tigelas de madeira, que encheu de
bastes de oraes, e deu uma a La.
- Sacuda-a como fazem os outros, at que um basto caia. Anote o nmero e a adivinha lhe explicar o que 
significa.  
La apanhou do cho o nmero 6.  
-  um algarismo muito bom - disse Chin-Hua, continuando a agitar a tigela. - A senhora pode continuar, 
pensando parente ou amigo.  
"Franois", pensou ela, sacudindo fortemente a sua.  
O nmero 913 caiu.  
- A senhora tem sorte:  muito, muito bom.  
- Por qu?  
- Este significa "vida eterna".  
"Eu bem sabia que ele no podia estar morto", pensou La.  
Depois de ter queimado incenso, ela saiu radiante do templo. Caminhou por Tung Tau Tsuen Street, 
indiferente aos mendigos, s fisionomias inquietantes dos homens que a encaravam, esquecendo at a 
presena da acompanhante, que a agarrou e a  
segurou pela manga. -  
- Venha, no fiquemos aqui.  perigoso.  
La olhou em torno de si. Em que essa avenida diferia das outras ruas populosas da colnia? As mesmas 
bandeirolas vermelhas com inscries brancas ou pretas penduradas ao longo das fachadas, cheias de crostas, 
das casas com janelas onde secava a roupa; gaiolas em que cantavam dois ou trs pssaros ficavam 
penduradas. A mesma multido pobremente vestida, com uma espcie de pijama feito desse tecido preto e 
brilhante que os chineses chamam "tela de nuvem perfumada", apressava-se no caminhar ritmado pelo rudo 
dos sapatos de sola de madeira. ChinHua quase corria, e La, cujo ventre comeava a pesar, tinha dificuldade 
para acompanh-la.  
- Espere-me... De que est fugindo assim?  
- Estamos perto da "Cidade murada".  
- "Cidade murada"?  
- Sim, Kowloon-city, se preferir...  
- Mas no estamos fora de Kowloon?  
-  um pouco complicado explicar. A histria remonta a 1898, quando os ingleses alugaram por noventa e nove 
anos ao 
governo imperial o que se chamou Novos Territrios. Havia aqui uma aldeia que ficou sob a administrao de 
Pequim. Essa aldeia se chamava Kowloon-cit Na poca, no havia nada em volta, isso no causava nenhum 
problema. Mas o desenvolvimento dos Novos Territrios foi tal, que a "Cidade murada" ficou cercada pela 
cidade moderna, sem estar, entretanto, submetida  jurisdio britnica. Logo se tornou refgio de bandidos de 
toda a espcie, e a polcia se recusava a entrar ali. Depois de haverem tirado os habitantes dali  fora, os 
japoneses demoliram as paredes que os protegiam. Desde a partida destes, os antigos habitantes voltaram, 
seguidos por outros, que fugiam do comunismo.  aqui que os ricos comerciantes de Xangai ou de Canto 
vm recrutar criminosos e assassinos. Principalmente, nunca venha sozinha ao templo:  o limite entre a ex-
"Cidade murada" e o resto de Kowloon. Todo dia h mortes, estupros, seqestros.  
- A polcia no faz nada?  
Chin-Hua encolheu os ombros.  
- Ningum quer aborrecimentos com a China comunista.  o mundo da droga, da falta de autoridade. As ruas, 
ali, parece que so muito estreitas, cobertas de detritos, com escadas que no levam a lugar nenhum, 
corredores que atravessam as casas de lado a lado. Muito freqentemente no h eletricidade, o telefone foi 
cortado. O estrangeiro que entrar ali pode ter certeza de no sair vivo.  
- Todavia, nada indica a fronteira entre a "Cidade murada" e Kowloon. Em Tung Tau Tsuen Street, vi apenas 
lojistas, consultrios mdicos ou dentistas.  
- H tambm bancos clandestinos, falsificadores de documentos ou de moeda, casas para fumar pio, casas 
fechadas...  
- Documentos falsos? - murmurou La, pensativa.  
Em seu priplo indochins, ela perdera tudo o que lhe atestava a identidade. Ao recuperar a razo, falara disso 
com Kien, que se dissera disposto a tratar da regularizao dos documentos.  
- Est sendo providenciado - respondera ele quando ela lhe falara novamente do assunto. 
Elas pararam um txi. Ao subir no automvel, La percebeu Fred, que se escondia atrs de uma 
banca de jornais. Ficou lvida de raiva: aonde quer que ela fosse, Kien mandava Fred, Vinh ou um 
dos guarda-costas chineses segui-la. No chegavam a entrar nas lojas de Nathan Road ou nas 
butiques do mercado dos ladres, mas ficavam por perto. No comeo fingia no not-los, at o dia 
em que pedira a Kien que mandasse parar a vigilncia.  
- Isso me causa desgosto, parece que no tem confiana em mim - censura-a, carinhosa. Kien 
prometera suspend-la, mas, evidentemente, no cumpriu a promessa.  
O tempo mudou bruscamente. Fortes rajadas de vento frio, depois um nevoeiro espesso caram 
sobre Hong Kong. La ficou muitos dias sem sair, jogando cartas com a nova amiga, que vinha 
encontr-la depois do trabalho. Ajovem chinesa vinha de uma modesta famlia que vivia da pesca e 
morava num junco no porto de Aberdeen. Ao preo de grandes sacrifcios, os pais enviaram a filha 
nica para os melhores estabelecimentos escolares da colnia. Ela sentia por eles no somente 
respeito mas tambm grande afeio. Quando La disse que queria conhec-los, Chin-Hua pareceu 
confusa.  
- So pessoas muito simples - disse ela - s falam o cantons.  
- No seja boba! Teria muito prazer em conhecer sua famlia.  
Em 15 de maro, no incio da estao das chuvas, a temperatura subiu. A casa de Victoria ficou 
pronta, mas La todo dia encontrava um motivo para no ir l: ora era o cheiro da tinta, que poderia 
incomod-la e fazer mal ao beb, ora era a distncia do mdico. Finalmente, teve de se resolver a 
deixar o Peninsula, mas com a promessa de que Chin-Hua iria v-la freqentemente e ela prpria 
poderia continuar os passeios pela ilha.  
Enganando a vigilncia dos espies de Kien, conseguiu, antes de partir, mandar duas cartas pelo 
correio, uma dirigida a Lien Rivire, outra para a irm Franoise: 
Querida Lien,  
Sem dvida voc a em Saigon, deve estar achando que estou morta. Se receber esta carta, 
pela data da postagem, ver que no  verdade. Depois de acontecimentos que seria muito 
longo enumerar, eu me encontro em Hong Kong em companhia de Kien.  
Estou sem notcias de Franois h muitos meses. Se as tiver escreva-me para o nome e o 
endereo seguintes:  
Senhorita Wong Chin-Hua  
Peninsula Hotel  
Salisbury Road  
Tsimshatsui, Kowloon  
Perdoe-me a brevidade desta carta. Espero que esteja bem. Acredite em minha amizade.  
Um beijo  
La  
Querida Franoise, meus queridos  
Eu estou viva e me sentindo bem. Como vo Adrien, Camille e Charles? Eles me fazem uma 
falta terrvel. Tem notcias de Franois? Aqui no sei de nada.  
Eu estou sem documentos, sem recursos. Voc pode encontrar Jean Sainteny para que ele me 
informe por intermdio das autoridades competentes qual o caminho a seguir para voltar 
para casa? Estou morando com Kien Rivire em Hong Kong. Se receber esta carta, escreva-
me para o nome e endereo seguintes:  
Senhorita Wong Chin-Hua  
Peninsula Hotel  
Salisbury Road  
Tsimshatsui, Kowloon  
Beijos para todos, principalmente meus trs filhos 
 Envie-me fotos. 
La 
Acima da porta de entrada da vila, estava colado um cartaz vermelho em que figuravam, impressos em preto, 
desenhos abstratos e caracteres chineses.  
- O que querem dizer? - perguntou La.  
-  um costume daqui, o qual no se pode desrespeitar, sob pena de ter de ir embora - explicou Kien. -  
umfung shui, que afasta os maus espritos e protege a casa. Nada  construdo em Hong Kong sem que um 
entendido emfung shui d sua opinio sobre a orientao do imvel, o local onde ser erguido, para ter 
certeza de que no vai incomodar os espritos do lugar. Se constatar qualquer m sorte, o sacerdote indicar as 
cerimnias que ele ter de realizar para acalmar o esprito ou para exorcizar o lugar. Ningum residente em Hong 
Kong ter a audcia de passar por cima disso.  
- Voc fez bem; nunca se  demasiado prudente com os espritos!  
A moradia era suntuosa, e La estava a ponto de se deixar comover vendo o quarto do beb ricamente 
preparado. Agradeceu a Kien efusivamente.  
- Nada  bom demais para meu filho.  
- E se for uma filha?  
- Para mim tanto faz, pois se tratar do nosso filho.  
O corao de La se apertou; Franois tambm dissera isso. Ela virou a cabea para esconder a emoo. Kien 
se enganou quanto  significao de seu gesto e a puxou para si.  
-  um grande presente que voc est me dando, querida.  
Ele mudara desde que se instalara em Hong Kong. Quase todas as noites jantava com homens de negcio 
chineses, algumas vezes americanos. Conseguira escritrios num edifcio, na Jordan Road. Estava sempre 
sedutor, mas o belo rosto ficara ligeiramente mais gordo. Quando no estava tratando de negcios, passava as 
tardes de sbado e domingo no hipdromo de Happy Valley, onde apostava quantias enormes. La o 
acompanhara uma vez  corrida noturna de quarta-feira. Uma multido de apostadores de todas as idades e 
condies se comprimia no Royal Jockey Club. Um grande silncio se fez quando os cavalos comearam a correr no gramado iluminado pelos refletores. A massa gritava 
e incentivava, de p, os jqueis. O 
espetculo de todos esses rostos com esgares e caretas, modelados pelas sombras e pela luz, o alarido, que 
parecia ser o elemento principal da platia chinesa, eram impressionantes. La, que havia jogado um triplo,* 
ganhara cinco mil dlares.  
- O que voc vai fazer com esse dinheiro? - perguntara Kien.  
- Cuidar da vida - respondera, agitando as notas com a efgie da rainha.  
- Sua vida? Ela  minha, para sempre!  
Uma vaga angstia se apoderou dela. Ele lhe dava medo, e esse medo a paralisava, acovardava, tornava 
incapaz de correr ao Consulado da Frana ou ao governador da colnia para solicitar o repatriamento. Essa 
incapacidade a enfraquecia. Fora-lhe necessrio fazer um esforo sobre-humano para redigir e enviar as duas 
cartas. Desde ento vivia no terror de que ele descobrisse e lhe fizesse represlias. O que acontecera  jovem 
corajosa, capaz de enfrentar a Gestapo e a Milcia? Ela se limitara a guardar o dinheiro e a continuar suas 
sadas, sozinha ou em companhia de Chin-Hua.  
No incio do ms de abril, a jovem chinesa convidou a senhora Rivire para a festa anual de Tim Hau, a deusa 
do mar. Seu pai a convidou para ir,  bordo de seu barco de pesca, at o templo de Da Miao, na baa de Joss 
House. Era uma grande honra, pois muito poucos brancos podiam assistir a essas cerimnias, que duravam 
trs dias inteiros.  
Ao amanhecer, as duas mulheres, muito elegantes, tomaram lugar a bordo do junco, decorado de bandeiras, 
estandartes, guirlandas vermelhas e douradas. A embarcao, cheia de parentes e amigos nos mais belos 
trajes, deixou o porto de Aberdeen em companhia de dezenas de juncos, sampanas, balsas, pequenos navios, 
todos embandeirados e abarrotados de romeiros. As  
crianas usavam roupas de cetim ou seda. Maquiadas, as meninas, de cabelo amarrado em coque 
enfeitado por flores e prolas, o pequeno rosto emoldurado por longos brincos nas orelhas, pareciam 
bonecas maravilhosas. Levavam o papel muito a srio e ficavam eretas e quietas ao lado das mes.  
De toda a parte tudo o que flutuava aflua para os diferentes santurios dedicados  "Rainha 
Celeste", aquela que acalma as tempestades, protege o povo do mar e enche as redes dos 
pescadores. O templo que atraa mais gente era o de Da Miao. Depois de trs horas de navegao, 
eles chegaram  baa de Joss House, onde centenas de embarcaes j se comprimiam umas s 
outras. Ajudada por Chin-Hua e sua me, La passou de uma para a outra para atingir a ponte de 
desembarque. Em seguida, cercada pela multido levando em oferenda grandes bastes de incenso, 
flores ou porcos assados, seguiu a procisso. No interior do templo, a fumaa do incenso era tal, que 
j no se via mais de dez passos  frente. O odor era insuportvel. La se sentiu mal e foi levada 
para fora do prdio. Milhares de pessoas esperavam para entrar. Dois policiais lhe abriram caminho 
atravs da multido at o porto. Uma pequena embarcao a motor a conduziu a Kowloon, onde foi 
levada ao mdico. Chin-Hua a acompanhou.  
O mdico esteve a ponto de perder a fleuma britnica quando soube de onde ela estava vindo. 
Ordenou repouso absoluto at o parto. De outra maneira, no se responsabilizaria por nada. 
Consciente da imprudncia, La no disse nada. No queria perder a criana, se bem que ela fosse 
a prova e o fruto de seu adultrio. Era, da por diante, parte dela mesma.  
Trs semanas mais tarde, teve num parto prematuro uma menina de abundantes cabelos negros, a 
qual, se bem que franzina, estava com excelente sade. Era 7 de maio de 1954. Din Bin Phu 
acabara de cair. 

Captulo 23

Em 1 de janeiro de 1954, Franois Tavernier subiu a bordo de um Dakota que levava vrios jornalistas
franceses e estrangeiros para Saigon. Bebeu-se champanhe em homenagem ao Ano-Novo. Isso no foi 
suficiente para alegrar as fisionomias melanclicas; todos desejavam voltar para casa.  
A chuva batia nos vidros do carro dirigido por Bernard Rivire, no qual Franois estava. Sua surpresa fora 
grande ao reconhecer, sob o teto de um hangar, a silhueta do companheiro de infncia. Desde o assassinato da 
mulher e da filha pelos vietcongues, uma profunda mudana se operara no ambicioso funcionrio do Banco da 
Indochina, agora subtenente no exrcito vietnamita. Ele combatia no para preservar o pas do comunismo, 
mas para se vingar e matar o maior nmero de adversrios possvel. Num comando,  noite, com alguns de 
seus homens vestidos de preto, o rosto besuntado de fuligem, ele partia em expedies punitivas pelas aldeias 
suspeitas de terem abrigado vietcongues. Esses assassinatos em srie lhe haviam dado ao olhar claro uma 
expresso fria e indiferente, que deixava o interlocutor constrangido. Na luz plida do aeroporto de Tan Som 
Nhut, a impresso de morte 
que se desprendia dele, apertado no impecvel uniforme, era quase palpvel. "O anjo do Apocalipse", pensou 
Franois, apertando-lhe a mo.  
- Fui ferido na perna, o que me valeu alguns dias de licena, que passei com Lien.  
- Como vai ela?  
- Bem... enfim...  
- Enfim o qu?  
- Foi ela que me pediu que viesse procurar voc.  
- Por que ela no veio?  
- Queria que eu falasse com voc antes.  
- Ento, fale! - disse ele em tom atormentado.  
Bernard diminuiu a velocidade para deixar passar uma ambulncia que corria, com os faris acesos.  
-  a respeito de La... Ateno! Est maluco!  
O carro bateu num marco da estrada antes de parar a dois passos de um cyclo-pousse.  
- Fale, o que sabe?...  
Agarradas ao palet do amigo, as mos de Franois o sacudiam.  
- Est morta.  
As mos relaxaram bruscamente a ao e tornaram a cair, sem foras.  
- Como soube?  
- Um envelope sem selo do sevio de informaes do exrcito chegou para voc, no fim da manh, ao mesmo 
tempo que uma carta de Kien para Lien.  
- Vamos para casa.  
O carro partiu novamente e parou diante da casa da rua Pelierin uma meia hora mais tarde. No vo da porta 
estava Lien, toda vestida de branco, cor de luto entre os vietnamitas. Eles se olharam longamente sem dizer 
palavra. A jovem mulher se afastou para que ele pudesse entrar.  
- Mostre-me - ordenou ele.  
Ela lhe indicou uma mesa. Ele se aproximou, pegou uma folha de papel com uma caligrafia de estudante. 
Querida irm,  
Espero que sua sade v bem. Quero lhe dar conhecimento de uma notcia muito triste e lhe peo perdo 
por anunci-la assim: nossa amiga La est morta.  
Como voc sabe, partimos  sua procura com Franois. Ns nos separamos e no pudemos mais nos 
encontrar Continuei com meus homens. Quando encontramos de novo sua pista, era tarde demais, os 
vietcongues a haviam matado. Pude reconstituir o que se passou.  
Por um motivo que ignoro - e os vietcongues tambm, ao que parece -, ela teria matado Pham Toi Nhu-Mai, 
que estava encarregada de vigi-la.  
Pode adivinhar o desgosto que eu senti. Para tentar es quecei vou viajar a bordo de meu junco. Para onde? 
Nem eu sei.  
Se decidir me instalar em algum lugar eu lhe direi. Se voc revirFranois, diga-lhe que fiz tudo o que pude 
para a encontrar de novo viva, e que participo de sua dor  
Minha irm muito amada, cuide-se bem e no esquea o ir- 
mo que a ama. 
Kien 
Franois sentou-se pesadamente e esvaziou de um gole o copo que Bernard lhe estendeu.  
- Sei o que est sentindo, passei pela mesma coisa. Venha comigo, ns a vingaremos.  
Com olhar vago, Franois acendeu um cigarro, depois pegou 
o despacho. 
Senhor 
Confirmamos-lhe, infelizmente, o que lhe adiantaram nossos escritrios de Hani. A senhora 
Tavernier foi morta perto de Ngn Son. As circunstncias no nos permitem repatriar o 
corpo, mas esteja certo de que faremos todo o necessrio logo que seja possvel Enquanto 
aguardamos, queira aceitar senhor nossas sinceras condolncias. 
A folha de papel escorregou-lhe das mos. Lien se ajoelhou diante dele.  
- Peo-lhe perdo, no pude segur-la...  
Ele olhou sem ver o belo rosto virado para ele, acariciou-lhe os cabelos negros esboando um pobre sorriso. 
Ela teria preferido gritos, injrias, at socos, menos esse sorriso.  
- Voc tem seus filhos, pense neles...  
Ele se levantou, passou pela varanda que dava para o jardim e ficou longo tempo sob a chuva, com o rosto 
erguido. Quando voltou, a expresso de dor que se podia ler em sua fisionomia era tal, que os irmos viraram 
os olhos.  
- Se me permite, Lien, vou me deitar.  
- Seu quarto est pronto.  
Durante uma semana ficou trancado, s abrindo a porta para pegar as garrafas de gim e de conhaque que 
exigia. Bernard dissera a Lien que lhe desse todo o lcool que pedisse.  
- E melhor v-lo bbado a v-lo morto - dissera.  
No oitavo dia de recolhimento, Franois chamou. Lien entrou e recuou diante do odor. Cado na cama, suja de 
dejetos, cinzas e guimbas, com olheiras escuras, barbado, numa sujeira repugnante, ele lhe disse:  
- Traga-me alguma coisa para escrever e roupas limpas.  
- Esto no varal - disse ela em voz baixa.  
Ela saiu e voltou com papel e uma caneta.  
- Agora, deixe-me.  
- Voc no vai...  
- No tenha medo. Eu a verei daqui a pouco.  
Ele desobstruiu uma mesa coberta de garrafas vazias e se 
sentou. 
Saigon, 9 de janeiro de 1954 
Querida Franoise  
Nossa querida La j no existe. Por minha culpa, est morta. No posso me perdoar. Confio-lhe meus filhos. Pelo mesmo portador comecei a tomar as 
medidas junto a meu tabelio, que lhe entregar os fundos necessrios  manuteno e 
educao deles. Sei que posso contar com voc e com Alain, e lhes agradeo de todo o 
corao. Diga-lhes quanto sua me era bonita, corajosa, e quanto os amava. Diga 
igualmente a Charles que ns o consideramos nosso filho mais velho, que ele cuide dos 
outros.  
Em testamento, eu nomeio a ambos tutores de Camilie e Adrien. Vendam o que julgarem 
necessrio. Meu tabelio, que  um homem honesto, ir ajud-los com conselhos. Perdoe-me, 
querida Franoise, acrescentar esses encargos  sua tristeza, e no me julgue muito 
severamente.  
Franois  
Calmamente, fez o testamento, endereou-o ao tabelio, e depois escreveu ao general Salan: 
General 
Saigon, 9 de janeiro de 1954 
Sua compreenso me permitiu partir  procura de minha mulher desaparecida, e lhe 
agradeo. Recebi a notcia oficial de sua morte. J no tenho razo para viver Quero morrer 
combatendo. Peo-lhe encarecidamente usar sua influncia para que eu possa me alistar na 
Legio Estrangeira e me reunir em Din Bin Phu, com meus companheiros legionrios, o 
tenente Thvenet e o suboficial Marchal. O senhor conhece o meu passado, sabe que serei 
um bom recruta para o exrcito.  
General, sei que o senhor me compreende, como tambm sei que o que lhe peo no  comum 
na Legio. Mas no tenho tempo de fazer cursos em Sidi-Bel-Abbs.  
Antecipadamente, general, agradeo-lhe sua ajuda e peo aceitar a expresso de minha mais 
alta considerao.  
Franois Tavernier 
Sempre calmo, ele selou os envelopes; depois abriu totalmente as janelas. J no estava 
chovendo, mas o ar estava carregado de umidade. Do jardim molhado subia um forte cheiro de 
terra que lhe lembrava o de Montillac, em algumas manhs de vero, depois da tempestade. 
Reviu La sorvendo-lhe os eflvios com avidez. A viso foi to precisa, que ele cambaleou e 
deixou escapar um gemido. Nunca mais ela iria correr pelas vinhas, rir dos relmpagos, desafiar o 
cu escuro, oferecer o corpo  chuva, feliz por sentir a terra vibrar a cada trovo. Fazia muitos 
anos ele se maravilhava com essa vitalidade, esse apetite de viver, conservado a despeito dos 
sofrimentos suportados. Essa vida destruda era um insulto  prpria vida. Pelo gosto do risco, 
pelas situaes difceis, ele a empurrara para a morte. Por isso no tinha perdo. Pensado em se 
matar, mas se sentira covarde diante desse tipo de desfecho. J que tinha amado a guerra, teria 
de morrer combatendo.  
Todavia, essa guerra no era a sua, ele no se reconhecia nesses soldados combatendo a dezoito 
mil quilmetros da ptria contra outros, que defendiam a sua. Ele no tinha lugar nesse conflito 
que opunha comunistas, o exrcito vietnamita de Bao Dai e soldados que combatiam sob 
bandeira francesa. Em alguns momentos, no podia deixar de temer a vitria dos vietcongues, a 
do comunismo, a qual uma parte dos povos que viviam no Vietn no desejava a nenhum preo. 
Em alguns lugares, a guerra civil j se espalhava. Aldeias que tinham aderido aos franceses foram 
devastadas, populaes foram deportadas ou obrigadas a combater ao lado dos que lhes tinham 
aniquilado a famlia, destrudo a casa. Apesar da simpatia por H Chin Minh e sua luta em favor 
da independncia do pas, no ignorava que as cobranas indevidas e as execues sumrias 
estavam ligadas diariamente ao nome de tio H. Mas no sentia dio pelos que haviam matado 
quem ele amava. Voltava o dio contra si prprio. Desde a infncia se sentia prximo do povo 
vietnamita, revoltado com as desigualdades e as injustias que o oprimiam. Compreendera o 
alistamento de Hai aos vietcongues; em seu lugar teria feito o mesmo. Se no fosse 
profundamente ligado  Frana e  idia que tinha de 
sua honra, teria acompanhado o amigo em sua luta justa. Mas era francs, e os franceses iam 
morrer no fundo de um belo vale, sob a indiferena geral, por uma causa perdida, vtimas de 
dirigentes irresponsveis, de especuladores vidos. Tudo isso era tristemente absurdo, e, porque 
absurdo, era l que ele deveria estar.  
Ele abrira a porta do quarto e chamara Lien.  
Franois Tavernier saiu do quartel-general de Navarre - conseguira que a carta ao general Salan 
fosse encaminhada por via mais rpida.  
Passou ento longos dias em companhia de Lien, escutando- a evocar as lembranas da infncia e 
adolescncia deles. De noite se embriagava nas espeluncas de Cholon, das quais voltava de 
manhzinha, semiconsciente. Escrevera a Thvenet e Marchal para lhes anunciar a morte de La 
e sua vontade de se alistar na Legio. Eles haviam respondido: "Ns o estamos esperando, voc  
bem-vindo."  
Outras trs semanas se escoaram, durante as quais Franois mergulhou na dor. Em Paris, Ren 
Coty substitura Vincent Auriol no Elyse. Em Saigon, a vida continuava com a mesma agitao, o 
comrcio estava no auge, proxenetas e proprietrios de bares faziam fortuna; os soldados de licena 
gastavam todo o soldo com mulheres e embriagando-se de cerveja. Apesar da presena do exrcito 
e de alguns atentados, a guerra parecia distante. A cidade e seus subrbios viviam fingindo ignorar 
que o inimigo estava a menos de cinqenta quilmetros. Quanto aos doze mil homens 
comprometidos em Din Bin Phu, pouco se falava deles, a exemplo da imprensa da metrpole. No 
campo fortificado, a rotina se havia instalado, a julgar por uma carta de Marchal trazida no fim de 
janeiro por um legionrio:  
DBP se parece cada vez mais a uma cidade com guarnio: capela com capeles, hospital 
com mdicos, bordel com mulheres. Precisava ver a cara dos sujeitos diante desse batalho 
de tzo especial, levantando o lado da tnica de cor delicada enquanto 
piscavam os olhos para os que as observavam jogando beijos! Para a construo do BMC, * 
todos os homens eram voluntrios. As mulheres no descansaram.  
O campo mudou muito depois da sua partida, os diferentes pontos de apoio tomaram forma 
definitiva, cada um formando uma fortificao cercada de arame faipado, de trincheiras, 
com suas reservas de vveres, de munies e de gales de napalm. Os tanques M 24 foram 
montados novamente, e os caas Bearcuts, prontos para decolar esto parados no aeroporto. 
Os saltos de pra- quedas continuam.  
Lembra-se do primeiro povoado encontrado depois de nossa descida de La Chau, na estrada 
Pavie, ao p da colina? Desapareceu. A colina que chamvamos o "Topedeiro", por causa 
da forma, tornou-se "Gabrielle". Conheci uma mulher morena muito bonita chamada 
Gabrielle, que apelidamos Gaby... Que idia engraada dar nomes de mulheres a lugares 
que atraem a morte!  
De tempos em tempos recebemos a visita de oficiais subalternos de Hani ou de Saigon, de 
jornalistas e at de escritores. Graham Greene, de passagem pelo lugar, veio jantar com o 
coronel de Castries.  
Tornou-se o lugar da moda... Fala-se muito, aqui, que nem tudo vai bem entre Castries e 
Navarre.  pena, se for o caso, e ns corremos o risco de pagar o pato.  
O companheiro legionrio que lhe leva esta carta  um antigo integrante da Wehrmacht, em 
que ele tinha, na minha opinio, patente importante.  um amigo em quem pode ter toda a 
confiana. Eu lhe falei de seu desejo de se juntara ns. Ele tem uma idia, falar dela com 
voc.  
Estou sob as ordens desse estpido Thvenet, que lhe manda um abrao.  
Eu tambm.  
Marchal 
- Quer mandar uma resposta? - perguntou o legionrio num francs quase sem sotaque, ao acabar o copo de 
conhaque oferecido por Lien.  
- Na carta Marchal diz que voc tem uma idia.  
-  simples: tome a identidade de outro.  
- Como assim?  
- No hospital, os legionrios feridos ou doentes morrem todos os dias. Combine com um enfermeiro ou um 
mdico local para conseguir os documentos de um deles. Nada  mais fcil, mediante algumas piastras.  
- Voc mesmo j fez essa experincia?  
- Em outro lugar, sim.  
Em 2 de fevereiro de 1954, Franois foi convocado pelo contra- almirante Cabanier, do secretariado permanente 
da Defesa Nacional. Enfim ia receber a to esperada resposta.  
- Sente-se, senhor Tavernier, o que tenho para lhe dizer  extremamente confidencial. O senhor sabe que Ren 
Pleven, ministro da Defesa Nacional, deve vir tomar conhecimento por ele mesmo da situao de Din Bin 
Phu. Ele se lembrou da misso de que o havia incumbido e deseja saber, de acordo com o chefe do Governo, 
Senhor Laniel, se o senhor aceitaria tentar uma nova negociao junto a H Chin Minh.  
Todo o tempo em que o contra-almirante esteve falando Franois dizia a si mesmo: "No, eles no vo ousar!" 
Pois bem, ousaram! "Vou quebrar a cara dele!", exacerbou-se.  
Houve um longo silncio.  
- E ento, responda qualquer coisa... O que acha?  
- O senhor est zombando de mim? - perguntou ele com voz delicada.  
- Mas, senhor...  
- Cale-se! Com as besteiras de seu governo, perdi minha mulher, e a Frana vai perder a Indochina e, depois da 
Indochina, Madagscar, a Tunsia, a Arglia...  
- Senhor...  
- Sim,  o destino de todo o imprio colonial e o lugar de 
nosso pas no mundo que vo estar em jogo em Din Bin Phu. Desde 1946 nossos dirigentes acreditam poder 
se aproveitar do simplrio H Chin Minh. Com suas vacilaes, suas mentiras, deram-lhe mais fora que o 
Partido Comunista. Cada vez que ele estendeu a mo, ns cuspimos nela. No serei cmplice de uma nova 
tentativa. Esta guerra ele vai ganhar pelas armas e pela vontade do povo...  
- Ajudado pelos comunistas chineses!  
- E da? Isso no nos diz respeito. O Vietn ser comunista porque no soubemos ouvi-lo quando ainda havia 
tempo!  
- O senhor esteve em Din Bin Phu; deixaria esses milhares de homens serem massacrados l?  
- Por que estamos l? - perguntou Franois, destacando cada palavra e olhando para o interlocutor direto nos 
olhos.  
Para aplacar a clera, acendeu um cigarro, enquanto o contra-almirante se levantava para disfarar o 
aborrecimento. Parado diante de um mapa do Tonquin, ele acendeu, por sua vez, um fsforo.  
- Se compreendi bem, o senhor recusa?  
- Sim. No acredito na sinceridade das ltimas declaraes de H Chin Minh. Elas foram feitas para 
impressionar os de fora e nos fazer perder o prestgio mais uma vez. Em compensao, se o senhor Pleven 
quiser me mandar lutar em Din Bin Phu, estou pronto para pegar o primeiro avio e saltar l. J redigi um 
pedido nesse sentido. Ao vir aqui, achava que o senhor me daria a resposta.  
- No estou informado disso - respondeu friamente Cabanier, estendendo-lhe a mo. - Adeus, senhor Tavernier. 
Bem entendido, tudo isto  "segredo de Estado".  
- Se o senhor assim o diz... - resmungou Franois ao sair.  
Dois dias depois, por intermdio de Bernard Rivire, ele conheceu um americano, antigo piloto do esquadro 
de Chennault, os Tigres Voadores, que acompanhara em 1946 uma misso dos Estados Unidos encarregada de 
analisar a situao da Indochina. Apaixonando-se por uma anamita, filha de um professor de lite 
ratura do Liceu Albert-Sarraut, em Hani, ele no voltara e se instalara com a jovem mulher em 
Saigon, onde montara uma pequena companhia de aviao especializada em vos de negcios entre 
Calcut, Bangkok e Hani. Durante trs anos tinham vivido felizes, at o falecimento de Ngoc-Lan, 
morta ao dar  luz a pequena Thuy-Cha. Desde ento, deixando a criana aos cuidados de 
sucessivas assam, ele comumente se embriagava, perdendo os clientes um a um. Os que o faziam 
ainda trabalhar s o contratavam para viagens perigosas, misses difceis. Quanto mais perigoso, 
mais ele ficava contente. Uma vez fora derrubado no Laos pela DCA vietcongue; acabara com 
algumas costelas quebradas e o corpo recheado de amebas; depois de trezentos quilmetros atravs 
da floresta, fora recolhido por cambojianos e mandado de volta a Saigon.  
Foi no bar do hotel Continental que Franois Tavernier e Samuel Irving simpatizaram-se 
mutuamente, bebendo fortes bourbons. Irving tinha corao terno e alma ntegra num corpo de 
alcolatra. Isso lhe causara muitos dissabores, sem conseguir endurec-lo verdadeiramente. 
Conhecera Bernard Rivire por ocasio de um vo sobre Haiphong, durante o qual soubera o que 
tinha acontecido  mulher e  filha. O velho combatente ficara emocionado. Um ano depois, eles se 
reencontraram por acaso, e foi nessa ocasio que Rivire lhe falou de um amigo que desejava ir 
para Din Bin Phu.  
Uns quinze dias mais tarde, j no contando com a resposta do general Salan, Franois Tavernier 
saltou no campo fortificado.  
Pousou entre a estrada estadual 41 e um meandro do rio Nam Youm sobre um terreno tornado 
intransitvel pelos caminhes, no qual se erguia, excntrica nesse panorama lunar, uma delicada 
palhoa ainda em p sobre as pilastras. Ele j dobrara o praquedas e avanava naquela direo 
quando algum se jogou sobre ele, obrigando-o a se deitar de barriga para baixo.  
O impacto da exploso o fez rolar; a bela construo se volatilizara.  
- Em nome de Deus, o que voc faz aqui... Mas no  um dos nossos! 
- Acabo de chegar - disse Franois, apontando o cu.  
- Voc estava no aparelho civil que acaba de sobrevoar o campo?... Teve sorte de descer: os coroas queriam 
atirar em voc.  
- Por que explodiram o casebre?  
- Os vietcongues haviam colocado uma armadilha nele. Mas ainda no me disse o que veio fazer aqui!  
- Vim visitar uns amigos, o tenente Thvenet e o suboficial Marchal; so da Legio.  
- Vamos lev-lo ao quartel-general do comandante Guiraud, do 1 BEP. Voc se explicar com ele.  
Tavernier afastou a sentinela diante da entrada do QG e penetrou num edifcio coberto de sacos de terra, no 
qual um suboficial fumava enquanto lia jornal. Perto dele, junto a uma abertura na parede, dois suboficiais 
grandes falavam um francs rouco e com grias eivado de expresses germnicas. O militar levantou a cabea, 
de mau humor com o intruso, e resmungou:  
- Isso agora! O que faz o planto da guarda?... E o senhor? O que deseja?  
- Trabalho.  
Os dois suboficiais riram. Franois os olhou atravessado.  
- Em poucas palavras, o senhor quer se alistar na Legio?  
- perguntou o suboficial.  
- Quero. Mas com uma condio.  
- Condies, pombas! O que quer dizer?  
- De no mofar aqui. H uma companhia que parte para a luta, estou nela.  
Um dos grandes zombou novamente e disse:  
- Os vietcongues vo passar um pssimo quarto de hora, o moo est se alistando!  
- Silncio! - exclamou Franois. - No gosto nada quando riem de mim.  
O tom era seco e autoritrio. O suboficial, um gigante, ar bruto, respondeu:  
- Oh, calouro,  preciso falar comigo de outra maneira, seno... 
- Se no, o qu?  
- Ver como me chamo.  
Franois se aproximou dele, pegou-o pela cintura, sacudiu-o  beira da abertura e o jogou para fora. Depois 
disse ao outro:  
-  a sua vez de "cair fora".  
O outro foi embora.  
Ele ento se voltou para o suboficial e disse:  
- Peo-lhe que avise o comandante de que o senhor Franois Tavernier quer se alistar na Legio Estrangeira. 
V, meu amigo.  
O outro, confuso, no se mexeu.  
- Vamos, amigo, e j! No tenho tempo a perder.  
O militar se levantou, observou com olhar pasmo o personagem esquisito e, o mais docilmente possvel, saiu. 
Franois pegou um cigarro, acendeu e, em voz alta, sentando-se no lugar do outro, explicou seu pensamento.  
- J que eu no tenho coragem de me matar, vamos ver se as balas dos vietcongues sero solidrias. E depois, 
ainda assim, ser mais chique... diante do inimigo e pela Frana.  
Ele no esperou muito tempo. Vinda de fora, uma voz exclamou:  
- Merda de confuso! O que  isso? Um civil que joga vocs porta afora!  
Uma silhueta macia se desenhou na entrada.  
- Que merda  voc?.., O que veio fazer aqui? - perguntou Thvenet.  
- Eu o estava esperando.  
- Caramba! Como surpresa,  uma das maiores! E ainda por cima, das boas...  
Franois se levantou, e os dois homens apertaram a mo. O suboficial os olhava, cada vez mais aturdido.  
- Tenente, o senhor o conhece?  
-  um amigo leal! Estivemos juntos na R.C.4 e em muitos outros lugares. Pode deixar, eu me ocupo dele.  
- Est bem, tenente.  
O militar saiu, eles deram gargalhadas dando tapas nas mos.  
- Estou contente de v-lo, minha velha! Embora preferisse 
nunca mais ouvir falar de voc... Como  que fez para chegar at aqui?  
- Apliquei o golpe de Arsne Lupin.  
- Arsne Lupin?...  
- No  difcil, vou explicar. Onde est Marchal?  
- O caro Roger est em "Batrice". O que dizem de ns na retaguarda?  
- No muita coisa.  
- Esto pouco ligando, no ?... Pode dizer... Acha que a visita de Pleven vai mudar alguma coisa? -  
- Quer que eu lhe diga?  o que menos me preocupa!  bem insignificante... A nica coisa que me interessa : 
quando ser o ataque?  
Thvenet acendeu o cachimbo, olhou longamente o amigo e depois apontou as colinas que os cercavam.  
- Eles esto em toda a parte, cavam tneis em volta de tudo. Conheo-os bem, vo nos derrotar. O ataque? Ser 
quando eles quiserem, na hora que quiserem. Camos numa armadilha.  
- So muitos os que pensam como voc?  
- Os antigos, os que j combateram os vietcongues em Cao Bang, em Tht K e em outros lugares. So bons 
soldados.  por isso que no concordamos quando Castries faz circular pelos arredores folhetos chamando-os 
de covardes. Isso s pode enraivec-los. J os ouo gritar como numa corrida de touros. Eles esto a, em 
volta, esperando a morte do touro. A estocada so eles que vo dar, mas antes vo aproveitar o espetculo. 
Ele tem razo, esse jornalista do Le Monde que comparou Din Bin Phu a um fosso de lees.  
-  excitante tudo isso! Sinto que enfim vou me divertir...  
- No diga absurdos, meu velho. Voc, talvez, ou eu. Mas no os caras que no pediram para vir, os que 
aguardam uma carta da me ou da namorada...  
- Pare, voc vai me fazer chorar!  
-  o que voc faz.. Mas voc chora para dentro.  
Franois lanou um breve olhar a Thvenet: o outro era melhor psiclogo do que ele poderia supor. 
De noite ele participou do jantar com os legionrios e tomou pela primeira vez o Vinogel, que eles bebiam puro 
e lhes dava dor de estmago. Mesmo misturado a dois volumes de gua quando colocado na caixa, era infecto 
e indicado s para desentupir pias...  
Depois dormiu no abrigo do tenente Thvenet. Nas montanhas, um gigantesco incndio iluminava a noite de 
Din Bin Phu.  
Foi Thvenet quem o acordou!  
- De p, a dentro! Voc est adido  4' Companhia do BEP. Vamos partir para "Batrice"; mexa-se!  domingo, 
um bom sujeito a comanda... Antes voc passar no cabo furriel para pegar o equipamento. O tenente-coronel 
Gaucher o receber na volta. Tome, beba isso.  
O caf era bom.  
Combates cada vez mais violentos se davam diariamente, trazendo seu quinho de mortos e feridos. O mdico-
chefe Grauwin, vindo para uma substituio de quinze dias, comeava a temer que os quarenta e dois leitos do 
hospital subterrneo no fossem suficientes. E haveria bastantes avies para evacuar os feridos para Hani? 
Os tiros dos vietcongues contra o aerdromo eram cada vez mais precisos, e trs aparelhos j tinham sido 
destrudos.  
Ao p de "Batrice" alguns civis thas erravam pelo que fora sua aldeia. Em trs meses, uma densa vegetao 
cobrira as plantaes. Os infelizes s subsistiam graas s raes distribudas pelo exrcito. Expulsos, 
voltavam, cada vez menos numerosos. Os outros haviam sido recrutados  fora pelos vietcongues: iam juntar-
se aos milhares de asiticos que levavam, a p ou de bicicleta, armas e arroz para os combatentes dissimulados 
por todo o circuito do funil.  
No meio de um declive, uma fuzilaria estourou, matando trs homens. Os legionrios e os irregulares se 
jogaram de barriga no cho. Do mato, com os capacetes cobertos por folhagens para ficarem invisveis aos 
avies, os vietcongues surgiram dando gritos. Os legionrios tinham se recuperado e mataram os primeiros 
atacantes. Os thas se lanaram sobre os seguintes, brandindo os punhais, vociferando insultos, dando livre curso ao dio ancestral entre os dois povos. Os thas 
venceram, mas deixaram ali cinco dos seus. Saltando de pedra em pedra, Franois avanou para o 
pico.  
- Ateno!  
Thvenet o empurrou, forando-o a deitar-se.  
- No faa bobagem, velho. No quero perd-lo agora.  
Eles se levantaram sob o fogo inimigo, sem deixar de usar as armas.  
De repente, o tiroteio cessou. Tudo pareceu terrivelmente silencioso.  
- Renam os feridos, ordenou Thvenet.  
A conta era pesada: sete mortos, um ferido grave e oito ligeiramente. O mdico-chefe Auber 
desceu de "Batrice" e dispensou os primeiros cuidados aos mais seriamente atingidos.  
No era bonito de ver: o peito estava aberto; atravs das costelas quebradas, distinguia-se a massa 
cor-de-rosa dos pulmes; o brao direito, meio arrancado  altura do ombro, tremia nervosamente.  
- No  grave, doutor? No  grave? - no cessava de repetir o ferido, um rapaz de uns vinte anos.  
- Seja corajoso, garoto. A baixa no vai demorar.  
Com gestos precisos, ele tratou do horrvel ferimento e lhe aplicou uma injeo.  
-  preciso lev-lo com toda a urgncia para Grauwin - disse Auber a Thvenet.  
Os thas estenderam uma padiola. Apesar das precaues tomadas, o ferido gritou quando o 
puseram nela.  
- Voc vai com ele - ordenou Thvenet a Franois - e os cobrir pela direita, enquanto Ludwig o far 
pela esquerda.  
A pequena coluna se ps em marcha; os feridos se sustentavam uns aos outros. Chegaram  base 
da colina. Na estrada estadual 41, as ambulncias vinham at eles. No alto, em volta do ponto de 
apoio, a fuzilaria recomeara: ouvia-se at o canho.  
- Puf... No se arrisca nada, eles no tm armamento. Eles acreditam que nos impressionam com 
um ou dois morteiros... 
E, ainda que tivessem mais, os vietcongues so os piores artilheiros do mundo - disse um dos que 
estavam nas ambulncias, olhando apesar disso com inquietao na direo das exploses.  
Na barraca de triagem, numerosos feridos aguardavam.  
- As barrigas primeiro! - gritou um enfermeiro negro.  
- Salve, N'Diaye! Ns lhe trazemos trabalho - disse um legionrio ferido na cabea.  
- Um de cada vez: o chefe disse as barrigas. Ningum hoje?... Tanto melhor.  
- Sargento, este homem foi gravemente atingido, viemos de "Batrice"...  
N'Diaye se inclinou e tirou delicadamente o curativo; depois, tambm com delicadeza, recolocou-o 
no lugar.  
- No se preocupe, garoto... Depressa, para o centro cirrgico!  
Os maqueiros o levantaram e levaram pela passagem que conduzia  sala de operao. Os outros 
foram tratados no local e depois mandados para as barracas.  
Tavernier no subiu mais para "Batrice"; por ordem pessoal de Castries, foi alocado na 
conservao da pista de aviao, das estradas e das fortificaes de madeira, das trincheiras e dos 
locais de hospitalizao. Era certamente perigoso, mas no era o mesmo que lutar, e isso o deixou 
louco de raiva.  
- Em seu lugar - dissera-lhe o alemo Ludwig - eu ficaria quieto. Voc ainda no faz oficialmente 
parte da Legio...  
Todas as tardes, s cinco horas, um canho atirava em direo ao campo, como para rir deles, 
enquanto os Bearcat martelavam a colina de onde vinham os tiros. Sem ser localizado, o canho 
mudava de posio todos os dias. O ar estava cheio de rudos: Dakotas, caas, unidades de 
artilharia, tanques, jipes, caminhes, grupos geradores, alto-falantes transmitindo programas da Radio 
Hirondelle, A voz das foras da Unio Francesa, ou transmitindo ordens em meio a uma poeira 
ocre que no descia nunca.  
Agora, ouvia-se toda noite os tiros de morteiros e de metralhadoras vindos de "Gabrielie", defendida por atiradores argelinos. Cercando totalmente "Batrice", 
os vietcongues cavavam tneis. Mas os legionrios estavam tranqilos, confiantes: sua posio era 
boa, a viso desimpedida. Se os vietcongues aparecessem, eles os fariam em pedacinhos.  
- Tavernier, telegrama para voc.  provavelmente o ltimo telegrama particular que receberemos 
de Saigon...  
Tal como uma esttua de lama, Franois saiu da trincheira onde descansava um pouco.  
A tempestade roncava, o ar estava pesado. A chuva recomeou a cair. Um obus explodiu a alguns 
metros do abrigo, fazendo tremer as paredes de terra e de achas de madeira.  
Ele enfiou o telegrama no bolso da camisa, subiu no talude de um pulo e correu em ziguezague para 
uma abrigo feito de chapas de folha. Ouviu gritarem:  
- "Anne-Marie" caiu! Os thas desertaram...

Captulo 24

...Como nuvens de gafanhotos, eles surgiram das galerias que vinham escavando havia semanas...
As primeiras ondas do ataque vietcongue caram sob fogo cruzado... Eles caem... outros e outros 
os seguem... Os gritos dos caminhes de lana-msseis fazem tremer os mais corajosos... Suas 
rajadas formidveis rasgam o cu... Quem foi o idiota que disse que eles no tinham artilharia?... 
Um depsito de munies explode... Os tanques do capito Hervout foram todos destrudos... 
A coluna Crvecoeur no vir mais... Os lana-chamas cospem os longos traos de fogo num 
assobio aterrorizante... silhuetas pegam fogo... correm cegamente, de boca aberta... balanam, 
agitadas por estremecimentos... A fumaa do holocausto  agradvel aos deuses?...  
Bigeard fez um bom trabalho, mas isso no adiantou de nada... Os alto-falantes vietcongues, 
convidando a guarnio a se render, pararam de transmitir... J no tm necessidade de mandar 
mensagens de desero e de ameaas... Os espectros de argila saem dos abrigos, ofuscados... O 
tempo est bonito... as chuvas torrenciais enfim cessaram... Os feridos se arrastam diante da 
entrada do subterrneo onde opera o mdico-chefe, Grauwin... Os enfermeiros os empurram... 
J no h lugar, esto amontoados uns sobre os outros... Veculos continuam a queimar... Um capelo passa com o clice de 
campanha na mo... chora... saqueadores se atiram sobre as caixas jogadas de pra-quedas do 
ltimo vo.., j no temem o fogo dos vietcongues... Os pequenos homens verdes se espalharam 
pelo campo com gritos de alegria e berros de triunfo... Cadveres deslizam devagar pelo rio Nam 
Youm... A poeira, a borracha queimada, a merda, o sangue, a carnia, tudo fede... Os tecidos dos 
pra-quedas deixados nas colinas parecem mortalhas... As "Elianes" no acabaram de ser 
consumidas...  
- Est tudo perdido - disse Castries. - No deixem nada intato.  
A bandeira com a estrela dourada ondula docemente... Apoiado num muro de sacos de terra, um 
pra-quedista observa a ferida da perna j cheia de larvas... Ouvem-se apelos infantis: "Mame... 
mame... Est doendo..." Irregulares thas e vietnamitas jogaram fora as armas, arrancaram os 
uniformes... Tentaram escapar dos vietcongues: "Ns, asiticos... no soldados... asiticos..." 
Thvenet arrastou-se at Franois; uma bala lhe atravessara o ombro.  
- Viu Marchal?  
- Estava em "Isabeile"...  
A morte no quis Franois... Todavia, cem vezes ele arriscou a vida... Por que no ele, enquanto 
todos esses pobres-diabos...?  
- Ainda tem um cigarro?  
Franois revistou o bolso da camisa e encontrou um pedao de papel amassado e um mao todo 
amarrotado que estendeu ao companheiro.  
- Pegue, tinha esquecido - resmungou ele abrindo o telegrama.  
O tempo parou... As lgrimas deixaram traos brancos nas faces sujas... Constrangido, Thvenet 
baixou a cabea, apoderando-se do telegrama que lhe estendia o amigo... 
La viva - stop - Recebi carta dela - stop - Est em Hong Kong com Kien - stop - BeUos - stop 
- Lien - stop.  
A felicidade era grande demais... Era preciso escond-la...  
Eles acenderam um cigarro... Depois de todos esses dias passado a cuidar sem interrupo dos 
feridos, a consolar os moribundos no hospital subterrneo, Genevive de Galard fechou os olhos 
quase completamente devido  claridade... Em vagas, os vietcongues continuavam a descer das 
colinas... No "ptio dos milagres", os desertores pululavam, lutando por uma rao, antes de voltar 
para os buracos na falsia que dominava a margem esquerda do rio... Esto sujos e cobertos de 
parasitos... tm centenas... centenas... Um fotgrafo quebra sua mquina.. O coronel Langlais 
queima o gorro vermelho de pra... Farrapos sangrentos esto presos ao arame farpado... De 
repente comea O canto dos guerrilheiros*...  
Amigo, voc ouve o vo negro dos corvos sobre a plancie?  
Amigo, voc ouve esses gritos surdos do pas que acorrentamos?...  
O disco est gasto por ter sido tocado muitas vezes... Estalidos encobrem em parte a voz da 
cantora... Franois cerra os punhos... Eles sabiam o que faziam escolhendo essa msica, os 
safados...!  
Cercado de b di, o general de Castries passa, muito plido, olhando para a frente... seu grande 
nariz parece mais comprido, as grossas sobrancelhas, mais negras, a boca, mais frouxa... usa uma 
cala impecvel e uma camisa limpa, na qual est presa a fieira de condecoraes... Muitos viram a 
cabea... esse aristocrata, amante de belas mulheres, esse cavaleiro, ex-campeo do mundo, est 
indo, cigarro nos lbios, barrete vermelho na cabea, fazer o aprendizado da humilhao...  
Ol! guerrilheiros, trabalhadores e camponeses, eis o sinal! Esta noite, o inimigo conhecer 
o preo do sangue e das lgrimas...  
O antigo ajudante-de-ordens do general Navarre, o capito Jean Pouget, que saltara alguns dias 
antes, por j no poder "esconder-se" em Saigon enquanto os companheiros eram mortos nessa 
porra de funil, deixou cair a enorme carcaa perto de Thvenet.  
- Teria um cigarro? - pediu ele.  
Ele fuma em silncio... L, na Frana, devem estar festejando a vitria, ele est aqui, na armadilha, 
como um idiota... no lamenta o esconderijo dourado... se no tivesse vindo, sentiria grande 
vergonha... O doutor Grauwin saiu do hospital, visivelmente exausto... Os cabelos grisalhos se 
tornaram brancos... viu sofrimento demais, mortes demais... o tronco tranqilizador e peludo 
transborda do uniforme... limpa os redondos culos de mope... tambm pisca os olhos devido  forte 
luminosidade... Bigeard, que todos chamam Bruno, aproxima-se dele:  
- Ento, aqui estamos prisioneiros desses pequenos vietnamitas, que pensvamos no passado 
servirem apenas para enfermeiros ou motoristas, que lio!...  
Saiam da mina, desam das colinas, companheiros,  
Tirem da palha os fuzis, as balas, as granadas...  
- Eu no queria perder isso... Cheguei bem a tempo! - diz um jovem vietnamita, sustentando o brao 
despedaado.  
Ele faz parte desses noventa e quatro loucos cados de pra- quedas no inferno em 6 de maio, s 
cinco e vinte da manh... era seu primeiro salto... ele estuda literatura francesa em Saigon... Um 
legionrio alemo chora... lutou em Stalingrado... lutou em Din Bin Phu... mais uma vez foi 
vencido.., depois das prises francesas, as prises vietcongues... Um homenzinho verde se inclina:  
- O senhor  prisioneiro do exrcito democrtico do Vietn. 
O coronel Lalande no conseguiu a baixa... "Isabelie" j no responde... Uns cinqenta homens, 
todos barbudos, plidos e esfarrapados, seguem soldados vietcongues agitando pequenas bandeiras 
brancas... Thvenet cospe  passagem deles...  
Fomos ns que quebramos as grades das prises para nossos irmos,  
O dio em nossa bagagem e a fome que nos empurra, a misria...  
Seminus, atiradores africanos salpicados de lama parecem leopardos comprimidos uns contra os 
outros... Um caminho no pra de queimar...  
- Comida! - diz uma voz.  
- Comida! - repetem centenas de outras.  
Granadas jogadas no rio explodem... Um odor atroz sobe das trincheiras... Com ps joga-se terra 
sobre os corpos, unidos num ltimo combate, guerreiros dos dois lados...  
- Mau ln! Mau ln! - gritam os vietcongues, empurrando os prisioneiros.  
Quantas vezes o povo vietnamita j ouviu essa palavra?... A acreditar que fosse a nica de sua 
lngua que poderia deter os franceses... Rpido!... Rpido!... Apressem-se!...  
O tenente-coronel Trancart pensou novamente no ataque em que perdera "Gabrielle", depois 
"Anne-Marie"... O comandante Brechignac, conhecido como "Brche", j pensando nos meios de 
fugir... um legionrio de barba grisalha no pra de dizer a um jovem, imberbe como uma 
adolescente:  
- Como me irrita que esses safados tenham ganhado... Eles no respeitam nada. Quando penso no 
que ousaram nos dizer atravs das porras dos alto-falantes, no dia da festa da Legio:  
"Legionrios, parem o combate, se no quiserem ser massacrados at o ltimo homem, como no 
Camerone..."  
- Ns lhes respondemos "vo  merda" e lhes mandamos um Chourio enorme! - diz o que parece 
uma garota. 
No Tonquin, a Legio imortal  
Em Tuyen Quan ilustrar nossa bandeira.  
Heris de Camerone, * irmos modelos,  
Descansem em paz, durmam nos tmulos!  
Vejam, eis o chourio  
Para os alsacianos, os suos e os lorenos,  
Para os belgas, aqui h mais...  
- Calem a boca! Seus amigos esto mortos... no descansaro em paz... Vi suas almas errantes esta noite - grita 
um homem que enlouqueceu subitamente: Os enfermeiros tentam acalm-lo.  
Soldados rudes tremem ao ouvi-lo... As almas errantes, o grande medo dos vietnamitas... e se eles tiverem 
razo de ter medo?... medo de que todos esses mortos de Din Bin Phu fossem da Frana ou do Tonquin, do 
Marrocos ou da Cochinchina, da Arglia ou do Annan, alemes, senegaleses, thas, camaroneses, mos, 
homens das cidades, dos campos ou dos arrozais, oficiais ou simples soldados, covardes ou corajosos, no 
importa, pois esto aqui, enterrados na lama, adubando uma terra que por pouco no foi a sua, mas pela qual 
derramaram seus sangues, a maior parte deles sem saber por que...  
Em centenas de macas alinhadas, feridos conversam, fumam ou gemem.  
- Tudo bem, meu velho? - diz Bigeard aos reconhecer um de seus homens.  
Eles tentam sorrir para ele... lutou como eles, apesar da perna estraalhada... Os vietcongues separam os 
combatentes: os vietnamitas por aqui, os outros para l... Irmos de armas, sabem que no voltaro a se ver... 
Ah, se os americanos tivessem nos dado uma ajuda... Por que no a bomba atmica?... Falamos  
disso... Pobres idiotas!... Um avio sobrevoa o desastre.., no solo isso j no incomoda ningum... 
De onde vem? Hani ou Saigon?... Que importa?...  
O general Giap pode ficar orgulhoso da vitria.., depois de cinqenta e cinco dias de combates 
incessantes, o inimigo do povo vietnamita foi vencido... Na conferncia de Genebra, abre-se a 
discusso sobre o problema da Indochina, na presena dos delegados vietcongues... Atravs do 
mundo os teletipos crepitam:  
"DIEN BIEN PHU CAIU..."  
Filas de prisioneiros comeam a andar... dos dez mil s voltar um quarto.

Eplogo

Nos quinze dias que precederam o nascimento, La, como todos os habitantes da colnia, seguira o
desenrolar da batalha de Din Bin Phu, rezando para que Jean Lefvre e Franck Lagarde no 
estivessem entre os combatentes. E Franois? Onde estava? Era bem capaz de ter saltado de pra-
quedas, como centenas de outros voluntrios, para ir em socorro dos que estavam cercados. As 
causas desesperadas eram muito de seu estilo! Ento um novo medo surgiu.  
O anncio da rendio, no momento do nascimento da filha, deixou-a sem foras e inquietou o 
mdico. La lhe fora confiada, ele prometera ajud-la e avisar o consulado da Frana; mas no faria 
nada enquanto no estivesse restabelecida. Puseram-lhe a recm-nascida nos braos, e sua face 
voltou a ficar corada.  
- Temos outras notcias de Din Bin Phu? - perguntou ela.  
Kien, que no sara da cabeceira, tomou-lhe a mo.  
- rendeu-se  uma da madrugada.  
O rosto se enterrou nos cabelos do beb. La deixou as lgrimas correrem.  
- No dia 8 de maio? No dia do fim da Alemanha nazista?... No  justo! Como se chamava essa 
colina?  
- Isabelle.  
- Isabelle... Era o primeiro nome de mame;  o da filha de minha irm... Gostaria de d-lo  minha... Mame 
tambm se chamava Claire...  
Com toda a alegria de ser pai, Kien exclamou:  
- Claire Rivire!  muito bonito. Para ns  o nome de um rio...  
No podendo La alimentar a filha, todos os dias lhe traziam leite fresco da leiteria dos trapistas do mosteiro da 
Ilha de Lantau. Ela aprendera com a ama contratada por Kien a esterilizar as mamadeiras. O leite devia ser de 
excelente qualidade, porque o beb ia muito bem. Quanto a La, depois da confuso em que a tinha 
mergulhado a queda de Din Bin Phu, reencontrara o velho instinto de sobrevivncia: afastar do pensamento 
aquilo contra que nada pudesse fazer. Com aplicao e mtodo, comeou a se restabelecer e a organizar a 
partida. Trs semanas depois do parto, retomara os passeios pela ilha, sozinha ou em companhia de Chin-Hua; 
freqentemente, quando ia aos jardins do pico Vitria, levava a filha.  
O mdico ingls que fizera o parto cumprira a promessa e pleiteara sua causa junto ao consulado da Frana. 
Mas o cnsul, sobrecarregado com o "assunto Din Bin Phu", ouvira-o distraidamente.  
- Vou ver o que posso fazer - dissera. - Mas, na falta de documentos que provem a identidade dessa pessoa, 
ser difcil.  
- Darei um jeito sozinha - dissera La quando soube do resultado do encontro.  
Depois de muitas discusses, ela conseguira que Chin-Hua fizesse um contato com um falsificador de 
documentos.  
- Para uma branca ser caro - dissera ele. - Mais ainda se estiver acompanhada de uma criana.  
A quase totalidade das jias oferecidas por Kien e o dinheiro que ela economizara serviram para pagar o 
passaporte, a autorizao para deixar a colnia e o visto para Saigon haviam sido tirados em nome da senhora 
Kennedy e sua filha Joyce. 
Tinham custado uma fortuna, mas o trabalho estava impecvel.  
De manh bem cedo, para aproveitar a temperatura fresca, La ia a Kowloon fazer compras na parte mais 
europia da cidade. Pouco a pouco se habituou a levar a pequena Clara para comprar brinquedos e roupas. Ao 
voltar dessas sadas, ela parecia to alegre, se mostrava to terna, que Kien relaxou a vigilncia. Depois do 
nascimento, ela se recusou a ter relaes com ele, a pretexto de "problemas femininos" que ela fingia, corando, 
no poder mencionar. Por sorte, ele no se mostrava muito apressado; tinha uma amante, uma chinesa 
encantadora, o que lhe permitia esperar com pacincia. Alm disso, no era a me de sua filha? Por esse motivo 
merecia considerao. Estava louco pela filha e ficava longo tempo inclinado sobre o bero.  
Sob a presidncia de Anthony Eden, ministro do Exterior da Gr-Bretanha, a conferncia de Genebra teve sua 
ltima sesso em 28 de julho de 1954 e decidiu pelo cessar-fogo na Indochina. Pirre Mendes France ganhou a 
aposta; sob a presso dos chineses e dos soviticos, Pham Van Dong teve de se submeter, com a alma 
mortificada.  
La nunca recebeu resposta s cartas que escrevera a Franoise e a Lien. Teriam as cartas chegado? As 
respostas teriam sido interceptadas?  
O calor era insuportvel, havia a ameaa de um ciclone. Enfim, um dia, Chin-Hua lhe disse:  
- Vai ser amanh.  
Um medo animal a paralisou por alguns instantes: saberia engan-lo?  
Excepcionalmente, nessa noite, Kien jantou em casa. La pediu  cozinheira indiana que preparasse uma 
refeio de seu pas. A primeira coisa que ele fez ao voltar foi ir ver Claire. "Olhe-a bem", pensou La. " a 
ltima vez que a v."  
Depois do banho, tranqilo, usando um longo robe chins, 
confortavelmente instalado, Kien comia com evidente prazer as iguanas finamente temperadas.  
- Foi uma boa idia ter mandado fazer um thali,* eu no me canso dele. Voc no come nada?  
- No estou com muito apetite... Estou com dor de cabea desde a manh.  
- O que fez hoje?  
- Pouca coisa; fez tanto calor que no tive coragem de sair.  
- Chin-Hua esteve aqui?  
- Sim, ela me trouxe aquele livro sobre buqus japoneses.  muito bonito, no acha? Vai me 
ensinar...  
- O seu vestido para a festa na casa do governador est pronto?  
- Tenho ainda uma prova, amanh. Ficar maravilhoso, voc vai ficar orgulhoso de mim.  
- Tenho certeza de que voc ser a mais bonita.  
Ela levantou o copo em sinal de agradecimento.  
Ele a observava, atormentado por sentimentos inexplicveis. Desejava-a, mas preferia esperar que 
estivesse completamente restabelecida. Passaram o restante da noite conversando sobre o beb, 
como todos os pais do mundo. Depois Kien foi para o jardim, fumar um charuto. Quando voltou, La 
tinha ido para o quarto. Ele entreabriu a porta e murmurou:  
- Boa noite.  
- Boa noite, at amanh.  
Depois de se ter assegurado de que no estava sendo seguida, La empurrou o carrinho da criana 
para um alpendre da Nathan Road, abandonou-o e tomou um txi para o aeroporto, onde Chin-Hua 
a esperava com a passagem, o passaporte e uma mala com algumas roupas para ela e o beb.  
- Nunca esquecerei o que fez por mim - disse-lhe La, abraando-a.  
Chin-Hua a acompanhou at a alfndega e ficou at a partida do avio.  
S depois de uma hora de vo  que La parou de tremer. 
Chovia quando o avio aterrissou em Saigon; o ar estava pesado. Um funcionrio vietnamita 
examinou atentamente o passaporte da jovem mulher; ela pensou que fosse desmaiar. Com prtica, 
ele deu, contudo, duas carimbadas.  
- A senhora pode passar.  
O saguo estava repleto de refugiados do Tonquin; muitos traziam uma cruz pendurada no pescoo.  
Indecisa, La olhava em volta: poucos franceses, a no ser alguns militares desocupados; os 
combates haviam cessado em 11 de agosto na Cochinchina.  
Aonde ir?... Ela temia o olhar de Lien para a criana e, entretanto, ela era a nica a poder lhe dar 
notcias de Franois.  
Franois... De repente, ela sentiu frio. No, no devia pensar nisso. Certamente estava vivo! 
Precisava estar vivo.  
- Senhora Tavernier!...Todos pensavam que estivesse morta! Estou muito contente de rev-la... A 
senhora parece estar perdida, ningum a espera?...  seu esse lindo beb?  
O gerente do Continental a observava de olhos arregalados, brilhando no rosto corado. Parecia 
cansado; o terno branco, amassado, parecia muito apertado para o corpo obeso. Talvez os ltimos 
acontecimentos tivessem feito engordar...  
- Bom dia, senhor Franchini. Como v, estou bem... Posso lhe pedir um favor?  
- O que quiser, senhora.  
- Sabe onde mora o senhor Mller?  
- Certamente.  
- Poderia me levar at l?  
Escondendo a surpresa, ele respondeu:  
- Com prazer, venha... Thanh! mau ln... pegue a mala da senhora.  
Bem instalada na confortvel limusine, La fechou os olhos, estreitando a si a pequena Claire. 
Franchini pigarreou para limpar a voz e depois disse com o forte sotaque corso:  
- Ser uma sorte o senhor Mller estar l: ele queria saltar 
de pra-quedas em Din Bin Phu... como seu marido! Felizmente, a famlia o impediu.  
- O que est dizendo? Meu marido estava em Din Bin Phu?  
- Coitada, a senhora no sabia? Foi esse bbado do Samuel Irving que o levou para o funil...  
- O que aconteceu a ele? Ele est ferido?  
- No, foi feito prisioneiro.  
- Deus seja louvado!  
- Espere primeiro reencontr-lo para depois agradecer a Deus; os campos de prisioneiros 
vietcongues no so brincadeira! Os que voltaram de l dizem que so piores que os alemes.  
- Isso eu no posso acreditar...  
- Cara senhora, no sou eu quem lhe diz isso, so eles.  
- Senhor Franchini, ajude-me a encontr-lo!  
- A senhorita Rivire talvez saiba onde ele est...  
- Irei v-la depois de encontrar o senhor Mller; ainda estamos longe?  
- Fica em Cholon... Chegaremos logo.  
O carro parou no bulevar Galieni, diante de uma construo de aspecto desagradvel. O motorista 
foi bater  porta. Um empregado chins, curvado pela idade, abriu.  
- Uma senhora quer falar com o senhor Philippe.  
- La! Desculpe... Senhora Tavernier!  
La passou uma parte da noite contando o que lhe acontecera. Amide teve de interromper a 
narrativa, sufocada por soluos. Num cmodo vizinho, uma jovem empregada cuidava da criana. 
Philippe a escutava, perturbado e horrorizado.  
- A senhora no pode ficar em Saigon; Kien  muito poderoso aqui. Conheo Samuel Irving, ele 
ficar feliz de poder ajud la Vou ligar para ele. A senhora precisa partir para Hani nas prximas 
horas. Enquanto espera, descanse. Est em segurana nesta casa.  
O velho Morane de Irving decolou de Tan Son Nhut no comeo da tarde e aterrissou em Hani trs 
horas depois. Fazia menos 
calor que em Saigon. Amparada por Philippe Mller, La desceu do avio. Os trs foram logo 
cercados por soldados vietcongues. Sobre o aeroporto de Gia Lam flutuava a bandeira vietnamita.  
Foram conduzidos a uma pequena sala entulhada de mercadorias de toda a espcie, e interrogados 
por uma autoridade vietcongue. Esta mostrou evidente m vontade ao no querer compreender as 
explicaes de Samuel Irving, que, contudo, falava muito bem o vietnamita. Depois de duas horas de 
lengalenga, talvez devido tambm ao choro do beb, ele consentiu em mandar chamar o "colega" 
francs; a discusso recomeou. A criana passou a chorar mais forte, e La, que tinha estado 
calma, sabendo que no se conseguiria nada nesse pas agindo com raiva, acabou por explodir:  
- Estou cheia do seu discurso! Minha filha est com fome! Quero ir para Hani, o senhor 
compreende? Leve-me para Hani!  
- Meu irmo, que tem um txi, vai lev-la para onde a senhora quiser. Mas compreenda que 
devemos tomar algumas precaues com os estrangeiros - disse o soldado vietcongue.  
- Por que no me responde logo em francs, j que fala to bem essa lngua? - perguntou o 
americano.  
- No gosto de falar francs,  a lngua dos opressores do povo vietnamita. Se a senhora quiser me 
acompanhar... Dong - chamou ele. - Dua nung ngui na di H Ni. *  
A noite cara, muito escura. Antes da ponte Paul-Doumer, foram parados e fiscalizados quatro ou 
cinco vezes. La fechou os olhos, recordando os encontros com Franois nessa ponte. Parecia-lhe 
que uma eternidade decorrera desde ento. Cansada de chorar, Claire adormecera. 
Por medida de segurana, Philippe Mller no reservara quarto no hotel Metropole. Conseguira com 
a famlia autorizao para ocupar uma casa dela perto da Citadeile: mas apenas o segundo andar, j 
que o trreo estava alugado. Ao chegarem, 
La teve a alegria de encontrar comida e roupa limpa para o beb.  
- Obrigada - disse ela simplesmente a Philippe.  
- Amanh, vir uma assam recomendada por uma de minhas tias; asseguraram-me que  pessoa de confiana. 
Isso lhe dar tempo de tomar as medidas necessrias. -  
- Nesse momento, Kien Rivire est em seu encalo.  preciso que a senhora esteja em segurana prximo s 
autoridades francesas, antes que ele a encontre. Existe ainda alguma autoridade francesa aqui, depois dos 
acordos de Genebra?  
- Sim, o general Ely, comandante e comissrio geral. De fato,  Salan...  
- O general Salan est em Hani?  
- Neste momento no sei; saberemos amanh.  
- Eu preciso estar com ele de qualquer maneira. Enquanto esperamos,  preciso encontrar Giau.  
- Giau?  
- O chefe dos mendigos... Ele poder nos ajudar.  pessoa de confiana.  
- Onde podemos encontr-lo?  
- No quarteiro chins, ao lado da rua des Voiles ou da rua de la Soie. Voc o reconhecer facilmente;  
monstruoso.  
-  o caso de muitos mendigos daqui.  
- Eu sei... Mas ele  pior que os outros: anda de quatro, parece um caranguejo com cabea de tartaruga...  
verdadeiramente muito desagradvel.  
- Admitindo-se que o encontre, no tenho nenhuma certeza de que querer me acompanhar...  
- D-lhe isto, ele compreeender.  
Philippe pegou o buda de jade dado tempos atrs por Giau e o enfiou no bolso.  
- Irei amanh.  
- No, v agora mesmo, por favor. Voc mesmo disse que Kien est  minha procura. No h um minuto a 
perder.  
- Vou com voc - disse Irving.  
- Prefiro que fique com a senhora Tavernier, nunca se sabe. 
Meus primos me prometeram dois guarda-costas, mas s chegaro ao amanhecer.  
"Parece que estamos num perigoso romance de aventuras!", pensou La.  
- V dormir. Se eu encontrar Giau, virei acord-la.  
Contra toda a expectativa, La dormiu muito bem.  
Foi s pela manh que Philippe Mller encontrou Giau; ele estava ainda mais medonho do que se poderia 
esperar. O monstro comeou a tremer como uma folha quando reconheceu o buda, e lgrimas correram pelas 
rugas da hedionda figura, erguida como a de uma serpente.  
- Foi ela quem o mandou?  
- Foi - respondeu Philippe virando a cabea.  
- Onde ela est?  
- Siga-me.  
O mendigo se levantou e fez um chamado. Logo o solo em volta tremeu; criaturas da cor da poeira 
responderam a seu sinal. Se bem que habituado desde a infncia aos miserveis de Cholon, Mller teve um 
sentimento de nojo e de temor mesclados. Afastou-se, e s Giau se arrastou atrs dele; pelo menos assim 
pensou...  
- Ela est dormindo - disse Irving, levantando-se da poltrona em que estava arriado, sem parecer ele prprio 
notar o mendigo.  
- No a despertemos... V voc descansar logo.  
Ele ofereceu um cigarro e ch a Giau e lhe contou o que sabia. Giau o escutou sem interromper; depois,  
meno do nome de Kien:  
- Eu o matarei - disse sem nenhum comentrio.  
La se juntou a eles pouco depois, trazendo a pequena Claire. Ela se agachou diante de Giau; eles se olharam 
longamente.  
- Estou feliz de rev-lo - murmurou ele por fim.  
- J contei a ele o que voc me relatou - disse Philippe.  
- Fez bem. E voc, Giau, o que tem para me contar? 
Ele fez o relato das buscas atravs da floresta e das montanhas, da maneira pela qual ele tinha sido deixado 
quase morto por um dos homens de Kien. Algumas semanas depois, restabelecido, ele encontrara o bando em 
Thap Micu, onde Kien tinha assassinado duas sentinelas, provocando como represlia a execuo de 
prisioneiros vietcongues. Cometera um grave erro ao matar as sentinelas e o motorista que devia lev-lo para 
Hani:  
eram brancos. Uma ordem fora dada  polcia e ao exrcito para o encontrarem. Sua fotografia e a de seus 
cmplices fora afixada em toda a parte e, apesar do fim da guerra, seria uma grande imprudncia para ele voltar 
l.  
- Eu o conheo, no ser isso que o deter - objetou La. Giau contou tambm como Franois a havia 
procurado, quando de seu retorno a Hani, e como ficara infeliz quando lhe disseram que ela morrera.  
La estava oprimida por tanto dio e tanto amor ao mesmo tempo. Estava como presa na teia de uma 
monstruosa aranha e sentia-se enfraquecer.  
O beb, que estava em seus braos, gemeu dormindo. Ela se sentiu mais fortalecida, e pensou no futuro: " 
preciso ter coragem, sairei deste pesadelo!"  
- Voc sabe, Giau, se Franois voltou?  
- Ele no fez parte dos primeiros comboios.  
- Como sabe disso? - perguntou Philippe Mller.  
- Tenho espies em Viet Tri e no estado-maior de Cogny. Eles me informaro assim que virem o nome de seu 
marido numa das listas fornecidas pelo vietcongues.  
- Por que faz isso? - perguntou Irving.  
- Porque eles me trataram como ser humano.  
Houve um silncio.  
- Quando vai conseguir saber alguma coisa? - perguntou La, sorrindo-lhe.  
- No fim da manh. Agora tenho de ir. Voltarei assim que tiver notcias. 
Philippe foi at o QG do general Cogny.  
As duas notcias foram dadas ao mesmo tempo: Franois seria libertado no dia seguinte, e Kien estava em 
Hani.  
Por ordem de Cogny, um oficial veio cumprimentar La e pedir-lhe que estivesse pronta para responder a 
algumas perguntas. Teve o pedido gentil mas firmemente repelido pela jovem mulher.  
Giau voltou munido de um salvo-conduto. Irving e Mller haviam comprado um jipe do exrcito.  
- Acho que ser melhor partir esta noite - disse Philippe.  
- Sim - confirmou Giau - Kien est no seu rastro. Voc devia deixar a criana.  
- Nunca!  
- Voc  quem sabe. Parta, vou atirar nele aqui.  
- Como voc vai fazer?  
- Tenho um plano. Adeus - respondeu ele, devolvendo-lhe o buda de jade.  
Nesse instante, La sentiu que nunca mais o veria.  
O jipe partiu, dirigido por Samuel Irving. Os trs estavam vestidos com uniformes militares; a criana estava 
escondida numa bolsa com as mamadeiras. Se tudo corresse bem, estariam em trs ou quatro horas em Viet Tri.  
Sob ameaa, os moradores do andar trreo haviam sido presos e amordaados no prprio andar. Pela porta de 
trs, os seguidores do monstro vinham regularmente dar-lhe notcias do que acontecia e dos passos de Kien e 
seus guarda-costas. Para que estivessem certos da presena de La e da criana na residncia, ele mandara vir 
mulheres conhecidas como amas, assim como o entregador de leite de manh e de noite.  
Quando a noite caiu, Kien apareceu em companhia de Fred e Vinh. A porta se abriu facilmente.  
- La! - chamou Kien -, eu sei que voc est a... Responda!... Onde est minha filha?  
Tudo continuou em silncio.  
- No estou gostando disso, chefe - murmurou Fred, sacando a pistola. 
- Tem certeza de que ela est a? - perguntou Kien a Vinh.  
- Eu vi quando ela voltou ontem de noite com a criana.  
- E da em diante?  
- No saiu mais. Militares franceses vieram e partiram de jipe. Sua mulher no estava com eles.  
- Teria podido fugir pela parte de trs...  
- No, um rapaz nosso est guardando essa parte.  um beco onde se refugiam os mendigos.  
- Mendigos? - disseram juntos Kien e Fred entreolhando-se.  
Pareceu-lhes que uma corrente de ar frio atravessou a casa. Um claro tremulou num dos cmodos do fundo; 
um aroma  
de incenso chegou at eles. Armas em punho, eles avanaram. Diante do altar dos antepassados, uma 
lamparina estava acesa e queimavam pequenos bastes de incenso.  
O grande buda de porcelana parecia sorrir, O cmodo parecia vazio, mas grande parte dele permanecia no 
escuro.  
- La, voc est a? - perguntou Kien... - Encontre a luz!  
- gritou ele para Vinh.  
Ouviu-se o tatear de sua mo pelas paredes.  
- Ande rpido!  
De repente, o cmodo foi iluminado. Algumas caixas cobertas por uma camada de laca junto s paredes, um 
tapete enrolado.  
- No h ningum - disse Fred, acalmando-se. - Vamos ver nas outras peas da casa.  
Ele saiu, seguido de Vinh, e ambos se estatelaram de repente no cho: no tinham visto a corda estendida 
junto ao piso. No tiveram tempo de usar as armas: uma nuvem de seres disformes e malcheirosos os envolveu 
e os atingiu com facadas. Kien atirou no bando, acertando alguns, sem que parasse a carnificina. Um riso foi 
ouvido no cmodo iluminado. Kien voltou-se. Empoleirado numa caixa, Giau o observava.  
- Eu estava esperando voc.  
- Onde esto minha mulher e meu filho, verme?  
- Neste momento, La j encontrou o marido. Voc no a 
encontrar nunca mais.
- Eu os encontrarei!  
- Nunca. Lembre-se: eu disse que mataria voc.  
- Voc, aborto? Nem arma tem... Sou eu que vou mat-lo. Mas antes vai me dizer onde esto.  
Como um sapo, Giau saltou de uma caixa para outra.  
- Para voc est tudo acabado. Vai morrer.  
- No,  voc que vai morrer! - gritou Kien, apertando o gatilho. "Clic..."  
- Voc j gastou todas as balas, eu as contei... Tip tay voi ti! Anh em!*  
- Comigo, todos vocs!  
Os mendigos, cobertos de sangue, abandonaram as presas e se jogaram sobre Kien. O jovem lutou muito 
tempo, antes de sucumbir.  
- Vou matar voc como fazemos entre ns, lentamente - disse Giau, avanando para o prisioneiro, armado com 
uma longa lmina.  
Kien, ferido na cabea, com um olho meio fechado, olhava-o fixamente.  
- No tenho fora bastante nem tempo para cortar voc em mil pedaos, como fazem nossos colegas chineses, 
mas voc vai ter tempo de lamentar o mal que fez a essa mulher. Em seguida, comerei seu corao.  
Kien comeou a rir. Foi to surpreendente, que os mendigos relaxaram um momento. Ele se livrou e, agarrando 
Giau, jogou-o contra a parede. O mendigo bateu violentamente na quina do altar, que lhe dilacerou o rosto. Ele 
ficou alguns momentos atordoado no cho, enquanto os companheiros subjugavam o adversrio.  
- Bung ti ta - gritou Kien -, ti se cho cc anh tt ca tin cc anh mun. **_ Larguem-me! Eu lhes darei todo o dinheiro que quiserem. 
Giau acabava de lhe abrir a barriga. Os intestinos apareceram, arroxeados, brilhantes. Os mendigos o largaram. 
Os olhos enlouquecidos do mestio iam de Giau para a massa quente que se derramava entre as pernas. Ficou 
de joelhos, tentando segur-la.  
- Eu queria que ela visse voc assim - disse o monstro, com o rosto na mesma altura do da vtima.  
Onde Kien encontrou energia para tirar da manga um minsculo revlver que tinha sempre consigo, 
puxar a trava de segurana e atirar em cheio na figura imunda?... Uma bala de pequeno calibre 
espatifou o nariz, outra entrou no olho. Giau caiu sobre Kien, que gritou.  
Fora ressoou a sirene de um carro da polcia.  
- Chng ta chun di, bon linh!... *  
Quando a polcia militar entrou na casa, s encontrou os dois corpos supliciados, abraados na 
morte.  
Os setenta quilmetros que separavam Hani de Vit Tri pareceram interminveis para todos. Em 
alguns lugares, a estrada, coberta de veculos militares, ambulncias, bicicletas e pedestres, era 
quase intransitvel. Atravessaram o rio C L por uma ponte militar. Vinh Yen, onde houvera tanta 
luta, estava completamente em runas. Entretanto, desses escombros a vida asitica j renascia, 
com seus vendedores de sopa e de legumes... Enfim chegaram a Vit 'ii, na confluncia dos rios 
Claire e Rouge. Ali, La trocou de roupa, pondo um vestido simples, de algodo branco.  
Eles tiveram que descer do carro e foram levados por uma mar humana, que agitava bandeiras 
vermelhas com a estrela dourada. Em volta deles s havia danas, cantos e farandolas... B di e 
jovens garotas caminhavam, dando-se as mos, com o rosto sorridente a olhar para um mundo novo. 
Bandeirolas flutuavam ao vento; neles estava escrito, em francs e em vietnamita: "Viva a paz!" 
Ouvia-se: "Viva o presidente H Chin Minh!", "Viva a Frana!" Como um autmato, La avanava, 
protegendo a cabea do beb. Em torno delas, Samuel Irving e Philippe Mller empurravam com 
cuidado essa multido afvel, em meio  qual se sentia s vezes, porm, arrepios de dio. Chegando 
ao cais, eles se misturaram aos militares franceses e vietnamitas que vinham receber os prisioneiros 
libertados. Uma orquestra feminina comeou a tocar quando  
a barcaa de desembarque atracou. A passarela de desembarque foi colocada. De cada lado, bdi desarmados se alinharam, enquanto moas de tnicas claras iam ao encontro 
dos passageiros. 
Por um breve instante, quando os primeiros desceram, houve uma mudana de atitude no meio da 
multido, uma tenso repentina, como um desejo de silncio diante desses homens macilentos, 
excessivamente cansados, vestidos de azul, que avanavam com passo hesitante, de cabea baixa, 
braos balanando. A euforia simulada ficou maior quando as moas lhes pregaram no peito do 
uniforme um pequeno broche representando a Pomba de Picasso. Os prisioneiros libertados 
caminhavam sem animao, sem manifestar o menor prazer por estar livres.  
- Parecem fantasmas - murmurou Samuel Irving.  
Outras moas lhes ofereciam bananas, arroz enrolado em folhas, fumo de rolo, sob aplausos dos b 
di desarmados. Nos barrancos, funcionrios dos dois pases trocavam assinaturas e documentos. 
Ordens foram dadas, os prisioneiros fizeram filas, com os braos cheios de presentes do povo 
vietnamita, e passaram sob aclamao entre os arcos do triunfo de flores. A brisa que vinha do rio 
fazia drapejar milhares de bandeiras vermelhas... La se agarrou  filha para no cair, enquanto 
procurava Franois com os olhos. Como reconhec-lo no meio desse bando triste? Ela vivia 
novamente a humilhao da derrota, e sentia raiva. Por que eles no ficavam eretos?  
Contudo,  medida que eles se afastavam do barco e se aproximavam das autoridades francesas 
instaladas sobre um pequeno estrado, alguns levantavam os olhos.  
Foi o olhar de um desses que encontrou o de La. Imvel, ela observava vir em sua direo esse 
homem, seu homem, to procurado, to trado. Como mudara!... E, apesar de tudo, ela o teria 
reconhecido entre milhares. Ele vinha, largando, apesar dos gritos dos b di, os presentes das 
moas. Parou diante dela e sorriu. Nesse sorriso havia todas as promessas, todas as felicidades para 
o futuro. Ela sorriu, por sua vez.  
- Como ela se chama? - perguntou ele, pondo a mo na cabea da criana. 

fim do livro

Agradecimentos  
A autora agradece por sua colaborao, quase sempre involuntria, s pessoas e publicaes seguintes:  
Joseph ALGARY; Jean ARRIGHI; Vincent AURIOL; Edouard AXEL-RAD;  
Henri AZEAU; Henry BABIAUB; Ren BAIL; S.M. BAO DAI; Raymond  
BARKAN; Jean-Luc BARRE; Claide BAYLE; Jacques BEAL; general BEAUFRE;  
Patrice de BEER; Erwan BERGOT;Jean BERTOLINO;Jean-Jacques BEUCLER;  
general Marcel BIGEARD; Mag BODARD; comandante Gilbert BODINIER;  
Robert BONNAFOUS; Paul BONNECARRERE; Gabriel BONNET Georges  
BORNET; Georges BOUDAREL; Paul BOURDET Yves BREHERET; Franois  
BROCHE; Marc BRUYNINX BUI Lam; Wilfred BURCHETP Mme. CAMARA.  
Centro dos Arquivos de Ultramar; Thomas CAPITAINE; Georges CHAFFARD;  
Guy de CHAUMONT; Georges CONDOMIDAS; Pierre CROIDY; Jacques  
DALLOZ; Charles DANEY; DANG Van Vit; Jean-Paul DANNAUD; Adrien  
DANSARRE; Pierre DARCOURT  
Roger DELPEY; Jean-Claude DEMARIAUX Hlie DENOIX DE SAINTMARC; Eric & Gabrielle DEROO; Jacques 
DESPUECH; Philippe DEVILLERS;  
Jacques DINFREVILLE; DOAN Trong Truyn; Jacques DOURNES; Jacques  
DOYON; Michel DROIT; DU'OND Dinh Khu; Claude DULONG; Georgette  
ELGEY; Isabelle ESHRAGHI; Bernard FALL; J.-N. FAURE-BIGUWfl PierreRichard FERAY; Pierre FERRARI; Georges 
FLEURY; general Jean Julien  
FONDE; Franois FONVIEILLE-ALQUIER; Charles FOURNIAU; Christiane  
FOURNIER; Phillippe FRANCHINI; Brigitte FRIANG; Robert GARRIC; Alain  
GAUCH'4 Andr GAUDEL; Max GAUDRON; Georges GAUTIER; Alfred  
GEORGES; Fernand GIGON; Claude GLAYMAN; Henri GOURDON; general 
396 Rgine Deforges  
Yves GRAS; comandante-mdico Paul GRAUWIN; Maurice GRONIER; Louis  
GROS; Lydie HAMMEL;Jacques HEBERT Philippe HEDU Daniel HEMERY,  
Jean-Michel HERTRICH; HO Dac Diem; 110 CHIN MINH; HOANG Thieu  
Son; Hans Johannes HOEFER e sua equipe franco-britnica; Roger  
HOLEINDRE; Georges IOVLEFF; Paul ISOART; Madeleine & Antoine JAY;  
Pau1JEAN-DEL; FlixJEGO; Georges Armstrong KELLY; Jean LACOUTURE;  
P.-J. LAFONT; Christian LAIGRET;Joseph LANIEL; Roger LARROQUE; Jean  
LARTEGUY; marechal Jean de LATTRE DE TASSIGNY; Henri-Jean  
LAUSTAU; LE Duan; LE Khan Chi; LE Thi Nham Tuyet; LE Van Luong; LE  
Van Vien; Jacques LE BOURGEOIS;  
Georges LE FEVRE; general Alain LE RAV Roger LE SAGE; Maurice  
LEBLANC; marechal Philippe LECLERC; Colette LEDANNOIS;J. LEGRAND;  
Henri LERNER; Lon LEROY; Arnoud de LIEDEKERKE;  
George W. LONG; Peter MAC DONALD; Tom MANGOLD; coronel  
MARCHAND; Marcel MARSAL; Ren MARY; Franois MAURIAC;Jos MAYAN;  
Tibor MENDE; Pierre MENDES-FRANCE; Andr-Franois MERCIER; Pierre  
MESSMER; Marc MEULEAU; Charles MEYER; Pierre MIQUEL; Franois  
MITTERRAND; Bernard M0INET Vincent MONTEIL; Jacques MORDAL;  
Ren MOREAU; Paul MUS; general Henri NAVARRE; NGUYEN Co Thach;  
NGUYEN Liong Bang; NGUYEN Quoc Viet; NGUYEN ThanhVinh; Christiane  
PASQUEL-RAGEAU; John PENYCATE; Maurice PERCHERON; Mme. PHM.4  
Ngoc Thach; PHAM Ngoc Thach; PHAM Van Dng; PHAM Thanh Vinh; Roger  
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P0UGET Elizabeth RABUT, Centro de Arquivos de Ultramar; Raoul RAVON;  
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VU CAN; Irwine M. WALL; La WIAZEMSKY; Pierre WIAZEMSKY Arquivos  
de Histria Contempornea; OAnoPoltico; Cruz Vermelha francesa; Paris Match;  
Guias Madrolies; Historia. 

